Pense em alguém admirável contemporaneamente. Aquelas pessoas que parecem perfeitas no feed…
Pois então: Essa pessoa esta sustentando uma máscara.
A gente raramente para pra pensar sobre "a que fim" e "a que custo" se mantém essa máscara. Manter uma imagem de perfeição constante no feed é um trabalho em tempo integral e, honestamente, exaustivo. Por trás de cada ângulo milimetricamente calculado e de cada legenda que transborda gratidão e sucesso, geralmente existe uma pessoa que não se sente segura o suficiente para ser vista de "cara lavada" — não só fisicamente, mas emocionalmente. É a tirania do parecer: a pessoa se torna refém da aprovação externa. O feed vira um museu de momentos que ela nem sempre desfrutou, porque estava ocupada demais tentando registrá‑los como "perfeitos".
A questão é que não é só no feed que as pessoas estão de máscaras. As pessoas mais comuns também adotaram uma vida de performance diante da vida comum, e essa busca incessante pelo impecável raramente é sobre excelência ou talento; ela funciona mais como uma armadura construída para esconder uma sensação profunda de insuficiência. Como se, ao polir cada detalhe da nossa imagem e das nossas entregas, estivéssemos tentando compensar um vazio interno, acreditando piamente que, se não houver falhas visíveis, ninguém poderá nos rejeitar ou confirmar aquele medo antigo de que não somos suficientes.
Essa dinâmica nasce, quase sempre, de uma falta de validação que marcou nosso passado.
Na realidade, aquele que, em sua história pessoal, teve um ambiente onde se sentiu seguro, acolhido e “suficiente” simplesmente por existir, não sente a menor necessidade de ser impecável. A pessoa que aprendeu, lá no começo da vida, que era amada mesmo quando errava, que podia cair e ter colo, essa pessoa não precisa provar nada para ninguém. Ela erra, aprende, segue. Simples assim.
Agora, quem nunca se sentiu bom o bastante vive com a sensação de que precisa compensar alguma coisa. É como se houvesse um buraco interno, e a única forma de tapá‑lo fosse acumular acertos, conquistas e a aprovação alheia. A lógica é cruel: se eu for perfeito, ninguém vai perceber o vazio. Se eu não falhar, talvez eu mereça existir. Se eu corresponder a todas as expectativas, talvez finalmente eu seja amado. Esse é o aprendizado de quando crescemos sentindo que o amor e a aceitação dependem do nosso desempenho!
Passamos a usar a busca pela perfeição como uma moeda de troca para garantir o acolhimento que nos faltou. O problema é que essa armadura, criada para nos proteger do julgamento alheio, acaba nos sufocando. Ela impede que as pessoas vejam quem realmente somos e, pior ainda, impede que descansemos na nossa própria pele. Isso nos faz viver em um estado de alerta constante, onde qualquer erro é visto como uma ameaça à própria identidade.
Essa lógica individual já foi observada no cenário social mais amplo. O filósofo sul‑coreano Byung‑Chul Han descreve, na contemporaneidade, a “Sociedade do Desempenho”, na qual deixamos de ser sujeitos disciplinados por uma coerção externa — típica da sociedade industrial — para nos tornarmos empreendedores de nós mesmos. A cobrança já não vem apenas de fora; ela foi internalizada. Não é mais o “você deve”, mas o “eu posso” que nos explora silenciosamente. O imperativo de produtividade, otimização e alta performance se disfarça de liberdade, mas produz exaustão, ansiedade e uma autoexigência sem fim. Nesse contexto, o perfeccionismo deixa de ser apenas uma questão psíquica individual e passa a ser também um sintoma cultural.
O ser humano constrói sua identidade a partir do olhar do outro. Desde os primeiros vínculos, é no rosto que nos acolhe, na resposta que nos espelha e na validação que recebemos que começamos a formar a noção de quem somos. O cérebro humano é profundamente relacional: precisamos ser vistos para nos sentirmos reais. Quando esse olhar inicial falha ou é condicionado ao desempenho, a criança aprende que precisa fazer algo extraordinário para continuar existindo no campo do amor. A busca pela perfeição, então, passa a ser uma tentativa desesperada de garantir pertencimento.O caminho para se libertar desse fardo passa obrigatoriamente pela desconstrução dessa crença condicionada. É preciso entender, de forma visceral, que o valor de um ser humano é inerente à sua existência e não ao seu currículo ou à estética da sua vida. Quando nos permitimos olhar para as nossas rachaduras com menos crítica e mais compaixão, começamos a perceber que a imperfeição não é um defeito de fabricação, mas sim o que nos torna reais e capazes de criar conexões verdadeiras com os outros.
Uma palavra para isso é IDIOSSINCRASIA! Idiossincrasias são as características únicas de cada um: os modos comportamentais, mentais ou estruturais peculiares e exclusivos de um indivíduo quando ele se manifesta com autenticidade ao reagir, sentir e ser.
Precisamos viver uma vida onde sejamos nós mesmos... e não as nossas mascaras! E para isso é preciso conhecer o que esta guardado além das mascaras que usamos! Encontrarmos nossa ferida original e talvez nos permitir acolhe-la e curá-la até!
Curar essa ferida, as vezes, exige coragem para trocar a segurança da máscara socialmente aceita pela liberdade da vulnerabilidade autêntica. Ao acolher o cansaço e a humanidade que existem por trás da performance, a necessidade de ser perfeito perde a sua função. O resultado desse processo não é a conquista de uma meta nova, mas a paz de finalmente poder ser uma pessoa inteira, autêntica e, acima de tudo, em paz com a própria história.
E aqui vale lembrar que "ser você mesmo" não é agir de forma impulsiva nem justificar qualquer comportamento em nome da “autenticidade”.
Não é abandonar responsabilidades ou abraçar imaturidades. Ser você mesmo, aqui, significa existir sem que sua identidade esteja permanentemente subordinada à necessidade de aprovação.
É quando o seu valor deixa de depender da performance.
Você continua buscando crescer, produzir e melhorar — mas isso já não é uma moeda de troca para garantir amor. A diferença é sutil e profunda: antes, você fazia para ser aceito; agora, você faz porque escolhe fazer. Antes, errar ameaçava sua dignidade; agora, errar é parte da experiência humana.
Ser você mesmo é permitir que sua idiossincrasia apareça — seus ritmos, suas preferências, suas opiniões, seus limites.
É conseguir dizer “não” sem sentir que está colocando o vínculo em risco. É discordar sem entrar em colapso. É não precisar parecer extraordinário para se sentir legítimo. A autenticidade nasce quando o “eu” não está mais sequestrado pelo medo da rejeição.
No fundo, ser você mesmo é poder relaxar na própria pele. É viver com menos vigilância interna. É não precisar se observar o tempo todo para ver se está “agradável”, “correto” ou “impecável”. É existir com falhas visíveis e, ainda assim, sentir-se inteiro. E talvez a pergunta mais honesta para saber se você está sendo você mesmo seja: Se ninguém estivesse avaliando, você ainda faria isso?
