Não é “pode usar”, ou “tem a capacidade”... é PRECISA!
Nosso cérebro, diferentemente do de muitos outros mamíferos, desenvolveu uma habilidade singular: antecipar a realidade.
Ele extrapola informações do presente para imaginar riscos e possibilidades, criando narrativas que não apenas acompanham a observação do mundo, mas chegam a ser percebidas como uma realidade própria.
Essa condição evolutiva, que garantiu a sobrevivência da espécie, também deu origem à neurose. Em termos evolutivos, a neurose pode ser entendida como uma ferramenta de autopreservação, ajustada aos ambientes hostis da humanidade primitiva.
Dois psicólogos evolucionistas, Martie Haselton e David Buss, estudaram profundamente essa questão. Eles são conhecidos pela formulação da TEORIA DA GESTÃO DE ERROS, que propõe que mecanismos psicológicos foram moldados pela evolução para gerar vieses previsíveis quando os custos de erros são assimétricos. Em outras palavras, quando errar de um lado pode ser muito mais perigoso do que errar de outro, nossa mente tende a se inclinar para o erro “mais seguro”.
E isso é extremamente importante!
Entenda, a capacidade humana de criar narrativas as quais acredite sem avaliar se são reais ou não… a capacidade de introjetar uma crença sobre a sua realidade não é apenas uma característica cultural ou um erro: é um traço evolutivo que moldou nossa sobrevivência e continua influenciando nossas emoções e decisões até hoje.
A crença, ou narrativa, não é um desvio da realidade, mas sim sua ferramenta mais poderosa, a capacidade humana de contar histórias para si mesma e imaginar cenários pode ser entendida como uma sofisticada simulação virtual.
Os primeiros indivíduos que puderam "rodar" esses possíveis futuros em suas mentes – perguntando "e se?" – ganharam uma vantagem decisiva. Eles testaram perigos, traçaram estratégias e exploraram consequências sem arriscar sua integridade física. Dessa forma, a narrativa transcende o mero entretenimento; ela é um mecanismo fundamental de antecipação e preparação, uma engrenagem cognitiva projetada para nos manter vivos em um mundo imprevisível.
Contudo, esse mesmo dom TEM UM CUSTO, que se manifesta no que chamamos de neurose.
Em termos evolucionários, a neurose pode ser compreendida como um descompasso entre nossa herança biológica e o ambiente moderno. Nossos cérebros foram forjados em um mundo de ameaças concretas e imediatas, onde o medo súbito de uma cobra escondida na vegetação era uma resposta adaptativa e vital.
Esse sistema de alarme antecipatório, que é hipereficiente, porém, não foi substituído. Hoje, ele dispara com a mesma intensidade diante de uma incerteza profissional, de uma interação social ambígua ou da ansiosa espera por uma resposta virtual. Operamos um software ancestral em um hardware contemporâneo.
Como o cérebro não consegue distinguir com precisão entre uma ameaça física e uma ameaça social ou psicológica, ele generaliza o alerta.
A neurose surge, então, como o estado constante de vigília por perigos que, frequentemente, não são reais no presente, mas residem nas narrativas que criamos para preencher as lacunas da realidade incerta.
A mesma máquina que nos permitiu sobreviver à savana, simulando os passos do predador, agora nos mantém em tensão, simulando as possíveis intenções do outro. Pagamos, assim, o preço da nossa própria genialidade adaptativa: a capacidade de imaginar o perigo tornou-se, ela mesma, uma fonte inesgotável de apreensão.
A capacidade de imaginar o invisível nos salvou da extinção, mas nos condenou à ansiedade.
Somos a única espécie que sofre por coisas que ainda não aconteceram — e que talvez nunca aconteçam — simplesmente porque nossos ancestrais que não sofriam assim acabaram virando lanche de predador.
O que nos leva ao livro “Why Zebras Don't Get Ulcers” (, de Robert Sapolsky, é referência fundamental para entender a fisiologia do estresse e seu impacto sobre a saúde. O autor utiliza uma comparação esclarecedora: a zebra e o ser humano.
Para a zebra, o estresse é agudo e passageiro. Quando perseguida por um leão, seu corpo ativa uma reação intensa de luta ou fuga. Essa crise dura minutos. Se sobrevive, ela retorna rapidamente à calma, sem permanecer em alerta. Seu corpo se recupera.
Os humanos possuem o mesmo mecanismo biológico. No entanto, ativamos essa resposta de forma crônica por causas psicológicas. Enquanto a zebra reage a uma ameaça real e presente, nós a ativamos pela antecipação mental. Ficamos ruminando sobre problemas passados ou futuros, mantendo o sistema de alerta constantemente ligado.
É essa duração prolongada que causa doenças. Durante o estresse, o corpo suprime funções não essenciais, como digestão e imunidade, para priorizar a fuga imediata. Na zebra, essa suspensão é breve. No ser humano, como o estado de alarme é quase permanente, esses sistemas ficam cronicamente debilitados.
O resultado são as chamadas doenças psicossomáticas: úlceras, hipertensão e transtornos imunológicos. O preço de nossa capacidade cognitiva — de simular cenários, lembrar do passado e antecipar o futuro — é justamente essa vulnerabilidade. Nossa inteligência nos permite criar narrativas complexas, mas também nos condena a sofrer por perigos que, muitas vezes, existem apenas em nossa mente.