Imagine uma criança crescendo em um ambiente onde as coisas são confusas, onde falta carinho ou onde a crítica é constante. Ela não nasce com um "manual de instruções" sobre como enfrentar a vida. Então, o que o cérebro dela faz? Ele cria ferramentas de sobrevivência!
Digamos que fosse um ambiente conflituoso, inadequado ou insuficiente…
- Se nesse ambiente, para ser notada essa criança precisou gritar ou chorar muito, ela desenvolve a ferramenta da “hiperexpressão”. - De outra forma, se para não ser machucada ela precisou se calar, não chamar a atenção, para não ser agredida, ela cria ferramentas de “escudo” e de “isolamento”.
Então, essas ferramentas não são defeitos!
Foram as soluções mais geniais que aquela criança encontrou para sobreviver àquele caos em que se viu presa! O problema é que, em geral, a criança cresce, mas continua carregando a mesma caixa de ferramentas pesada para todos os lugares!
Com o tempo, acontece algo perigoso: uma forma de CICATRIZAÇÃO acontece... a cristalização. A ferramenta deixa de ser algo que você usa e passa a ser algo que você "é".
Você para de dizer "estou desconfiado neste momento" e começa a dizer "eu sou uma pessoa desconfiada". A dor vira seu RG. O sofrimento deixa de ser um alerta de que algo vai mal e passa a ser o seu estado natural. É como se você se sentisse estranho se as coisas estivessem indo bem, porque a sua identidade foi construída em cima da luta e da ferida.
Sabe aquele momento em que uma pequena crítica no trabalho ou um vácuo no WhatsApp te faz sentir um desespero profundo? Isso é um gatilho.
A boa notícia é que você não precisa "apagar" o seu passado, mas pode mudar a sua relação com as ferramentas que criou.
Olhe para suas ferramentas como peças de museu: Entenda que aquela desconfiança ou aquela autocrítica foram úteis no "deserto" da sua infância. Mas hoje, talvez você esteja em uma "floresta" e precise de outras habilidades.
Pratique a desfusão: Assim como o artista é diferente de sua arte você não é igual a seus pensamentos... eles são partes suas... não o contrario! Você não é o seu pensamento. Em vez de "eu sou insuficiente", tente "estou tendo o pensamento de que não sou bom o suficiente". Isso cria um espaço para respirar.
Seja um adulto para a sua criança: Abrace essa parte sua que sofreu. Em vez de se culpar por ser "intenso" ou "fechado", agradeça a essa parte por ter te mantido vivo até aqui. Agora, como adulto, você pode assumir o controle.
A cura não é sobre esquecer que você foi ferido. É sobre perceber que você pode carregar sua história de vida sem deixar que ela seja a única coisa que te define.
O grande salto acontece quando você deixa de ser o prisioneiro que reage aos mesmos dramas e se torna o narrador da sua jornada. Você pode reconhecer a dor, mas também pode abrir espaço para a alegria, para novos experimentos e para vínculos saudáveis. O seu passado é um capítulo, mas a caneta para escrever o resto do livro sempre esteve ao alcance das suas mãos. Viver ciclos repetitivos, sofrer tristezas recorrentes na vida, não é uma sina, mas sim um sinal – um sinal de que partes suas ainda clamam por serem ouvidas e cuidadas da maneira correta. Romper esses padrões não exige que você despreze quem você foi, mas que honre a coragem daquela criança que sobreviveu, enquanto assume, com compaixão, o leme do adulto que você se tornou. A transformação acontece quando trocamos o medo de abandonar nossa identidade de sofrimento pela coragem de descobrir quem podemos ser além dela. Você não precisa apagar o disco riscado; pode aprender a tocar uma música nova com os mesmos instrumentos, ou até mesmo compor uma sinfonia inteiramente própria. A jornada da cura é a passagem de vítima das circunstâncias para autor da própria história – uma história onde a dor tem seu lugar, mas não mais o papel principal.
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