Tornar-me Pessoa!

Aos meus 15 anos eu acabei com três livros de Carl Rogers nas mãos... "Liberdade para Aprender" (Freedom to Learn), "Tornar-se Pessoa" (On Becoming a Person) e "Grupos de Encontro"  (Encounter Groups), sendo que dois destes eu ainda tenho daquela época! E não sei por que cargas d'água eu comecei a ler e a me interessar por existencialismo... pela filosofia, pela psicologia e por como a mente humana opera!

Foi daí que passei a conhecer Freud... depois Jung e os psicanalistas posteriores... (exatamente na contramão do que é mais comum.... se conhece a psicologia por seu popstar antes de descobrir seus desdobramentos e antíteses... eu acredito).

Também conheci na sequência, por tabela, os filósofos mais diretamente influentes a psicologia existencialista-humanista como: Søren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre além da fenomenologia de Edmund Husserl.


Amei a filosofia... a ponto de dedicar todo meu tempo livre a ler tudo que eu achava sobre sua origem, desdobramentos, contradições... Pensei em ser filósofo, mas  nunca a sério... pois gente como eu, os “duros”, precisam aprender a pagar contas antes de pensar em como… pensar.


Entendam que eu nunca fui uma criança que se deu bem na escola… em tempo algum até então. Minha vida juvenil foi constantemente marcada por desencontros e desconexões... Fui um péssimo aluno. Notas horríveis, passei por cinco ou seis escolas diferentes para concluir o "primeiro grau" da época... porque eu era desatento, desconectado e isolado das demais crianças... Estava tranquilamente convencido que eu era incompetente em tudo aquilo.


Terminada esta fase o segundo grau não foi diferente... mas aí eu tinha perdido o interesse totalmente com os estudos formais... Não era só "interesse", eu, naquela época e por muitos anos a frente, não acreditava que era capaz de estudar ou me "formar" em nada... me entendia tento limitações e sendo até simplesmente estupido. Precisava urgentemente aprender uma forma de ganhar a vida. Depois de tentar viver de algumas habilidades nas artes e na cozinha, eu me tornei técnico de enfermagem quase que por acidente. A mais desconsiderada, braçal e tarefeira das profissões de saúde. E isso me sustentou por décadas. Cheguei a tentar outras formações antes... mas a realidade é que eu não conseguia sustentar financeiramente nenhum projeto de vida e nem socialmente tinha capacidade alguma de sustentar redes que me dessem suporte.


Eu sempre me afastei das pessoas... mesmo das que insistiam em gostar de mim. Mantinha minhas desconexões. Por ser a única forma que eu sabia ser... eu.


Eu tinha desistido a muito tempo de tentar ser sociável. Aceitei que eu era um NPC (Non-Playable Character ou Personagem Não Jogável, referindo-se a qualquer personagem em um jogo de videogame ou RPG de mesa que são controlados pelo jogo, seguindo roteiros pré-programados para dar vida ao ambiente, dar missões ou interagir de forma limitada - eles estão ali para os outros poderem jogar) da vida real. Via colegas tendo sonhos e projetos… e eu olhava tudo e não me via ali. Até que uma dessas pessoas que insistiam em me manter por perto me convenceu a voltar a estudar... “porque sim”. 


É... Literalmente ela me disse que eu estava desperdiçando tempo tentando "fingir que eu não gostava" de filosofia e psicologia... Sim, o argumento foi este. Ela falava que se eu tentasse com algum afinco eu conseguiria uma bolsa ou algo assim e poderia finalmente ser filósofo (no caso professor de filosofia...) ou psicólogo até...


Consegui a tal bolsa e fiz filosofia até as cadeiras de estágio... as quais tranquei por não conseguir estágio no horário livre que tinha de trabalho... e tranquei a faculdade no finalzinho.


Veio a pandemia e o trabalho quadruplicou... não tinha mais como pensar em estudar. Os atendimentos eram tantos, a gravidade e a urgências era imensas. E as coisas pioraram! No auge das gravidades dos pacientes os colegas tombavam doentes... mortes dos pacientes... dos colegas... e a sobrecarga emocional de todos à nossa volta!


"Precisamos de mais Enfermeiros... mais Técnicos de Enfermagem..." ouvíamos.  Mas a verdade é que os que tínhamos a disposição estavam colapsando diante da exaustão física e emocional a que fomos expostos... não pelo pouco número (cuja a falta era real, diga-se de passagem) mas agravada pela tradição em desrespeitar os limites emocionais e físicos que o capitalismo fundamentou à Enfermagem e na saúde pública por décadas.


A Enfermagem é uma profissão de exaustão como base. Se um setor precisa de 5 pessoas para funcionar no mínimo e oito para funcionar com folga... todas as empresas sustentam que se tenha sempre 5. Não gostou, tem outro esperando a sua vaga. A misericórdia deixou de existir... e nem nos nomes de empresas de saúde se encontra mais. Enfermeiros, médicos e técnicos caindo feito moscas, não por conta do vírus... mas pela exaustão diante do abismo que existe entre o que querem fazer, o que sabem fazer e o que podem realmente suportar...


Em várias conversas sobre lugares diferentes de trabalho se repetia uma constatação! "Sabe do que os profissionais de saúde precisam?" repetia minha melhor amiga: "Psicólogos"!


Ainda em meio a pandemia consegui uma bolsa parcial em psicologia. O curso seria EAD inicialmente por conta da pandemia... Seria apertado para o orçamento, mas eu não estava mais sozinho nisso... então voltei a ler e aprender sobre o que eu sempre amei. Reencontrei Rogers, Freud e a turma toda...  Foi com reencontrar amigos de longa data... eu imagino. Superamos a pandemia a duras penas (que pasme... já foram esquecidas)!


Fui apresentado a um universo de novas formas de entender o que eu já conhecia de forma inicial e ingênua até...  e a outras tantas coisas que nem imaginava existir igualmente interessantes e complexas que fizeram eu me sentir estimulado a querer mais! Conheci professores encantadores (sim... eu me sentia nesse nível de satisfação... como sob encanto! É o efeito satisfatório de quem ser um hiperfoco e todos a sua volta lhe estimulam e valorizam falar sobre o tema da sua predileção) E se hoje estou mais próximo da reta final que do início... também estou na transição para um novo começo!


Este curso me trouxe uma coisa que eu não tive nos cinquenta anos anteriores... apreço pelo futuro!


Não por ser certo ou definido... Não é uma terra prometida. Mas por ter caminhos infinitos por onde explorar.. Com paixão... Com gosto! Num contínuo encontro com o mundo, comigo mesmo ... e com os outros! Estes tantos outros que sempre foram um mistério, sinal de desencontro e uma angústia até para mim! Hoje todos eles são meus parceiros de jornada... mesmo que não saibam!

Se a enfermagem me revelou a fragilidade do corpo, a psicologia me revelou a potência da mente e a resiliência da alma. Deixei de ser espectador da minha própria vida para tornar-me participante ativo da minha jornada — e parceiro na dos outros. Se antes o isolamento era meu único refúgio, hoje o encontro é minha maior motivação. Aos 54 anos, compreendi que nunca fui ‘estúpido’ ou limitado: estava apenas atravessando um longo e necessário processo de "tornar-me pessoa". O que o curso de Psicologia me devolveu foi algo ainda mais precioso: a curiosidade. O mistério que os outros representavam — e que tanto me angustiava — transformou-se em parceria de caminhada. Encerro este ciclo com a certeza de que a vida não termina onde o cansaço nos deixou, mas recomeça sempre onde a paixão nos reencontra.


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