Sociedade é causa e sintoma.

 




Estou lendo uns materiais sobre Psicopatologia, sobre a evolução do conceito de Saúde ao longo do tempo, sobre funções psíquicas e temas da Psicologia voltados para a conceitualização de “NORMALIDADE”… E acabo retornando ao tanto que visitei das minhas leitura do Filósofo francês Paul-Michel Foucault e de Byung-Chul Han, filósofo e ensaísta sul-coreano com formação Alemã, que me instigaram antes de eu retornar aos estudos acadêmicos em 2023… E tropeço em dados atuais sobre OMS e a saúde mental no mundo.

Quanto mais eu penso nesses termos do que é normalidade e patologia mais lembro desses dois senhores e da discussão de como uma sociedade deposita no indivíduo o ônus de lidar com as consequências de ambientes sociais sobre os quais estes, como indivíduos, têm pouco ou nenhum poder de gerência!

Por décadas está cada vez mais “normalizada” a ideia de que a sociedade é “naturalmente” hipercompetitiva. Talvez até antes, mas com certeza, na minha percepção, a partir dos anos 1980, intensificou a valorização da meritocracia e da produtividade individual, influenciando não apenas os ambientes de trabalho, mas também as relações pessoais. Tanto as culturas corporativas adotaram modelos de gestão baseados em metas agressivas e comparações constantes, reforçando a ideia de que apenas os “melhores” sobrevivem, quanto, paralelamente, a educação competitiva reproduziu essa lógica, estimulando provas e rankings em detrimento da colaboração em outras áreas da sociedade. A mídia e o entretenimento desempenharam papel central ao difundir narrativas de sucesso que colocam a vitória como único caminho legítimo. Alimentou um heroísmo baseado no individualismo moderno! Consolidou a ênfase nas conquistas pessoais e na construção de uma “marca individual”, contribuindo para ambientes cada vez mais rígidos e menos comunitários.

Olhando para as programações dos canais de TV e os Sites mais visitados e comentados atualmente facilmente percebo que não estou simplesmente descrevendo uma impressão superficial, estou percebendo em tempo real as mudanças estruturais que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han soube descrever com precisão. Havia parte do diagnóstico que Foucault fez da modernidade, aquela sociedade disciplinar sustentada por hospitais, escolas, fábricas e quartéis, onde o poder falava a língua da proibição onde o sujeito era moldado de fora pra dentro, disciplinado por normas externas que controlavam seu tempo e seu corpo para torná-lo dócil e produtivo. Mas Han apontou que aquele modelo foi mudando para o que vivemos hoje, numa sociedade do “desempenho”, onde a lógica do poder deixou de ser negativa e proibitiva para se tornar positiva e sedutora: você pode, você consegue, você precisa ser a sua melhor versão. E é exatamente essa mudança de gramática que, pra mim, explica por que o que chamamos de “NORMALIDADE” se parece mais com sofrimento e como é tão difícil de nomear e de combater suas consequências!

Porque o problema, quando o poder se disfarça de liberdade, é que a exploração passa a vir de dentro.

Eu não sou mais vigiado por um chefe que controla meu ponto, eu me tornei meu próprio empresário, meu próprio projeto de otimização constante, e por isso me exploro voluntariamente, convencido de que estou apenas buscando meu máximo potencial. É essa passagem que Han descreve como psicopolítica, o poder deixando de agir sobre o corpo físico, como na biopolítica clássica de Foucault, pra colonizar diretamente a psique. E é justamente aqui que entendo o isolamento emocional, o abandono das relações familiares, os maus-tratos aos mais frágeis e a busca por entorpecimento que descrevi: não são falhas morais de indivíduos fracos, são os efeitos psíquicos inevitáveis de um sujeito que virou, ao mesmo tempo, o agressor e a vítima de si mesmo, o explorador e o explorado dentro da própria mente.


Quando eu paro pra observar como certos ambientes são estruturados, hierarquizados e movidos por competição constante, percebo algo que me incomoda profundamente enquanto futuro psicólogo: essas estruturas não produzem apenas estresse pontual, elas produzem uma forma inteira de viver que adoece. Não é um efeito colateral, é o próprio funcionamento do sistema. E quanto mais estudo psicopatologia, mas entendo que boa parte do sofrimento que vejo ao redor não nasce de um defeito individual, nasce de uma engrenagem social que exige de nós algo que nenhum ser humano consegue sustentar sem se fragmentar por dentro.

O primeiro efeito que eu identifico é o isolamento emocional. Numa lógica onde tudo gira em torno de desempenho, expor vulnerabilidade vira sinônimo de fraqueza, de risco, de desvantagem competitiva. Então as pessoas aprendem, cedo, a esconder o que sentem. E o resultado é irônico: convivemos com dezenas de pessoas por dia, trocamos mensagens o tempo todo, estamos "conectados", mas ninguém realmente se mostra pro outro. Cada um carrega sua angústia sozinho, atrás de uma fachada de competência, de sorrisos, de consumo enaltecido e de ostentação… Porque admitir cansaço ou tristeza é quase um erro de conduta.


Junto com isso, eu vejo o abandono das relações familiares acontecer quase como consequência natural, não como escolha consciente de ninguém. Quando o tempo e a energia de uma pessoa são inteiramente capturados pela exigência de produtividade, sobra muito pouco para estar de fato presente em casa. Não é que as pessoas parem de amar seus filhos ou seus pais, é que a estrutura simplesmente não deixa espaço pra esse cuidado se expressar como ele precisa. O afeto que não encontra tempo ou validade para se manifestar, aos poucos, se atrofia.


Isso me leva a um ponto que considero ainda mais grave: os maus tratos, muitas vezes silenciosos, contra quem está nas pontas mais frágeis dessa cadeia, as crianças e os idosos. As crianças, porque são inseridas desde muito cedo numa lógica de comparação e performance, como se o valor delas dependesse de vencer os outros. E os idosos, porque, assim que deixam de ser produtivos aos olhos do sistema, deixam também de ser prioridade, viram um peso, um lembrete incômodo de que ninguém escapa do descarte quando a régua que mede valor humano é só a utilidade econômica.

Eu percebo que as relações que sobram nesse cenário tendem a perder o vínculo emocional genuíno. Elas se tornam funcionais, instrumentais, quase contratuais. Trocam-se favores, trocam-se aparências, trocam-se até corpos e atenção, mas o encontro verdadeiro, aquele que sustenta psiquicamente uma pessoa, vai rareando. E quando a solidão se torna insuportável, ela é reabsorvida pelo próprio mercado: paga-se por companhia, paga-se por escuta, paga-se por uma simulação de intimidade, porque a intimidade real ficou cara demais em tempo e em risco emocional.


Diante de tanta pressão sem válvula legítima de escape, eu entendo por que a busca por entorpecimento se torna quase inevitável. Álcool, jogos, virtualidades, qualquer coisa que produza um alívio neuroquímico rápido. Não enxergo isso como falta de caráter de ninguém, enxergo como a resposta mais óbvia de um psiquismo que precisa, de algum jeito, anestesiar aquilo que não pode ser dito nem sentido abertamente. O consumo dessas substâncias e comportamentos funciona como uma pausa forçada num sistema que não permite pausa nenhuma.

E o que mais me revolta, nessa análise toda, é constatar que todo esse sofrimento coletivo sustenta um retorno financeiro que se concentra nas mãos de muito poucos. A exaustão de milhões vira lucro de alguns. A ansiedade constante, o medo de ficar pra trás, a corrida sem fim, tudo isso movimenta uma engrenagem econômica que se beneficia exatamente da nossa incapacidade de parar. Não é um sistema quebrado, é um sistema que funciona perfeitamente bem para quem está no topo dele.

No fim, o que fica é a massificação de uma vida sem sentido. Vidas parecidas, rotinas parecidas, ansiedades parecidas, todas moldadas pela mesma exigência de produzir, competir e performar, esvaziadas daquilo que realmente sustenta a existência humana, que é vínculo, autenticidade e propósito. E é justamente aí que eu sinto que mora meu papel enquanto psicólogo em formação: não posso olhar pra um sujeito angustiado e tratar aquilo só como uma falha individual dele. Preciso reconhecer que, muitas vezes, aquele sintoma é a última forma de protesto de um corpo e de uma mente que ainda insistem em dizer que essa forma de viver não é sustentável.

E oferecer um espaço de escuta.

Escuta legítima.

Reconhecimento.

Não julgar nem ajustar o indivíduo a uma norma social adoecida, mas dar espaço para lhe restituir a experiência de ser tratado como pessoa, e não como projeto de rendimento.

Porque se o que adoece é justamente o desaparecimento do outro, absorvido pela lógica da utilidade e da comparação, então o encontro terapêutico autêntico já é, por si só, uma espécie de contra-movimento!

Um lugar onde alguém é recebido como é, sem precisar justificar sua existência por resultado. É aceitação incondicional e presença congruente — é, em si, um ato de resistência: um espaço onde a pessoa não precisa performar, provar ou produzir para ser ouvida.

Construir este espaço em que se torna possível sustentar algo que parecia insustentável: que mesmo o sofrimento mais opressivo pode ser atravessado quando reencontra sentido; que a angústia diante da liberdade, da finitude e do isolamento não é patologia a ser eliminada, mas condição humana a ser habitada com coragem e companhia.

Por isso entendo que meu papel não é calar o sintoma nem normalizar o sujeito à engrenagem que o adoece, mas sustentar, com escuta legítima e reconhecimento genuíno, o espaço onde ele possa reencontrar sua própria voz — não a voz otimizada e produtiva que o sistema exige, mas aquela, mais frágil e mais verdadeira, que ainda insiste em dizer eu sou, eu sinto, eu existo, para além de qualquer métrica de desempenho.








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