O cuidado como virilidade: outros roteiros possíveis de ser homem!

 "Somos aquilo que fazemos repetidamente.
A excelência, então, não é um ato, mas um hábito."

— Aristóteles

Há uma cena que qualquer mulher que foi adolescente no início dos anos 2000 reconhece de imediato: a banca de revista. Capas coloridas, letras garrafais, um galã de novela declarando com naturalidade que "ser fiel é muito difícil". Ao lado, uma matéria de comportamento ensinando "como segurar um pegador" ou "como domar o garanhão da escola". Ninguém achava estranho. Era, simplesmente, o script vigente do desejo.

A mensagem por trás disso nunca foi dita abertamente, mas foi absorvida por uma geração inteira: homem desejável é imprevisível, um pouco infantil em seus afetos, emocionalmente pouco acessível. Cabia à mulher administrar essa equação — entender, tolerar, "dar um jeito". O sofrimento virava pedágio. O preço a pagar por ter um homem por perto.

Passaram-se vinte anos. Trocamos a banca de revista pelo feed, mas o enredo básico resiste. Ainda existe uma economia afetiva que recompensa o descompromisso masculino com desejo, e trata a disponibilidade emocional como algo suspeito — quase constrangedor. A filósofa Kate Manne deu nome a esse mecanismo: himpathy, a empatia automática e antecipada que a sociedade dedica a comportamentos masculinos problemáticos, isentando o homem de responsabilidade antes mesmo de ele precisar se explicar. Porque, afinal, "homem é assim mesmo".

*(Himpathy é um neologismo formado pela junção de: "Him" - ele, em inglês e  "Empathy" - empatia -  termo foi cunhado pela filósofa Kate Manne em seu livro "Down Girl: The Logic of Misogyny" ~2017).

O problema é que esse roteiro não fere apenas quem espera reciprocidade afetiva. Ele empobrece o próprio homem. Ao naturalizar o moleque irresponsável como norma, tudo que foge disso — maturidade, constância, cuidado — vira exceção. Ou, pior ainda, motivo de desconfiança.

Um sintoma de mudança

Por isso vale prestar atenção quando esse script racha em público — mesmo que de forma imperfeita, mesmo dentro da lógica de celebridade. Rodrigo Hilbert, por anos, ocupou um lugar simbólico incomum: não era o "bad boy" clássico, mas o parceiro que constrói, cozinha, cuida dos filhos, é estável. Tornou-se, para muita gente, um ídolo alternativo de desejo — não pelo mistério ou pela indisponibilidade, mas pela presença.


Hoje, há quem enxergue paralelo semelhante em Haaland: um atleta de altíssima performance cuja imagem pública não se apoia no estereótipo do "garanhão", mas em disciplina, rotina e uma relação mais equilibrada com o próprio corpo e tempo. Isso não é sobre romantizar celebridades como modelo de vida — elas seguem sendo, antes de tudo, produto de imagem. É sobre o que a popularidade delas revela: existe demanda real por outra referência masculina. O público não rejeita o homem cuidador. A cultura é que demorou para lhe dar espaço.

Um critério mais honesto que a idealização

Antes de seguir, uma ressalva necessária: não se trata de eleger "homens perfeitos" como modelo. Isso apenas trocaria um roteiro raso por outro, igualmente falso. A pergunta "esse homem é bom?" é, de fora, inverificável. Uma pergunta mais honesta é: esse homem sustenta responsabilização visível quando erra? Coerência ao longo do tempo, não ausência de falha, é o que distingue um exemplo real de uma fachada.

Com esse critério em mente — e sem ilusão de que celebridades sejam pessoas plenamente conhecíveis de fora —, alguns nomes ajudam a pensar em masculinidades construídas sobre outros alicerces:

Harrison Ford — o contraste entre a persona de tela (o herói irônico, o mercenário individualista de Han Solo e Indiana Jones) e a biografia real é revelador. Antes do estrelato, foi carpinteiro autodidata para sustentar a família. Hoje é conhecido pela vida discreta, pela paixão pela aviação, pelo ativismo ambiental como vice-presidente da Conservation International — um homem cuja imagem pública de aventureiro nunca precisou ser sustentada por instabilidade real na vida privada.

Keanu Reeves — o que sustenta essa imagem não é apenas discrição, mas atos recorrentes e verificáveis: doações silenciosas, sem campanha de marketing em torno delas; reinvestimento de parte do próprio cachê nas equipes técnicas dos filmes que estrela; e a forma como lidou publicamente com perdas pessoais duras — a morte da filha natimorta e da companheira — sem transformar a dor em narrativa de vitimização ou capital de imagem.

Viggo Mortensen — menos celebridade, mais artista multifacetado: pinta, escreve poesia, fala várias línguas. Sua vida pessoal é discreta a ponto de quase não virar produto midiático — um dado interessante em si, já que ele não depende da narrativa de "cara do bem" para sustentar a carreira.






Idris Elba — F
igura pública que combina masculinidade física convencional (ação, boxe) com discurso consistente sobre paternidade presente e saúde mental, incluindo embaixadorial da UNICEF voltado a crianças em contextos de pobreza — sem que isso pareça dissonante com sua imagem de "durão".


David Beckham — talvez o exemplo mais rico, porque mostra movimento, não traço fixo. Saiu do estereótipo clássico de ídolo pop dos anos 90 e 2000 e foi construindo, publicamente, uma imagem de pai presente, envolvido nas tarefas domésticas, parceiro que divide o cuidado dos filhos. O mais relevante não é a ausência de erro — ele passou por um escândalo público significativo —, mas a forma como reconstruiu a própria imagem depois disso, sustentando responsabilização ao longo dos anos seguintes. 

E, no Brasil, Wagner Moura constrói publicamente um discurso de masculinidade mais reflexiva: fala abertamente sobre terapia, paternidade e vulnerabilidade emocional em entrevistas, sem que isso soe como posicionamento calculado de marketing.



Emicida (Leandro Roque de Oliveira)   é provavelmente o exemplo dos mais ricos. Rapper, cantor, compositor e apresentador brasileiro, considerado uma das maiores revelações do hip hop do Brasil da década de 2000, construiu publicamente uma narrativa de paternidade e parceria — no seu documentário "AmarElo" e outros projetos são feitos em parceria direta com a esposa, Ohana Move, que co-assina roteiro e direção artística, não como coadjuvante. Ele fala com frequência sobre ancestralidade, luto (a morte do pai é tema recorrente) e reconstrução de masculinidade negra brasileira fora do estereótipo do "provedor calado" — uma referência particularmente forte pro seu texto, por articular isso especificamente a partir da experiência brasileira e racializada, algo que os exemplos hollywoodianos não cobrem.


Terry Crews — talvez o exemplo mais forte de todos os que já citamos, por um motivo específico: ele não apenas fala sobre vulnerabilidade em abstrato, ele quebrou publicamente dois tabus duplos. Primeiro, revelou ter sofrido abuso sexual (o caso contra o executivo Adam Venit), e testemunhou sobre isso no Senado americano — expondo o tabu de que homens, especialmente homens negros e fisicamente imponentes, "não podem" ser vítimas. Segundo, falou abertamente sobre ter testemunhado, quando criança, o pai agredindo a mãe repetidamente, e sobre como esse padrão quase se repetiu em seu próprio casamento antes dele buscar terapia e romper o ciclo. É um caso raro de homem que nomeia o próprio erro (não apenas o trauma sofrido) e mostra o processo de mudança, não só o resultado. 

O cuidado como prática, não como traço

Nenhum desses homens é modelo definitivo — todos seguem sendo, em algum grau, imagem pública, com tudo que isso implica de curadoria e ressalva. Mas, tomados em conjunto, eles sugerem algo importante: o cuidado não é uma característica rara que alguns homens "têm" e outros "não têm" por natureza. É — como lembra Aristóteles na epígrafe — um hábito. Constrói-se pela repetição, sustenta-se pela responsabilização diante do erro, e se revela não em declarações, mas em anos de coerência silenciosa.

Talvez o convite mais simples que esses exemplos ofereçam seja este: parar de tratar o compromisso como defeito de personalidade e o abandono como carisma. O homem que cuida não deveria ser tratado como raro. Deveria ser, simplesmente, o óbvio — e, mais do que isso, algo que se pratica, um dia de cada vez.


Se interessar, sugiro olharem este texto mais antigo: https://arandoamentefertil.blogspot.com/2017/07/domingo-porto-alegre-um-dia-normal-de.html

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