O cuidado como virilidade: outros roteiros possíveis de ser homem!
"Somos aquilo que fazemos repetidamente.
A excelência, então, não é um ato, mas um hábito."
A mensagem por trás disso nunca foi dita abertamente, mas foi absorvida por uma geração inteira: homem desejável é imprevisível, um pouco infantil em seus afetos, emocionalmente pouco acessível. Cabia à mulher administrar essa equação — entender, tolerar, "dar um jeito". O sofrimento virava pedágio. O preço a pagar por ter um homem por perto.
Passaram-se vinte anos. Trocamos a banca de revista pelo feed, mas o enredo básico resiste. Ainda existe uma economia afetiva que recompensa o descompromisso masculino com desejo, e trata a disponibilidade emocional como algo suspeito — quase constrangedor. A filósofa Kate Manne deu nome a esse mecanismo: himpathy, a empatia automática e antecipada que a sociedade dedica a comportamentos masculinos problemáticos, isentando o homem de responsabilidade antes mesmo de ele precisar se explicar. Porque, afinal, "homem é assim mesmo".*(Himpathy é um neologismo formado pela junção de: "Him" - ele, em inglês e "Empathy" - empatia - termo foi cunhado pela filósofa Kate Manne em seu livro "Down Girl: The Logic of Misogyny" ~2017).
O problema é que esse roteiro não fere apenas quem espera reciprocidade afetiva. Ele empobrece o próprio homem. Ao naturalizar o moleque irresponsável como norma, tudo que foge disso — maturidade, constância, cuidado — vira exceção. Ou, pior ainda, motivo de desconfiança.
Um sintoma de mudança
Por isso vale prestar atenção quando esse script racha em público — mesmo que de forma imperfeita, mesmo dentro da lógica de celebridade. Rodrigo Hilbert, por anos, ocupou um lugar simbólico incomum: não era o "bad boy" clássico, mas o parceiro que constrói, cozinha, cuida dos filhos, é estável. Tornou-se, para muita gente, um ídolo alternativo de desejo — não pelo mistério ou pela indisponibilidade, mas pela presença.Hoje, há quem enxergue paralelo semelhante em Haaland: um atleta de altíssima performance cuja imagem pública não se apoia no estereótipo do "garanhão", mas em disciplina, rotina e uma relação mais equilibrada com o próprio corpo e tempo. Isso não é sobre romantizar celebridades como modelo de vida — elas seguem sendo, antes de tudo, produto de imagem. É sobre o que a popularidade delas revela: existe demanda real por outra referência masculina. O público não rejeita o homem cuidador. A cultura é que demorou para lhe dar espaço.
Um critério mais honesto que a idealização
Antes de seguir, uma ressalva necessária: não se trata de eleger "homens perfeitos" como modelo. Isso apenas trocaria um roteiro raso por outro, igualmente falso. A pergunta "esse homem é bom?" é, de fora, inverificável. Uma pergunta mais honesta é: esse homem sustenta responsabilização visível quando erra? Coerência ao longo do tempo, não ausência de falha, é o que distingue um exemplo real de uma fachada.
Com esse critério em mente — e sem ilusão de que celebridades sejam pessoas plenamente conhecíveis de fora —, alguns nomes ajudam a pensar em masculinidades construídas sobre outros alicerces:
Harrison Ford — o contraste entre a persona de tela (o herói irônico, o mercenário individualista de Han Solo e Indiana Jones) e a biografia real é revelador. Antes do estrelato, foi carpinteiro autodidata para sustentar a família. Hoje é conhecido pela vida discreta, pela paixão pela aviação, pelo ativismo ambiental como vice-presidente da Conservation International — um homem cuja imagem pública de aventureiro nunca precisou ser sustentada por instabilidade real na vida privada.Keanu Reeves — o que sustenta essa imagem não é apenas discrição, mas atos recorrentes e verificáveis: doações silenciosas, sem campanha de marketing em torno delas; reinvestimento de parte do próprio cachê nas equipes técnicas dos filmes que estrela; e a forma como lidou publicamente com perdas pessoais duras — a morte da filha natimorta e da companheira — sem transformar a dor em narrativa de vitimização ou capital de imagem.
Viggo Mortensen — menos celebridade, mais artista multifacetado: pinta, escreve poesia, fala várias línguas. Sua vida pessoal é discreta a ponto de quase não virar produto midiático — um dado interessante em si, já que ele não depende da narrativa de "cara do bem" para sustentar a carreira.
Idris Elba — Figura pública que combina masculinidade física convencional (ação, boxe) com discurso consistente sobre paternidade presente e saúde mental, incluindo embaixadorial da UNICEF voltado a crianças em contextos de pobreza — sem que isso pareça dissonante com sua imagem de "durão".
E, no Brasil, Wagner Moura constrói publicamente um discurso de masculinidade mais reflexiva: fala abertamente sobre terapia, paternidade e vulnerabilidade emocional em entrevistas, sem que isso soe como posicionamento calculado de marketing.
O cuidado como prática, não como traço
Nenhum desses homens é modelo definitivo — todos seguem sendo, em algum grau, imagem pública, com tudo que isso implica de curadoria e ressalva. Mas, tomados em conjunto, eles sugerem algo importante: o cuidado não é uma característica rara que alguns homens "têm" e outros "não têm" por natureza. É — como lembra Aristóteles na epígrafe — um hábito. Constrói-se pela repetição, sustenta-se pela responsabilização diante do erro, e se revela não em declarações, mas em anos de coerência silenciosa.
Talvez o convite mais simples que esses exemplos ofereçam seja este: parar de tratar o compromisso como defeito de personalidade e o abandono como carisma. O homem que cuida não deveria ser tratado como raro. Deveria ser, simplesmente, o óbvio — e, mais do que isso, algo que se pratica, um dia de cada vez.
Se interessar, sugiro olharem este texto mais antigo: https://arandoamentefertil.blogspot.com/2017/07/domingo-porto-alegre-um-dia-normal-de.html
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