sexta-feira, 14 de junho de 2019




sexta-feira, 7 de junho de 2019

Philippe Pinel e Bolsonaro...

Philippe Pinel (Saint André20 de abril de 1745 – Paris25 de outubro de 1826) nasceu nas colinas de Jonquières, França.

Ele era filho e sobrinho de médicos.

Depois de receber o diploma da faculdade de medicina em Toulouse, estudou mais quatro anos na Faculdade de Medicina de Montpellier.

Contam que um amigo havia desenvolvido uma "melancolia nervosa" que se "degenerou em mania" e resultou em seu suicídio. Pinel considerou o evento uma tragédia desnecessária, causada pela total falta de TRATAMENTOS EFETIVOS. Isso o levou a procurar emprego em um dos sanatórios particulares mais conhecidos de Paris, nos quais se dedicou a busca de "tratamentos" científicos para a demência. Lá permaneceu por cinco anos antes da Revolução francesa, reunindo observações sobre loucura e começando a formular a sua opinião sobre a natureza e o tratamento do fenômeno dos sofrimentos psíquicos.

A imagem ao lado retrata o transporte de prostitutas para o Hospital de Salpêtrière, em Paris, no ano de 1745. 

Na época, o Hospital de Salpêtrière foi usado pela Coroa como depósito e prisão para pobres, mendigos, desocupados, marginais diversos, doentes mentais, epiléticos e prostitutas… pessoas que pudessem perturbar a ordem da cidade. 



Durante a Revolução Francesa a multidão invadiu o Hospital e libertou as prostitutas; mas só as prostitutas!


1793, quando Pinel foi nomeado "médico dos infirmantes" no Hospital Bicêtre , este abrigava cerca de quatro mil encarcerados... 

Eram notórios criminosos, pequenos infratores, sifilíticos abandonados pelas famílias, aposentados sozinhos e cerca de duzentos doentes mentais.
Os doentes mentais ficaram acorrentados juntos com mendigos, desocupados, marginais diversos...

Philippe pinel por Charles Louis Muller (1815-1892, France) | Reproduções De Qualidade Em Museus | WahooArt.com
Conduite des filles de joie à la Salpêtrière“. Autor: Étienne Jeaurat (1699-1789).
Os patronos de Pinel esperavam que sua nomeação levasse a iniciativas terapêuticas. 


Pinel, então responsável pelo serviço de alienados do hospício de Bicêtre, desde o começo teve como preocupações fundamentais:


  • distinguir a confusão existente entre os alienados e os melancólicos;
  • transformar a atitude brutal e repressiva em uma atitude compreensiva que denominou tratamento moral;
  • introduzir no tratamento princípios que reduzem a importância da lesão anatômica.



Ele entendia que os seres humanos que sofriam de perturbações mentais estavam "doentes", portanto ERA PRECISO TRATAR A DOENÇA, NÃO PUNIR OS DOENTES, ao contrário do que acontecia na época. Foi um dos primeiros médicos a tentar descrever e classificar algumas perturbações mentais como demência precoce ou esquizofrenia...

Bolsonaro sanciona com vetos lei que autoriza internação involuntária de dependentes

  
Da Redação | 06/06/2019, 12h14


O presidente Jair Bolsonaro sancionou, com vetos, a lei que autoriza a internação involuntária (sem consentimento) de dependentes químicos. O texto, aprovado em 15 de maio pelo Senado, está publicado na edição desta quinta-feira (6) do Diário Oficial da União.
Lei 13.840 de 2019 altera diversos pontos do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad), que coordena medidas relacionadas à prevenção do uso de psicoativos, à atenção à saúde de usuários e à repressão ao tráfico. O texto define as condições de atenção aos dependentes químicos e trata do financiamento das políticas sobre drogas.

Internação involuntária

Conforme a lei, que tem origem em um projeto apresentado pelo ex-deputado federal hoje ministro da Cidadania, Osmar Terra, a internação involuntária só poderá ser feita em unidades de saúde e hospitais gerais, dependerá do aval de um médico responsável e terá prazo máximo de 90 dias.
A solicitação para que o dependente seja internado poderá ser feita pela família ou pelo responsável legal. Também pode ser requerido por servidor da área de saúde, assistência social ou de órgãos integrantes do Sisnad, exceto da segurança pública.
A família ou representante legal poderá, a qualquer tempo, requerer ao médico a interrupção do tratamento.
Foi vetada, no entanto a permissão para que pessoas não médicas avaliassem o risco de morte de um dependente.

Comunidades terapêuticas

Embora reforce o papel das comunidades terapêuticas, um dos itens vetados pelo presidente da República definia a inclusão desses centros de reabilitação na composição do Sisnad. 
A justificativa é que “o dispositivo proposto define regras de competência, funcionamento e organização de órgãos do Poder Executivo, invadindo a competência privativa do chefe do Poder Executivo".
Foram vetados trechos que permitiam que fosse dada prioridade absoluta no Sistema Único de Saúde (SUS) para as pessoas que passassem por atendimento em comunidades terapêuticas. De acordo com o governo, a prioridade no SUS confronta a Constituição.
Outro ponto retirado do texto aprovado pelo Congresso, era a previsão de que a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas definisse as regras das comunidades terapêuticas e que essas comunidades fossem caracterizadas como "equipamentos de saúde".
“O dispositivo ocasiona insegurança e incerteza quanto às regras aplicáveis às comunidades terapêuticas, pois a caracterização como equipamento de saúde é matéria tratada em normativa específica, dependendo não da nomenclatura que adota, mas de suas características e atividades específicas”, apontou o governo.
Mas o texto sancionado prevê possibilidades de acolhimento do usuário ou dependente de drogas nessas comunidades “por adesão e permanência voluntária”. Para ingressar nessas casas, o paciente terá de formalizar por escrito seu desejo de se internar. Fica vedado o isolamento físico do usuário nesses locais.
O texto estabelece que esses locais devem servir de “etapa transitória para a reintegração social e econômica do usuário de drogas”. Ainda que o paciente manifeste o desejo de aderir às comunidades, será exigido uma avaliação médica prévia.

Penas

Entre outros vetos, o presidente vetou dispositivo que buscava diferenciar as penas para traficantes e usuários. 

O trecho vetado estabelecia que a pena deveria ser reduzida se "as circunstâncias do fato e a quantidade de droga apreendida demonstrarem o menor potencial lesivo da conduta". De acordo com o governo, a proposta seria mais benéfica ao agente do crime de tráfico de drogas:
“Acaba por permitir o tratamento mais favorável para agentes que não sejam primários, que não tenham bons antecedentes ou que sejam integrantes de organizações criminosas, o que se coloca em descompasso com as finalidades da reprimenda penal e com os princípios da lesividade e da proibição da proteção deficiente”, alegou o governo.

Imposto de Renda

O presidente rejeitou trecho da reinserção social e econômica, que previa uma reserva de 30% das vagas em empresas vencedoras de licitação para obras públicas voltadas para pessoas atendidas pelas políticas sobre drogas. E retirou da nova lei as deduções do Imposto de Renda nas doações por pessoas físicas ou jurídicas a projetos de atenção a usuários de drogas.
Os vetos ainda serão analisados pelo Congresso Nacional e podem ser mantidos ou derrubados.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Ser "preciso"



Acumular fatos não traz mais vantagem como outrora. E o aumento das informações à disposição coloca em xeque nossa habilidade de extrair sentido delas.

Por outro lado, o avanço das mídias sociais só exacerbou nossas tendências tribais e a necessidade de encaixar em grupos. Ideias se tornaram bandeiras e discussões ricas que avançam a sociedade são cada vez mais raras.

Dada esta realidade, a capacidade de ser preciso na comunicação, fruto da clareza de pensamento e capacidade de formar ideias coerentes cresce em valor. Além disso, ser capaz de discussões claras, cujo pilar é a comunicação precisa, pode ser a ferramenta de mudança social mais potente à disposição de cada um.

Este é um fenômeno que tenho visto acelerar no Ocidente bem desenvolvido e deve chegar no Brasil fortemente nos próximos anos. É hora de nós, como indivíduos, nos desenvolvermos tanto para prosperar quanto para operar as mudanças que queremos ver no mundo.

Para isso, precisamos dar um passo atrás e começar a discutir comunicação.
Por que não damos importância à comunicação?


Quando entramos na vida adulta, temos uma concepção altamente enviesada sobre como o mundo funciona. Mesmo inconscientemente, enxergamos as situações da vida como paralelo do mundo mais amplo que conhecemos até então: a escola.

Olhando de perto, a escola é um ambiente cujo objetivo é padronização do nível de aprendizado entre um conjunto de alunos com um perfil mais ou menos parecido, tanto intelectual quanto socioeconômico. Há certa variância nas escolhas de vida e na performance escolar, mas no final do dia, se espera de todo mundo concluir o ano escolar e passar para o próximo ano.

Esta não é uma crítica profunda sobre a escola – simplesmente uma descrição da realidade. Lá, as pessoas são mais ou menos parecidas, com vidas parecidas e se entendem por viver no mesmo mundo. Quando saímos da escola, transitamos por contextos diferentes, com exposição a pessoas com backgrounds extremamente diferentes do nosso.

O primeiro grande choque que tive foi perceber o esforço necessário para fluir uma comunicação minimamente clara. Comunicação é algo que tomamos como óbvio, mas de jeito algum é trivial.


Para duas pessoas conversarem fluentemente:

1) o interlocutor precisa definir o que deseja comunicar;
2) traduzir em palavras;
3) que precisam ser interpretadas pelo interlocutor.

É um processo “invisível” quando convivemos no ambiente escolar, já que as palavras significam a mesma coisa para todos, uma vez que todos possuem um perfil parecido. Quando saímos no “grande” mundo, fica claro como se comunicar bem torna-se uma habilidade desejável.

Além disso, uma quantidade significativa de pessoas não consegue “processar pensamentos”. Acredite ou não, mas 38% dos universitários não sabem ler e escrever plenamente. E isso é a amostra que supostamente deveria ser a mais esclarecida da sociedade.

Portanto, durante uma comunicação, é provável que a pessoa com quem você esteja falando nem entenda 100% do que você está dizendo se você não se esforçar para ser claro.

Não adianta dar a desculpa de “eu falei, ele que interpretou errado”. Não é assim que responsabilidade funciona – você não pode atribuir responsabilidade para uma parte do sistema que você não consegue mudar.

No final do dia, o interlocutor precisa garantir que a mensagem chegue ao ouvinte. Se você quer ser eficiente e fazer coisas no mundo, precisará se comunicar com pessoas e trazê-las para sua missão – para isso, a comunicação precisa ser sua arma.
A honestidade intelectual constrói o mundo

Do ponto de vista metafísico, nós criamos o mundo ao nos comunicar. Se existíssemos em isolamento, não existiria mundo, pois tudo seria experiência subjetiva (interna e externa).

Ao falar, concretizamos um “pedaço” da nossa experiência subjetiva e trocamos com outros em base num referencial compartilhado que aprendemos durante a infância. Alguns exemplos:

No universo do produtividade. Fala-se bastante de definir o que você quer. Uma vez que seus planos estão descritos, eles estão concretos – você tem algo ao qual perseguir.

Aprendizado. Este também é um dos primeiros passos para um aprendizado eficiente. Definir um objetivo claramente ajuda a concretizá-lo. “Aprender inglês” é um objetivo ruim. “Conseguir conversar com nativos no contexto profissional por alguns minutos sem dificuldades” é um objetivo muito melhor, mais fácil de ser perseguido, medido e acompanhado.

Harry Potter e Voldemort. Quem conhece a história de Harry Potter, sabe como naquele universo, as pessoas recusavam a chamar o vilão Voldemort pelo nome, referindo-se a ele como “aquele-que-não-deve-ser-nomeado”. No contexto, por não ser nomeado, ganhava um áurea de poder e medo simplesmente por não ser concretizado na fala.

Sinal de escravidão. Mentir também é um sinal de rendição de seu mundo diante de outros. Essa fala de Ayn Rand descreve bem:


"As pessoas pensam que o mentiroso ganha uma vitória sobre sua vítima […] O que aprendi é que uma mentira é um ato de auto-abdicação, porque é preciso render sua realidade para a pessoa a quem você está mentindo, fazendo daquele pessoa seu mestre, condenando a si mesmo dali em diante a fingir o tipo de realidade que a visão de mundo daquela pessoa requer que seja fingida… O homem que mente para o mundo é escravo do mundo dali em diante."

A ciência e seu pilar mais importante


Do ponto de vista científico, nosso entendimento de mundo é construído sobre a verdade. Se propagamos uma mentira, estamos corrompendo um pequeno tijolo que compõe todo um castelo de compreensão da humanidade sobre como o mundo funciona.

Isso, inclusive, foi um dos maiores motivadores durante um período conturbado da minha vida. Próximo ao fim da faculdade, estava com muitos problemas para terminar o projeto final. Basicamente, escolhi uma área difícil (simulação computacional de reatores) em um problema novo, para o qual não existia resposta fechada até então. Nem meu professor orientador sabia exatamente como resolvê-lo, ele só desconfiava que era possível.

De modo simplificado, tinha que resolver um conjunto de equações matemáticas bem complicadas, usando ferramentas computacionais específicas para aquilo. Fui até ao departamento de matemática da universidade e não consegui ajuda efetiva de nenhum professor (uma decepção).

Fiquei tão desesperado de passar meses batendo a cabeça no mesmo lugar, andando em círculos, que pensei em simplesmente inventar os resultados. Por ser algo complexo, não acreditava que ninguém ia verificar o procedimento computacional, apenas a resposta. Eu tinha boas chances de me livrar e finalmente acabar com um projeto doloroso.

Harry Potter and the Methods of Rationality by Yudkwoski CoverDepois de considerar a ideia por alguns minutos, deixei de lado; foi bastante tentador no momento. Um dos motivos pelo qual desisti foi uma passagem do livro Harry Potter e os Métodos da Racionalidade, que inclusive foi a citação que adicionei ao projeto de pesquisa:

"O que nós aprendemos é que existe poder na verdade, em todos os pedaços da verdade que interagem entre si, [na verdade] que você só pode encontrar descobrindo o máximo de verdades possível. Para fazer isso, você não pode defender uma crença falsa de jeito algum, nem mesmo ao dizer que a crença falsa é útil."



Falar a verdade é um ato de coragem

É cada vez mais comum as pessoas defenderem ideias confusas, especialmente em torno de tópicos controversos. Em certos casos, não é relevante, já que a confusão do indivíduo só afeta a própria vida e o torna menos efetivo em alcançar aquilo que deseja, mas não causa nenhum mal ao coletivo.

Contudo, quando as ideias discutidas envolvem impacto na sociedade e na forma como nos relacionamos, é perigoso deixar passar sem debate. Você pode pensar “ah, mas é uma minoria que está defendendo aquela ideia [errada/confusa], não vai causar impacto na minha vida”.

A realidade é que basta 3~4% da população seja intransigente em torno de algum tema para que existam chances reais da ideia virar o novo padrão social. Essa é a “regra da minoria” em sistemas complexos que Taleb discute em seu livro "Arriscando a Própria Pele".

Se você vir algo sem sentido, é essencial falar. Não com uma postura combativa – afinal, ninguém está praticando debate, querendo derrotar o outro – mas de modo explorativo, tentando extrair e esclarecer as bases do pensamento defendido.

Há coragem em levantar e apontar que o Rei está nu.
As vantagens de ser preciso

Uma confusão comum é pensar ser necessário domínio sobre um assunto para ser preciso falando a respeito. Não é verdade. Precisão de pensamento (e de comunicação) é uma função de como você pensa, não sobre qual tema você pensa.

Antes de tudo, é preciso aprender a interpretar conteúdo, o que significa:

1) conseguir ler/ouvir algo,
2) ser capaz de extrair as principais ideias e como elas são baseadas
3) julgar as bases das ideias para ser capaz de discuti-las.

Executar as tarefas acima bem te coloca à frente de muitas pessoas. De novo, é importante enfatizar que 30% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Se você não for preciso e eficiente em sua comunicação, é pouco provável que consiga navegar seu dia a dia de modo satisfatório.

O mais curioso é que, em todas as esferas, ninguém vai te dizer “poxa, Paulo é um cara legal, ele sabe interpretação de conteúdo e fala bem”. Ninguém vai reconhecer essa habilidade em específico, mas no geral as pessoas irão se sentir levemente atraídas por trabalhar e colaborar com você. Com o tempo, talvez você ganhe a fama de ser alguém que “fala bem”. Ou as pessoas sempre vão buscar sua opinião sobre temas confusos, ainda que você não domine o assunto e emita um “não li nada a respeito ainda”.

No trabalho, vão te dar cada vez mais projetos interessados mas ainda pouco formatados, pela sua habilidade de “concretizar as coisas”, que nada mais é do que ser claro no que pensa e faz (lembra da passagem metafísica mais acima sobre como criamos o mundo ao nos comunicar?).
Como praticar precisão na fala


Para fins de transparência, vou começar falando o que funcionou para mim e concluo com recomendações de por onde você pode começar.

No 3º ano do colegial, eu odiava redação. Literalmente odiava. Sempre fui bom em memorizar conhecimento e manipular os números, mas escrever era uma atividade sofrível. Na época em que fiz vestibular, a nota da redação tinha um peso significativo e, como não tínhamos condições de bancar uma faculdade privada (e eu nem queria), tive que desdobrar para resolver esse problema.

A situação era tão ruim que eu odiava as segundas-feiras à noite, porque toda terça de manhã tinha que entregar uma redação na aula de português. Era um martírio. Para lidar com isso, nas férias de julho daquele ano, assumi um compromisso: vou escrever uma dissertação por dia, todos os dias, não importa o quê. Li brevemente sobre metodologias de escrita, tipos de introdução e de conclusão e comecei. Extraía temas de escrita de todos os lugares possíveis – lembro de até ter escrito sobre a malha ferroviária do Brasil.

Ao final dos 30 dias, tinha experimentado vários estilos diferentes e selecionei as que considerei melhores para meu professor de redação da escola corrigir. O verdadeiro ganho, no entanto, já tinha ficado – peguei fluência no processo de elencar ideias, organizá-las, buscar embasamento de tipos diferentes, e apresentá-las na forma escrita. De lá pra cá, só tenho me desenvolvido mais e mais com a prática – já somo 1 ano de blogs aleatórios e quase 7 anos de Estrategistas.

Aqui estão minhas recomendações.
1. Escreva dissertações

Você pode, sim, comprar um livro de interpretação de textos e fazer os exercícios de lá, mas nada como você se esforçar para organizar suas ideias para ser capaz de reconhecer as ideias nos textos/nas falas do outro.

Dissertações são bastante poderosas para isso, especialmente no modelo “ENEM / Vestibular”. São longas o suficiente para você precisar “escolher algumas ideias e desenvolvê-las”, mas curtas o suficiente para que você não se perca e ainda consiga rastrear/isolar os pilares do conteúdo (20~30 linhas).

A seguir, você pode apresentar os textos para seus amigos darem feedback ou contratar um tutor para revisar seu conteúdo (é mais acessível do que parece).

2. Leia os grandes clássicos da humanidade

Olhando a fundo, a natureza humana não mudou tanto desde a invenção da escrita, por isso livros clássicos guardam um conhecimento atemporal. Nele você irá mergulhar sobre os sofrimentos, aprendizados e experiência de vida de pessoas que viveram em outro mundo, mas lidavam com as mesmas limitações humanas.

Além disso, com as ficções, você terá acesso a uma gama imensa de experiências humanas, o que enriquecerá seu vocabulário para descrever o que acontece em sua própria vida. Afinal de contas, quem nunca teve dificuldade de se expressar em certos contextos?

Ler clássicos, no geral, amplia seu repertório para isso, aumentando sua capacidade de expressar aquilo que você deseja.

3. Participe de mais discussões significativas

Não me refiro a debates com textão no Facebook, isso no geral é bem contraproducente. Quando estiver conversando com pessoas que você já sabe serem razoáveis, leve seu tempo para fazer perguntas, entender a linha de pensamento do outro, como é construída, em que se baseia, etc.

Certos tipos de pessoas (as melhores) apreciam esse tipo de conversa, mesmo em ambientes profissionais. Quando você assume uma postura de investigar, que busca trazer clareza para que o outro está falando e chegar na verdade juntos, a interação fica mais rica.
Um superpoder que você pode obter

Comunicação é uma meta-habilidade, ou seja, é uma habilidade meio, não fim por si só. Os ganhos começam a surgir de modo distribuído na sua vida – mais sucesso em projetos profissionais, discussões mais ricas com pessoas que você admira e comunicação mais fluente sobre temas que lhe interessam.

Quiçá, você poderá contribuir com a construção de uma sociedade melhor, com coragem intelectual de desafiar no âmbito das discussões – e usando precisão como arma – ideias que ameaçam nossos direitos mais básicos.



publicado em 05 de Junho de 2019, 18:14

Paulo Ribeiro

Marido, escritor e estrategista da In Loco Media. Escreve sobre filosofia e crescimento pessoal sem mimimi no portal Estrategistas e tem uma lista de recomendações de leituras para mais de 8 mil pessoas. Levanta peso do chão e está aprendendo data science do zero no Data Noob.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Com a posse do ex-capitão pára-quedista do Exército, Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, o Brasil mudou. 


Seu estilo político é classificado como entre o populista de direita e o fascista. A vitória eleitoral de Bolsonaro é o resultado de uma longa luta pelo poder no Brasil. As forças estritamente conservadoras prevaleceram com sua eleição. 

Especialmente três grupos o apoiaram: proprietários de terra, cristãos evangélicos e os militares - ou as bancadas do boi, da bíblia e da bala. Todos eles defendem valores tradicionais, como estruturas familiares, e rejeitam o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, eles defendem o direito de portar armas de fogo e liberar a derrubada da floresta tropical no interesse da indústria agrícola.  Mudanças radicais estão ocorrendo com graves conseqüências para a sociedade brasileira.

domingo, 2 de junho de 2019

Política, Budismo e a relação com o Oriente

De sua casa em João Pessoa, o monge Joaquim Monteiro conversa com a Bodisatva sobre política, budismo e a relação com o Oriente

Bodisatva publica uma conversa rápida com o monge Joaquim Monteiro, um dos maiores especialistas em budismo chinês no Brasil. De seus 61 anos, 18 foram vividos no Japão. “Se você quiser um budismo puritano, não o procure no Japão”, alerta o monge, que diz ter aprendido mais morando com camponeses no Norte do país do que no seminário budista.
Atualmente o monge Joaquim mora em João Pessoa e é professor na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), instituição que lançou seu mais recente livro: O Budismo Yogacãra.
Segundo ele, o livro busca articular o pensamento budista essencialmente ligado à vida comunitária da sanga e a sua ação social no mundo. “Ele abre um canal para que budistas se insiram nos debates sociais e políticos com um mínimo de sabedoria e lucidez”, afirma.
Para os praticantes, o monge deixa seu recado:
Uma das manifestações da ignorância é precisamente o ódio. Neste momento, os budistas no Brasil não podem se esquivar da defesa de ações sociais pautadas numa visão ética.

Como foi seu encontro com o Darma?

Começou na minha adolescência. Lembro-me do grande choque que tive na vida: o falecimento da minha meia-irmã, aos 13 anos, e depois a doença do meu pai, dos 11 aos 17 anos. Ele teve uma doença muito séria, ficou quase reduzido a condição de um vegetal. Contemplei aquela situação durante vários anos e senti, na prática, o que o budismo chama de impermanência. Quando você se defronta com isso dentro de você, não tem mais como parar ou controlar. Existe uma interrogação constante. Comecei a procurar alguma coisa que respondesse às minhas dúvidas.
Meu primeiro encontro foi com os textos do professor Ricardo Mário Gonçalves, textos budistas e zen budistas. A partir daí, tive uma fase de leituras. No início da juventude, encontrei o monge Tokuda San e depois dois professores que me influenciaram muito, o próprio Ricardo Mário Gonçalves e o reverendo Chokyo Otani. A partir do encontro com a literatura e os mestres, um direcionamento se definiu na minha vida. Isso teve diversas consequências, a mais concreta foi minha ida para o Japão, em 1985.

Como foi sua chegada ao Japão?

No Japão, foi tudo muito intenso. Daria para escrever livros. Eu já dominava a língua, cheguei lá com 29 anos. Foi um grande encontro que estava na minha mente há uma década. Entrar em contato realmente foi fulminante. As pessoas me tocaram demais nos primeiros tempos, e os vínculos de amizade ainda continuam. O vínculo com os mestres e as amizades foram as coisas mais impactantes e importantes.

O que o senhor nos contaria sobre o aprendizado com a cultura japonesa?

A cultura japonesa é muita ampla. Vai desde a religião passando por filosofia e artes. Uma coisa interessante é que existem estereótipos em relação à religião, principalmente essa visão fechada de relacionar o budismo japonês ao zen. Nos seminários budistas que frequentei, entrei bem na dimensão sobre o pensamento sistemático do budismo japonês e nas diversas formas de compreensão do pensamento budista — as dimensões sociais e rituais.
O zen é apenas uma parte do budismo japonês. Mas se você quiser um budismo puritano, não o procure no Japão. A minha vivência social foi de fato a coisa mais impressionante. Aprendi mais convivendo com os camponeses do que no seminário.
Diria que, nos primeiros meses, quando comecei, ninguém tinha intenções maldosas a meu respeito, isso porque nada do que era senso comum para mim, era senso comum para eles. Vivi num verdadeiro limbo. A minha identidade antiga ia se desfazendo e a nova identidade ainda não tinha surgido. Só as pessoas que me conhecem entendem as dimensões disso.
Esses 18 anos provocaram mudanças tremendas no meu senso de identidade. Isso aconteceu mesmo antes de entrar em contato com os ensinamentos. Atravessar o limbo cultural foi uma das coisas mais impactantes que me aconteceram. E claro, viver com os camponeses foi a prática.

O que morreu e renasceu quando voltou para o Brasil?

São tantas mortes. A coisa que morreu de vez foi a fantasia de que o Ocidente era o centro do mundo. Para as pessoas que acreditam nisso, ou que a raça branca é superior em algum momento, não existe uma experiência mais humilhante do que conhecer os japoneses.
Não quer dizer que abandonei a centralidade do Ocidente para colocar o Japão no lugar, mas percebi que a história humana é multicêntrica. Isso influenciou demais o meu processo de reconstrução no meu retorno ao Brasil, que passou pela poesia. Eu nunca fui poeta, mas no momento do meu retorno eu já era uma outra pessoa. Eu escrevi muitas poesias num surto de criatividade, pois tinha que expressar o que estava acontecendo à minha volta. Quem ler aquilo hoje não vai entender quase nada.
O Brasil que encontrei tinha mudado muito. Foi duríssimo, foi o nascimento de uma nova identidade. O diálogo entre o eu que não era mais eu e o Brasil que não era mais o Brasil. Nas primeiras vezes em que fui convidado para dar palestras, em 2007 e 2008, disseram que eu estava dando palestra pensando em japonês. Levei uns dez anos para suscitar uma linguagem pertencente ao Brasil. Foi o que mais me tocou. Uma coisa é pensar deslocamentos físicos, mas na verdade o único elemento continuo é a memória, e a própria memória é reinventada nesse contexto.

E sua relação com a tradição Terra Pura?

Acredito que a maior parte da minha geração, na passagem dos anos 1970 e 1980, começou no budismo com o vínculo no zen. Meu encontro com o budismo Terra Pura — “Verdadeira Escola da Terra Pura” (Jodo Shinshu), de origem japonesa — abriu-me para uma forma completamente nova de ver a tradição, abriu-me um campo de possibilidades.
A primeira delas é que a Terra Pura no Japão é uma religião enraizada nos segmentos populares. No norte do Japão, por exemplo, a maior parte das pessoas eram camponeses. Em segundo lugar, existe uma prática central, aquilo que chamam de a verdadeira história de ouvir o Darma, além de cumprir o seu papel essencial na divulgação dos ensinamentos. O terceiro ponto é que a tradição Terra Pura aponta para determinadas sutilezas nos ensinamentos que dificilmente seriam visíveis em outros contextos. É centrada neste ato de ouvir o Darma, e enfatiza a interpretação e a leitura. Foi decisivo no meu caminho, no meu percurso de vida, seguir a verdadeira escola da Terra Pura.

Como aconteceu a sua paixão pela China?

Meu vínculo com a China vem de longe, desde as descrições que encontrei nas obras de Monteiro Lobato sobre a avaliação feita por Bertrand Russell a respeito dos dois anos que viveu na China. O vínculo se tornou uma questão bem mais concreta a partir de minha vivência no Japão: pude perceber que a China era o pano de fundo civilizacional do Japão, da Coreia e de todo o universo extremo-oriental.
Não é possível esquecer, neste contexto, que minha especialidade acadêmica é o budismo chinês e que isso aponta para algo único na transmissão do budismo na China. Ao contrário das outras regiões da Ásia, em que a transmissão do budismo coincidiu com a formação das civilizações tradicionais, a China foi o único caso de uma transmissão do budismo em uma civilização já completamente consolidada em suas próprias bases.
Existe aí uma polaridade própria do budismo chinês: a oscilação entre uma tendência à formação de um budismo completamente “sinificado” (budismo com características chinesas) e um retorno às bases normativas do budismo indiano.
No caso do século 20, explica-se por aí a enorme influência do budismo tibetano no moderno budismo chinês, em autores como Yin-shun e Fa-tzun, em que o Tibete passa a substituir a Índia como fonte normativa do budismo. É possível apontar nesse sentido para um desenvolvimento moderno da relação histórica entre China e Tibete.

O Darma reforça ou não o engajamento político?

Corretamente compreendido, reforça. O budismo tem necessariamente uma dimensão ética e essa dimensão não tem como não ser abordada, estudada e experimentada.

Existe praticante apolítico?

Não existe apolítico. Podemos pensar num praticante fantástico, que não existe em lugar nenhum. Existem as pessoas que alimentam a fantasia de serem apolíticos, por exemplo.
O pensamento budista tem certos princípios éticos que implicam em uma determinada postura diante da vida. Não tem como se manter estritamente fechado na esfera privada. Por exemplo, observando as diversas formas históricas do budismo, do Japão a Mongólia, existem formas concretas onde o posicionamento político foi vivido.
O grande problema no Brasil é que é preciso repensar a dimensão ética política do budismo brasileiro. Como isso deveria ser pensando no nosso contexto? Assinei a carta cobrando do Colegiado Budista Brasileiro que assumisse uma postura face ao golpe político enfrentado pela ex-presidenta Dilma Rousseff.
O impacto físico foi mínimo, mas no entanto, o simbólico foi forte. Foi a causa remota da autodissolução do CBB, que é formado por membros de tradições ortodoxas. Nos documentos do CBB, existiam questões sobre o budismo ter uma ética social apolítica, supondo um posicionamento apenas nas questões que envolvem direitos humanos, paz e gênero. Vejo isso, por um lado, como uma falácia.
Vivi 20 anos na Ásia e nunca vi nada parecido. Lá encontramos “budismos” que têm vinculação mais próxima ou distante com a política. Você encontra budismo de direita, de centro, de esquerda, mas numa sociedade onde o budismo é uma religião dominante, ou pelo menos tem uma presença forte, é praticamente impensável que possa ser apolítico. Está fora de questão!
Em textos budistas mais antigos, existem reflexões sobre a função do Estado, a grande ênfase na função estatal da justiça e o bem comum. O CBB admitia que deveria ter posição sobre paz e outras coisas, mas raramente isso aconteceu.
No passado, lembro-me com saudade que houve ações do CBB na questão do Tibete e Birmânia. Mas o CBB nunca se posicionou sobre a questão dos direitos humanos no Brasil. Acho isso muito estranho. Como pessoas preocupadas com as violações dos direitos humanos no Tibete sejam indiferentes ao genocídio que ocorre na periferia urbana brasileira?
Depois da carta, senti que não fazia sentido seguir no CBB. Discretamente solicitei meu afastamento, que foi liberado prontamente. Não devo silenciar a respeito. Mas o CBB, que existia há mais de 10 anos, não explicou em nenhum documento porque houve sua dissolução. Não sei qual foi a visão, mas era de se esperar que, no documento, existisse uma explicação. Confesso, dada a fraqueza da base do colegiado, que não estou preocupado. Esse processo foi um símbolo da ausência de um debate no budismo brasileiro sobre o que seria a ética social e política budista e sua inserção no Brasil.

Como o senhor enxerga hoje o processo econômico brasileiro?

Com os eventos recentes, a nossa economia está indo para um caminho desastroso. Dentro da atual situação, não vejo nenhuma proposta viável possível. Apenas com o fim da atual situação seria possível reverter a crise econômica.

Visões sectárias: de onde elas brotam?

Não vejo o sectarismo vinculado centralmente à questão econômica. Dentro da visão budista, nós temos uma base da continuidade do samsara, que é a ignorância (avidya). Uma das manifestações da ignorância é precisamente o ódio.
Em uma sociedade que esteja estruturada — não em termos da iluminação, mas em termos humanos — existem convenções sociais e princípios éticos que mantêm uma convivência harmônica. Mas a grande característica da nossa sociedade, em parte dominada pela economia em várias esferas da vida, é a completa desorientação que brota da falta de diálogo.
Quando atravessamos uma crise profunda e não temos um campo de debate a partir de princípios consistentes, vemos surgir uma cisão gradativa de grupos conflitantes. Nos meus últimos anos no Japão, tinha muitos amigos de direita e extrema-direita. Talvez lá não esteja mais assim, pode estar bem pior do que o Brasil…
Mas por que isso acontecia? Existia um espaço público em que as pessoas com convicções radicalmente conflitantes podiam desenvolver uma relação de respeito em função da consistência da sua postura de vida e argumentos. Quando você garante isso, pelo menos, existe uma discussão que não inclui a violência, principalmente a física, e é possível pensar com um mínimo de lucidez as questões que estão em pauta na sociedade. Quando isso desaparece, a única coisa que sobra é o ódio e a violência.
Atualmente, existe uma necessidade de reorientação da sociedade passando por uma reorientação cotidiana. É uma tarefa que estaria muito aquém dos objetivos do budismo. Mas acredito que os budistas no Brasil não podem se esquivar disso.

E sobre o seu novo livro O Budismo Yogacãra? Por que devemos lê-lo?

A importância da leitura de minha obra sobre o budismo Yogacãra radica em dois pontos estreitamente relacionados. O primeiro deles é que esse livro procura elucidar temas como a “Teoria das Oito Consciências” de uma forma rigorosa e para além do senso comum. A segunda é que ele enfatiza concretamente a dimensão ética e ético-social desta escola, situando seu conceito de prática no contexto da sanga ou da comunidade budista.
Acredito que as duas questões tenham uma importância fundamental para uma sanga budista brasileira que busca seu papel e sua identidade no contexto da própria sociedade. É importante articular o pensamento budista essencialmente ligado à vida comunitária da sanga e seu vínculo social e abrir um certo canal para que budistas se insiram nos debates com o mínimo de sabedoria e lucidez.