quinta-feira, 18 de maio de 2017

Pontos a observar no Estudo do Caminho




1. A necessidade de despertar para a Mente-Bodhi

A Mente-Bodhi é conhecida por muitos nomes, porém todos se referem à mesma Mente Una. O Venerável Nagarjuna[1] disse, “A mente que vê através do fluxo do aparecer e desaparecer e reconhece a natureza transitória do mundo é também conhecida como Mente-Bodhi.” Por que então, a dependência temporária nesta mente é chamada de Mente-Bodhi? Quando a natureza transitória do mundo é reconhecida, não aparece nem a mente egoísta comum nem a mente que busca fama e proveito.

Ciente de que o tempo não espera por ninguém, pratique como se estivesse tentando apagar o fogo em seus cabelos. Reflita sobre a natureza transitória do corpo e da vida, se esforce exatamente como o Buda Xaquiamuni fez quando levantou seu pé[2].

Mesmo que ouça o chamado bajulador do deus Kimnara e do pássaro Kalavinka[3], não preste atenção, considere-os apenas como a brisa do anoitecer soprando em seus ouvidos. Mesmo que veja uma face tão bela como a de Mão-cha’ng ou Hsi-shih[4], pense nela apenas como o orvalho da manhã bloqueando sua visão.

Quando livre do apego ao som, cor e forma, naturalmente se tornará um com a verdadeira Mente-Bodhi. Desde os tempos antigos existiram aqueles que ouviram pouco sobre o verdadeiro budismo e outros tiveram pouca oportunidade de ouvir, ler e estudar os sutras. A maioria deles caiu na armadilha da fama e lucro, perdendo a essência do Caminho para sempre. Que pena! Que lamentável! Não ignorem isto.

Mesmo que você tenha lido os meios expedientes ou verdadeiros ensinamentos de grandes sutras[5] ou transmitido os ensinamentos esotéricos[6] e exotéricos, a menos que abandone fama e lucro, não se poderá dizer que tenha despertado a Mente-Bodhi.

Alguns dizem que a Mente-Bodhi é o mais alto e supremo estado de iluminação de Buda, livre da fama e do lucro. Outros dizem que é aquilo que abrange um bilhão de mundos[7] em um único momento de pensamento, ou que é o ensinamento no qual nenhuma delusão surge. Outros ainda, dizem que é a mente que entra diretamente no plano de Buda. Estas pessoas, ainda sem entender o que é a Mente-Bodhi, de maneira devassa a caluniam. Elas estão, na verdade, muito longe do Caminho.

Reflita sobre sua mente comum, como está egoisticamente apegada, à fama e ao lucro. Está possuída pela essência e aparência dos três mil mundos, em um único momento de pensamento? Este pensamento único experimenta o portal do dharma do não nascido? Terá ela experimentado o ensinamento que não desperta uma única delusão? Não! Nessa mente apegada não há nada a não ser delusão de fama e de lucro, nada digno de ser chamado de Mente-Bodhi.

Muito embora desde os tempos antigos tenham existido Budas Ancestrais que usaram métodos seculares para realizar a iluminação, nenhum deles esteve apegado à fama e ao lucro, nem mesmo ao Dharma, quanto menos ao mundo comum.

A Mente-Bodhi é, como foi mencionado anteriormente, aquela que reconhece a natureza transitória do mundo – uma dos quatro percepções[8]. É completamente diferente daquela apontada pelas pessoas confusas.

A mente do não surgimento e a mente do aparecimento de um bilhão de mundos são práticas muito boas após se ter despertado a Mente-Bodhi. “Antes” e “após”, no entanto, não devem ser confundidos. Apenas esqueça de si e tranqüilamente pratique o Caminho. Esta é verdadeiramente a Mente-Bodhi.

Os sessenta e dois pontos de vista estão baseados no eu[9], portanto, quando visões egoístas aparecem, apenas faça zazen tranqüilamente, observando. Qual é a base de nosso corpo, suas posses internas e externas? Você recebeu seu corpo, cabelo e pele de seu pai e de sua mãe. Entretanto, as duas gotas de seus pais, vermelha e branca[10], são vazias do início ao fim, portanto, não há nenhum eu aqui. Mente, consciência discriminativa, conhecimento e pensamento dualístico amarram a vida. O que, em última instância, são inalar e exalar? Não são o eu. Não existe nenhum eu para se apegar. A pessoa deludida, entretanto, está apegada a si mesma e a iluminada está desapegada. Ainda assim vocês procuram medir o eu que é não eu e se apegam ao surgir que é não surgir negligenciando a prática do Caminho. Por falhar em cortar suas amarras com o mundo fogem do verdadeiro ensinamento e correm atrás do falso. Vocês se atreve a dizer que não estão agindo erroneamente?

[1] Nascido em uma família de Brahman (ver “O Mérito de Se Torna Monge” ) nota 9: no sul da Índia no segundo ou terceiro século AD, tornou-se um dos principais filósofos do Budismo Mahayana, sendo considerado como o Décimo Quarto Ancestral na linhagem da transmissão do Darma. Ele defendia a teoria de que todos os fenômenos são relativos, não tendo uma existência independente.


[2] No Budismo Mahayana se acredita que o fundador histórico do Budismo, Buda Xaquiamuni, atravessou inúmeras transmigrações antes de finalmente realizar a iluminação. Também se acredita que antes do Buda histórico tiveram milhares de pessoas que já tinham atingido o “Estado de Buda”, sendo um deles o Buda Pusya. Quando o Buda Xaquiamuni em uma de suas vidas anteriores encontrou este Buda, é dito que para mostrar seu respeito para Pusya, Xaquiamuni permaneceu com um pé levantado por sete dias e noites cantando um sutra.

[3] Kimnara é um deus indiano da música. O kalavinka é um pássaro mítico indiano com uma bela voz.

[4] Estas duas mulheres são consideradas entre as mais belas cortesãs da antiga China.

[5] “Ensinamentos verdadeiros” refere-se propriamente aqueles do Saddarma-pundarika. Avatamsaka, e do Mahaparanirvana Sutra e “livros” incluem todos os outros ensinamentos.

[6] Os ensinamentos esotéricos são encontrados nas escolas Shingon japonesa e Tendai, e refere-se a doutrinas e rituais com grande influências do hinduísmo, que se desenvolveram na Índia durante os séculos sete e oito. Estes ensinamentos, tendo propriedades mágicas, apenas podem ser revelados àqueles que foram devidamente iniciados. Os ensinamentos exotéricos se referem a todos os outros ensinamentos.

[7] Pensava-se que todo o universo, em sua integridade, fosse constituído de um bilhão de mundos.

[8] Em inglês insights. De acordo com o Novo Dicionário Aurélio: Compreensão repentina, em geral intuitiva, de suas próprias atitudes e comportamentos, de um problema, de uma situação.

Os outros três insights são: (1) que o corpo é impuro; (2) que a percepção conduz ao sofrimento; e (3) que a mente é impermanente.

[9] Em inglês: “self”.

[10] A gota vermelha representa o óvulo da mãe e a branca o esperma do pai.



(*) Pontos a Observar no Estudo do Caminho, Gakudo Yojin-shu, é um dos textos usados para aprofundar a compreensão dos iniciantes no Zen Budismo e para aqueles que se engajam no Curso de Preceitos. A tradução atual é uma revisão modificada e melhorada daquele texto original e se baseou em várias versões em Inglês organizadas por diferentes mestres:
Zen is Eternal Life, de Rôshi Jiyu Kennett,
Moon in a Dewdrop, editado por Kazuaki Tanahashi
Zen Master Dogen, An introduction with selected writings de Prof. Yuho Yokoi e Daisen Victoria

AS 4 NOBRES VERDADES DO SOFRIMENTO EMOCIONAL


com tradução: Alexandre Y. Okamoto



O Buda estabeleceu um caminho de quatro passos para a liberdade frente a emoções difíceis. O segredo, diz Anyen Rinpoche, é entender por que nossas emoções nos causam tanto sofrimento. Uma vez tendo sabido isso, o caminho para liberdade torna-se claro.

A maioria de nós começa a praticar o Budismo porque nos sentimos insatisfeitos e desiludidos com a vida, de uma forma geral ou por alguma razão específica. De fato, é raro encontrar alguém que se voltou para o Darma por pura curiosidade e não por uma real necessidade de aliviar algum desconforto ou situação dolorosa.

O que mais os praticantes do Darma têm em comum? O fato de que a maior parte de nós fez tudo o que podia para aliviar a infelicidade, mas não tivemos sucesso em encontrar a felicidade que pensávamos ser possível. Uma razão para isso é que nós nos enganamos frequentemente quanto às verdadeiras causas da infelicidade.

Por exemplo, nós podemos pensar que nossa infelicidade resulta de nos depararmos com uma barragem de situações indesejadas, ainda que estejamos fazendo todo o esforço para termos o tipo de vida que desejamos. A maior parte de nós sabe, em algum nível, que não podemos controlar as pessoas ao nosso redor ou os acontecimentos de nossas vidas. Mas, mesmo munidos dessa sabedoria, nós continuamos experienciando muita dor e infelicidade.



As Quatro Nobres Verdades Sobre As Emoções

No Budismo nós temos a primeira nobre verdade: a verdade do sofrimento. Eu conheci alguns budistas que querem evitar falar sobre a verdade do sofrimento. Eles dizem que isso irá desencorajar as pessoas a praticar o Darma porque soa deprimente. Eles querem encontrar um modo mais inspirador para descrever a experiência humana.

Mas vamos dar nomes aos bois. Todos nós sofremos diariamente de formas variadas — fisicamente, mentalmente e emocionalmente. E por mais que nos sintamos felizes por um momento, nós nunca sabemos quanto isso vai durar. Daqui um ano, um mês, uma semana, amanhã, ou até mesmo daqui cinco minutos, a mesma situação pode nos causar tristeza, raiva, inveja ou ressentimento. Nossas emoções mudam de momento a momento e trazem uma cascata de humores, sentimentos e padrões de pensamento — muitos dos quais aumentam nossa infelicidade e alguns dos quais são autodestrutivos.

Nossas emoções podem ser muito difíceis de lidar. Muitos de nós reconhecemos que nossas emoções estão fora de controle — ou nos controlando. Nós ansiamos por relações próximas e íntimas com os outros, mas nossos sentimentos são tão avassaladores que nós não conseguimos achar um modo de nos abrirmos para os outros e nos relacionarmos com suas experiências.

Por nos focarmos tanto em como nos sentimos, podemos nos tornar autoprotetivos e defensivos, constantemente preocupados se os outros vão nos machucar ou tirar vantagem de nós. Esses sentimentos de autoproteção podem ser parte de um ciclo emocional contínuo, alimentando até mesmo reações emocionais mais fortes que causam um caos em nossas mentes e em nossas relações interpessoais.

Nos ensinamentos budistas, nós chamamos essas emoções — como a raiva, o apego, a inveja e a arrogância — de “venenos”. Elas envenenam não apenas nossa própria felicidade, mas também nossas conexões com entes queridos, amigos, colegas de trabalho e a comunidade local. Soa familiar? É porque somos seres humanos e a verdade do sofrimento não pode ser evitada.

Quando nós realmente olhamos para todos os problemas que nossas emoções nos causam, podemos ficar surpresos. Nós usualmente colocamos a culpa por nossa infelicidade em coisas externas, tal como quando somos tratados ou se dirigem a nós de uma forma que não gostamos. Nessa situação, nossa reação comum é nos ressentirmos com a pessoa que sentimos que nos ofendeu.

Mas nós deveríamos tomar certo tempo para examinarmos a verdade sobre a questão. Não importa como outra pessoa nos trate, quão difícil uma situação seja, ou qual das nossas necessidades pessoais nós sentimos que não foram supridas, nós temos de fato o poder de transformar nosso próprio estado mental de ressentimento para um de paz e contentamento.

Quando nós refletimos dessa forma, nós vemos que na verdade o problema são nossas próprias emoções. Elas que estão infligindo tanta dor. Esta é a segunda nobre verdade: a origem do sofrimento. Nós sofremos porque nós não sabemos como lidar com nossas emoções e reações emocionais. Nós não percebemos que culpar os outros por nossa infelicidade nunca nos trará felicidade, então nós continuamos a lidar com nossos problemas da mesma forma de sempre, o que só nos traz mais sofrimento.

Nós sofremos porque continuamente escolhemos nos identificar com e focarmos em como nos sentimos. Mas nos identificarmos com nossas emoções é como jogar lenha na fogueira. Se nós escolhemos nos identificarmos com a raiva, ela queimará ainda mais quente e demorará mais para apagar. O mesmo é verdadeiro para os outros venenos como o apego, a inveja e a arrogância. Nos identificarmos com nossas emoções é uma receita infalível para mais infelicidade.

A verdade sobre a origem do sofrimento pode ser libertadora. Nós entendemos que a cada momento a felicidade está disponível para nós se escolhermos liberar nossas fortes emoções e relaxar. Essa é a terceira nobre verdade: a verdade da cessação. Se nós aceitarmos que nossas emoções são a causa do sofrimento, nós podemos erradicar o apego e a identificação a elas que causam tanto sofrimento.

Então, nós nos sentiremos motivados a praticar o Darma autenticamente e entusiasticamente. Essa é a quarta nobre verdade: a verdade do caminho. Todos os antigos mestres domaram suas emoções usando as ferramentas e técnicas apresentadas pelo caminho do Darma. Se nós praticarmos o caminho da mesma maneira que fizeram, nós podemos ter certeza de que mudanças positivas surgirão. E nós poderemos compartilhar essas mudanças positivas com as pessoas nas nossas vidas.



Você É O Que Você Sente: Uma Fórmula Para A Infelicidade

Nosso sofrimento pode parecer diferente dos sofrimentos dos outros, mas todos seres humanos experienciam emoções dolorosas e situações indesejáveis. Todos nós enfrentamos a separação de entes queridos, brigas com amigos e mortes de membros da família.

Isso pode trazer uma questão: “Todos no mundo todo estão cheios de perturbações emocionais?” Na verdade, baseado apenas na educação que recebi no Tibete, eu responderia que não. Claro, nós tibetanos temos emoções como qualquer ser humano, mas há aspectos da cultura tibetana que ajudam o povo a lidar com suas emoções de um modo que os fazem menos dominadores e exigentes.

Quando era garoto, ao interagir com minha família, minha vila e minha sangha, nós sempre focávamos nos outros. A coisa mais importante não era como cada pessoa se sentia individualmente, mas como o grupo todo se sentia. No Tibete, assim como em outras culturas budistas asiáticas, há muita valorização em colocar a felicidade e bem-estar do grupo acima de nossos sentimentos pessoais. Nesse tipo de ambiente cultural, o humor e a energia do grupo é deteriorada sempre que alguém foca demais em si mesmo.

Muitos norte-americanos comentam sobre o caráter alegre do povo tibetano, especialmente quando eles viajam para minha terra natal. Eu acredito que essa disposição feliz vem de como os tibetanos apreciam as conexões familiares e com a comunidade e como não gastam muito tempo focando em suas próprias emoções pessoais.

Eu não havia me dado conta de que esse era um aspecto peculiar da cultura tibetana até que deixei o Tibete. Quando eu vim para a América há mais de dez anos, eu percebi o forte relacionamento que os norte-americanos têm com suas emoções. As pessoas aqui estão focadas em suas emoções muito mais que os tibetanos, e elas são encorajadas a fazê-lo. Como resultado, eu percebi que a forma como as pessoas fazem as coisas aqui é bem o oposto de como nós fazemos no Tibete. Essa cultura valoriza o foco nos próprios sentimentos mais do que no humor e energia das pessoas e situações ao redor.

Qual é a consequência desse modo de se relacionar com as emoções? Primeiramente, isso pode nos tornar extremamente sensíveis. Nós reagimos emocionalmente a praticamente tudo e todos ao nosso redor. As emoções se tornaram o âmago da identidade norte-americana — você é o que você sente, quase literalmente. Até mesmo a língua inglesa expressa essa ideia. Nós nos identificamos diretamente com as nossas emoções dizendo, “I am angry” [“Eu estou com raiva”; porém “I am” pode ser lido também como “eu sou”] ao invés de “I have anger” [“Eu tenho raiva”], como em outras línguas como o espanhol. Na língua tibetana nós dizemos “a raiva está presente” e não conectamos a emoção com um “eu” de forma alguma.

Qual é o problema em conectarmos nossa identidade ou ego — nossa própria noção de um eu — com nosso estado emocional? Além de toda a dor e sofrimento que nossas emoções nos causam quando focamos nelas, as repetimos e nos obcecamos com elas, nós também perdemos nossa capacidade de nos conectarmos com os outros. Nós podemos expressar coisas que machucam as pessoas que amamos, sem percebermos que nossas palavras são nocivas.

Nossa identidade pessoal toma muito espaço. Nós podemos ter problemas ao nos relacionarmos com comunidades por causa da exigência de comprometermos nossas necessidades com as necessidades dos outros. Ou então nós nos retiramos porque precisamos sentir que temos espaço suficiente para respirar e por não querermos ser influenciados por ideias, palavras, ações e energias alheias. Como resultado, muitas pessoas se sentem isoladas, incompreendidas e solitárias.

No final, nós fizemos exatamente o oposto do que propusemos fazer. Nós pensávamos que nos protegermos e prestarmos atenção em nossos sentimentos nos faria mais felizes, mas, na verdade, nossa infelicidade que aumentou. No Darma nós temos um ditado: “Todas as pessoas desejam a felicidade, mas, ao invés disso, correm atrás do sofrimento.” Quando nós refletimos sobre nossos relacionamentos com nossas emoções. nós podemos ver o quanto isso é verdadeiro.

O caminho budista tem ferramentas que nos ajudam a treinar nossa mente para que não coloquemos tanta energia nas nossas reações emocionais. Ao reduzirmos gradualmente o foco que nós comumente colocamos em nossas emoções, nós começamos a nos identificar menos com elas. Ao nos identificarmos menos com nossas emoções, nós nos tornamos mais propensos a liberar pequenas situações e começamos a nos sentir mais relaxados. Isso inicia um diferente tipo de ciclo emocional. Ao começarmos a ver que liberar pequenas situações nos traz paz e felicidade, nós nos tornamos mais propensos a liberar outras situações. Quando nós relaxamos e deixamos ir, nós nos identificamos cada vez menos com nossas emoções. Quando nós nos identificamos menos com nossas emoções, nós ficamos menos autoprotetivos, menos emocionalmente reativos e nos sentimos mais felizes.



A Prática da Meditação: Mudando Seu Relacionamento Com Emoções Difíceis

Como transformamos os relacionamentos que temos com as emoções? Eu sugiro algumas técnicas diferentes, todas as quais se encontram na categoria de lojong ou treinamento da mente. Primeiramente, eu sugiro trabalharmos diligentemente para desenvolvermos a atenção plena [mindfulness] em relação às nossas reações emocionais. Eu não estou sugerindo que você se identifique com suas reações emocionais, mas simplesmente tente perceber o quão mutáveis seus humores e sentimentos são.

Uma maneira de fazer isso é contemplando a natureza impermanente da vida. Ao cultivar a atenção plena você se dá conta de que a energia de sua mente muda de momento a momento. Em um momento você se sente calmo e relaxado e, num próximo, agitado ou com medo. Você pode se sentir confortável ao sentar em uma área externa com os raios do sol apenas para perceber após cinco minutos que os mesmos raios de sol agora estão te queimando.

Nossas mentes podem pular do passado para o futuro, daqui para algum lugar do outro lado do planeta, dentro de alguns poucos momentos. Nossas emoções são imprevisíveis, momentâneas e inconstantes. Você deveria se perguntar: por que eu estou tão disposto a acreditar que cada sentimento que tenho são verdadeiros?

Depois que você observa sua mente por algum tempo, você começa a perceber que algumas vezes suas emoções surgem como reações a certas situações, e, outras vezes, elas surgem sem motivo aparente. Você pode estar sentado na almofada em um quarto silencioso, sem ninguém ao redor, e, repentinamente, sentir-se com raiva ou triste.

Uma forma como nós comumente reagimos a esse tipo de energia emocional é procurar pela sua causa — ou por algo a se culpar. Entretanto, como parte do seu treinamento de lojong, você pode começar a quebrar o hábito de conectar seus sentimentos e reações emocionais a causas externas. Ao invés de procurar por uma causa ou alguém a quem se culpar pela forma que você se sente, perceba o quão propenso você é a reagir emocionalmente de certas formas e o quão profundos são seus hábitos emocionais. Afinal, você pode ter emoções intensas até mesmo quando não há nada presente para desencadeá-los.

Ao começar a perceber que você tem certos hábitos emocionais dominantes e é propenso a certos tipos de sentimentos, você começa a se identificar menos com eles. Você pode relaxar mais e encontrar mais contentamento no momento presente.

Tudo o que os mestres da nossa tradição budista nos mostraram foi que a felicidade verdadeira vem de pacificar nossas emoções e aceitar as pessoas e circunstâncias ao nosso redor. Quando nós nos sentimos relaxados, confortáveis e confiantes, nós não precisamos mais interpretar as circunstâncias indesejáveis como um ataque. Nós podemos simplesmente enxergar a interação dos eventos, pessoas e circunstâncias ao nosso redor e nos sentirmos livres para fazer as escolhas mais adequadas. Este é um passo no caminho para a liberdade.



SOBRE ANYEN RINPOCHE

Anyen Rinpoche é o fundador e diretor espiritual do Orgyen Khamdroling Dharma Center em Denver (EUA), onde conduz um shedra [centro de estudos] para ocidentais e oferece ensinamentos tradicionais da linhagem Longchen Nyingthig. Ele é o autor de Dying with Confidence [Morrendo com Confiança (tradução livre)] e Momentary Buddhahood [Budeidade Instantânea (tradução livre)] (Editora Wisdom).

sexta-feira, 17 de março de 2017

Banalidade do Mal: porque absurdos não nos surpreendem mais


 Escrito por Breno França na  "Tecla SAP #11" da revista Papo de homem



Pegue uma dose de violência, misture pouco a pouco com o sensacionalismo e refogue na sociedade do espetáculo. Rende porção para uma nação inteira

No último artigo da Tecla SAP abordamos um conceito chamado False Flag que basicamente explica como pessoas em posição de poder são capazes de criar falsos inimigos através de uma velha tática militar nos fazendo ter medo e, consequentemente, flexibilizando nossos critérios a respeito de ações radicais ou extremas.

Hoje – não que isso seja uma continuação – vamos falar sobre um conceito que explica como ações radicais podem acabar se naturalizando perante nossa percepção se não tomarmos determinados cuidados. Conceito denominado apropriadamente de Banalidade do Mal.

Acusação

Em 1960, após longa investigação e busca, uma espécie de polícia secreta de Israel, chamada Mossad, encontrou na Argentina um ex-funcionário nazista chamado Adolf Eichmann. Responsável por gerir a logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio durante o período da Segunda Guerra Mundial, ele foi capturado e deportado para Israel onde aguardou 11 meses até que o seu julgamento começasse.

Acusado de 15 crimes de guerra, incluindo crime contra a humanidade, Eichmann foi condenado à pena de morte e acabou sendo enforcado em 1º de junho de 1962. O julgamento, porém, foi bastante polêmico. Primeiro porque, apesar de prevista na legislação israelense há muito tempo, esta foi a primeira vez que alguém foi condenado à morte naquele país e, segundo, porque o julgamento foi extremamente explorado pela mídia internacional com o aval da justiça do país.

Durante o julgamento, Eichmann ficava numa cabine a prova de bala e de som.

Cadeias de rádio, jornais, emissoras de televisão e revistas do mundo inteiro mandaram seus correspondentes para realizar a cobertura in loco do evento, entre eles a filosófa e teórica-política alemã Hannah Arendt, pela revista The New Yorker.


Arendt acompanhou o julgamento de perto e além de matérias para a revista, aproveitou a oportunidade para elaborar um novo conceito apresentado em 1963 por meio de seu livro Eichmann em Jerusalém, que segundo ela mesma, se tratava de "um relato sobre a Banalidade do Mal", além de "uma análise do indivíduo Eichmann."

A ideia que nasceu durante o julgamento e foi sendo elaborada até virar livro se dava por conta da naturalização que o líder nazista fazia das atrocidades cometidas por ele. Na ocasião, resumindo bastante a história, Eichmann nunca negou que teria, de fato, cometido tais crimes, mas se considerava "inocente no sentido das acusações". Como? Para Eichmann, ele estava apenas cumprindo ordens.
Julgamento

A postura estranha de Eichmann enquanto reú de um julgamento chamou a atenção da filósofa. Segundo ela, ele não passava de um homem medíocre, comum, incapaz de pensar nas consequências dos atos que cometeu e que, ao mesmo tempo que não nutria ódio pelo povo judeu, também não se arrependia de seus atos, o que levou Arendt a concluir que o nazista realmente não se sentia culpado.

Para muito além da discussão normal sobre se Eichmann era culpado ou não (para ela, ele era), havia, na visão de Arendt, uma questão maior a ser discutida ali. Uma questão a respeito da impessoalidade do indivíduo que comete tal mal, de uma suposta separação entre as atitudes que uma pessoa toma por vontade própria e aquelas cujo as circunstâncias lhe 'obrigam' a tomar, de uma instauração de um mal sistêmico que se manifesta através de pessoas que, assim como Eichmann, se negaram ao direito de pensar, passando a obedecer toda e qualquer ordem, transformando-se em verdadeiros robôs a serviço de um sistema, este sim, verdadeiramente maléfico.

Segundo essa perspectiva, "o indivíduo Eichmann" não é visto como um monstro ou um maníaco psicopatológico antissemita, mas apenas como um funcionário zeloso que sem ver alternativas, em busca de uma ascensão profissional e abdicando de sua capacidade de fazer julgamentos morais, não foi capaz de resistir às ordens que recebeu e tampouco de perceber sua contribuição para um mal generalizado.

Difícil, né?

Sentença

A publicação do livro de Arendt gerou muita polêmica.

Em grande parte porque, em outros trechos da obra, Arendt, apesar de judia, levanta a hipótese de que alguns líderes religiosos poderiam ter tomado outras atitudes na ocasião do Holocausto que fossem capazes de salvar vidas, o que foi considerado por muitos como uma culpabilização das vítimas pelo que aconteceu.


Link Youtube - trecho do filme sobre Hannah Arendt de mesmo nome, 2012.

Mas também, é preciso dizer, diversos teóricos impulsionados pela questão acima ou não, se voltaram contra Arendt, acusaram-na de estar contribuindo para a absolvição moral de um nazista, além de apontarem para a ignorância (voluntária ou não) da filósofa a respeito de um perfil psicológico, posteriormente melhor desenvolvido pela ciência, de um psicopata que, assim como Eichmann, não sente remorso ou culpa. Ou seja, uma crítica direta ao principal pilar da argumentação da alemã.

Isto posto, o que nos interessa aqui hoje é que, graças a reflexão provocada por ela a partir do episódio, o conceito de Banalidade do Mal foi explorado e ainda é reconhecido por uma série de linhas de pesquisa que atentam para o seguinte problema: indivíduos que se abdicam do direito de pensar e refletir a respeito das ordens e informações que recebem, podem estar colaborando para que um mal sistêmico se instaure.

Atos nos quais esse mal se manifesta, que hoje podem ser traduzidos desde crimes bárbaros até atos de corrupção generalizada, não podem perder jamais a capacidade de nos afetar, pois é preciso que eles provoquem reflexões e, consequentemente, mudanças. O que vai justamente na contramão da espetacularização da violência que vemos tantas vezes hoje, dado que, sensacionalizar atos desse tipo é o primeiro passo para banalizá-lo, num sistema onde precisamos impressionar para conseguir cada vez mais audiência.


Alguém aí já viu O Abutre, 2014?

Conforme a sensação de anestesia diante das barbaridades toma conta dos indivíduos, conforme o sistema mostra que estes indivíduos são impotentes diante das injustiças que lhes acometem e conforma cada um de nós passa a não mais se levantar contra aquilo que julgamos errado, cresce a tendência de que esse "mal" se banalize e que, através do mecanismo da Janela de Overton, caminhemos para que cada vez mais "mal" tenha espaço para dominar. O que pode ser resumido por um ditado já bem conhecido:


"Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados."

Edmund Burke

***

  • Tecla SAP é uma série de autoria de Breno França publicada quinzenalmente às quintas-feiras que se propõem a explicar ou traduzir conceitos complexos que estão presentes nas nossas vidas, mas não sabemos ou reconhecemos.publicado em 16 de Março de 2017.

Breno França
Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.

quarta-feira, 8 de março de 2017

"Chef" Zen oferece "Curso profissionalizante Culinário Gratuito" para desempregados




O sacerdote zen e ex-assistente social Rev. Daiken Nelson está combinando suas paixões para oferecer Curso Culinário Gratuito aos desempregados do Harlem. 

Rev. Daiken Nelson, um sacerdote zen budista e ex-assistente social, começou a oferecer treinamento culinário gratuito no Harlem desde setembro do ano passado para pessoas que se encontram desempregadas.

Seu projeto, o "Mandala Kitchens Project" , está aberto a qualquer pessoa, mas é voltado, principalemente para aqueles que precisam de um apoio extra: os sem-teto ou ex-detentos, bem como os veteranos e pessoas em tratamento por abuso de drogas ou problemas de saúde mentais.



Rev. Daiken Nelson. Photo by Risa Akita/ HEAPS magazine.

Sensei Nelson ensina todos os diferentes elementos do trabalho no serviço de Cozinha: a partir de uma variedade de diferentes técnicas de culinárias, trabalhando com legumes, carnes, molhos e Cozimento para as habilidades necessárias para a conquista de uma vaga a manutenção de um emprego, como organizar-se no tempo e trabalhar em equipe, bem como estudar para o "Food Handler's Certification" (a certificação nacional que permite trabalhar em qualquer estabelecimento alimentar nos EUA).


"Queremos que eles possam entrar em um lugar e dizer: 'Oh, claro, eu sei o que você quer dizer quando você diz 'redução' ou 'Eu fiz um molho bechamel para macarrão e queijo'", diz Nelson.


Nelson foi empregado nos restaurantes durante toda sua vida, começando na High School e na faculdade, e trabalhou como um assistente social por muitos anos. Começou sua prática Zen vinte e sete anos atrás em seu estado natal, Iowa, e mais tarde praticou no Zen Center de Los Angeles, onde foi ordenado por Nyogen Yeo Roshi em 1996. Ele passou a estudar com Roshi Bernie Glassman, Sensei Jishu Holmes, Roshi Pat Enkyo O'Hara e Roshi Joan Halifax.

Rev. Daiken Nelson. Photo by Risa Akita/ HEAPS magazine.

Em 2013, Nelson recebeu sua Transmissão Shiho / Dharma de Sensei Paco Genkoji Lugoviña, depois do qual ele foi "empurrado para fora do ninho, e disse para ir adiante e fazer o bem, para manifestar a prática."

O trabalho que ele faz agora exige muitas das habilidades adquiridas e duas das suas paixões em uma inspiradora "prática".

Nelson é o Professor Orientador do Pamsula Zen Center em Harlem, e seu negócio, o "Mandala Kitchens", atende eventos locais para ajudar a financiar o curso culinário gratuito. 

O Projeto Mandala Kitchens também visa enriquecer a vida pessoal dos participantes. Separando o programa de outros cursos culinários em geral, Nelson tece um componente "mindfulness" em suas sessões.


"Começaríamos sessões com vários minutos de meditação. Tanto para a vida pessoal das pessoas como para trabalhar em um ambiente estressante, que muitas cozinhas possuem por causa de alguns dos "egos" que acabam lá ", diz ele.


O treinamento funciona às segundas e terças-feiras, e às quartas-feiras, o grupo cozinha com a comunidade de Satya Sai Baba de Manhattan para sua refeição semanal, usando a cozinha de uma igreja episcopal local para preparar a comida. Isso dá aos participantes a oportunidade de cozinhar para um grande grupo, e doar-se de volta para a comunidade.


Nelson recebeu cerca de 60 pedidos para seu programa de treinamento após um artigo do jornal "Metro" sobre seu projeto. A última sessão começou no final de janeiro, com cinco participantes dedicados.


Eventualmente, Nelson gostaria de abrir um "pay-what-you-will café", em Nova York, um lugar que ele imagina ter "performances, música e arte nas paredes".

Mandala Kitchens Project blends Zen, social work, and the culinary arts
  • Sobre o Rev. Daiken Nelson, foi cozinheiro, assistente social, trabalhando com sem-teto, portadores de doenças crônicas mentais e ex-usuários de drogas. Além de monge Zen, Daiken é um Mestre de Reiki, Instrutor de Yoga, Fotógrafo e Escritor.

O jeito certo de se matar






Escrito por Brad Warner



Eu não conhecia Tyler muito bem, mas vários amigos meus sim. E eles ficaram muito tristes quando Tyler se matou ano passado.

Isso levou as pessoas a me perguntarem – e não pela primeira vez – qual é a opinião budista sobre o suicídio. Eu dei a mesma resposta que dou quando me perguntam sobre a visão budista do aborto: não sei muito bem. O que diz bastante sobre o budismo. Imagine uma pessoa que estudou e praticou o catolicismo por quase trinta anos sem saber qual é a opinião da Igreja sobre aborto ou suicídio. Simplesmente não é possível. Porque esses são assuntos muito sensíveis para os católicos. O fato de eu não ter uma resposta pronta para essa pergunta mostra que esses não são temas fundamentais para budistas da vertente zen.

Os suicídios por autoimolação muito famosos, executados por certos budistas no Vietnã, Tibet, e em alguns outros lugares, levou algumas pessoas à conclusão de que o budismo vê o suicídio como um ato nobre. O que não é verdade. Suicídio geralmente é enquadrado como algo a ser evitado, pois ele levaria a um renascimento menos auspicioso. Não se acredita que alguém é condenado ao inferno para sempre, da maneira como a tradição católica prega, mas sim que essa pessoa estará estabelecendo condições que farão seu próximo nascimento mais difícil do que a vida que ela decidiu terminar prematuramente. Isso porque o suicídio causa muita dor e sofrimento para aqueles que conhecem e amam a pessoa que comete o ato.


Eu mesmo lido com toda essa história de renascimento com bastante ceticismo. Mesmo que nós realmente renasçamos depois de morrer, como alguém pode dizer que tipo de vida uma pessoa provavelmente terá, sabendo apenas que ela se matou? Há muito mais na vida de um indivíduo do que apenas a maneira como acabou. Para aqueles que acreditam em renascimento, a totalidade da vida da pessoa é que determina como ela irá renascer, e não somente a última coisa que fez.

Ao lidar com o suicídio de alguém, especulações vagas sobre renascimento não ajudam muito. É uma maneira de evitar a verdadeira questão: O que fazer para lidar com o fato de que alguém que amamos se matou? Ninguém sabe o que fazer ou dizer quando algo do tipo acontece. O mais importante é ser solidário. Discutir que tipo de próxima vida a pessoa provavelmente terá não é se solidarizar, eu diria.

Eu estava perigosamente perto de me matar num dia ensolarado na primavera de 1992. Minha vida era uma merda. Eu estava morando numa casa decrépita punk rock em Akron, Ohio. Minha namorada tinha me largado. Não tinha dinheiro, habilidades ou perspectivas. Eu tinha lançado cinco discos por uma gravadora indie que conseguiram algumas críticas boas mas que não saíram do lugar em termos de vendas. Meus sonhos de fazer dinheiro como compositor e músico obviamente não iriam se realizar. Sentia que a única coisa que poderia esperar era uma existência insuficiente no lamacento meio-oeste.

Coloquei uma corda no porta-malas do meu carro e dirigi até o Gorge Metro Park, logo no final da rua onde eu morava. Meu plano era carregar a corda o mais longe possível das pessoas, achar uma árvore robusta e cometer o ato.

Mas quando saí do carro, vi algumas crianças brincando no campo bem do lado do estacionamento. Percebi que nunca conseguiria achar um lugar longe o suficiente para não haver uma chance de uma criancinha numa exploração, ou um jovem casal procurando um local para se pegarem, ou um velhinho com uma cesta de piquenique e uma foto de sua falecida esposa, me acharem. Depois pensei na minha mãe e como ela ficaria triste se eu me matasse. E pensei em Iggy, um amigo que havia se matado dez anos atrás e como eu ainda não havia superado. Coloquei a corda de volta no porta-malas e fui para casa.


"Se você tivesse me perguntado antes daquele dia de primavera em 1992, eu teria dito que era absolutamente impossível fazer qualquer uma das coisas que fiz daquele dia em diante."

Aquele dia me mudou para sempre. Decidi viver. Mas também decidi que eu não estava mais ligado a nada que veio antes daquele dia. Decidi que eu havia me matado conceitualmente. Agora poderia fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa.

Todas as melhores coisas que aconteceram em minha vida foram depois daquele dia. As coisas têm sido tão incríveis desde então que às vezes eu me pergunto se sou o personagem principal de um filme existencialista estranho e se haverá uma reviravolta final em que a plateia descobre que eu realmente me matei naquele dia.

Se você está pensando em suicídio, meu conselho é: vá em frente e se mate. Mas não faça com uma corda ou uma arma ou um punhado de filmes. Não faça isso destruindo seu corpo. Faça isso cortando fora sua vida antiga e indo numa direção completamente diferente. Eu sei que isso não é fácil. E que pode parecer quase impossível. Se você tivesse me perguntado antes daquele dia de primavera em 1992, eu teria dito que era absolutamente impossível fazer qualquer uma das coisas que fiz daquele dia em diante. Exigiu muito esforço antes das coisas começarem a mudar, mesmo um pouquinho. Mas quando elas mudaram, elas realmente mudaram.

No entanto, talvez você não esteja nesse momento. Talvez você só esteja lá tentando descobrir como reagir à notícia de que alguém com quem você se importava decidiu acabar com a própria vida. Talvez você só queira uma explicação. Talvez você só queira que as coisas sejam como antes. Talvez você pense que seria melhor ter feito algo de outro jeito, dito algo de outra forma, estado em outro lugar onde você poderia ter evitado tudo isso. E para tudo isso, digo: Você não está sozinho.

Todo mundo que já conheceu alguém que se matou têm as mesmas questões e já duvidaram de si mesmos da mesma maneira. Mas saiba que tudo isso são só pensamentos. Eles não querem dizer muito necessariamente. O cérebro humano gosta de organizar as coisas. Ele tenta o máximo possível dar sentido a tudo que encontra. Mas algumas coisas simplesmente não fazem sentido. Não gostamos disso. Mas é a verdade.

É difícil se libertar desses tipos de pensamentos. Mas é a única maneira de lidar com isso. Eles não levam a lugar nenhum. Não ajudam. Se libertar, como quase tudo, é mais fácil de falar do que fazer. Se você descobrir que você não consegue fazer isso, mesmo querendo muito, então só se liberte de se libertar. Aceite o fato de que você não consegue deixar para lá e vá fazer outra coisa. Qualquer coisa que você faça provavelmente será ok. Veja um filme, faça uma caminhada, observe os patos, vá trabalhar. Decida viver, e você pode fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa. Como eu fiz.

***
  • Sobre o autor:  Brad Warner, monge e Sacerdote do Soto Zen, baixista, cineasta, japonês-monster-movie-marketer e popular blogger. Ele é o autor de 'Hardcore Zen', 'Sit Down e Shut Up', e 'Zen Wrapped in Karma Dipped in Chocolate'
  • Traduções é uma série sob curadoria de Breno França publicada semanalmente às quartas-feiras.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A âncora não existe, mas sustenta a bailarina...

Porque as pessoas "criaram" Deus? Porquê, a medida que crescemos (como espécie e como indivíduo), intuitivamente, percebemos que a vida é indiferente a nossas necessidades e afetos. O mundo não liga se você ama sua avó. Ela adoecerá, e morrerá. O mundo é indiferente as suas vontades. Você precisando muito e desejando muito um passar por uma prova, se você não tiver as condições de se apropriar do conhecimento e a capacidade de expressa-la corretamente não vai passar. Se for uma competição a coisa piora pois você pode não ser tão bom quanto o corrente que pode até gostar menos ou ter menos ambição que você, mas tem mais talento e treino ou experiência (ou seja, causas e condições). 


Resumindo: queremos ter algum controle ou relação de influência/permuta com a realidade a nossa volta. Ou pelo menos uma sensação confortável de achar que temos.



Junto a isto existia o princípio "animista". De uma forma bem simplificada, a antropologia aponta que a humanidade facilmente transferiu suas impressões sobre sua próprias reações a todas as outras criaturas e até aos elementos da natureza. Se eu tenho fome... o vento que traz a chuva e molha as colheitas também tem fome... e assim nasceu o conceito de sacrifício.


Mas nada disto justifica a manutenção da ideia de Deus diante de do fato de que a natureza continua não ligando para sacrifícios ou preces... Porquê nossa intuição ou a nossa simples observação da vida não é capaz de superar o auto engano animista de crer em algo que não existe?


Resposta: Pelo mesmo motivo que as bailarinas experientes não caem quando giram.


Para manter o equilíbrio as bailarinas aprendem a girar olhando um ponto de referência real, em geral a palma da mão. Giram vários dias olhando a mão até que um dia absorvem o ponto de referência introjetado e podem retirar a mão, pois suas mentes se apoiam nesta "âncora" imaginária. A âncora imaginada da equilíbrio e apruma o corpo mantendo sobre o eixo ao girar. Mas não existe de fato.


É a própria mente que regula a mente... mas para isto finge que exite algo lá fora, lhe regulando.


O mesmo se dá com Deus. Ele foi uma ferramenta de controle do equilíbrio emocional social pré histórico. O resquício do animismo primitivo que era necessário para lidar com a indiferença que existe desdo mundo primitivo anterior a civilização. Poderíamos "girar" sem fixar a vista na mão que pusemos na frente do nosso rosto quando giramos mundo a fora...


Mas a maioria ainda acredita na âncora que criou para sí mesmo.



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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017


Leia um trecho de 'Nuvem da morte', sobre a adolescência de Sherlock Holmes


POR ANDREW LANE / / /16/08/2011

Capítulo 1

- Você aí! venha aqui!

Sherlock Holmes virou-se para ver quem era chamado e quem estava chamando. Havia centenas de alunos sob o sol radiante do lado de fora da Escola Deepdene para Meninos naquela manhã, todos vestindo um imaculado uniforme escolar, e, aos pés de cada um deles, como se fosse um cão leal, via-se um baú de madeira com alça de couro ou um punhado de malas muito cheias. Qualquer um poderia ter sido o alvo do chamado. Os professores de Deepdene faziam questão de nunca chamar os alunos pelo nome - era sempre "Você!", "Rapaz!" ou "Criança!". Isso, além de dificultar a vida dos garotos, mantinha-os alerta, e provavelmente era a razão desse costume. Ou então os professores, havia muito tempo, tinham desistido de tentar lembrar o nome de seus alunos; Sherlock não sabia qual era a explicação mais provável. Talvez as duas.

Nenhum dos outros alunos prestava atenção. Ou conversavam com parentes que tinham ido buscá-los, ou olhavam ansiosos para os portões da escola, à espera de verem a carruagem que os levaria para casa. Relutante, Sherlock virou-se para ver se o maligno dedo do destino apontava em sua direção.

Apontava. O dedo em questão pertencia, nesse caso, ao Sr. Tulley, o professor de latim. Ele acabara de aparecer na esquina do prédio, onde Sherlock estava, afastado dos demais alunos. Seu terno, normalmente coberto de pó de giz, fora especialmente limpo para o fim do período e os inevitáveis encontros com os pais que pagavam pela educação dos filhos, e seu capelo permanecia reto sobre a cabeça, como se colado ali pelo diretor.

- Eu, senhor?

- Sim, senhor. Você, senhor - respondeu irritado o Sr. Tulley.

- Dirija-se à sala do diretor quam celerrime. Lembra-se o suficiente das aulas de latim para saber o que isso significa?

- Significa "imediatamente", senhor.

- Então, mova-se.

Sherlock voltou o olhar para o portão.

- Mas, senhor... Estou esperando meu pai vir me buscar.

- Tenho certeza de que ele não irá embora sem você, rapaz.

Sherlock fez uma última e ousada tentativa.

- Minha bagagem...

O Sr. Tulley olhou com desdém para a velha arca de madeira de Sherlock - uma herança das viagens do pai quando era militar, coberta por manchas de sujeira e arranhões deixados pelo tempo.

- Não creio que alguém vá querer roubá-la, exceto, talvez, por seu valor histórico - ele disse. - Vou providenciar para que um monitor tome conta dela. Agora vá.

Relutante, Sherlock abandonou seus pertences - camisas e roupas íntimas, livros de poesia e cadernos nos quais adquirira o hábito de anotar ideias, pensamentos, especulações e alguma melodia que surgisse em sua cabeça - e dirigiu-se à galeria que, sustentada por colunas, levava à entrada do prédio da escola. Enquanto atravessava o mar de alunos, pais e irmãos, mantinha o olhar fixo no portão estreito, que vários cavalos e carruagens tentavam cruzar ao mesmo tempo.

O saguão da entrada era revestido de carvalho e adornado com bustos de mármore dos antigos diretores e patronos, cada qual em seu pedestal. Raios de sol atravessavam o espaço no sentido diagonal: entravam pelas janelas altas e incidiam sobre o piso de lajotas pretas e brancas, iluminando a poeira de giz que pairava no ar. O ambiente tinha o cheiro do ácido carbólico que as criadas usavam para limpar o piso todas as manhãs. A aglomeração no saguão dava a impressão de que a qualquer momento um daqueles bustos cairia. Alguns deles já tinham rachaduras que

marcavam a superfície de mármore, e isso dava a impressão de que, a cada ano, pelo menos um deles caía e era reparado.

Sherlock andava e desviava-se das pessoas, ignorado por todos, até livrar-se da multidão e chegar a um corredor que saía do saguão. A sala do diretor ficava alguns metros adiante. Ele parou na soleira, respirou fundo, ajeitou as lapelas e bateu na porta.

- Entre! - respondeu a voz alta e teatral.

Sherlock girou a maçaneta e empurrou a porta, tentando sufocar o nervosismo que se espalhava como raios por seu corpo. Estivera naquela sala apenas duas vezes: uma com o pai, quando chegaram a Deepdene, e, um ano mais tarde, com outros alunos, todos acusados de colar em uma prova. Os três líderes do grupo tinham sido castigados com a palmatória e expulsos; quatro ou cinco seguidores foram açoitados até o traseiro sangrar, mas permaneceram na escola; Sherlock, cujos trabalhos tinham sido copiados pelo grupo, escapara da palmatória dizendo que não sabia de nada sobre o episódio. Na verdade, ele sabia de tudo, mas sempre fora um excluído na escola, e, se o fato de deixar que outros alunos copiassem seu trabalho fosse torná-lo mais tolerado, se não aceito, ele não faria objeções éticas. Por outro lado, também não iria delatar os colegas que tinham colado, porque isso certamente lhe renderia uma surra, e talvez fosse mantido à força diante de uma das fogueiras que ardiam na frente dos alojamentos, até que sua pele começasse a fazer bolhas e as roupas fumegassem. A vida escolar era assim: um eterno malabarismo entre professores e colegas. E Sherlock odiava isso.

A sala do diretor era exatamente como ele lembrava: ampla, escura e com um cheiro que combinava couro com fumo para cachimbo. O Sr. Tomblinson estava sentado atrás de uma escrivaninha grande o bastante para que se pudesse jogar boliche nela. Era um homem corpulento, que vestia um terno ligeiramente apertado, talvez com a intenção de convencer-se de que não era tão grande quanto obviamente era.

- Ah, Holmes, não é? Entre, rapaz, entre. E feche a porta.

Sherlock fez como fora instruído, mas, ao fechar a porta, viu que havia outra pessoa na sala: um homem parado diante da janela, com um cálice de xerez na mão. A luz do sol se transformava em fragmentos de arco-íris ao incidir sobre o vidro da taça.

- Mycroft? - disse Sherlock, surpreso.

Seu irmão mais velho virou-se para encará-lo, e um sorriso tremulou tão rapidamente em seus lábios, que, se Sherlock tivesse piscado no momento errado, não o veria.

- Sherlock. Você cresceu.

- Você também - respondeu Sherlock. De fato, o irmão engordara. Estava quase tão roliço quanto o diretor, mas seu terno fora feito de forma a esconder o sobrepeso, não acentuá-lo.

- Você veio na carruagem de nosso pai.

Mycroft ergueu uma sobrancelha.

- Como diabos chegou a essa conclusão, jovem?

Sherlock encolheu os ombros.

- Notei que há vincos paralelos na sua calça, onde ela foi pressionada pelo estofamento, e lembro que, no assento da carruagem, ele tem um rasgo, que foi grosseiramente remendado há alguns anos. A impressão desse conserto ficou em sua calça, perto dos vincos. - Sherlock fez uma pausa. - Mycroft, onde está nosso pai?

O diretor pigarreou para atrair a atenção do aluno.

- Seu pai está...

- Papai não virá - Mycroft o interrompeu com um tom ameno. - Seu regimento foi destacado para a Índia, a fim de reforçar a força militar atual. Há certa agitação na região da fronteira noroeste. Sabe onde fica?

- Sim. Estudamos a Índia nas aulas de geografia e história.

- Bom menino.

- Não sabia que os nativos estavam causando problemas outra vez - resmungou o diretor. - Não foi divulgado pelo jornal "The Times", certamente.

- Não são os indianos - contou Mycroft. - Quando recuperamos o território da Companhia das Índias Orientais, os soldados que ali estavam foram postos de volta sob o comando do Exército. Eles consideram o novo regime muito mais... severo... que o anterior. Tem havido muito ressentimento, e o Governo decidiu aumentar drasticamente o tamanho do contingente na Índia, para dar-lhes um exemplo de como devem ser os soldados de verdade. Já é ruim lidar com uma revolução dos nativos; um motim dentro do Exército britânico é inaceitável.

- E haverá um motim? - perguntou Sherlock, sentindo o coração apertar como se fosse uma pedra que afundasse em águas profundas. - Papai estará seguro?

Mycroft encolheu os ombros largos.

- Não sei - ele respondeu com simplicidade. Essa era uma das coisas que Sherlock respeitava no irmão. Ele sempre dava uma resposta direta a uma pergunta direta. Não enrolava. - Infelizmente, não tenho todas as informações. Ainda não, ao menos.

- Mas você trabalha para o Governo - insistiu Sherlock. - Deve ter alguma ideia do que pode acontecer. Não é possível enviar um regimento diferente? Manter nosso pai aqui na Inglaterra?

- Estou no Ministério das Relações Exteriores há apenas alguns meses - respondeu Mycroft - e, embora esteja lisonjeado por você pensar que tenho o poder de alterar coisas tão importantes, receio não tê-lo. Sou um conselheiro. Apenas um funcionário administrativo, na verdade.

- Quanto tempo nosso pai ficará fora do país? - indagou Sherlock, lembrando o homem grande vestido com o paletó de sarja vermelha e os cintos brancos cruzando o peito, a pessoa de riso fácil e que raramente perdia a calma, que era seu pai. O jovem sentiu a pressão no peito, mas controlou as emoções. Se aprendera uma lição durante seu tempo em Deepdene, era que uma pessoa nunca deveria demonstrar emoção. Caso contrário, isso seria usado contra essa pessoa.

- Seis semanas até o navio chegar ao porto, estimo que uns seis meses no país, e mais seis semanas para a viagem de volta. Nove meses, ao todo.

- Quase um ano. - Sherlock abaixou a cabeça por um momento, recompondo-se, depois assentiu. - Podemos ir para casa agora?

- Você não vai para casa - respondeu Mycroft.

Sherlock ficou parado, absorvendo as palavras, sem dizer nada.


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- Ele não pode ficar aqui - avisou o diretor. - O lugar está sendo limpo.

Mycroft transferiu o olhar calmo de Sherlock para o diretor:

- Nossa mãe... não se sente bem - disse. - Sua constituição é, na melhor das hipóteses, delicada, e essa questão envolvendo nosso pai a abalou muito. Ela precisa de paz e tranquilidade, e Sherlock precisa de alguém mais velho que cuide dele.

- Mas eu tenho você! - protestou Sherlock.

Mycroft balançou a cabeça com tristeza.

- Agora vivo em Londres, e preciso trabalhar muitas horas todo dia. Receio não poder ser o guardião apropriado de um menino, especialmente um tão inquisitivo quanto você. - Ele se virou para o diretor, quase como se fosse mais fácil dizer a ele a informação seguinte que anunciá-la a Sherlock. - Embora a casa da família fique em Horsham, temos parentes em Farnham, não muito longe daqui. Um tio e uma tia. Sherlock ficará com eles durante as férias escolares.

- Não! - Sherlock explodiu.

- Sim - Mycroft anunciou calmamente. - Já está arranjado. Tio Sherrinford e tia Anna aceitaram hospedá-lo durante o verão.

- Mas eu nem os conheço!

- Mesmo assim, são da família.

Mycroft despediu-se do diretor enquanto Sherlock ficava ali, parado, tentando assimilar a enormidade do que acabara de acontecer. Não iria para casa. Não veria o pai e a mãe. Não exploraria os campos e os bosques em volta da mansão que fora seu lar por catorze anos. Não dormiria em sua antiga cama no último andar da casa, no quarto onde guardava todos os seus livros. Não iria escondido até a cozinha, onde a cozinheira lhe daria uma fatia de pão com geleia se ele lhe sorrisse. Em vez disso, passaria semanas com pessoas que não conhecia, comportando-se da melhor maneira possível, em uma cidade, em uma região sobre a qual não sabia nada. Sozinho, até voltar para a escola. Como suportaria?

Sherlock saiu com Mycroft da sala do diretor e seguiu-o pelo corredor até o saguão na entrada do prédio. A carruagem fechada os aguardava do lado de fora, com as rodas cobertas de lama e as laterais empoeiradas da viagem de Mycroft até ali. O brasão da família Holmes fora pintado na porta. O baú de Sherlock já tinha sido acomodado na parte de trás. Um condutor sério que Sherlock não reconhecia ocupava o assento na frente do veículo, segurando com uma atitude relaxada as rédeas que ligavam a carruagem aos dois cavalos.

- Como ele sabia qual era minha bagagem?

Mycroft fez um gesto com as mãos que indicava que aquilo não era nada especial.

- Eu vi sua arca pela janela do diretor. Era a única que estava abandonada. Além do mais, ela pertencia a nosso pai. O diretor teve a gentileza de mandar um menino dizer a nosso condutor para trazê-la para a carruagem. - Ele abriu a porta do veículo e fez um gesto que convidava Sherlock a entrar. Em vez disso, Sherlock olhou em volta, para a escola e para os outros alunos.

- Está agindo como se achasse que nunca mais irá vê-los - disse Mycroft.

- Não é isso - respondeu Sherlock. - É que esperava sair daqui para um lugar melhor. Agora sei que estou indo para um lugar pior. Ou, na melhor das hipóteses, tão ruim quanto este lugar.

- Não será assim. Tio Sherrinford e tia Anna são boas pessoas. Sherrinford é irmão de nosso pai.

- Então, por que nunca ouvi falar deles? - perguntou Sherlock. - Por que nosso pai nunca mencionou que tinha um irmão?

Mycroft encolheu-se quase imperceptivelmente.

- Receio que tenha havido um problema na família. As relações estiveram tensas por algum tempo. Mamãe retomou o contato por cartas há alguns meses. Não sei nem se nosso pai sabe disso.

- E é para esse lugar que você vai me mandar?

Mycroft bateu no ombro de Sherlock.

- Se houvesse alternativa, eu não teria tomado essa decisão, acredite. Agora, ainda precisa se despedir de seus amigos?

Sherlock olhou à volta. Havia garotos que ele conhecia, mas será que algum deles era de fato um amigo?

- Não - o menino respondeu. - Vamos embora.

A viagem até Farnham durou várias horas. Depois de passar pela cidade de Dorking, que era a área habitada mais próxima de Deepdene, a carruagem seguiu adiante por estradas rurais, e viajou sob árvores frondosas, passando por um ou outro chalé de sapê ou casa de alvenaria, e por campos cobertos de plantações de cevada. O sol brilhava no céu sem nuvens e transformava a carruagem em um forno, apesar da brisa que soprava fora. Insetos zuniam preguiçosos nas janelas. Sherlock ficou algum tempo vendo o mundo passar do lado de fora. Eles pararam em uma hospedaria para almoçar, e lá Mycroft comprou um pouco de presunto e queijo e um pedaço de pão. Em algum estágio da jornada, Sherlock adormeceu. Quando acordou, minutos ou horas depois, a carruagem ainda se movia pelo mesmo cenário. Por algum tempo ele conversou com Mycroft sobre o que acontecia na casa da família, sobre a irmã deles, sobre a saúde frágil da mãe. Mycroft perguntou sobre os estudos de Sherlock, que contou a ele alguma coisa sobre as diversas aulas a que tinha assistido, e mais sobre os professores que as administraram. Ele reproduziu vozes e maneirismos, e fez o irmão mais velho rir da crueldade e do humor das imitações.

Depois de um tempo surgiram mais casas ao longo da estrada, e logo entravam em uma cidade grande, com os cascos dos cavalos fazendo barulho nas pedras do calçamento. Debruçado na janela do veículo, Sherlock viu o que parecia ser uma sede administrativa: um edifício de três andares, todo de reboco branco e vigas pretas, com um grande relógio que pendia de um suporte sobre a porta dupla da entrada.

- Farnham? - ele conjecturou.

- Guildford - respondeu Mycroft. - Agora falta pouco para chegarmos a Farnham.

A estrada depois de Guildford percorria uma serra cercada por precipícios dos dois lados; campos e bosques se espalhavam como brinquedos, com trechos ocupados por flores amarelas.

- Esta serra é chamada de Hog's Back - Mycroft comentou.

- Há uma estação de semáforo por aqui, em Pewley Hill; é parte da cadeia que se estende desde o Almirantado em Londres até o porto de Portsmouth. Eles já ensinaram sobre semáforos na escola?

Sherlock balançou negativamente a cabeça.

- Típico - murmurou Mycroft. - Todo latim que um menino seja capaz de enfiar na cabeça, mas nada que possa ter alguma utilidade prática... - Ele suspirou. - O semáforo é um método para transmitir mensagens rapidamente por uma longa distância, o que levaria dias para um mensageiro a cavalo. As estações de semáforos têm no topo tábuas que podem ser vistas de longe, e nelas há seis grandes buracos que podem ser abertos ou fechados por obturadores. Dependendo dos buracos que são abertos ou fechados, as tábuas formam letras diferentes. Um homem em cada estação observa com um telescópio tanto a estação anterior quanto a seguinte. Se vê uma mensagem sendo escrita, ele a anota e a repete em sua estação. Dessa forma a mensagem viaja. Esta cadeia em particular começa no Almirantado, segue por Chelsea e Kingston e acompanha o Tâmisa até aqui, e continua até o porto de Portsmouth. Existe outra cadeia até o porto de Chatham e outras para Deal, Sheerness, Great Yarmouth e Plymouth. Foram construídas para que o Almirantado pudesse transmitir mensagens rapidamente para a Marinha, no caso de uma invasão francesa ao país. Agora, diga-me: se há seis buracos e cada um deles pode estar aberto ou fechado, quantas combinações diferentes existem que representem letras, números ou outros símbolos?

Lutando contra o impulso de dizer ao irmão que ele estava de férias, Sherlock fechou os olhos e fez cálculos durante um tempo. Um buraco podia ter duas posições: aberto ou fechado. Dois buracos podiam representar quatro posições: aberto-aberto; aberto-fechado; fechado-aberto; fechado-fechado. Três buracos... Ele trabalhou rapidamente estudando as possibilidades e logo percebeu que um padrão emergia.

- Sessenta e quatro - respondeu.

- Muito bem - Mycroft aprovou. - Fico feliz por ver que sua matemática, pelo menos, está afiada. - Ele olhou pela janela à direita. - Ah, Aldershot! Lugar interessante. Há catorze anos foi designado para lar do Exército britânico pela rainha Vitória. Antes, era só um vilarejo com menos de mil habitantes. Agora são dezesseis mil, e a cidade ainda está em crescimento.

Sherlock esticou o pescoço para enxergar o que havia além da janela ao lado do irmão, mas, de onde estava, só conseguia ver um amontoado de casas e o que talvez tivesse sido uma ferrovia que corresse paralelamente à estrada ao pé da encosta. Ele voltou a acomodar-se no assento e fechou os olhos, tentando não pensar no que o esperava.

Depois de um tempo sentiu que a carruagem descia uma ladeira. Logo depois eles começaram a descrever uma série de curvas, e o som do solo sob os cascos dos cavalos mudou. O calçamento de pedra dava lugar à terra batida. Ele fechou os olhos com mais força ainda, tentando adiar o momento em que teria de aceitar o que estava acontecendo.

A carruagem parou sobre o cascalho. O som de pássaros cantando e do vento soprando por entre as folhas das árvores invadiu o veículo. Sherlock ouviu passos que se aproximavam.

- Sherlock - Mycroft chamou com um tom gentil. - Hora de encarar a realidade.

Ele abriu os olhos.

A carruagem estava diante da entrada de uma casa ampla.

Construída com tijolos vermelhos, ela se erguia muito imponente com seus três andares, além do que parecia ser um conjunto de cômodos no sótão, a julgar pelas pequenas janelas no telhado de placas cinzentas. Um criado preparava-se para abrir a porta do lado de Mycroft. Sherlock se deslocou pelo banco e seguiu o irmão para fora do veículo.

Uma mulher os esperava no alto da escada de três largos degraus de pedra, no pórtico sombrio diante da porta de entrada. Estava vestida inteiramente de preto. O rosto era magro e contraído; os lábios eram apertados, e os olhos, estreitos, como se naquela manhã alguém tivesse trocado sua xícara de chá por vinagre.

- Bem-vindos à mansão Holmes; eu sou a Sra. Eglantine - ela disse com voz seca, áspera. - Sou a governanta. - E olhou para Mycroft. - O Sr. Holmes o receberá na biblioteca quando você puder. - Seu olhar deslizou para Sherlock. - E o criado vai levar sua... bagagem... para o seu quarto, Sr. Holmes. O chá da tarde será servido às três horas. Por favor, tenha a bondade de permanecer em seu quarto até lá.

- Não ficarei para o chá - informou Mycroft com sua voz suave. - Infelizmente, preciso retornar a Londres. - Ele se voltou para Sherlock, e em seus olhos havia uma expressão que era parte solidariedade, parte amor fraternal, parte advertência.

- Cuide-se, Sherlock - disse ele. - Virei buscá-lo para levá-lo de volta à escola no fim das férias, e se puder virei visitá-lo antes disso. Seja bom, e aproveite a oportunidade para conhecer o lugar. Acredito que tio Sherrinford tenha uma excelente biblioteca. Peça-lhe permissão para tirar proveito da sabedoria acumulada nesses livros. Vou deixar meus contatos com a Sra. Eglantine; se precisar de mim, mande um telegrama ou escreva uma carta. - Ele tocou o ombro de Sherlock para confortá-lo. - Essas pessoas são boas - disse, com a voz baixa o bastante para que a Sra. Eglantine não pudesse ouvi-lo -, mas, como todos da família Holmes, têm suas excentricidades. Fique atento e tome cuidado para não chateá-las. Escreva-me quando tiver tempo. E lembre-se: não é para o resto da vida. Serão apenas dois meses. Coragem. - Ele apertou o ombro do irmão.

Sherlock sentiu uma bolha de raiva e frustração subir pela garganta e a suprimiu. Não queria que Mycroft visse sua reação, e também não queria começar mal esse período de hospedagem na mansão Holmes. Suas atitudes nos próximos minutos determinariam o tom do restante da estada. Ele estendeu a mão. Mycroft soltou o ombro de Sherlock e apertou a mão do irmão, sorrindo com afeto.

- Adeus - Sherlock disse com o tom mais neutro que conseguiu empregar. - Diga à mamãe que a amo. E à Charlotte, também. E se tiver alguma notícia de nosso pai, por favor, avise-me. Mycroft virou-se e começou a subir a escada que levava à porta de entrada. A Sra. Eglantine, com seu rosto inexpressivo, e Sherlock olharam-se por um momento, e então ela se virou e conduziu Mycroft ao interior da casa. Sherlock olhou para trás e viu o criado lutando para equilibrar o baú sobre o ombro. Quando conseguiu equilibrá-lo, subiu cambaleante a escada atrás de Sherlock, que, cabisbaixo, o acompanhou.


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O piso do saguão era de ladrilhos pretos e brancos; o revestimento das paredes era de mogno; uma escada de mármore ornamentada descia dos andares superiores como uma cachoeira congelada, e quadros de cenas religiosas, paisagens e animais cobriam as paredes. Mycroft entrou, por uma porta à esquerda da escada, em um quarto que, pelo pouco que Sherlock conseguiu ver, era cheio de coleções de livros encapadas com couro verde. Um homem magro, idoso, num terno preto antiquado, levantou-se de uma cadeira estofada com um tom de couro exatamente igual ao das capas dos livros atrás dela. O homem tinha barba, o rosto era enrugado e pálido, e havia manchas amareladas em seu couro cabeludo.

A porta foi fechada enquanto eles se cumprimentavam com um aperto de mão. O criado seguiu em frente até o pé da escada, ainda equilibrando o baú sobre os ombros. Sherlock seguiu-o. A Sra. Eglantine estava ao pé da escada, na frente da biblioteca. Olhava, por cima da cabeça de Sherlock, para a porta fechada.

- Criança, tenha certeza de que não é bem-vinda aqui - a governanta sibilou quando Sherlock passou por ela.