quinta-feira, 16 de novembro de 2017

19 razões para apoiar a implantação de ciclovias

19 razões para apoiar a implantação de ciclovias

Infraestrutura para bicicletas pode ser criada com facilidade, bastando vontade política de fazê-lo. Foto: Willian Cruz
Foto: Willian Cruz
ciclovia nao prejudica o comercioA construção de ciclovias, em São Paulo e em outras cidades brasileiras, representa um enorme passo em direção a cidades mais justas, mais inclusivas e mais democráticas.
Mesmo que ainda existam pontos de melhora, que as ciclovias ainda não estejam totalmente conectadas e que não atinjam toda a cidade, elas representam melhor aproveitamento do viário, com mais segurança e saúde para seus cidadãos, menos estresse, menos congestionamento e menos mortes no trânsito. Uma cidade que nossos filhos merecem receber de nossas mãos.
Sabemos que há um crescente movimento contrário à implantação de ciclovias na capital paulista que, apesar de alegar motivos nobres como “qualidade” e “segurança do ciclista”, resumem-se a uma disputa mesquinha para preservar áreas de estacionamento e não reduzir em hipótese alguma o espaço de circulação do automóvel (nem mesmo na forma de redução da largura de faixas de rolamento em avenidas).
Ao mesmo tempo em que nega o direito de utilização segura das ruas em bicicletas, essa mobilização defende a continuidade do uso do espaço público para fins particulares, priorizando o estacionamento de automóveis em detrimento da proteção à vida das pessoas que utilizam o veículo bicicleta.
É importante ressaltar que estacionar o carro na rua não é direito garantido por lei, seja na esfera municipal, estadual ou federal, ao contrário da destinação de espaço seguro para circulação de bicicletas. Além disso, comodidades e interesses econômicos individuais não podem sobrepujar a coletividade, a proteção à vida e o direito do cidadão que utiliza a bicicleta de circular com mais segurança, sem se sentir ameaçado por pessoas que pensam de forma diferente e se utilizam de outros veículos.
A maior cidade do Brasil ainda está estacionada no século passado em relação à mobilidade. Negar o desenvolvimento sustentável e o uso da bicicleta como alternativa de transporte aos cidadãos é manter um conceito ultrapassado e já abandonado nas cidades mais desenvolvidas do mundo, além de negar a quem utiliza esse meio de transporte seu direito inalienável de escolha.



Na decisão de apoiar ou se opor à construção de ciclovias, deve-se pesar os pontos abaixo:

1Construir ciclovias significa preservar vidas, pois a bicicleta é frágil frente ao tamanho e velocidade dos demais veículos nas ruas. Queremos uma cidade onde idosos e crianças possam ocupar as ruas sem medo.
2Ciclovias promovem ocupação do espaço público, tornando-o espaço de convivência e não apenas de passagem. Espaços ociosos, pouco frequentados e abandonados pelo poder público e pelos cidadãos têm maior índice de criminalidade. Por isso, investir na bicicleta aumenta a segurança pública.
3Ciclovias são boas para o comércio, pois ciclistas são clientes potenciais que passam em baixa velocidade e não exigem grandes áreas de estacionamento, podendo facilmente parar em frente a uma vitrine, entrar numa loja, conhecer um serviço. No entorno da Ciclofaixa de Lazer, onde 100 mil pessoas circulam a cada domingo, comerciantes mais conectados com as tendências de mercado souberam aproveitar o fluxo de clientes potenciais e estão lucrando com isso. Um estudo da Portland State University mostrou que quem vai às compras de bicicleta visita as lojas mais vezes e, na média total, consome mais. Em Melbourne, na Austrália, comerciantes que investem em uma vaga de carro têm AU$ 65 de retorno por hora, mas substituindo esse espaço por seis vagas de bicicletas o retorno é de AU$ 283 por hora.
4Há demanda pelo uso da bicicleta em São Paulo. Pesquisa de Mobilidade da Região Metropolitana, realizada pelo Metrô em 2012, registrou 333 mil viagens diárias em bicicleta durante os dias úteis, mesmo com a infraestrutura ainda reduzida, deficiente e desconectada. Vale ressaltar que esse número já representava, naquele ano, mais do que o dobro das viagens de táxi, contabilizadas em 158 mil/dia.
5Em locais onde ciclovias foram implantadas na cidade, o uso da bicicleta cresceu espantosamente: na avenida Faria Lima, onde quase não passavam ciclistas, o contador instalado na ciclovia contabiliza hoje 2500 viagens diárias; na Consolação, contagens indicam aumento de 227% no fluxo de bicicletas após a implantação da ciclofaixa. Estrutura cicloviária induz demanda.
6Grande parcela da população só adotará a bicicleta a partir da proteção oferecida por áreas segregadas. Na pesquisa sobre Mobilidade Urbana realizada pela Rede Nossa São Paulo e Instituto Ibope, em 2012, entre as pessoas que afirmaram não utilizar nunca a bicicleta, 63% afirmaram que passariam a usar havendo melhores condições. Dentre essas pessoas, 27% traduziram essa falta de segurança expressamente em necessidade de ciclovias.
7A mesma pesquisa apontou que uma em cada quatro pessoas usa a bicicleta, ainda que eventualmente. Entre os jovens de 16 a 24 anos, esse número saltava para 47%. A quantidade de pessoas que utilizava a bicicleta “todos os dias” ou “quase todos os dias” também é bem maior do que se imagina: 7%. Somados, os ciclistas habituais e eventuais representavam, em 2012, 32% da amostra, praticamente um terço da população entrevistada e o dobro da parcela de pessoas que usava frequente ou eventualmente a moto (16%).
8O uso da bicicleta é benéfico à saúde dos cidadãos, pois o simples fato de usar a bicicleta como transporte os afasta do sedentarismo e de todos os problemas de saúde deles decorrentes. A atividade física regular previne doenças cardíacas e AVCshipertensão, ajuda a prevenir e a controlar o diabetes, aumenta a resistência aeróbica, reduz a obesidade, ativa a musculatura de todo o corpo, diminui a ocorrência de doenças crônicas, faz bem para a saúde do idoso e aumenta o tempo de vida.
9O uso da bicicleta melhora a qualidade de vida de quem a utiliza, não só pelo ganho em saúde mas também pela diminuição do stress, melhorando os relacionamentos interpessoais e humanizando o trânsito e a cidade.
10As ciclovias proporcionam uma retomada do uso das ruas pelas crianças, sendo uma opção de lazer que resgata uma faceta da infância há muito esquecida nas regiões mais urbanizadas da cidade. Já temos crianças utilizando as ciclovias junto a seus pais e, conforme sua aceitação, abrangência e conectividade aumentarem, esse fenômeno tende a crescer, com o potencial de permitir que pedalem sozinhas até a escola.
11Quem opta pela bicicleta economiza tempo, sobretudo nos horários de pico, quando a velocidade média dos automóveis chega a meros 6,9 km/h em alguns casos – a mesma de alguém caminhando com pressa. Os Desafios Intermodais realizados desde 2006 comprovam que a bicicleta é bem mais rápida que o carro nesses horários – em um deles, chegou antes até mesmo do helicóptero, que necessita aguardar autorização para decolagem e tráfego.
12A bicicleta traz economia em dinheiro, pois os custos com compra, utilização e manutenção são muito menores que o do automóvel, representando redução de gastos até para quem a utiliza em substituição ao transporte público. Além de ser um fator importante para as camadas sociais mais baixas, o valor economizado pode ter destino em consumo, aquecendo comércio e serviços.
13O uso da bicicleta é benéfico à cidade, por ser um meio de transporte não poluente. Conforme pesquisa do Instituto Saúde e Sustentabilidade, nos próximos 16 anos a poluição atmosférica matará 256 mil pessoas no Estado (quase 44 pessoas por dia) e a concentração de partículas poluentes no ar levará a internação de 1 milhão de pessoas e um gasto público estimado em mais de R$ 1,5 bilhão, com pelo menos 25% das mortes (59 mil) ocorrendo na capital. Construir ciclovias, portanto, preserva vidas também de forma indireta e diminui o gasto público com o sistema de saúde e o da população com medicamentos para tratar doenças causadas pela poluição.
14A bicicleta é um veículo silencioso e sua adoção em maior escala trará uma diminuição da poluição sonora da cidade.
15A construção de vias para bicicletas têm um custo muito menor que a de vias para veículos motorizados. Quanto mais cidadãos as adotarem, menor será o gasto com criação e manutenção do viário a longo prazo, economizando o dinheiro da cidade.
16O incentivo e a garantia de uso seguro da bicicleta democratizam o deslocamento, aumentando o acesso dos cidadãos às diversas áreas da cidade, ainda que as condições de transporte coletivo dificultem a chegada a alguns locais. Todos os cidadãos são importantes para uma cidade, não apenas os que se deslocam em automóveis e essa mensagem é passada claramente com a construção de ciclovias.
17Ciclovias atuam no sentido de reduzir os congestionamentos e a lotação dos transportes públicos, ao passo que cada vez mais pessoas troquem suas opções de deslocamento pelas bicicletas, ainda que eventualmente.
18Plano Diretor Estratégico de São Paulo (PDE), que tem força de Lei Municipal, tem como uma de suas diretrizes a “prioridade no sistema viário para o transporte coletivo e modos não motorizados”. Isso significa que o uso de bicicletas deve ter prioridade sobre o uso do automóvel. Portanto, a construção de ciclovias cumpre uma das diretrizes dessa Lei. O PDE também determina que a cidade deve “desestimular o uso do transporte individual motorizado”, “adaptar as condições da circulação de transportes motorizados a fim de garantir a segurança e incentivar o uso de modais não motorizados”, “garantir o deslocamento seguro e confortável de ciclistas em todas as vias” e “implantar redes cicloviárias”, entre outros apontamentos.
19Da mesma maneira que o PDE, a Política Nacional de Mobilidade Urbana, que tem força de Lei Federal, tem como uma de suas diretrizes a “prioridade dos modos de transportes não motorizados sobre os motorizados”, determinando que o uso de bicicletas deve ter prioridade sobre o uso do automóvel. A construção de ciclovias cumpre, também, uma das diretrizes dessa Lei, que determina ainda a “dedicação de espaço exclusivo nas vias públicas para os serviços de transporte público coletivo e modos de transporte não motorizados”, entre outras citações.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

"As pessoas estão perdendo a cabeça. E precisamos acordar para isso!'

Mestre da “Atenção Plena”, Jon Kabat-Zinn: "As pessoas estão perdendo a cabeça. E precisamos acordar para isso!'

Por Robert Booth ~ Domingo 22 de outubro de 2017 no www.theguardian.com

Ao tirar do budismo a prática meditativa, Kabat-Zinn foi pioneiro em uma abordagem meditativa usada em todo o mundo para tratar dor e depressão. Ele fala sobre Trump, 'McMindfulness' e como uma “visão” que teve em 1979 levou a uma mudança na consciência do mundo.

A polícia em Cambridge, Massachusetts, não mostrou piedade de Jon Kabat-Zinn em maio de 1970. O homem agora considerado o padrinho da “”Atenção Plena” moderna” era um estudante de pós-graduação do “Massachusetts Institute of Technology” (MIT) e um manifestante contra a guerra do Vietnã, agitando ao lado dos “Black Panthers” e do dramaturgo francês Jean Genet.
"Eu tenho todo o meu rosto maltratado", ele lembra. "Eles colocaram um instrumento no meu pulso chamado garra, que eles apertaram para gerar enormes quantidades de dor sem deixar marcas. Mas eles certamente deixaram muitas marcas no meu rosto. Eles me puxaram para trás da delegacia de polícia e me espancaram.

Hoje, aos 73 anos, o rosto restante e alinhado de Kabat-Zinn não mostra as cicatrizes desse agressão fora de uma delegacia de polícia, quando apoiava a uma greve nas universidades, deixando-o com pontos de sutura.

O ativista anti-guerra, muito "machão", revoltado com o papel do MIT na pesquisa de armas nucleares é hoje o catalisador por trás do interesse crescente do ocidente na meditação consciente, tendo trazido práticas de contemplação budista para uma cultura secular quase 40 anos atrás.

Ele foi pioneiro em um curso de redução de estresse baseado em “Atenção Plena” de oito semanas na Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts para pacientes com dor crônica, aproveitando os fundamentos da meditação consciente, como ensinado pelo Buda, mas com os aspectos religiosos do budismo retirados. "Eu me inclinei para para a origem, para estruturá-lo e encontrar maneiras de falar sobre isso evitando o tanto quanto possível o risco de ser visto como proselitismo budista, ou “nova era”, misticismo oriental ou simplesmente soar falso", diz ele.

Kabat-Zinn meditava desde 1965, mas não tinha intenção de adotar o budismo diretamente. "Entrei nisso através da porta do Zen, que é uma abordagem muito irreverente ao budismo", diz ele. Ele fala muito sobre o dharma, o termo para o ensino do Buda, mas que o termo não é uma exclusividade budista e observa que, insistir que a “meditação consciente” seja uma exclusividade budista é como dizer que a gravidade é “inglesa” porque foi identificada primeiro por Sir Isaac Newton.

A “UMass Stress Reduction Clinic” abriu suas portas em 1979 e atendeu pessoas com dor nas costas crônica, vítimas de acidentes industriais, pacientes com câncer e às vezes paraplégicos. Kabat-Zinn definiu a meditação consciente como "a consciência que surge de prestar “Atenção”, de propósito, no momento presente e sem julgamento". Concentrando-se na respiração, a ideia é cultivar a sua atenção no corpo e na mente, como é momento a momento, e assim ajudar com a dor, física e emocional.Participants meditate during a class at Unplug, a new meditation studio in Los Angeles.

"Muitas vezes o exercício se dá em apreender que as sensações estão em constante mudança, mesmo as altamente desagradáveis e, portanto, são impermanentes", diz ele. "Isto dá origem à experiência direta de que "a dor não é você". Como resultado, alguns de seus pacientes encontraram maneiras de "ter uma relação diferente com a dor", enquanto outros sentiram que suas dores diminuíam. O título de seu best-seller de 1990 sobre a sua clínica capta sua abordagem para aceitar o que a vida lança em você: “Full Catastrophe Living“, Algo como “vivendo em plena catástrofe”.

Agora, em 2017, Kabat-Zinn vibra com uma crença urgente de que a meditação é o "ato radical de amor e sanidade" que mais precisamos na era de Trump, com a aceleração das mudanças climáticas e desastres como o ocorrido na Grenfell Tower em Londres.

Ele tem uma plataforma para usar. Os cursos de “Atenção Plena”, que nasceram de seu trabalho, estão sendo lançados no Reino Unido para estudantes, condenados, funcionários públicos e até mesmo políticos. É prescrito no NHS em algumas áreas para prevenir a depressão recorrente, com 2.256 pessoas que completaram cursos de oito semanas no ano passado. O curso reduz a probabilidade de recaída em quase um terço, de acordo com pesquisas. Nos EUA, os campeões de basquete da NBA, Golden State Warriors, são os mais praticantes depois que seu treinador, Steve Kerr, fez da “Atenção Plena” um dos principais valores da equipe.

"Ele é o Sr. Mindfulness em relação à cadeia secular", diz Lokadhi Lloyd, professor de meditação em Londres, que cursou os cursos liderados por Kabat-Zinn. "Sem ele, eu não acho que a “Atenção Plena” teria chegado a proeminência que tem".

Partidários como Willem Kuyken, professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford, sugerem que o trabalho pioneiro de Kabat-Zinn poderia algum dia vê-lo mencionado no mesmo scopo que Darwin e Einstein. "O que eles fizeram para a biologia e a física, Jon fez uma nova fronteira: a ciência da mente e do coração humanos", diz Kuyken.

Mas a “Atenção Plena”, agora, deve ser aproveitada de uma maneira maior, para fazer nada menos que desafiar a maneira como o mundo é. Esta é última missão que ele se impôs quando voou para Londres para falar com parlamentares de 15 países sobre como agir com mais sabedoria.

"Se esta é apenas outra moda, eu não quero ter parte dela".

Há sinais de que muitos outros concordam com o seu potencial comercial da ""Mindfulness". Globalmente, 18 milhões de pessoas se inscrevem no aplicativo Headspace , praticando meditações de “Atenção Plena” através de seus fones de ouvido. Nas lojas, a gama de roupas "conscientes" não é menos presente (tem até "calcinha" de "mindfulness" onde a única coisa consciente parece ser a marca) - livros para colorir e mesmo quebra-cabeças dot-to-dot testemunham a crescente ubiquidade da idéia - mesmo que Kabat -Zinn ridiculariza muito isso como "McMindfulness".

Seu trabalho atraiu sua participação de céticos, como Miguel Farias e Catherine Wikholm, autores de The Buddha Pill , que advertem que a “Atenção Plena” não é cura e avisa de um lado sombrio, se não for ensinado corretamente.

Wikholm, um psicólogo clínico, disse que "o fato de que a meditação foi projetada principalmente, não nos tornar mais felizes, mas para destruir nosso senso de auto individual - quem sentimos e pensamos que somos a maior parte do tempo - é muitas vezes ignorado na ciência e da mídia sobre isso ".

Houve também 20 relatórios de casos publicados ou estudos observacionais onde as experiências de meditação das pessoas eram angustiantes o suficiente para justificar um tratamento posterior, de acordo com um estudo recente. Eles incluem psicose "induzida pela meditação", mania, despersonalização, ansiedade, pânico e lembranças traumáticas re-experimentandas.

Kabat-Zinn e outros professores altamente experientes apontam que estes são incidentes raros e principalmente relacionados a retiros intensivos em vez de cursos de rotina onde os meditadores praticam talvez uma meia hora por dia. Mas ele também admite que "90% da pesquisa [nos impactos positivos] é inferior", com estudos importantes ainda necessários.

A decisão de Kabat-Zinn de investir sua energia na tentativa de injetar consciência em políticas globais não deve surpreender. No tumulto político no MIT no final da década de 1960, ele ajudou a estabelecer o Comitê de Coordenação da Ação da Ciência para fazer campanha contra o trabalho da universidade com o Departamento de Defesa, incluindo pesquisas sobre mísseis nucleares de múltiplas cabeças.

Suas atividades regularmente fizeram a primeira página do jornal estudantil, The Tech , quando ele apareceu em plataformas com Noam Chomsky, apoiou o Viet Cong e, em uma ocasião, traduziu o chamado radical revolucionário do dramaturgo francês Jean Genet. Eles meditaram antes de ações, mas uma semana relataram que ele e outros invadiram uma reunião da MIT Corporation cantando: "Chute o burro da classe dominante - pesquisa de guerra final" e "Poder para as pessoas".

Em 1969, ele disse uma reunião : "Estamos nos aproximando de um ponto crítico único na história. Estamos nos aproximando de um desastre do ego de grandes proporções - superpopulação, poluição de todos os tipos concebíveis, incluindo mental ". "Estamos preocupados com isso agora mesmo", diz ele. "Trump é mais louco do que qualquer coisa que já vimos ... Este é o nosso trabalho no momento, para ver se podemos manter um grau de sanidade e reconhecimento dos medos e preocupações daqueles que não vêem o mundo do jeito que fazemos . A tentação é cair em campos onde você desumaniza o outro, e não importa o que eles façam, eles estão errados, e não importa o que fazemos, estamos certos ".

As ameaças de Trump para aniquilar a Coréia do Norte são um exemplo de um povo "perdendo a cabeça", assim como o envenenamento por chumbo do abastecimento de água em Flint , Michigan. Este mês ele está viajando lá para falar em benefício para algumas das vítimas da decisão de 2014 de substituir o suprimento por água subtraída. "A mente humana, quando não faz o trabalho de “Atenção Plena”, acaba tornando-se um prisioneiro de suas perspectivas miopes que me coloca acima de tudo", diz ele. "Estamos tão envolvidos nas perspectivas dualistas de" nós "e" eles ". Mas, finalmente, não há "eles". É para isso que precisamos acordar ".

Kabat-Zinn acaba de escrever um artigo argumentando que, em meio à "ascendência de Trump e as forças e valores que ele representa", "racismo endêmico e violência policial" e "injustiças sociais e econômicas persistentes ... isso pode ser um momento crucial para nossa espécie para nos fazer sentir ... mobilizando-se no mundo dominante ... o poder da “Atenção Plena".

A meditação é o "ato radical de amor e sanidade" que pode ajudar a gerenciar o medo e a aversão que ele acredita apoiar tantos problemas do mundo. O desastre da Grenfell Tower que custou cerca de 80 vidas foi, em parte, a uma falta de “Atenção Plena” - "escuta profunda e autêntica" - por tomadores de decisão que claramente sentiram uma aversão às queixas dos moradores.

"Havia muitas indicações e motivos para examinar a segurança desse edifício com o revestimento mais barato. As pessoas estavam dizendo: "Esta é uma armadilha de fogo", diz ele. "E porque essas pessoas estavam sem meios ou significado político, acho que eles foram sistematicamente despreocupados. Eles pensaram: "Não é meu trabalho atender a isso". Todos dizem: "Por que não fizemos alguma coisa?", Mas a razão é que ninguém disse: "Vamos prestar “Atenção” ao que está sendo dito!"

Kabat-Zinn nasceu em uma família judia não praticante e cresceu no alto Manhattan, perto de onde seu pai trabalhou como cientista na Universidade de Columbia. Foi difícil crescer nas ruas em torno de Washington Heights e ele brinca, ele é "o meditador mais improvável do mundo - um garoto das ruas de Nova York".

Ele começou a meditar enquanto estudava biologia molecular no MIT em 1965 quando participou de uma conversa do zen budista Philip Kapleau que  "tirou o topo da minha cabeça". Em 1979, casado, com filhos e trabalhando na Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts, ele teve uma "visão" de 10 segundos em um retiro de meditação na floresta, a 80 quilômetros a oeste de Boston. "Vi em um flash não apenas um modelo que poderia ser posto em prática, mas também as implicações a longo prazo", diz ele.

Kabat-Zinn previu clínicas de “Atenção Plena” Plena plena espalhando-se para hospitais e clínicas com milhares de praticantes ganhando a vida em uma boa causa. "Porque era tão estranho, quase nunca mencionava essa experiência para os outros", diz ele. "Mas foi tão convincente que decidi tomar o coração da melhor maneira possível".

Qualquer um que tenha tentado meditar sabe o quão difícil é quando a mente continua vagando em pensamentos, às vezes triviais, às vezes não. A dificuldade que as pessoas em dor crônica deve ter enfrentado em abraçar a indescritível qualidade de “Atenção Plena” não pode ser superestimada. Mas Kabat-Zinn se tornou um professor experiente. Por mais de 30 anos, "todas as manhãs às cinco horas", ele iria fazer yoga e depois se sentar na almofada e meditar. Ele permaneceu com seu programa de redução de estresse de oito semanas até 2000, espalhando sua influência através de livros, CDs de meditação guiados, ensinando em retiros e intermináveis conferências.

Em 2002, o psicólogo galesa Mark Williams trabalhou com colegas em Cambridge e em Toronto para combinar o programa dos EUA com terapia cognitivo-comportamental (CBT) para formar um curso de CBT com oito semanas de conscientização que, em 2004, foi recomendado para prescrição no NHS para a depressão recorrente. Williams ensinou “Atenção Plena” ao comediante Ruby Wax na Universidade de Oxford quando ela estava enfrentando uma depressão profunda. Ela então popularizou isso através do livro Sane New World de 2013 .

A terapia cognitiva baseada na “Atenção Plena Mental (MBCT) demonstrou ser pelo menos tão eficaz quanto os antidepressivos na prevenção da recaída e, em um experimento de dois anos pela equipe de Willem Kuyken , 44% da coorte MBCT para recaída em comparação com 47% das recaídas com tratamento com medicação. Em um ensaio de 173 pessoas , também foi encontrado resultados que apontam para redução da gravidade da depressão atual, com uma redução média de 37% nos sintomas. Está sendo amplamente ensinado no setor privado com professores MBCT qualificados que oferecem cursos em salas de paróquia, locais de trabalho e além.

"A ciência da meditação está em sua infância", diz Kabat-Zinn. "Precisamos de mais uma década de estudos. As pessoas falam sobre inteligência artificial e aprendizagem de máquinas, mas não arranhamos a superfície do que a inteligência humana é realmente sobre tudo ".

Então, agora, Kabat-Zinn viaja pelo globo. Ele é fascinado por ensinar na China, onde detectou um renascimento nas tradições contemplativas do país como forma de enfrentar seus desafios. Ele lidera retiros intensivos de cinco dias nos EUA, corre cursos na Áustria, Coréia e Japão. Ultimamente, ele conversou com David Simas, ex-conselheiro da Casa Branca e agora diretor executivo da Fundação Obama, que foi inspirado a aceitar a meditação de Kabat-Zinn. "Eu sinto que é minha responsabilidade, uma vez que, em grande parte, as pessoas me culpam por começar esta bola inteira rolando para participar da maneira que eu puder", diz ele. "Isto é, em algum sentido, a fruição daquela visão de 10 segundos que tive em 1979".

• Este artigo foi alterado em 23 de outubro de 2017. Uma versão anterior disse que a dificuldade que as pessoas em dor crônica deve ter enfrentado não pode ser subestimada. Isso foi corrigido para superestimado.


https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2017/oct/22/mindfulness-jon-kabat-zinn-depression-trump-grenfell

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Porque fatos não nos fazem mudar de ideia?


Um estudo realizado pela faculdade Stanford na década de 70, repetido exaustivamente até os dias de hoje, demonstram que “Uma vez formada uma opinião sobre um assunto, as “impressões são notavelmente perseverantes”, ou seja, “fatos” não nos fazem mudar de “ideia”, mesmo, ou principalmente, se estes fatos contrariam nossa opinião.

Mesmo quando existe a evidência de que “suas crenças foram completamente refutadas, as pessoas não conseguem fazer as revisões adequadas dessas convicções,” notaram os pesquisadores, tanto nos anos setenta quanto nas revisões de hoje em dia. 

Mas como nos tornamos assim?

Em seu novo livro, O enigma da razão (Harvard), os cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber tentam responder essa pergunta. Mercier, que trabalha num instituto de pesquisa francês em Lyon, e Sperber, hoje na Universidade da Europa Central, em Budapeste, apontam que a razão é um traço evolutivo, como o bipedismo ou o tricromatismo. Ele surgiu nas savanas da África e precisa ser compreendido nesse contexto e se desenvolve mais ou menos desta maneira:

"A maior vantagem humana sobre outras espécies é sua habilidade de cooperar. Cooperação é algo difícil de se estabelecer e ainda mais difícil de se manter. Para qualquer indivíduo, a exploração de um outro indivíduo é o melhor curso de ação. A razão não se desenvolveu para nos permitir resolver problemas abstratos e lógicos ou para nos ajudar a tirar conclusões de dados estranhos, mas sim para resolvermos os problemas decorrentes de se viver em grupos colaborativos." 

“Razão é uma adaptação que os humanos em nichos hipersociais desenvolveram para si”, Mercier e Sperber escrevem. Hábitos da mente que parecem estranhos ou atrapalhados ou simplesmente burros do ponto de vista “intelectualista” se mostram sagazes quando vistos de uma perspectiva “interacionista”.


Considere o que ficou conhecido como “viés de confirmação”: a tendência que as pessoas têm de acolher informações que suportam suas crenças e rejeitar informações que as contradizem. Das várias formas identificadas que o pensamento falho assume, o viés de confirmação é uma das melhores catalogadas; é o assunto principal de uma quantidade de experimentos dignas de um compêndio.

Um dos experimentos mais famosos a respeito foi feito, novamente, em Stanford. Pesquisadores reuniram um grupo de estudantes que tinham opiniões divergentes sobre a pena de morte. Metade dos alunos era a favor e acreditava que ela desencorajava crimes e a outra metade era contra e achava que a punição não tinha nenhum efeito na criminalidade.

Foi pedido que eles avaliassem dois estudos. Um fornecia dados que sustentavam o desencorajamento de crimes e o outro fornecia dados que questionavam isso. Ambos os estudos — você adivinhou — eram inventados, e foram projetados para apresentar estatísticas que eram igualmente persuasivas, objetivamente falando. Os estudantes que de início apoiavam a pena de morte avaliaram os dados pró-pena como altamente críveis e os anti-pena como duvidosos; os alunos que originalmente se opunham a pena de morte fizeram o contrário. No final do experimento, foi perguntado novamente aos estudantes sobre suas opiniões. Aqueles que começaram apoiando a pena capital estavam ainda mais a favor e aqueles que se opunham a ela estavam ainda mais contrários.

Se a razão é projetada para gerar julgamentos sólidos, então é difícil conceber um erro de projeto mais sério que o viés de confirmação. Imagine, Mercier e Sperber sugerem, um rato que pensa da mesma maneira que nós. Tal rato, “inclinado a confirmar sua crença de que não há gatos por perto”, se tornaria jantar rapidamente. Se chega-se ao ponto de que o viés de confirmação leva as pessoas a descartar evidências de ameaças novas ou subestimadas — o equivalente humano para o gato por perto —, essa é uma característica que deveria ter se extinguido na seleção natural. O fato de que tanto nós quanto essa característica sobreviveram,  dizem os cientistas, prova que ela deve ter alguma função adaptativa e que essa função está relacionada a nossa “hipersociabilidade”.

Ambos os pesquisadores preferem o termo “viés do meu lado”. Segundo eles, os humanos não são crédulos aleatoriamente. Apresentados ao argumento de outra pessoa, nós somos bastante capazes de apontar suas fraquezas. Quase invariavelmente, somos cegos em relação a nossas opiniões.

Um experimento recente realizado por Mercier e alguns colegas europeus mostrou claramente essa assimetria. Foi pedido aos participantes que respondessem uma série de problemas simples de raciocínio. Depois foi pedido que eles explicassem suas respostas, e foi dada a possibilidade de modificá-las se as pessoas identificassem erros. A maioria ficou satisfeito com suas escolhas originais; e menos de 15% mudou de ideia na etapa dois.

Na etapa três, foi mostrado aos participantes um dos problemas, junto com suas respostas e com as respostas de outro participante, que havia chegado a outra conclusão. Novamente, foi dada aos participantes a chance de alterar sua resposta. Mas havia uma pegadinha: as respostas apresentadas como de outra pessoa na verdade eram as deles mesmos, e vice-versa. Cerca de metade dos participantes perceberam o que estava acontecendo. Mas na outra metade, as pessoas de repente se tornaram muito mais críticas. Quase 60% agora rejeitava as respostas que antes pareciam perfeitamente satisfatórias.

Essa assimetria, de acordo com Mercier e Sperber, reflete a tarefa que a razão evoluiu para realizar, que é nos prevenir de ser ferrado por outro membro de nosso grupo. Vivendo em pequenos bandos de caçadores, nossos ancestrais se preocupavam principalmente com sua posição social e com a certeza de que eles não seriam os únicos arriscando suas vidas nas caçadas enquanto outros vadiavam na caverna. Havia pouca vantagem em racionalizar claramente, e muito mais em ganhar discussões.

Como Mercier e Sperber escreveram, “Esse é um dos vários casos em que o ambiente mudou rápido demais para a seleção natural conseguir acompanhar.”

Steven Sloman, professor na Brown, e Philip Fernbach, professor na Universidade do Colorado, também são cientistas cognitivos. Eles também acreditam que a sociabilidade é a chave para explicar como a mente humana funciona ou, talvez ainda mais pertinentemente, não funciona. 

Eles começaram seu livro, A ilusão do saber: porque nunca pensamos sozinhos (Riverhead), dando uma olhada em "privadas".

Praticamente todo mundo nos Estados Unidos, e pelo mundo desenvolvido, está familiarizado com privadas. Uma privada típica tem uma bacia de cerâmica cheia de água. Quando a alavanca é pressionada, ou o botão empurrado, a água — e tudo que foi depositado nela — é sugada para um cano e depois para um sistema de esgoto. Mas como isso acontece de verdade?

Num estudo conduzido em Yale, foi pedido a pós-graduandos que avaliassem seu entendimento de dispositivos do dia a dia, incluindo privadas, zíperes e cilindros de fechaduras. Foi pedido que eles escrevessem explicações detalhadas, passo a passo, de como esses dispositivos funcionavam e que depois classificassem seus conhecimentos novamente. Aparentemente, o esforço revelou aos estudantes a própria ignorância, porque suas autoavaliações pioraram. (Privadas, como se descobriu, são mais complicadas do que parecem.)

Sloman e Fernbach veem esse efeito, que eles chamam de “ilusão da profundidade explicativa”, em quase todo lugar. As pessoas acreditam que sabem mais do que realmente sabem. 

E o que nos permite manter essa crenças são as "outras pessoas". 

No caso da minha privada, outra pessoa a projetou para que eu pudesse operá-la facilmente. Isso é algo em que os humanos são muito bons. Dependemos da experiência dos outros desde que descobrimos como caçar juntos, o que provavelmente foi a chave do nosso desenvolvimento na história evolutiva. Colaboramos tão bem que mal conseguimos notar onde nosso entendimento acaba e o de outra pessoa começa, conta a dupla.

“Uma implicação da naturalidade com que dividimos trabalho cognitivo é que não há nenhum limite claro entre as ideias e o conhecimento de uma pessoa e o de outros membros do grupo.”

Essa falta de fronteiras, ou, se você preferir, confusão, também é crucial para o que consideramos como progresso. À medida em que as pessoas inventavam ferramentas para novas maneiras de se viver, elas criaram simultaneamente novos âmbitos de ignorância; se todo mundo insistisse em, digamos, dominar os princípios de se trabalhar com metal antes de pegar uma faca, a Era do Bronze não teria valido muita coisa. Quando se trata de novas tecnologias, entendimento incompleto é empoderador.

Porém, o que nos causa problemas, de acordo com eles, é o "domínio político". 

Uma coisa é eu apertar a descarga sem saber como uma privada opera, e outra coisa é favorecer (ou me opor) uma medida anti-imigração sem saber do que estou falando. 

Eles citam uma pesquisa conduzida em 2014, não muito depois da Rússia ter anexado o território ucraniano da Crimeia onde foi perguntado aos entrevistados como eles achavam que os EUA deveriam reagir, e se eles conseguiam identificar a Ucrânia no mapa. Quanto menos a pessoa sabia sobre a geografia, maiores eram as chances de ela ser a favor da intervenção militar.

Pesquisas sobre muitas outras questões levantaram resultados tão desanimadores quantos.

 “Como regra, sentimentos intensos sobre algo não surgem de entendimentos profundos”, escrevem. E aqui nossa dependência de outras mentes reforça o problema. Se sua posição sobre, digamos, o Obamacare é infundada e eu confio nela, então minha opinião também é infundada. Quando eu falo com Tom e ele decide concordar comigo, a opinião dele também é infundada, mas, agora que nós três concordamos, nos sentimos muito mais confiantes sobre nosso ponto de vista. Se agora dispensássemos qualquer informação que contradiz nossa opinião, você tem, bem, o Governo Trump.

“É assim que uma comunidade de saber pode se tornar perigosa”, observam.

Os dois executaram sua própria versão do experimento da privada, substituindo dispositivos diários por políticas públicas. Num estudo conduzido em 2012, eles perguntaram para pessoas suas posições em relação a questões como:

 Deveria haver um único pagante do sistema de saúde? 

Ou salário meritocráticos para professores? 

Foi pedido aos participantes que avaliassem suas posições de acordo com o quão fortemente elas concordam ou discordam com as propostas. 

Depois, foram instruídos a explicar, com o máximo de detalhes possível, o impacto de implementar essas propostas. A maioria dos participantes se enrolaram nessa parte. Novamente eles avaliaram suas opiniões, mas diminuíram sua intensidade, então eles concordavam ou discordavam menos veementemente.


Para a tecnologia é ótimo que cada um domine e se aperfeiçoe apenas numa coisa, para a sociedade, nem tanto.

Os cientistas veem esse resultado como uma luz no fim do túnel nesse mundo sombrio. Se nós – ou nossos amigos ou os gurus na CNN – passarmos menos tempo palestrando e mais tempo tentando entender as implicações das propostas políticas, perceberíamos o quão ignorantes somos e moderaríamos nossas opiniões. Isso, eles escrevem, “talvez seja a única forma de pensamento que irá estilhaçar a ilusão da profundidade explicativa e mudar a atitude das pessoas”.

Uma maneira de olhar para ciência é como um sistema que corrige as inclinações naturais das pessoas. Num laboratório bem administrado, não há espaço para viés do meu lado; os resultados precisam ser reproduzíveis em outros laboratórios, por pesquisadores que não tem nenhuma razão para confirmá-las. E isso, pode ser argumentado, é o que torna o sistema tão bem-sucedido. Num momento ou outro o campo pode estar repleto de picuinhas, mas, no final, a metodologia prevalece. A ciência avança, mesmo quando nos permanecemos presos no mesmo lugar.

Em "Negando até a morte": porque ignoramos os fatos que irão nos salvar (Oxford), Jack Gorman, um psiquiatra, e sua filha, Sara Gorman, uma especialista em saúde pública, investigam o buraco entre o que a ciência nos diz e o que nós dizemos a nós mesmos. 

A preocupação deles é com crenças persistentes que não só são comprovadamente falsas mas também potencialmente fatais, como a convicção de que vacinas são prejudiciais. É claro, o que é prejudicial é não ser vacinado; por isso que as vacinas foram criadas, em primeiro lugar. “Imunização é um dos triunfos da medicina moderna”, os Gormans apontam. Mas não importa quantos estudos científicos concluam que vacinas são seguras, e que não há nenhuma relação entre vacina e autismo, os anti-vacinação permanecem convictos (Eles agora têm do seu lado – de certa maneira – Donald Trump, que disse que, apesar de seu filho Barron ter sido vacinado, ele o foi depois do período recomendado por pediatras).

Os Gorman também defendem que maneiras de se pensar que hoje parecem autodestrutivas deveriam ser adaptativas em algum momento. Também dedicam muitas páginas ao viés de confirmação, que, eles clamam, tem um componente fisiológico. Citam pesquisas que sugerem que as pessoas experimentam prazer genuíno – uma dose de dopamina – ao processar informações que suportam suas crenças. “Nos sentimos bem ao ‘nos mantermos firmes em nossas convicções’ mesmo quando estamos errados”, eles observam.

Os Gorman não querem só catalogar as maneiras com que estamos errados; eles querem corrigi-las. 

Deve haver alguma maneira, eles defendem, de convencer as pessoas de que vacinas são boas para as crianças, e de que revólveres são perigosos. (Outra crença difundida mas estatisticamente equivocada que eles gostam de questionar é que ter uma arma te deixa mais seguro.) Mas aqui eles encontram exatamente os mesmos problemas que eles ajudaram a identificar. Fornecer às pessoas informações confiáveis não parece ajudar; eles simplesmente a descartam. Apelar para suas emoções talvez funcione melhor, mas fazer isso é obviamente antiético para o objetivo de promover dados científicos sólidos. “O desafio que permanece”, eles escrevem mais para o final do livro, “é descobrir como abordar tendências que levam a proposições cientificamente falsas”.

“O enigma da razão”, “A ilusão do saber” e “Negando a gravidade” foram todos escritos antes da eleição de novembro. E mesmo assim eles anteciparam Kellyanne Conway e a ascensão dos “fatos alternativos”. Esses dias parece que o país todo foi dominado por um vasto experimento psicológico conduzido ou por ninguém ou por Steven Bannon. Agentes racionais seriam capazes de pensar numa solução. Mas, nesse assunto, a literatura não nos é reconfortante.


"O enigma da razão”, : http://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674368309

A ilusão do saber: porque nunca pensamos sozinhos (Riverhead) :  https://www.amazon.com.br/Knowledge-Illusion-Never-Think-Alone/dp/039918435X

"Negando até a morte": porque ignoramos os fatos que irão nos salvar (Oxford), Jack Gorman e sua Sara Gorman: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/03/1865731-negando-ate-a-morte.shtml

Efeito Priming: como o meio influencia nossas mentes


Postado no  "Tecla SAP #24" por Breno FrançaMente e atitude, Tecla SAP


João amava Teresa que amava Raimundoque amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandesque não tinha entrado na história

Nesse poema chamado Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, parece claro que Lili é o ponto fora da curva. Não é de hoje que sabemos que nossas emoções influenciam nossos pensamentos supostamente mais racionais e que nós influenciamos as pessoas ao nosso redor assim como elas nos influenciam de volta.


Aparentemente, essa percepção passou a ganhar força a partir da década de 1970 quando estudos divulgados pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford chocaram o mundo ao afirmar que as pessoas não conseguiam pensar racionalmente, como se imaginava.

Já explicamos esse fenômeno em vários artigos anteriores como:


Ao longo das últimas edições da Tecla SAP também já mostramos e explicamos uma série desses vieses e na semana passada abordamos, especificamente, o Efeito Halo. Hoje chegou a vez de nos aprofundarmos e compreendermos um outro que está quase sempre acompanhando-o: o Efeito Priming.

Teoria

A explicação para o Efeito Priming, na verdade, é muito simples. Etimologicamente, priming é oriundo de prime que significa primeiro. O efeito priming, portanto, é o efeito que uma palavra ou signo tem sobre uma segunda palavra ou signo.

Na linguística, estudos revelaram que palavras que compartilham características semânticas (médico/hospital), fonológicas (hora/oca) ou morfológicas (dança/dançarino) são lidas e entendidas mais rápido se aparecem em sequência. Da mesma forma, se elas não têm essa ligação (ou se nós não somos capazes de fazê-la), o processo passa a ser mais demorado.

Na psicologia, porém, a aplicação do efeito priming foi mais impressionante ainda. Daniel Kahneman, um teórico da finança comportamental premiado com o Nobel de economia em 2002, foi apenas um dos pesquisadores que conduziram estudos que mostraram que o comportamento das pessoas muda a partir de estímulos que elas nem perceberam.

Resumidamente, uma informação apresentada a você primeiro, implica na maneira como você assimila, reage e se comporta depois (mesmo que você deixe claro que aquela informação é falsa, por exemplo).


Link Youtube | Daniel Kahneman ilustra brevemente o Efeito Priming.

Formalmente, o Efeito Priming foi explicado por Bargh e Chartrand como "o processo pelo qual experiências recentes criam, de forma automática, prontidões de conduta".

Assim não foi nenhuma surpresa quando Kahneman fez um experimento que mostrou que pessoas que recebiam como estímulos palavras como 'vida, força, energia' atravessavam um corredor mais rápido do que aquelas que recebiam como estímulos palavras como 'tristeza, escuro, cansaço'.

Foi então que as pessoas começaram a pirar nas aplicações que esse conhecimento poderia acarretar.
Prática

Em quase todas as áreas, esse conhecimento foi aplicado.

Na economia de Kahneman, investidores perceberam que a primeira impressão que as pessoas recebiam sobre suas empresas influenciava na compra de suas ações.

No marketing, publicitários perceberam que as informações que as pessoas tinham sobre seus produtos impactava nos números de suas vendas.

Na comunicação, jornalistas perceberam que a ordem das palavras de um título ou de uma notícia mudava a percepção das pessoas sobre o conteúdo.

Na arquitetura, designers perceberam que a disposição das peças numa sala influenciava no rumo das conversas e no comportamento das pessoas numa reunião.

Na pedagogia, professores perceberam que a maneira como eles apresentavam um conteúdo gerava efeitos na capacidade dos alunos de aprender.


Link Youtube | O Efeito Priming a partir do comportamento do professor.
Tudo e todos estão constantemente nos influenciando e sendo influenciados de volta.
Menos a Lili. Essa estava sempre contra a maré.publicado em 19 de Outubro de 2017, 19:19

Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.

Deputados MENTEM ao defender nova denúncia contra Temer



por CLARA BECKER, TIAGO AGUIAR

A agencia LUPA é a primeira agência de notícias do Brasil a checar, de forma sistemática e contínua, o grau de veracidade das informações que circulam pelo país. Gostamos de pensar que, agindo assim, contribuimos para aprimorar o debate público. Todas as frases que analisarmos serão classificadas segundo as oito etiquetas abaixo:



Nesta semana, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados debateu o relatório de Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) sobre a segunda denúncia apresentada contra o presidente Michel Temer. Ele é acusado pelo Ministério Público dos crimes de corrupção passiva e obstrução da justiça. Na semana passada, o relator apresentou um parecer pedindo a rejeição da denúncia. A Lupa checou alguns dos argumentos dos parlamentares durante as sessões da CCJ.
“O que Rodrigo Janot fez (…) nos investimentos (…) estrangeiros do Brasil não tem retorno”

Deputado federal Paulo Maluf (PP-SP)
Recortes-Posts_FALSO
Maluf tentou relacionar uma queda nos investimentos estrangeiros no Brasil à repercussão da delação dos irmãos Wesley e Joesley Batista, homologada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em maio deste ano. Mas os investimentos estrangeiros cresceram desde aquele mês. Segundo dados fornecidos pelo Banco Central (BC), em maio, o Brasil recebeu US$ 2,9 bilhões. Em junho, mesmo com a denúncia contra o presidente Michel Temer no Supremo Tribunal Federal (STF), os investimentos aumentaram em US$ 1 bilhão, totalizando US$ 3,9 bilhões. Em julho e agosto, entraram no país US$ 4,1 bilhões e US$ 5,1 bilhões, respectivamente. O impacto da segunda denúncia, feita no dia 14 de setembro, ainda não pode ser medido. O BC só possui dados até agosto.
Procurado, não retornou.

“As provas (da denúncia) são telefonemas e conversas”

Deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS)
RECORTES-POSTS-EXAGERADO
segunda denúncia contra Temer, apresentada pelo ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, possui outras provas além das gravações de conversas com outros investigados. Para acusar Temer de obstrução de justiça, por exemplo, a denúncia apresenta imagens de Roberta Funaro, irmã do operador Lucio Funaro, recebendo um pagamento das mãos de Ricardo Saud, executivo da JBS, em ação controlada da Polícia Federal, no dia 20 de abril de 2017. Segundo o doleiro, Temer teria dado aval aos pagamentos para que Funaro não fizesse acordo de delação com o MPF. Por meio de um mandado de busca e apreensão, também foi encontrado R$ 1,7 milhão em mochilas e bolsas na casa de Roberta Funaro. Ainda foram usados como indícios outros materiais apreendidos, como contratos assinados, depoimentos de outros réus arrolados na Lava Jato e imagens como a do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor de Temer, recebendo uma mala com R$ 500 mil em São Paulo.
Procurado, o deputado não retornou.

“97% do povo brasileiro não deseja ter mais Michel Temer como seu presidente”

Deputado federal Alessandro Molon (Rede-RJ)
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Ibope divulgou no dia 29 de setembro uma pesquisa com a avaliação do governo do presidente Temer. Nela, 77% dos entrevistados avaliaram a administração do peemedebista como ruim ou péssima. Outros 16% classificaram como regular, e apenas 3% consideraram o governo como ótimo ou bom. Com relação a maneira de governar, 89% dos entrevistados disseram que não aprovam o modo como Temer tem conduzido o país. O instituto, porém, não questionou os entrevistados sobre a permanência do presidente no poder. Pesquisou somente como a população avalia o governo.
Procurado, Molon disse que estava se referindo à pesquisa do Ibope e que, em seu entendimento, “isto revela a total falta de apoio do presidente Michel Temer para continuar à frente da Presidência da República”.  

“Havendo fortes indícios de que as gravações [entre Joesley Batista e Temer] foram alteradas e tiveram partes suprimidas”

Deputado federal Bonifácio de Andrada (PSDB-MG)
Recortes-Posts_FALSO
laudo do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal concluiu que não houve edição nem adulteração na gravação. No documento, os peritos descreveram que o aúdio é “consistente com a maneira em que se alega ter sido produzida”. As 294 descontinuidades encontradas foram atribuídas aos momentos de pressão ou atrito no gravador que estava oculto nas roupas de Joesley. A polícia concluiu também que “não foram observados elementos que indiquem a existência de adulterações” no áudio. O deputado já tinha feitoessa afirmação na sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) que analisou a primeira denúncia contra Temer.
Procurado, o deputado não retornou.

“Ele [Eduardo Cunha] só tá preso porque um partido entrou no Conselho de Ética dessa casa”

Deputado federal Ivan Valente (Psol-RJ)
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processo que tramitou no Conselho de Ética da Câmara para cassar o mandato do deputado Eduardo Cunha foi feito pelo Psol e pela Rede em outubro de 2015. Depois disso, 46 parlamentares de outros cinco partidos somaram-se à representação inicial. Antes da conclusão do processo na Comissão de Ética, o STF suspendeu o mandato do deputado e, por consequência, da função de presidente da Câmara. O mandato do deputado só foi cassado em setembro do ano passado. A prisão, preventiva, foi pedida pelo juiz Sergio Moroem outubro do ano passado.
Procurado, Ivan Valente disse, por nota, que foi o Psol que teve a iniciativa de entrar no conselho e elaborou o documento de representação. “A Rede reconheceu a importância do pedido e o assinou o nosso pedido”, informou.
*Parte desta reportagem foi publicada na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 20 de outubro de 2017.
ccj folha
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