quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mini-curso: O Zen e as Quatro Nobres Verdades de Buda

Mini-curso: O Zen e as Quatro Nobres Verdades de Buda




O Zen e as Quatro Nobres Verdades de Buda

4 aulas (Presenciais e Pela Internet ao Vivo)
Nas 6as-feiras, dias 6, 13, 20 e 27 de outubro de 2017 às 20:00h

1) A Verdade de Dukkha
Como surgem as Quatro Nobres Verdades
O que é Dukkha
Como criamos Dukkha
2) A Verdade da Origem de Dukkha (Samudaya)
O que é Tanha
Tanha vs. Desejo vs. Necessidade
3) A Verdade da Cessação de Dukkha (Nirodha)
O que significa alcançar o Nirvana
Mitos sobre a Iluminação
4) A verdade do Caminho de Oito Aspectos (Marga)
Como interpretar o termo “Correto”?

A Compreensão Correta
O Pensamento Correto
A Fala Correta
A Ação Correta
O Meio de Vida Correto
O Esforço Correto
A Atenção Plena Correta
A Concentração Correta

Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Blog informativo da Sanga Soto Zen Budista Águas da Compaixão, de alunos da Monja Isshin em Porto Alegre, RS

Não há Alma

Por Monge Genshô Sensei
O ensinamento básico de Buda é 
anatman: o “a” é como em português (o sânscrito é parente do português, é uma língua descendente do próprio hindo-europeu), esse “a” é negação. Anatman significa sem alma, sem átman. Então, basicamente, o ensinamento budista é  que não existe dentro do homem, nem de nenhum ser, uma partícula permanente, eterna, indivisível que é ele mesmo e que independe do corpo, e que transmigra de corpo para corpo, reencarna ou qualquer coisa que o valha. Este não é o ensinamento de Buda. O ensinamento de Buda é que o carma é que continua, ou seja, existe uma onda de energia no universo que nos manifesta e que tem uma certa coesão e, portanto, quando nós morremos essa onda continua e se manifesta em outro ser, que acaba por dizer a si: "eu sou", e tem noção de uma identidade. 

Então, a identidade própria de cada um de nós é construída nesta vida. Vocês constroem a sua identidade através da operação de suas mentes. Isso explica porque nós perdemos as nossas identidades quando temos uma doença séria como um Alzheimer, um AVC ou uma amnésia - perdemos nossa memória; perdemos a noção de nós mesmos com o ser. 


Portanto, o budismo está analisando que não existe um eu dentro de coisa alguma, nenhum ser tem um eu, individual, próprio, nem nenhuma coisa tem um eu individual.

[N.E.: transcrição de trecho de palestra realizada por Monge Genshô Sensei]

'Como Pensar Mais Sobre Sexo"

'Como Pensar Mais Sobre Sexo", de Alain de Botton, argumenta que o sexo do século 21 - ainda tratado como tabu - está fadado a ser um jogo de equilíbrio entre amor e desejo, aventura e comprometimento.
 Ele fala sobre fetichismo, adultério, pornografia e desejo para instigar o leitor a refletir sobre os dilemas da sexualidade moderna.
Abaixo, leia um trecho do livro.

*
É raro passarmos pela vida sem sentir - em geral com um tanto de agonia secreta, talvez ao fim de um relacionamento, ou deitados na cama junto ao nosso parceiro, frustrados, sem conseguir dormir - que somos um pouco esquisitos em relação ao sexo. É nessa área que a maioria de nós tem a dolorosa impressão, no nosso mais íntimo, de ser bastante incomum. Apesar de ser um dos atos mais privados, o sexo é cercado por uma série de ideias poderosas que nos sugerem quão normais as pessoas deveriam se sentir e lidar com a questão.

No entanto, na verdade, a maior parte de nós não é nem de longe normal quando se trata de sexo. Somos quase todos perseguidos pela culpa e neurose, pela fobia e por desejos perturbadores, pela indiferença e aversão. Não nos aproximamos do sexo como deveríamos, com uma perspectiva alegre, esportiva, não obsessiva, constante, bem-ajustada com a qual nos torturamos ao acreditar que outras pessoas possuem. Somos universalmente pervertidos - mas apenas em relação a ideais de normalidade altamente equivocados.

Considerando o quanto é normal ser estranho, é lamentável que as realidades da vida sexual raramente consigam chegar à esfera pública. Se quisermos que alguém pense bem de nós, é impossível comunicar-lhes a maior parte do que somos sexualmente. Homens e mulheres apaixonados instintivamente partilharão apenas uma fração de seus desejos por medo, em geral justificado, de gerar uma repulsa intolerável em seus parceiros. Achamos mais fácil morrer sem ter certas conversas.

A prioridade de um livro filosófico sobre sexo parece evidente: não é para nos ensinar como desfrutar de um sexo mais intenso ou regular, mas para nos mostrar como, por meio de uma linguagem simples, podemos começar a nos sentir um pouco menos estranhos em relação ao sexo que queremos ter ou que nos esforçamos para evitar.

Quaisquer desconfortos que sentimos em relação ao sexo são geralmente agravados pela ideia de que pertencemos a uma geração livre - e que, em consequência disso, deveríamos, a esta altura, pensar no sexo como um assunto simples e sem complicações.

O discurso padrão sobre a libertação de nossos grilhões é mais ou menos assim: por milhares de anos em todo o mundo, por conta de uma diabólica combinação de fanatismo religioso e costumes sociais pedantes, as pessoas eram atormentadas por uma injustificada sensação de confusão e pecado em torno do sexo. Achavam que as mãos cairiam se se masturbassem. Acreditavam que poderiam ser queimados em um barril de óleo por terem olhado para o tornozelo de alguém. Não tinham a menor ideia do que eram ereções ou clitóris. Eram ridículas.

Então, em algum momento entre a Primeira Guerra Mundial e o lançamento do Sputnik 1, as coisas mudaram para melhor. Finalmente as pessoas começaram a usar biquínis, admitiram que se masturbavam, conseguiram mencionar em contextos sociais o sexo oral feminino, começaram a assistir a filmes pornôs e passaram a se sentir profundamente à vontade com um tópico que, quase inexplicavelmente, tinha sido fonte de desnecessária frustração neurótica durante a maior parte da história humana. Ser capaz de começar uma relação sexual com confiança e satisfação tornou-se uma expectativa tão comum para a era moderna quanto o medo e a culpa tinham sido em eras anteriores. O sexo passou a ser percebido como um passatempo útil, revigorante e fisicamente restaurador, um pouco como o tênis - algo que todos deveriam praticar tão frequentemente quanto possível para aliviar os estresses da vida moderna.

Esse discurso de esclarecimento e progresso, por mais lisonjeiro que possa ser para nossas capacidades racionais e sensibilidades pagãs, contorna convenientemente um fato intransponível: que o sexo é algo em relação ao qual podemos esperar nos sentir livres. Não foi mera coincidência o sexo ter nos perturbado por milhares de anos. Afirmações religiosas repressivas e tabus sociais surgiram de aspectos de nossa natureza que não podem desaparecer de uma hora para outra. Fomos incomodados pelo sexo porque ele é uma força fundamentalmente perturbadora, opressora e louca, em profundo conflito com a maioria de nossas ambições e incapaz de ser bem integrada na sociedade civilizada.

Apesar de nossos melhores esforços para eliminar suas peculiaridades, o sexo jamais será simples ou bonito como gostaríamos que fosse. Ele não é fundamentalmente democrático ou gentil e está ligado a crueldade, transgressão e desejo de subjugação e humilhação. Ele se recusa a acomodar-se no topo do amor, como deveria. Por mais que tentemos domá-lo, o sexo tem uma tendência recorrente a causar estragos em nossa vida: nos leva a destruir nossos relacionamentos, ameaça nossa produtividade e nos faz ficar acordados até muito tarde, em boates, conversando com pessoas de quem não gostamos, mas cujas barrigas expostas desejamos desesperadamente tocar. O sexo está em um conflito absurdo, e talvez irreconciliável, com alguns de nossos compromissos e valores mais elevados. Não é de surpreender que não tenhamos outra opção senão reprimir suas exigências a maior parte do tempo. Deveríamos aceitar que o sexo é inerentemente estranho em vez de nos culpar por não reagirmos com mais normalidade a seus confusos impulsos.

Isso não significa dizer que não podemos dar passos para nos tornar mais sábios em relação ao sexo. Apenas devemos saber que nunca vamos superar inteiramente as dificuldades que ele coloca em nosso caminho. Devemos esperar, no máximo, uma respeitável acomodação a uma força anárquica e impulsiva.

*
COMO PENSAR MAIS SOBRE SEXO
AUTOR Alain de Botton
EDITORA Editora Objetiva

Para comprar o livro encontri aqui!

Alain de Botton é um Filósofo, escritor e produtor residente em Londres, famoso por popularizar a filosofia e divulgar seu uso na vida quotidiana. É um ateu convicto, e propaga essa filosofia de vida em seus livros e entrevistas. Ele entende que as pessoas se tornam adeptos de uma religião, pois ela consegue manter a saúde emocional e dar sustentação psicológica para se aceitar e conviver com difíceis questões humanas, como morte, as desilusões e decepções no amor, na relação com a família, etc.
Como De Botton propaga a utilidade e necessidade da prática e estudo da filosofia para todo e qualquer ser humano

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Hitler era de direita. Mas por que se importar com isso?

Por Jerônimo Teixeira 29 ago 2017 na "Veja"

Charlottesville arranhou a identidade grupal da "nova direita" brasileira. Vem daí a bizarrice de afirmar que o nazismo é de esquerda.


, 13h05 - Publicado em 25 ago 2017, 21h25more_horiz


Os manifestantes que gritavam "sangue e terra": depois de extensa pesquisa no Twitter, o MBL concluiu que são todos socialistas (Alejandro Alvarez/News2Share/Reuters)

Os frequentadores da única sinagoga de Charlottesville foram aconselhados a sair pelos fundos depois dos rituais do Shabat. Foi assim porque a congregação de Beth Israel localiza-se em frente à praça que abriga a tão decantada e detratada estátua do general confederado Robert E. Lee, e naquele sábado, 12 de agosto – o mesmo dia em que um terrorista da direita racista atropelou e matou uma ativista dos direitos civis, Heather Heyer -, o local estava tomado de neonazis e supremacistas brancos que gritavam provocações antissemitas. Daniella Greenbaum, articulista da revista Commentary, observou que a recomendação de buscar a saída mais discreta da sinagoga seria banal na Europa dos séculos XIX e XX – mas o mesmo conselho, nos Estados Unidos do século XXI, é chocante.

Resumem-se a isso os eventos de Charlotesville: o retorno de aberrações históricas que ingenuamente imaginávamos superadas. A marcha dos brucutus que, portando ridículas tochas tiki, berravam “sangue e terra” e “judeus não vão tomar nosso lugar” deveria receber o repúdio universal de todas as vozes razoáveis do debate político, à direita e à esquerda. Sem prejuízo do repúdio (o firme e obrigatório repúdio que o presidente dos Estados Unidos não foi capaz de expressar com firmeza, como bem observou Eduardo Wolf em ensaio no ótimo portal Estado da Arte), caberia, claro, analisar o fenômeno: entender quem são esses homens brancos furiosos, o que os motiva, e que circunstâncias propiciaram que essa excrecência extremista saísse das margens da sociedade americana para ganhar o centro do noticiário internacional.

A conversa média da chamada “nova direita” brasileira, porém, não foi nem para a denúncia moral, nem para a análise política. A discussão concentrou-se em uma espécie de grenal (fla-flu, diriam os brasileiros) ideológico: o nazismo é de direita ou de esquerda? Há uma resposta historicamente consagrada para a questão, contra a qual os cruzados da blogosfera libertário-conservadora esperneiam. Os arautos da nova direita trombeteiam que o nazismo instaurou um Estado forte, e que isso é coisa de esquerda. Também lembram que o agrupamento político de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães – repetindo: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Se era socialista, e ainda por cima dos Trabalhadores, então só pode ser de esquerda, certo?

São argumentos que podem ser expressos em um meme, o que diz muito sobre a profundidade do pensamento neodireitista capiau.

Essa avaliação esquemática da natureza do nacional-socialismo omite que comunistas e nazistas foram violentos adversários na República de Weimar. Na guerra, houve uma trégua estratégica, com os dois grandes totalitarismos do século XX irmanados sob o Pacto Molotov-Ribbentrop – mas esse acordo entre desiguais, como se sabe, não durou muito. Haverá, por óbvio, numerosos pontos em comum entre os dois regimes opressores. Todo totalitarismo é monstruoso, mas nazismo e comunismo são monstros distintos. Houve episódios de antissemitismo na União Soviética, mas a perseguição aos judeus e a ideia de uma raça superior não faziam parte do credo comunista. A Alemanha nazista desapropriou empresas – judaicas, sobretudo – e colocou toda a economia a serviço do Estado, mas não prometia uma sociedade sem classes nem tinha no burguês seu inimigo fundamental (diretores das indústrias Krupp, que forneceram armamento para o esforço bélico nazista, foram julgados por crimes de guerra em Nuremberg). Duda Teixeira, do blog Dúvidas Universais, definiu tudo de forma muito sintética: “A extrema esquerda fala em classe. A extrema direita, em nação”. Simples assim.

Li vários artigos da direita americana (a direita respeitável, não a fuleira alt-right) sobre Charlottesville, entre eles, o texto da Commentary citado lá no primeiro parágrafo. Encontrei um vivo e inteligente debate sobre o que fazer com os monumentos confederados (talvez escreva sobre isso adiante). Alguns autores faziam, sem relativizar a crítica ao supremacismo branco, a necessária condenação à violência do Antifa, movimento de esquerda que se opõe aos supremacistas. Li ainda críticas bem candentes à atitude de Trump (em artigo no Federalist, um membro do Tea Party pede nada menos que a renúncia do presidente). Não vi ninguém afirmar que os manifestantes de Charlottesville eram, na verdade, de esquerda. A tradição conservadora americana tem essa serena tranquilidade: entende que também a direita conhece suas versões totalitárias.
(No Brasil, o MBL foi se informar no Twitter de uma organização nazista americana. Descobriu que os nazis se definem como socialistas e achou que isso fechava a questão de uma vez por todas. Acusou a imprensa brasileira de “ocultar propositalmente” esse fato. Se seguir pesquisando nessas ricas fontes de informação histórica e teoria política, a rapaziada aguerrida do MBL um dia nos premiará com outro fato escandaloso que os jornais bolcheviques escondem propositalmente: o Holocausto é uma farsa.)

***

As vetustas noções de esquerda e direita, herdadas da Assembleia Nacional Francesa, são um tanto elásticas e imprecisas, mas há consensos bem estabelecidos sobre seus pontos extremos: comunismo à esquerda, nazi-fascismo à direita. Certos consensos devem ser chacoalhados de tempos em tempos, sim. Mas o que se ganha conceitualmente redefinindo o nazismo como movimento de esquerda? Entenderemos melhor o horror da II Guerra Mundial e do Holocausto se considerarmos que Hitler era esquerdista? Por que esse problema se tornou tão crucial para certa porção da direita brasileira?

As respostas para as duas primeiras perguntas são bem fáceis: “nada” e “não”. 

A terceira pergunta exigirá que este blogueiro recaia em sua incorrigível prolixidade. Antes de voltar aos memes do baixo direitismo brasileiro, vou fazer uma desvio pela esquerda latino-americana.


O escritor mexicano Carlos Fuentes, em foto de 2004: se é de esquerda, só pode ser bom, e se é ruim, não é de esquerda (Tiziana Fabi/AFP)

Em 2006, entrevistei Carlos Fuentes, por telefone, a propósito de Este É meu Credo, obra do escritor mexicano que a Rocco estava lançando no Brasil. No livro, Fuentes reafirmava suas convicções esquerdistas. Pedi a ele um balanço da esquerda latino-americana, e eis o que ele disse sobre o tiranete do momento: “Há várias esquerdas hoje, e vários líderes de esquerda. Exceto Hugo Chávez. Ele é um fascista que se disfarça de esquerdista”. Ninguém pensaria em contestar que o “Socialismo do Século XXI” advogado por Chávez (e por seu sucessor, Nicolás Maduro) é de esquerda. Se é verdade, como reza o lugar-comum marxista, que a história primeiro acontece como tragédia e depois se repete como farsa, o comunismo soviético será a tragédia, e o bolivarianismo, sua repetição como telenovela da Televisa. Fuentes, porém, negava que Chávez fosse de esquerda. O ditador venezuelano seria na verdade um fascista disfarçado, e muito bem disfarçado, pois enganava a todos, menos ao autor de Gringo Velho.

A esquerda brasileira ainda hoje apoia vergonhosamente o governo Maduro, mesmo depois do recente e violento recrudescimento autoritário (até onde vi, o único político de esquerda que condenou inequivocamente o regime venezuelano foi, para surpresa de muitos, o deputado Jean Wyllys; seu companheiro de partido Chico Alencar até ensaiou umas críticas a Maduro em entrevista à Época,mas a sua conversa me pareceu muito mole e muito morna). Conceda-se a Carlos Fuentes, portanto, o mérito de não escamotear a natureza autoritária do chavismo. Mas foi exatamente por perceber o desastre representado por Chávez que Fuentes precisou expurgá-lo da esquerda. A lógica é simples – aliás, simplória: se é ruim, não pode ser do meu time.

Tal reivindicação de um monopólio da virtude, que costumava ser quase exclusiva do progressismo, vem se tornando comum na direita brasileira mais rastaquera de uns anos para cá. Ocorre que, depois de décadas de domínio cultural esquerdista quase absoluto – mesmo durante a ditadura militar, como o marxista Roberto Schwarz observou em um ensaio da época -, uma nova geração tem descoberto ou redescoberto ideias liberais e conservadoras. O melhor do pensamento brasileiro sobre cultura e política está nessa nova onda. Pena que, com ela, venha o rebotalho: uma galeria lombrosiana de blogueiros estridentes e toscos, propensos a ver conspiratas do Foro de São Paulo até em logotipo da Olimpíada. É uma gentinha desqualificada, que entra na guerra cultural com muita agressividade e nenhum discernimento. Tornou-se ponto de honra, para esses divulgadores baratos do liberalismo, proclamarem-se “de direita”, e eles o fazem sempre com ostensiva imodéstia – pois ninguém mais tem a coragem de se opor às variadas ditaduras que comandam a mídia brasileira (a ditadura do politicamente correto, da ideologia de gênero, do gayzismo, e por aí vai). É fácil vislumbrar, entre os paladinos do neodireitismo, uma angustiada mas coesa identidade tribal. Admitir que um dos pesadelos históricos do século XX está na conta da direita seria abrir uma insuportável fissura nessa identidade monolítica.

O Indivíduo, com maiúscula, é um clichê e um fetiche na conversa cotidiana da direitinha fuleira, mas o fato é que os orgulhosos habitantes desse subúrbio intelectual criaram sua própria e torta versão das políticas identitárias da esquerda. Ao repetir, em uníssono, que só o Indivíduo tem valor, eles confirmam o desencantado aforismo de Adorno em Minima Moralia: “Em muitas pessoas já é um descaramento dizerem ‘Eu'”.

***

Citei um filósofo marxista, o que deve bastar para que algum gentil leitor me chame de “comuna” nos comentários. Já aconteceu antes, por bem menos, e provavelmente aconteceria mesmo sem a frase de Adorno. Como oferta conciliatória ao direitista mais inflamado, termino com uma reflexão ligeira de Roger Scruton, filósofo de impecáveis credenciais conservadoras. Em um debate com o crítico marxista Terry Eagleton, Scruton se recusou a ser qualificado como um homem “de direita”: “As pessoas da direita não se identificam como tal, não como parte de um grupo. Nós apenas nos agarramos às coisas que amamos”.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O sofrimento que sentimos nasce em nossa mente


Séculos antes do desenvolvimento da ciência ocidental, o Buda chegou ao entendimento de que o sofrimento origina-se na mente – no “olho”, por assim dizer, “de quem vê”.

Embora os termos que ele usou possam diferir daqueles dos biólogos, neurocientistas e psicólogos modernos, os insights que ofereceu são notavelmente semelhantes.

De acordo com as primeiras apresentações escritas dos ensinamentos do Buda sobre a Segunda Nobre Verdade, dukkha surge de uma condição mental básica, que, em páli, refere-se ao termo tanha, ou “desejar”. Os estudantes que fizeram as transcrições iniciais do páli para o sânscrito traduziram a causa como trishna, ou “sede”. Quando os ensinamentos foram trazidos para o Tibete, a causa foi traduzida como dzinpa, ou “impulso de agarrar”. 

À sua própria maneira, cada um desses três termos reflete um anseio mental fundamental em direção à permanência ou estabilidade – ou, visto de outra forma, uma tentativa de negar ou ignorar a impermanência.
O mais básico desses anseios é a tendência, muitas vezes descrita nos textos budistas como ignorância, de confundir “eu”, “outro”, “sujeito”, “objeto”, “bom”, “ruim” entre outras distinções relativas como tendo uma forma independente, inerentemente existente.

Em um nível muito simples, a ignorância poderia ser descrita por pensar que o rótulo de uma garrafa de molho picante é o molho em si. 

Da concepção de que pessoas, lugares e coisas são inerentemente sólidas e reais surgem dois impulsos igualmente poderosos. O primeiro, em geral chamado de desejo, é um anseio de adquirir ou manter o que determinamos como agradável. O segundo, conhecido como aversão, é um movimento na direção oposta, para evitar ou eliminar coisas que definimos como desagradáveis. 

Juntos, ignorância, desejo e aversão são chamados nos textos budistas de “os três venenos”, hábitos tão profundamente arraigados de como nos relacionar com as experiências que nublam ou “envenenam” a mente. 

Individualmente e em conjunto, dão origem a inúmeras outras atitudes e emoções – por exemplo, orgulho, perfeccionismo, baixa autoestima ou ódio contra si mesmo; o ciúme que sentimos quando um colega de trabalho recebe uma promoção que pensamos merecer; ou um nó de tristeza e desesperança que nos oprime quando lidamos com um parente doente ou idoso. Dessa forma, alguns ensinamentos budistas referem-se a essas atitudes e emoções como “aflições” ou “obscurecimentos”, porque limitam as maneiras com que interpretarmos a experiência – que, por sua vez, inibe o nosso potencial de pensar, sentir e agir.

Uma vez que desenvolvemos um sentimento de “eu” e “não eu”, começamos a nos relacionar com a nossa experiência em termos de “meu” e “não meu”; “o que eu tenho” e “o que eu não tenho”; e “o que eu quero” e “o que eu não quero”. 
Imagine, por exemplo, que enquanto você está dirigindo seu carrinho bem velho e decaído pela estrada, passe por você um carro novo e luxuoso – um Mercedes ou um Rolls-Royce que acabou de ser amassado em um acidente. Você poderia até sentir um pouco de pena do proprietário, mas não necessariamente sentiria qualquer ligação com o automóvel.

Poucos meses depois, vendo-se na posição de trocar o seu velho carro, vai visitar uma loja de carros usados e encontra disponível um Mercedes ou Rolls-Royce por um preço inacreditável. Na verdade, é o mesmo automóvel que você viu amassado no acidente meses antes, mas assim que assina o contrato, isso não importa. O carro é seu agora – e ao dirigi-lo de volta para casa, uma pedra bate e trinca o para-brisa. Tragédia! Meu carro está arruinado. Eu tenho que gastar para consertá-lo! É o mesmo carro que você viu amassado em um acidente alguns meses atrás, e então não sentiu nada ao passar por ele. Mas agora é o seu carro, e se o para-brisa estiver trincado, você sente muita raiva, frustração e talvez um pouco de medo. 

Então, por que simplesmente não paramos com isso? Por que não abrimos mão dos venenos e das suas “crias”? 

Se fosse assim tão fácil, é claro, todos nós seríamos Budas antes que pudéssemos chegar ao final desta frase! Segundo os ensinamentos do Buda e os comentários de outros mestres, o Três Venenos e todos os outros hábitos emocionais que surgem a partir deles não são, em si mesmos, as causas do sofrimento. 

Ao contrário, o sofrimento surge do apego a eles, que é o mais próximo que podemos chegar do significado essencial da palavra dzinpa em tibetano.
Conforme foi mencionado anteriormente, essa palavra é geralmente interpretada como um “impulso de agarrar”, mas também já ouvi a tradução de “fixação”, que penso ser a que mais se aproxima do significado profundo do termo.

Dzinpa é uma tentativa de fixar no tempo e no espaço o que está em constante movimento e mutação. “Tal como matar borboletas”, disse uma de minhas alunas. 

Quando perguntei o que queria dizer com isso, ela descreveu as pessoas que têm o hobby de caçar e matar borboletas, e depois fixar seus corpos em telas de vidro pelo puro prazer de olhar para a sua coleção ou mostrá-la aos amigos.

“Criaturas tão lindas e delicadas”, disse ela com tristeza. “Elas são feitas para voar. Se não voarem, não são realmente borboletas, não é?” De certa forma ela estava certa.

Quando ficamos fixados em nossas percepções, perdemos nossa capacidade de voar.

* * *
Nota do editor: este texto é um trecho do livro Alegre Sabedoria, de Yongey Mingyur Rinpoche, respeitado mestre de meditação tibetana. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor publicado no PapodeHomem. É parte de uma nova parceria, que nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano que o PapodeHomem apoia. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Ex-diretora-executiva do "O Boticário" largou tudo pra ser estagiária em uma floricultura.



Conheça a história de Andrea Mota, ex-diretora de O Boticário, que largou uma carreira brilhante em busca de qualidade de vida

Com diagnóstico de síndrome de burnout – “pane” causada por pico de estresse –, a então big boss da marca resolveu mudar drasticamente de vida. “Não quero mais ser executiva. O preço é alto demais”, diz a nova estagiária de uma floricultura


Andrea Mota largou tudo pra ser estagiária em uma floricultura (Foto: Daniel Katz)


"Dezembro de 2013. Era o meu 5o ano como diretora-executiva de O Boticário. Gerenciava quatro diretores, 700 funcionários, mil franqueados e uma equipe indireta de 25 mil pessoas. Bom, vocês imaginam o quão estressante era esse período de fim de ano, época de pressão máxima pra bater metas. Estava exausta! Sentia meu corpo e minha mente no limite: insônia, tontura, mau humor, tremores faciais... os sinais de estresse estavam ali, escancarados. Mas, ok, nada de novo no front, afinal havia aprendido a lidar com todo tipo de pressão. “Você sempre deu conta, só precisa de férias”, repetia pra mim mesma. Porém, daquela vez foi diferente.

Nem a viagem de férias me fez melhorar. Bem pelo contrário. No dia 11 de janeiro de 2014, estava com o Natan, meu marido, e meus filhos, Caio e Izadora, na Bahia – moro há 13 anos em Curitiba, mas sou baiana e tenho casa lá –, e acordei com uma dor de cabeça infernal. Minha mente parecia mais acelerada que o normal, não sei explicar ao certo. Também não conseguia levantar da cama. Fiquei lá, tentando descansar, e o Natan levou as crianças à praia. Não queria que elas me vissem daquele jeito. Mais tarde, quando já estavam todos de volta, meus braços, do nada, paralisaram. Entrei em desespero! “Estou tendo um derrame!”, gritei. O Natan ligou correndo pra minha irmã, que é médica e nossa vizinha de condomínio. 

Já no hospital, após uma bateria de exames, veio o diagnóstico: síndrome de burnout. É uma doença dos tempos modernos, caracterizada por um estado máximo de exaustão física, mental e emocional devido ao acúmulo de estresse. Assim: o organismo recebe um excesso de estímulos tão grande que os neurotransmissores simplesmente param de fazer sinapses. Tipo uma pane. Por sorte, a minha foi leve. Gradativamente, tudo foi voltando ao normal com a ajuda de remédio pra dormir e antidepressivos. “Mude de vida. Reduza o ritmo, faça terapia, se exercite, cuide mais de você”, recomendou o médico.

Exatos nove dias depois do surto, já estava em Curitiba, de volta ao trabalho. Foi um dia horrível. Lembro-me de ter sentido medo das minhas reações, já que pela primeira vez na vida não estava no controle. Tive uma longa reunião com o Artur [Artur Grynbaum, presidente do Grupo Boticário] e com a diretoria pra explicar o ocorrido – fui o mais transparente possível e pedi compreensão. Todos concordamos que eu reduziria o ritmo: na prática, passei a ser mais seletiva com os compromissos e diminuí o número de viagens. Além de continuar com os remédios, montei uma superequipe pra me ajudar a reduzir o estresse: psicólogo, personal trainer, coach, homeopata, massoterapeuta. Tinha ao meu lado o time mais incrível do mundo, mas não fazia ideia de como, de fato, mudar meu ritmo. Veja bem, durante a minha gestão, a empresa cresceu três vezes mais que o esperado e se tornou uma das marcas mais admiradas do País. Só pra dar um exemplo: as metas traçadas pra 2018 foram alcançadas em 2014. Ninguém consegue tamanho sucesso com uma dedicação mais ou menos. É preciso comprometimento, paixão. Por isso, jornadas de trabalho de 14 horas por dia são inevitáveis, assim como um terceiro turno, viagens internacionais, mil eventos e jantares com clientes. Ser bem-sucedida é incrível, mas o preço que se paga é altíssimo. 


Nem durante a gravidez considerada de risco (por ser de gêmeos), Andrea diminuiu o ritmo no trabalho (Foto: Divulgação)


Acho que o que mais dói quando se tem uma top carreira é que o tempo pra família é quase nulo. Via os meus filhos coisa de duas horas por dia. Se me sentia culpada? O tempo todo! Mas sou de uma geração que aprendeu que a mulher tinha que ser independente a qualquer custo e que o trabalho árduo era o único caminho pro sucesso. Tinha esses valores tão incrustados em mim que mantive a rotina frenética até durante a gravidez, considerada de alto risco, já que era gemelar e eu tinha 37 anos. Os gêmeos, frutos de uma fertilização in vitro, nasceram prematuros e ficaram 28 dias na UTI. Quase morri de felicidade quando eles puderam ir pra casa. Lá, ganharam peso e tamanho, e voltei ao serviço no final do terceiro mês – dali em diante, sempre contei com a ajuda de ótimas cozinheiras e babás, além do Natan, que é um supermarido. Como ele é advogado, tem uma agenda flexível e mais tempo pras crianças.

Bom... Mesmo reduzindo o ritmo e tentando de tudo, o fato é que eu não estava mais feliz no trabalho. Era hora de encarar a realidade: já havia construído o meu legado e aquela vida já não me bastava mais. Precisava me reinventar, sabe? Adquirir novos conhecimentos, quem sabe começar uma outra carreira... Com isso, parei, fiz as contas e comecei a me planejar. Em outubro de 2014 (acho até que aguentei bastante!), comuniquei aos chefes a minha decisão de me desligar da empresa. As reações foram as mais diversas, da surpresa à raiva, mas segui decidida e segura da minha decisão. No dia 5 de janeiro de 2015, dei meu adeus definitivo. Hoje, com 46 anos e orgulhosa da minha coragem, finalmente aceitei que não sou uma máquina. Sou de carne, osso e emoções e tenho apenas duas certezas na vida: não quero mais ser executiva e quero ter tempo pra mim. Continuo com a minha psicóloga na tentativa de me conhecer melhor e achar uma nova carreira. Até lá, estou fazendo cursos de culinária, fotografia e ioga, e em breve começo o estágio em uma floricultura. Adoro poder levar meus filhos ao cinema à tarde. É como dizia o poeta italiano Torquato Tasso: “Perdido é todo tempo que com amor não se gasta”.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Um homem só, um homem preso e um homem livre

Um “homem só” não existe.

Todo os homens estão acompanhados por tudo que lhes trouxe até ali, cercados por tudo que "construiu" o “ali” onde ele esta. Acompanhados por todos que lhe estimularam durante sua vida e também por todos que lhe podaram em seu passado, todos que lhe negaram e todos que lhe deram suporte, todos cuja a presença ou a ausência o tornaram único e possível de estar ali. Um "homem só" é aquele que não percebe a tudo que esta ligado. É um engano comum. Não é difícil corrigir este engano.

Fazendo uma pequena auto-análise percebemos vários instantes em nossas vidas que se tivesse ocorrido apenas mais apoio “nisso” ou "naquilo" já seriamos uma pessoa diferente. Olhando com mais cuidado veremos que se fossemos menos estimulado em determinados comportamentos e atitudes certamente seriamos pessoas ainda mais diferentes. Se tivéssemos mais oportunidade para “outro tanto” faríamos tudo diferente... Fatalmente somos consequência de um universo de estímulos e ausências. Não somos plenamente “livres”. Percebendo que tudo esta ligado as “causas” que nos deram “condição” de estar e ser como estamos e somos, nossa interpretação limitada da realidade nos suscita um terrível problema: “Estamos irremediavelmente “preso” a tudo que nos condicionou???


Felizmente não.

O homem não é limitado pelas causas e condições. Apesar de ser esta a primeira impressão que se possa ter esta não é a única resposta diante de uma realidade de causas e consequências como a nossa.

Todo o homem nasce no mar de causas e consequências. Mas as “condições” são como o ar e a gravidade na vida de um pássaro por exemplo. A “consciência” de um homem é como as asas de um pássaro diante das condições ou ventos que a vida lhe apresenta.

Você não nasce livre, mas se é potencialmente livre.

Assim como um pássaro que nasce pesado na terra e preso a lei da gravidade e não se furta de aprender a voar um homem é um ser que nasce no carma e no mar de Samsara, mas potencialmente, pode viver o Nirvana.

Assim um homem que se vê “só” é como o pássaro que não percebe o vento e a tudo e a todos que esta inegavelmente ligado.


Um homem se vê “preso” é como um pássaro percebe apenas seu peso, o rigor do vento que lhe oprime. 

Um homem que estuda sua mente é como um pássaro que explora as utilidades de suas asas.

Um homem  iluminado é um pássaro que plana nas alturas sobre as intemperes.

Abramos nossas asas. Sintamos o vento. Sigamos.

domingo, 30 de julho de 2017

Domingo, Porto Alegre, um dia normal de 2017e Rodrigo Hilbert

Domingo, Porto Alegre, um dia normal de 2017.
Hoje, depois servir o café pra minha filha, arrumar as camas, lavar louça, dar de comer aos cães, varrer a área eu fui organizar umas coisas pro almoço que eu queria prontas antes de iniciar o almoço pois queria ler um pouco e a Kiki tinha temas de férias para fazer e precisaria de ajuda... O sol estava bacana então montei uma mesa para ela estudar na rua próximo da churrasqueira, entre as árvores. Poderia fazer o almoço e dar toda a atenção que ela precisasse. Dona patroa teria de trabalhar até a uma... então quando chegasse estaria tudo pronto.
Então escolhi a lenha para o churrasco. Lenha que separei das “podas” que eu mesmo fiz nas árvores do pátio, queria um leve aroma de laranjeira na carne... Separei a linguiça artesanal (a de ervas finas e queijo) uma fraldinha e os legumes da salada, que pegamos na feira orgânica de Sábado, salguei as carnes e arrumamos a mesa do almoço. Kiki foi fazer os exercícios de matemática e eu fui ler sentado junto a churrasqueira.
E eu não sou Rodrigo Hilbert.
Não somos Rodrigo Hilbert e Fernanda Lima, estamos mais para Eduardo e Mônica (segundo a Lê estamos mais para Eduard”a” e Mônic”o”, mas é muito piada interna, então deixa passar), e não é para ser diferente.
Me chamou a atenção o nº de amigas e conhecidas da Sí que falam que eu sou um Rodrigo Hilbert... e falavam como um elogio... quando não deveria ser.
Rodrigo Hilbert é um cara diferente por vivermos em um tempo que ser egoísta e narcisista é o ideal.
Este é o problema. Rodrigo Hilbert vive como qualquer qüera minimamente educado do país deveria ser.
A “mistificação” de caras como Rodrigo Hilbert mostra o grau de estupidez do homem médio do país. E esta devia ser a preocupação de todas as mulheres.
Porque o “normal” é um homem que é homem e não tem problema em passar roupa, não fica “#chateado” pra lavar uma louça, que não faz teatro quando vai pra cozinha, que não tem problema em cerzir uma roupa e sabe que é natural cuidar e educar os filhos.
Se a mulherada está surpresa com caras tipo Rodrigo Hilbert deviam parar de valorizar os caras do “Camaro amarelo”... os boys da balada com colar de ouro que quer "sarrar" "novinha" e acha legal chamar mulher de cachorra... Parar de valorizar o cara mais preocupado com ostentação do que ser uma pessoa.
Cara que ostenta não precisa “ser”. Basta “PARECER”.
Rodrigo Hilbert é o cara que é “CONSEQUÊNCIA” de uma cultura de “ser”, educado para valorizar e CUIDAR da mulher dele e dos filhos.
Educado para ser HOMEM.
Simples assim.A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e comida

segunda-feira, 24 de julho de 2017

zendo brasilia - meditação Zen Budista: Não dê ouvidos às palavras indignas ditas pelos ...

Não dê ouvidos às palavras indignas ditas pelos outros. Não se preocupe com aquilo que foi realizado ou não realizado pelos outros. Observe apenas as suas próprias ações e omissões.

(O Dhammapada)

VISÃO ROMÂNTICA VS. DECEPÇÃO DIÁRIA POR Judith Simmer-Brown

Postado originalmente em Buda Virtual
Com a meditação nós reduzimos nossas fantasias e vemos a vida como ela realmente é. Então algo mágico acontece. 
Judith Simmer-Brown diz que é exatamente o que acontece nos nossos relacionamentos.


Amarga, amarga minha dor deve ser,
E nunca, nunca meu coração deve desistir
Em seu enorme e esmagador sofrimento por ela,
Nem uma esperança passageira me é dada
De felicidade ainda que doce, ainda que boa.
Uma grande alegria pode causar atos de bravura em mim.
Eu nada farei; tudo que quero é ELA.

—Peire de Rogiers

O amor romântico, por mais maravilhoso que seja, é o sintoma inicial de mal-estar cultural, a neurose principal da civilização ocidental

Por amor romântico quero dizer aquele que concentra no amado como um objeto de paixão, devoção e fixação. A pessoa amada torna-se a resposta para todos os problemas da vida, a fonte de toda nossa felicidade, e potencialmente, a fonte de todos nossos males. Mas, se formos honestos consigo mesmos, podemos ver que o amor romântico é um amor profundamente infeliz, viciado na miséria e sofrimento, coberto em fantasia e separação.

O amor romântico tornou-se um tipo de religião na civilização ocidental. Em seu livro de referência, O Amor e o Ocidente, Denis de Rougemont traçou o desenvolvimento do amor romântico na tradição cortês da Idade Média, descrevendo-o como uma heresia cristã. Ele menciona como nobres cristãos transferiram sua devoção do Deus inalcançável para a amada inatingível, envolvendo-a com traços idealizados, além de qualquer mulher mortal. Ele alega que essa visão do amor romântico sobrevive até hoje; mesmo agora, uma das formas mais abrangentes e não reconhecida de teísmo é nossa vida amorosa. Nós transformamos o amado em um deus, e nos apaixonamos mais pelo amor que pela pessoa amada. Ao ser amado é dado um papel específico para que ele ou ela possa permanecer um deus.

Com a separação a fantasia do amado pode ser mantida viva. A realidade da pessoa não pode ameaçar a fantasia.

Quais são as características dos relacionamentos românticos? Primeiramente, o amor romântico desenvolve-se na separação. O amor impossível é o mais cativante — alguém que é casado com outra pessoa, alguém que vive numa cidade distante, ou em outro aspecto de proibição. A garota ou garoto da vizinhança não é um bom candidato para uma fantasia romântica, nem seus maridos e esposas. A separação torna o coração mais apaixonado e ardente, porque com a separação a fantasia do amado pode ser mantida viva. A realidade da pessoa não pode ameaçar a fantasia. Por essa razão, muitos recém-casados tornam-se rapidamente desiludidos sobre as realidades do cotidiano da vida de casado. O namoro foi tão emocionante, mas o casamento é muito real, muito rotineiro.

Uma vez que o romance se desenvolve na separação, é excitante, mas nunca sexualmente realizado. Se alguém estiver de fato sexualmente saciado, então o romance estará ameaçado. Frequentemente, o amante escolhe a opção mística do desejo, abandonando o parceiro sexual vivo e presente pela fantasia do amor inalcançável. Os casos de amor proibido são ardentes, mas dificilmente resultam em casamento.

Em segundo lugar, o amor romântico é tremendamente impessoal. Nós procuramos o nosso “tipo”— um intelectual, um atleta, uma loira estonteante. Nosso gosto pode tornar-se muito sutil, incluindo a maneira de se vestir ou o jeito de andar do ser amado. Mas estamos apaixonados por uma fantasia; a pessoa amada não está presente. Na verdade, até ajuda a pessoa não estar muito por perto, porque pode destruir a fantasia. Tememos que o amor possa tornar-se muito concreto.

Ao fazer do amado um deus, nós induzimos um senso de carência em nós mesmos. Essa é uma falta de completude, que se manifesta como um desejo insaciável. Nos sentimos inadequados e desamparados sem um amor. Quando fazemos do amado um deus nós nunca podemos nos juntar a ele. Ficamos presos numa situação de aflitivo desejo, de carência e insegurança. É por isso que Rougemont chamou o amor romântico de heresia cristã; a paixão significa sofrimento, e desviamos nossa devoção para uma fantasia, que nos aprisiona para sempre na infelicidade.

O amor romântico glorifica a infelicidade.

Há um desejo pela morte no coração do amor romântico. Na mitologia clássica e na literatura, uma pessoa só possui completamente o ser amado após a morte — e vemos isso diariamente sobre brigas domésticas nos jornais. O desejo de união com o amado é a busca por uma junção, e qualquer coisa no caminho pode atrapalhar a fantasia.

Essa é a característica mais difícil de admitir: o amor romântico glorifica a infelicidade. A dor da paixão romântica é algo que achamos maravilhoso. Isso fica claro nos entretenimentos como filmes, novelas, televisão, balé, ópera e peças teatrais. Nos entretemos com a deliciosa dor de uma história romântica, e essa dor nos faz sentirmos tão vivos, tão reais, e tão convencidos do valor do amor romântico.

Quando examinamos isso cuidadosamente, podemos sentir o perigo de um culto, que glorifica a infelicidade. A tradição Shambhala fala do conceito do pôr-do-sol, que exalta os aspectos mais degradados da natureza humana e glorifica a morte. O conceito do pôr-do-sol se fixa na miséria e ignora a dignidade humana; se alimenta da tragédia e repreende o coração comum. A tradição Shambhala observa que o conceito do pôr-do-sol é uma abordagem desnecessária e inadequada para a vida humana. Ele prejudica nossa inteligência básica e integridade, e nos priva de vivermos plenamente a vida. O amor romântico é a epítome do conceito do pôr-do-sol na nossa cultura.

Então, que escolha nós temos? Nós percebemos quão infeliz o amor romântico é, mas qual outra opção existe? Todos nós experienciamos a forma como se inicia um relacionamento romântico, e as subsequentes decepção e desilusão. Nós dizemos que nos apaixonamos. Começamos a sentir a falta de sentido da fantasia, e vemos o ser amado como um estranho ou mesmo como um inimigo. Nos sentimos tão solitários e magoados.

Mas a desilusão é simplesmente o lado negativo do amor romântico. Em ambos casos estamos tão envolvidos com nossa própria fantasia que nunca realmente olhamos para a outra pessoa. Não vemos a pessoa pela qual nos apaixonamos; não vemos a pessoa com a qual terminamos o relacionamento. Ambas situações são impessoais. Marge Piercy descreve isso no seu poema “Canção-simples”:

Quando nos dirigimos a alguém nós dizemos
você é como eu
seus pensamentos são meus companheiros
palavra coincide com palavra
como é fácil ficar junto.
Quando nós deixamos alguém nós dizemos
que estranho você é
não conseguimos conversar
nunca estamos de acordo
como é difícil, penoso e exaustivo ficar junto.
Nós não somos diferentes ou parecidos
mas cada estranho em seu próprio corpo
envoltos em pele, estendendo mãos desajeitadas
e amar é uma ação
que não podemos sobreviver
a mão aberta
o olho aberto
a porta do coração aberta.

A desilusão é o lado mais positivo da moeda porque ocorre quando nossas ambições e fantasias sobre o relacionamento desmoronam. A desilusão pode ser o início do verdadeiro relacionamento. Há um tipo de perda da inocência na desilusão, que pode levar à admiração do amado por quem ele é — além da fantasia.

Manter-se na desilusão requer uma certa coragem, pois nos achamos isolados. Muitas vezes é o nosso medo da solidão que nos leva a procurar seriamente por um relacionamento; nós precisamos de alguém, qualquer um, para nos sentirmos seguros, estáveis, vivos. E aqui estamos de novo, sozinhos e desolados.

Começamos a achar que ninguém pode afastar nosso medo da solidão, já que esse é um sentimento tão familiar. Nossa solidão sempre vai surgir; mesmo o melhor relacionamento acaba, através da morte ou transformação. Quando valorizamos nossa solidão, ela se torna tão agradável. Quando sentimos e reconhecemos a solidão como base para todos nossos relacionamentos, surge uma enorme liberdade. Mas claro, isso não garante nada sobre o relacionamento em si.

Quando a solidão e a desilusão despertam em nós, o relacionamento pode ter o espaço para começar. Há um tremendo risco, porque não sabemos realmente para onde o relacionamento está indo. Tanto pode haver bons momentos, como pode haver maus momentos. O que acontece, porém, é que começamos um relacionamento com a pessoa. Podemos começar a ver o ser amado como alguém distinto de nós, e sentimos solidão no relacionamento. Anteriormente, o romance preenchia os vazios da nossa vida e nos fazia companhia. Nos sentíamos completos porque nossa fantasia preenchia todas nossas carências, ou assim imaginávamos.

Mas quando começamos a realmente ter um relacionamento com alguém, existem lacunas, existem necessidades não atendidas. Esse é o alicerce para o relacionamento. Quando há essa característica de separação e sensatez, uma química muito mágica pode surgir entre duas pessoas. É imprevisível e incerto, e não segue as orientações místicas para o amor romântico.

Quando começamos a ver a outra pessoa, surge uma nova oportunidade de um romance de uma maneira saudável. A própria distinção do ser amado pode nos atrair. É fascinante o que faz meu marido ficar bravo, o que faz ele rir. Ele realmente gosta de jardinagem, e odeia fazer compras. Um fascínio contínuo pode florescer, porque a outra pessoa está além dos nossos limites de expectativa e conceituação. Esse fascínio pode incluir momentos de depressão, desânimo e resignação. Bem como incluir momentos de bom humor, alegria e admiração. Mas isso tudo é palpável e vívido. Mesmo enquanto estamos intoxicados com a presença contínua da outra pessoa, nós somos assombrados e envoltos pela nossa própria solidão.

E, talvez surpreendentemente, exista uma possibilidade de paixão ilimitada quando você não está tentando encaixar o outro em um papel. Esta pode ser uma paixão feliz, porque não está tentando manipular o amado para preencher suas carências; é uma paixão que pode incluir a sexualidade sem medo de intimidade. Existe também uma vertigem causada por uma paixão de altitude mais elevada, porque a própria solidão permanece e é uma situação tão inescapável.

Quando você vê o relacionamento além da desilusão, você se relaciona com um mundo notavelmente vívido. Seu companheiro torna-se um símbolo ou representante de todos os cosmos. Quando ele ou ela fica bravo e diz “não”, você está realmente recebendo uma mensagem do universo. Quando dificuldades ou estresses acontecem, são muito significativos e devem ser trabalhados. Tudo que acontece no seu relacionamento pode ser uma mensagem do mundo em geral.

Quando nos libertamos da manipulação, os relacionamentos são essencialmente arriscados. Não temos controle sobre eles.

Parece muito mais seguro estar romanticamente envolvido. Mas se estamos, nunca podemos nos afastar da nossa consciência. Sempre estaremos envolvidos com nossos conceitos sobre o amor romântico. Desilusão é a perda da inocência. E essa perda pode na verdade nos despertar, se estivermos dispostos a continuar nesse cenário. Há uma falta de escolha que cresce quando você admira a outra pessoa por quem ela é e desiste de tentar encaixá-la na imagem da sua fantasia.

Quando nos libertamos da manipulação, os relacionamentos são essencialmente arriscados. Não temos controle sobre eles. Em um relacionamento saudável, você tenta apoiar a bondade e a dignidade da outra pessoa. Você não permite que eles acobertem a mesma situação de novo e de novo; você desiste do sentimento de traição se eles fizerem o mesmo com você. Você se dispõe a ser um lembrete suave de como as coisas são, e permite que o sejam também. Mas não há garantias sobre seus respectivos papéis.

Devemos cortar o amor romântico das nossas vidas? Claro que não. Estamos imersos em nossa cultura, e temos nossas neuroses para trabalhar. A forma inteligente de trabalhar com o amor romântico é experimentá-lo integralmente, começando com a paixão romântica, e então experienciar o desapontamento e continuar a partir daí. Devemos compreender detalhadamente o que estamos fazendo, estar conscientes da nossa tendência à ilusão quando estamos “apaixonados. ”

Existe uma energia extraordinária na nossa paixão. O amor romântico é o início da compreensão da natureza do relacionamento. Através dele criamos coragem de pular, e uma vez que estamos no oceano, aprendemos a nadar. Sem o amor romântico talvez nunca tivéssemos saltado.




SOBRE JUDITH SIMMER-BROWN

Judith Simmer-Brown é Professora Honorária de Estudos Religiosos e Meditação na Universidade Naropa e professora sênior de Budismo na tradição Shambhala.







Texto traduzido por Tamyres Bertanha do original em inglês publicado em Lions Roar disponível aqui →