sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A "desintegração" do capitalismo global está desencadeando a 3ª guerra mundial!

A "desintegração" do capitalismo global está desencadeando a 3ª guerra mundial!

Ver as raízes sistêmicas desse risco pode nos ajudar a evitar a catástrofe e construir resiliência


Por Nafeez Ahmed | Tradução: Marianna Braghini

Um economista sênior da Comissão Europeia alertou que uma Terceira Guerra Mundial é “extremamente possível” nos próximos anos, dada a desintegração do capitalismo global.
Em um artigo (“From Integrated Capitalism to Disintegrating Capitalism. Scenarios of a Third World War”) publicado em janeiro, o Professor Gerhard Hanappi afirmou que desde o crash financeiro de 2008, a economia global tem se distanciado de um capitalismo “integrado” e caminhado para uma mudança “desintegradora” marcada pelos mesmos tipos de tendências que precederam as guerras mundiais anteriores.
Hanappi é professor do Instituto para Modelos Matemáticos em Economia da Universidade de Tecnologia de Viena. Ele também compõe o comitê de administração do grupo de especialização em Riscos Sistêmicos na rede de pesquisas sobre Cooperação Europeia em Ciência e Tecnologia, financiada pela União Européia.
Em seu novo artigo, Hanappi conclui que as condições globais carregam inquietantes paralelos com tendências anteriores à eclosão da I e II Guerras Mundiais. Os sinais-chaves de que podemos estar escorregando para um terceiro conflito global incluem, segundo ele:
  • o aumento inexorável de gastos militares;
  • as democracias tornando-se Estados policiais crescentemente autoritários;
  • o aumento de tensões geopolíticas entre grandes potências;
  • o ressurgimento do populismo entre a esquerda e a direita;
  • a derrocada e enfraquecimento de instituições globais estabelecidas que governam o capitalismo transnacional;
  • a ampliação implacável de desigualdades globais.
Estas tendências, algumas das quais eram visíveis no preâmbulo das guerras mundiais, estão reaparecendo de novas formas. Hanappi argumenta que a característica definitiva do período atual é uma transição de uma forma mais antiga de “capitalismo integrado” para uma nova forma de “capitalismo desintegrado”, cujos aspectos mais visíveis emergiram após a crise financeira de 2008.
Na maior parte do século XX, ele diz, o capitalismo global estava em um caminho de “integração” rumo a concentrações maiores de riqueza transnacional. Isso foi interrompido pelos surtos de nacionalismo violento envolvendo as duas guerras mundiais. Depois disso, uma nova forma de “capitalismo integrado” emergiu, baseado em um quadro institucional que permitiu que países industrializados evitassem uma guerra mundial por 70 anos.
O sistema está agora entrando em um período de desintegração. Anteriormente, fraturas dentre o sistema entre ricos e pobres eram superadas “distribuindo um pouco dos ganhos do tremendo aumento dos frutos da divisão global do trabalho às classes trabalhadoras mais ricas nestas nações.” Similarmente, tensões internacionais eram dissipadas por meio de estruturas de governança global e acordos para a regulação do capitalismo.
Mas desde a crise financeira de 2008, a distribuição de riqueza piorou, com o poder de compra das classes médias e trabalhadoras declinando enquanto a riqueza se torna ainda mais concentrada.
O crescimento nos centros ocidentais de capital transnacional está mais vagaroso, na medida em que os antes sacrossantos acordos de comércio internacional estão sendo rasgados. Isso contribuiu para uma reversão ao nacionalismo em que estruturas globais e transnacionais são rejeitadas e os “estrangeiros” demonizados. À medida em que o capital global continua a se desintegrar, estas pressões ampliam-se, particularmente enquanto sua justificativa interna depende cada vez mais em intensificar a competição com rivais externos.
Enquanto o capitalismo integrado dependeu de estruturas institucionais transnacionais que permitiram “exploração estável em nível nacional”, Hanappi argumenta que o “capitalismo em desintegração” vê esta estrutura desagregar-se entre EUA, Europa, Rússia e China, cada qual buscando novas formas de subordinação hierárquica dos trabalhadores.
O capitalismo em desintegração, ele explica, irá recorrer cada vez mais a “poderes coercitivos diretos apoiados por novas tecnologias informacionais” para suprimir tensões internas, bem como uma maior propensão a hostilidades internacionais: “O novo império autoritário demanda confrontação de uns contra os outros, para justificar sua própria estrutura interna de comando inflexível.”

Conflito de Grandes Potências

Hanappi explora três cenários potenciais sobre como um novo conflito global poderia se desencadear. Em seu primeiro cenário, ele explora a prospecção de uma guerra entre as três potências militares mais proeminentes: EUA, Rússia e China.
Todas as três viveram grande aumento dos gastos militares desde o colapso da União Soviética. Uma redução, no caso dos EUA, a partir de 2011, foi revertida sob Trump; a Rússia manteve o aumento e as despesas chinesas crescem rapidamente. Os três países também viveram uma deriva autoritária.
Com base na teoria dos jogos, Hanappi argumenta que o cálculo de que nenhum destes países seria capaz de “ganhar” uma guerra mundial pode estar mudando percepções das lideranças destes países. Segundo uma estimativa, a China tem a maior probabilidade de sobrevivência num conflito global (52%), seguida pelos EUA (30%) e Rússia (18%). Esse cálculo sugere que, das três potências, a China pode ser a que está mais inclinada a ampliar atividades militares hostis diretas que desafiem seus rivais, se perceber uma ameaça direta ao que vê como seus interesses legítimos.
EUA e Rússia, em contraste, podem transferir o foco de suas atividades militares para ações mais encobertas, indiretas e terceirizadas. No caso dos EUA, Hanappi aponta:
“… a estratégia militar de Trump parece incluir a possibilidade de delegar parte da responsabilidade operacional local para vassalos próximos, que recebem apoio maciço de armamentos dos EUA — por exemplo a Arábia Saudita e Israel, no Oriente Médio. A Turquia, um dos braços mais fortes da OTAN na área, é um caso especial. Ela parece ter sido autorizada a destruir um Estado emergente da população curda, o que estaria mais próximo do estilo europeu de governança.”
Há sinais crescentes da intensificação de tensões entre as grandes potências, o que poderia explodir devido a um acidente ou uma provocação imprevista, em um conflito global que ninguém quer.
A guerra comercial entre EUA e China está acelerando, enquanto ambas potências disputam sobre segredos de tecnologia e discutem acerca da crescente presença militar da China no Mar da China Meridional. Enquanto isso, a expansão massiva de Trump da marinha e força aérea dos EUA aponta para a preparação de um grande conflito com China e Rússia.
EUA e Rússia abandonaram um importante acordo nuclear, estabelecido desde a Guerra Fria, abrindo caminho para uma corrida armamentista nuclear. A Coréia do Norte permanece disposta a manter seu programa nuclear em andamento, enquanto o desmantelamento de Trump do acordo nuclear com o Irã desincentiva este país a se desarmar e a relatar sua situação militar exata.
No ano passado, um estudo estatístico da frequencia de grandes guerras na história humana avaliou que os 70 anos da chamada “grande paz” não são um fenômeno comum, sugerindo um período de paz sem precedentes. O estudo concluiu que não havia razão para acreditar que o período de 70 anos não abriria espaço para uma outra grande guerra.

Pequenas guerras, contágio global

O segundo cenário de Hanappi explora a prospecção de uma série de “pequenas guerras civis em diversos países.” Os ingredientes para tal cenário estão enraizados no ressurgimento do populismo nos campos da esquerda e da direita. “Ambas variantes – às vezes implicitamente, outras explicitamente – referem-se a uma forma de Estado histórico nacional passado que se propõem a restaurar,” pensa Hanappi.
Enquanto o populismo de direita remete aos regimes autoritários e racistas estabelecidos na Alemanha e Itália na década de 1930, o populismo de esquerda anseia por retornar ao modelo de “capitalismo integrado” das primeires três décadas após a Segunda Guerra Mundial, o qual combateu a desigualdade inerente ao capitalismo por meio da “rede social” do chamado “estado de bem estar”, bem como de várias formas de intervenção estatal na economia, ainda que num regime de indústria privada.
O problema é que este “capitalismo integrado” já está enridadeo em suas próprias contradições internas, o que impulsiona a entrada num período de desintegração.
Isso coloca o populismo de esquerda em uma posição sistematicamente mais fraca, pois o populismo de direita pode apontar para os múltiplos fracassos do “capitalismo integrado”: o fracasso em “superar os antagonismos de classe” e o fracasso em “cumprir a promessa de uma vida substancialmente melhor para a maioria das pessoas.” De acordo com Hanappi:
“Os defensores de uma economia integrada são forçados a experimentar novas formas de organização nacional. Formas mais participativas de organização democrática levam mais tempo e, com múltiplos grupos sociais envolvidos, isso pode enfraquecer movimentos diante do populismo de direita. Além disso, a visão de um capitalismo integrado é afetada pelo fato de que muitas pessoas ainda se lembram de sua crise, enquanto a canção da glória nacional que o populismo de direita canta refere-se a um distante passado imaginado, que ninguém jamais viveu”.
Neste contexto, ele argumenta, há potencial para que irrompam guerras civis nacionais entre ramos paramilitares de direita e movimentos de esquerda, num contexto em que ambas as correntes movimento poderiam assumir o poder do Estado e entrar em conflito com a oposição.
Hanappi alerta para a possibilidade de um efeito de “contágio” regional ou global, se estas irrupções ocorrem dentro de uma escala de tempo similar. Nesse cenário:
“A mobilidade fluida de agentes políticos nacionais, os criadores de movimentos populistas, choca-se com a rigidez das terríveis restrições econômicas globais. Este é o acidente que provoca guerras locais. ”

Insurgência global dos pobres

O terceiro cenário de Hanappi sugere que nos próximos anos, o mundo tende a encarar uma série “movimentos de independência” e “anti imperialistas”, “protestos de massa pró-reformas estruturais, contra governos nacionais” e “insurreições armadas” ou “insurgências” associadas à duas ideologias em particular, “marxismo” e “islamismo”.
De acordo com Hanappi, a plausibilidade desse cenário pode ser encontrada nas “trajetórias profundamente divergentes de bem-estar das partes pobres e de regiões ricas da economia mundial”.
Embora o PIB tenha continuado a crescer globalmente, nas últimas três décadas, as desigualdades de renda e riqueza ampliaram-se em quase todos os países, e tendem a se acentuar ainda mais. Se esse ciclo continuar, é possível uma sintonia de rebeliõpes entre os três bilhões mais pobres, estimulada pela interconectividade das comunicações na era do smartphone.
Hanappi argumenta que, na realidade, as condições globais tornam uma combinação desses três cenários mais provável do que a prevalência de apenas um deles. Ele afirma: “O capitalismo em desintegração não é uma profecia. Sua época já chegou e ele molda a vida cotidiana. O desaparecimento do capitalismo integrado também não é uma previsão. O capitalismo em desintegração dissolve o capitalismo, mas para isso é preciso primeiro destruir o capitalismo integrado, seu antecessor imediato”.
A característica distintiva do capitalismo em desintegração é a sua tendência para estabelecer “restrições nacionalistas e racistas” destinadas a excluir “o que seus líderes definem como uma minoria inferior”, a fim de proteger a acumulação de capital para uma identidade nacional estreita e paroquialmente definida. Antigas instituições capitalistas integradas são abandonadas e novas estruturas de governança mais coercitivas são introduzidas.
Neste contexto, Hanappi conclui que uma terceira guerra mundial “não necessariamente” irá acontecer, mas expressa uma “probabilidade assustadoramente alta”. Evitá-la, ele sugere, requer a adoção de estratégias de contra-ofensiva efetivas, como o movimento de paz global.

Para além da desintegração: o que vem depois?

O diagnóstico de Hanappi é perspicaz, mas em ultima instancia, limitado devido ao seu foco direcionado em economia. Em sua análise falta qualquer referência à crise biofísica que leva à desintegração do capitalismo global: aos fluxos ecológicos e energéticos pelo quais as economias capitalistas funcionam – e portanto os limites naturais (os limites planetários) que estão sendo violados.
Entretanto, sua concepção de “capitalismo em desintegração” — que produz maior propensão ao conflito violento – adere bem a um conceito ecológico mais amplo, do declínio civilizacional, explorado em um recente artigo da geógrafa norte americana Stephanie Wakefield, publicado no periódico Resilience.
Wakefield chama atenção ao trabalho pioneiro de CS Holling, um ecologista de sistemas que argumentou que os ecossistemas naturais tendem a acompanhar um “ciclo adaptativo” consistindo em duas fases, “um loop para frente de crescimento e estabilidade e um loop para trás de liberação e reorganização”.
Ela aponta que enquanto o trabalho de Holling estava focado no estudo de ecossistemas locais e regionais, ainda permanecia a questão de se a ideia do “loop para trás” poderia ser aplicado em uma escala planetária, para entender a dinâmica da transição civilizacional: “Estamos nós em um ‘profundo loop para trás’ que apresenta as mesmas oportunidades e crises que os estudos de loops regionais que descrevemos?”, ele perguntou em 2004.
Wakefield explora a ideia do “loop para trás” do Antropoceno, assinalando uma mudança de fase em que uma ordem, estrutura e sistema de valores particulares, abrangendo a relação da humanidade com a Terra, experimenta uma profunda ruptura e declínio:
“As alegações do domínio humano sobre o mundo estão sendo varridas pela elevação dos mares e pelas tempestades sem precedentes, enquanto os diagnósticos terminais da civilização ocidental proliferam tão rapidamente quanto as fantasias do fim.”
Nesta nova fase, há um paralelo entre a escalada de crises ambientais e a intensificação da ruptura política.
“A lista de pontos de ruptura induzidos por fatores antropogênicos cresce: colapso da pesca; perda de biodiversidade; derretimento das calotas polares e a elevação dos mares; concentrações de CO² atingindo 350 partes por milhão (ppm) e agora 400 ppm; entradas de nitrogênio antropogênico; acidificação dos oceanos e branqueamento de recifes de coral; desmatamento … Mas igualmente e junto com esses processos, desde 2011 também estamos em uma era de tumultos, revoluções, experimentos locais e movimentos sociais que podem parecer insanos, mas são muito reais. “
Mas o paralelo entre a disrupção politica e ambiental não é nenhum acidente. Na verdade, é uma característica fundamental do que Wakefield chama de “loop para trás do Antropoceno”, uma fase de declínio sistêmico que vê o desfiamento da antiga ordem – mas que simultaneamente abre possibilidades para a emergência de um novo sistema.
“Em resumo, uma coisa pareceria clara: nós não estamos mais em um loop para a frente,” escreve Wakefield.
“No loop para frente havia o ‘espaço seguro operacional’ do Antropoceno…este mundo complexo, não linear, de pós-verdade, de fragmentação, fratura, dissolução e transfiguração é o que proponho chamarmos de loop para trás do Antropoceno.”
O loop para frente, então, seria equivalente ao ápice do “capitalismo integrado” de Hanapper, que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e continuou a evoluir por meio da ‘era de ouro’ do crescimento neoliberal, de 1980 ao início dos anos 2000.
Desde então, cada vez mais testemunhamos a erupção das contradições internas neste ‘loop para frente’ do capitalismo integrado, na forma de uma trajetória de desintegração que desencadeia o “loop para trás” do declínio sistêmico civilizacional:
“O loop para trás é nosso presente, o momento de nomear o Antropoceno (como um fracasso), no qual o passado (o loop para frente) não desapareceu, como pontos atrás de uma linha, mas está surgindo de formas imprevisíveis no presente. ”
A fase de desintegração do capitalismo, portanto, faz parte de um “ciclo adaptativo” mais amplo de capital global que agora se encontra à beira de um colapso prolongado. E, no entanto, adotar essa lente do sistema além do pensamento econométrico em uma estrutura ecológica mais profunda nos permite ver mais do que apenas a destruição da velha ordem em jogo, mas, nesse mesmo processo, o surgimento de possibilidades sem precedentes para um novo ‘loop para frente’’:
“Há um conjunto de benefícios em enxergar o Antropoceno através das lentes do ciclo adaptativo, e em particular em ver nosso limiar “atual” de terrenos acidentados, e de modos desconcertados de conhecer e ser como um loop para trás”, sugere Wakefield. “O principal deles é a capacidade de ver o Antropoceno não como um fim trágico ou como um mundo de ruínas, mas uma fase caótica em que novas possibilidades estão presente e o futuro mais aberto do que normalmente imaginamos”.
O reposicionamento de Wakefield sobre condição humana no âmbito do “loop para trás” abre espaço para visualizá-la como parte de uma série histórica mais longa de ciclos civilizacionais de declínio e renovação, nos quais a tarefa diante de nós é abraçar nosso papel em ativar e ampliar as possibilidades para renovação.
Isso significa ir muito além dos modelos convencionais de ‘loop para frente’ de resiliência – transformando as estruturas políticas e econômicas existentes, rompidas, em modelos de resiliência que visem reinventar e redesenhar a nós mesmos e a nossas estruturas:
“Em vez de aceitar o fim da ação humana – e de nos imaginar como vítimas ou administradores do ‘loop para trás’ – afirmo que existe outra possibilidade: decidirmos por nós mesmo, localmente e de maneiras diversas, onde e como habitar o loop para trás”. Habitar requer mais do que “lutar contra ou viver com medo”. Requer um grau de aceitação, achar o próprio lugar no processo: “ser familiar, confortável e envolvido… Um ato cotidiano e habitual, livre, de criação e construção.”
E isso requer reconhecer que estamos nos movendo em um terreno fundamentalmente e desconhecido, o que só pode ser feito dispensando velhos “modos de pensamento e ação do loop anterior.”
No loop para trás, tudo está em aberto – não apenas infraestruturas antigas, mas também ideologias políticas e realidades filosóficas assumidas. E assim, para responder à fase de desintegração do capitalismo e à ameaça de uma guerra global, é preciso irmos além de antigos modelos como a ideia de um “movimento global de paz”. Precisamos de espírito e práticas inteiramente novos e comprometidos com o surgimento de um novo mundo:
“O que o loop para trás nos sugere é que o Antropoceno é agora um momento para explorar de fundamentos do pensar e do agir – e nos abrir para as possibilidades oferecidas aqui e agora. Esse é um espaço operacional “inseguro” porque já ultrapassamos os limites, mas também porque não há projetos transcendentes, confiança ou garantias: a única coisa a fazer é nos tornarmos criadores de novos valores e novas respostas. “
O trabalho de Wakefield nos lembra que, enquanto os perigos de uma terceira guerra mundial estão aumentando no ciclo Antropocênico do capitalismo em desintegração, as oportunidades de renovação, reorganização e reavivamento também emergem rapidamente.
Elas precisam ser compreendidas e assumidas, quer uma nova guerra ecloda ou não. Mais que isso, precisamos trabalhar para soar o alarme, incansavelmente, em todos os níveis, para despertar a consciência sobre a mudança de faze em que nos encontramos como espécie. O que quer que emerja, ao final, não será o fim — estamos diante do alvorecer desconhecido de um novo começo.





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Nafeez Mosaddeq Ahmed é jornalista investigativo britânico, autor, acadêmico e estrategista de mudanças. Ele é editor da plataforma de jornalismo investigativo crowdfunded INSURGE intelligence. E ex-comentarista ambientalista do The Guardian .


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Doente de Brasil






02 AGO 2019 

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de troca da guarda.EVARISTO SA (AFP)


Jair Bolsonaro é um perverso. Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias. Enquanto estiver abanando o rabo – se parar, será também mastigado. Um tipo de gente sem limites, que não se preocupa em colocar outras pessoas em risco de morte, mesmo que sejam funcionários públicos a serviço do Estado, como os fiscais do IBAMA, nem se importa em mentir descaradamente sobre os números produzidos pelas próprias instituições governamentais desde que isso lhe convenha, como tem feito com as estatísticas alarmantes do desmatamento da Amazônia. O Brasil está nas mãos deste perverso, que reúne ao seu redor outros perversos e alguns oportunistas. Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só.

É desta ordem os relatos que tenho recolhido nos últimos meses junto a psicanalistas e psiquiatras, e também a médicos da clínica geral, medicina interna e cardiologia, onde as pessoas desembarcam queixando-se de taquicardia, tontura e falta de ar. Um destes médicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque mais da metade da sua clínica, atualmente, corresponde a queixas sem relação com problemas do coração, o órgão, e, sim, com ansiedade extrema e/ou depressão. Está trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual não se sente preparado.

O fenômeno começou a ser notado nos consultórios nos últimos anos de polarização política, que dividiu famílias, destruiu amizades e corroeu as relações em todos os espaços da vida, ao mesmo tempo em que a crise econômica se agravava, o desemprego aumentava e as condições de trabalho se deterioravam. Acirrou-se enormemente a partir da campanha eleitoral baseada no incitamento à violência produzida por Jair Bolsonaro em 2018. Com um presidente que, desde janeiro, governa a partir da administração do ódio, não dá sinais de arrefecer. Pelo contrário. A percepção é de crescimento do número de pessoas que se dizem “doentes”, sem saber como buscar a cura.

Vou insistir, mais uma vez, neste espaço, que precisamos chamar as coisas pelo nome. Não apenas porque é o mais correto a fazer, mas porque essa é uma forma de resistir ao adoecimento. Não é do “jogo democrático” ter um homem como Jair Bolsonaro na presidência. Tanto como não havia “normalidade” alguma em ter Adolf Hitler no comando da Alemanha. Não dá para tratar o que vivemos como algo que pode ser apenas gerido, porque não há como gerir a perversão. Ou o que mais precisa ser feito ou dito por Bolsonaro para perceber que não há gestão possível de um perverso no poder? Bolsonaro não é “autêntico”. Bolsonaro é um mentiroso.

Podemos – e devemos – discutir como chegamos a ter um presidente que usa, como estratégia, a guerra contra todos que não são ele mesmo e o seu clã. Como chegamos a ter um presidente que mente sistematicamente sobre tudo. Podemos – e devemos discutir – como chegamos a ter um antipresidente. Assim como podemos – e devemos – perceber que a experiência brasileira está inserida num fenômeno global, que se reproduz, com particularidades próprias, em diferentes países.

Esse esforço de entendimento do processo, de interpretação dos fatos e de produção de memória é insubstituível. Mas é necessário também responder ao que está nos adoecendo agora, antes que nos mate.

Em 10 de julho, o psiquiatra Fernando Tenório escreveu um post no Facebook que viralizou e foi replicado em vários grupos de Whatsapp. Aqui, um trecho: “Acabei de atender a um homem de 45 anos, negro, sem escolaridade. Nos últimos cinco anos, viu seus colegas de setor serem demitidos um a um e ele passou a acumular as funções de todos. Disse-me que nem reclamou por medo de ser o próximo da fila. Tem sintomas de esgotamento que descambam para ansiedade. Qual o diagnóstico para isso? Brasil. Adoeceu de Brasil. Se eu tivesse algum poder iria sugerir ao DSM (o manual de transtornos mentais da psiquiatria) esse novo diagnóstico. Adoecer de Brasil é a mais prevalente das doenças. Entrei agora na Internet e vi que a reforma da previdência corre para ser aprovada sem sustos. O povo, adoecido de Brasil, permanece inerte. Vai trabalhar sem direito a aposentadoria até morrer de Brasil”.
Não há normalidade nem jogo democrático quando um perverso governa a partir da administração do ódio e da mentira

Alagoano da pequena Maribondo, Fernando Tenório fez residência e atuou na rede pública de saúde mental do Rio de Janeiro. Atualmente, mantém consultório na capital fluminense e atende trabalhadores de um sindicato do setor hoteleiro. O psiquiatra me conta, por telefone, que cresceu muito o número de pessoas que chegavam ao seu consultório com sintomas como taquicardia, desmaios na rua, sinais de esgotamento corporal, dores de cabeça frequentes, sentimentos depressivos. Eram pessoas que estavam objetiva e subjetivamente esgotadas pela precarização das condições de trabalho, como jornada excessiva, acúmulo de funções, metas impossíveis de cumprir, falta de perspectivas de mudança, insegurança extrema. Tinham um “trabalho de merda” e, ao mesmo tempo, medo de perder o “trabalho de merda”, como testemunharam acontecer com vários colegas.

O psiquiatra diz que ele mesmo se descobriu adoecido meses atrás. “Fiquei muito mal, porque me senti quase um traficante de drogas legais. Estava tratando uma crise, que é social, no indivíduo. E, de certo modo, ao dar medicamentos, estava tornando essa pessoa apta a sofrer mais, porque a jogava de volta ao trabalho.” Na sua avaliação, o adoecimento está relacionado à precarização do mundo do trabalho nos últimos anos, acentuada pela reforma trabalhista aprovada em 2017, e foi agravado com a ascensão de um governo “que declarou guerra ao seu povo”. “O Brasil hoje é tóxico”, afirma.

Após a publicação do post, Tenório sentiu ainda mais o nível da toxicidade cotidiana do país: recebeu xingamentos e ameaças. Um dos agressores lembrou que sua filha, cuja foto viu em uma rede social, um dia poderia ser estuprada. A menina é um bebê de menos de 2 anos.

“Tóxico” é palavra de uso frequente de brasileiros ao relatarem o sentimento de viver em um país onde já não conseguem respirar. Na constatação de que o governo Bolsonaro já aprovou 290 agrotóxicos em apenas sete meses, o envenenamento ganha uma outra camada. É como se os corpos fossem um objeto atacado por todos os lados. País que ultrapassou a possibilidade das metáforas, a toxicidade do Brasil abrange todas as acepções.
Cresce nos consultórios os casos de depressão provocados e alimentados pelo contexto político e social

Mas que adoecimento é este que Tenório chama de “doente de Brasil”? Um psicanalista que prefere não se identificar por temer represálias explica que aumentou muito nos consultórios os quadros depressivos provocados pelo momento vivido pelo Brasil, em que especialmente pessoas ligadas à esquerda, mas não necessariamente ao PT, sentem uma total perda de sentido e horizonte. “Para a psiquiatria, a depressão é a tristeza sem contexto. Ou seja, ela é relacionada à estrutura psíquica de cada pessoa, às fundações e alicerces construídos na infância”, explica. “O que temos vivido hoje nos consultórios é o aumento da depressão com contexto, esta que não tem a ver com a estrutura do indivíduo e que nem vai melhorar no divã. Esta em que o uso de medicamentos só vai servir para obscurecer o esclarecimento das questões. Esta que só pode ser sanada por mudanças sociais.”

O rompimento dos laços, como a divisão das famílias provocada pela polarização política, tornou as pessoas ainda mais sujeitas ao adoecimento mental e com menos ferramentas para lidar com ele. Como disse um filósofo, ninguém deixa de dormir porque está tendo uma guerra no outro lado do mundo, com exceção daqueles que vivem a guerra. Com isso, ele queria dizer que as pessoas perdiam o sono muito mais por pequenas dores e preocupações comezinhas com as quais se identificavam, como as relacionadas à família e ao mundo dos afetos, do que por enormes barbáries que ocorriam no outro lado do mundo.

O que os brasileiros testemunharam foi uma inversão: a política, que sempre foi algo do campo público, invadiu o campo privado, passando a ser um fator íntimo, um fator primeiro de identificação. Dias atrás uma amiga presenciou uma conversa em que duas garotas decidiam quais os critérios para dividir apartamento com uma outra. “Não suportaria dividir com uma petista”, disse uma delas. Essa conversa, exceto no caso de militantes mais radicais, dificilmente aconteceria anos atrás: ninguém costumava perguntar qual era a orientação política antes de dividir a casa com alguém.

A eleição, que costumava ser um acontecimento pontual, da esfera pública, tornou-se algo crucial na esfera privada. Do mesmo modo, o inverso também aconteceu. Questões íntimas, como a orientação sexual de cada um, como o que acontece na cama de cada um, passaram a ser discutidas publicamente. Esse fenômeno atingiu fortemente laços que cada um considerava incondicionais, como os familiares, laços com os quais se contava para enfrentar a dureza da vida. E acentuou ainda mais os quadros depressivos e persecutórios, aumentando ansiedade e angústia, corroendo a saúde.
O sofrimento é agravado pela constatação de que as instituições não barram a violência do governo e do governante

Uma psicanalista de São Paulo, que também prefere não se identificar, acredita que o adoecimento do Brasil de 2019 expressa a radicalização da impotência. As pessoas, hoje, não sabem como reagir à quebra do pacto civilizatório representada pela eleição de uma figura violenta como Bolsonaro, que não só prega a violência como violenta a população todos os dias, seja por atos, seja por aliar-se a grupos criminosos, como faz com desmatadores e grileiros na Amazônia, seja por mentir compulsivamente. Não sabem, também, como parar essa força que as atropela e esmaga. Sentem como se aquilo que as está atacando fosse “imparável”, porque percebem que já não podem contar com as instituições – constatação gravíssima para a vida em sociedade. E então passam a sentir-se como reféns – e, seguidamente, a atuar como reféns.

“Como reagimos à violência de alguém como Bolsonaro, que faz e diz o que quer, sem que seja impedido pelas instituições?”, questiona. “Toda a nossa experiência dá conta de que a vida em sociedade é regulada por instâncias que vão determinar o que pode e o que não pode, que têm o poder de impedir a quebra do pacto civilizatório, este pacto que permite que a gente possa conviver. Nesta experiência de que há um regulador, se uma pessoa é racista, ela vai ser processada – e não virar presidente do país. O que vivemos agora, com Bolsonaro, é a quebra de qualquer regulação. E isso tem um enorme impacto sobre a vida subjetiva. Ninguém sabe como reagir a isso, como viver numa realidade em que o presidente pode mentir e pode até mesmo inventar uma realidade que não corresponde aos fatos.”

A documentação das experiências de autoritarismo em diferentes épocas e países costuma relatar o sofrimento físico e psíquico das vítimas, mas geralmente em condições explícitas. Como, por exemplo, um judeu num campo de concentração nazista. Ou uma das mulheres torturadas no Doi-Codi, em São Paulo, durante a ditadura militar do Brasil (1964-1985). Perceber essa violência explícita como violência é imediato. O que a experiência autoritária do bolsonarismo tem demonstrado é o quanto pode ser difícil resistir (também) à violência do cotidiano, aquela que se infiltra nos dias, nos pequenos gestos, na paralisia que vira um modo de ser, nas covardias que deixamos de questionar.
O cotidiano de exceção tem se infiltrado e realizado em milhões de pequenos gestos de autocensura, silêncio e ausência no Brasil

Há milhares, talvez milhões de pequenos gestos de conformação acontecendo neste exato momento no Brasil. Em silêncio. Pequenos movimentos de autocensura, ausências nem sempre percebidas. Uma autora me conta que conseguiu manter seu livro no catálogo da editora sem usar a palavra gênero.... para falar de gênero e sexualidade. Uma diretora me diz que vestiu os corpos de suas atrizes, até então nuas, numa peça de teatro. A professora de uma das mais importantes universidades públicas do país me relata que muitos colegas já deixaram de analisar determinados temas em salas de aula por medo do “poder de polícia” dos alunos, que têm gravado as aulas e se comportado de forma ainda mais violenta que a polícia formal. Um curador de eventos preferiu não fazer o evento. Mudou de assunto. Outro deixou de convidar uma pensadora que certamente levaria bolsocrentes para a sua porta. Nunca saberemos o que poderia acontecer, porque o acontecimento foi impedido para não sofrer o risco de ser impedido.

Há tantos que já preferem “não comentar”. Ou que dizem, simpaticamente: “me deixa fora dessa”. É também assim que o autoritarismo se infiltra, ou é principalmente assim que o autoritarismo se infiltra. E é também assim que se adoece uma população por aquilo que ela já tem medo de fazer, porque antecipa o gesto do opressor e se cala antes de ser calada. E em breve talvez tenha medo também de sussurrar dentro de casa, num mundo em que os aparelhos tecnológicos podem ser usados para a vigilância. Chega o dia em que o próprio pensamento se torna uma doença autoimune. É assim também que o autoritarismo vence antes mesmo de vencer.

Um dos sintomas do cotidiano de exceção que vivemos é a colonização de nossas mentes. Mesmo pessoas que viveram a ditadura militar não têm recordação de algum momento da sua vida em que tenham pensado todos os dias no presidente da República. Bolsonaro administra o horror dos dias, com suas violências e mentiras, de um modo que o torna onipresente. Faça o teste: quantas horas você consegue ficar sem pensar em Bolsonaro, sem citar uma bestialidade de Bolsonaro? É isso o autoritarismo. Mas sobre isso poucos falam.
Bolsonaro encarna a vanguarda messiânica-apocalíptica do mundo

Se Bolsonaro encarna a vanguarda messiânica-apocalítica do mundo, é preciso sublinhar que os brasileiros não estão sós. Um amigo estrangeiro me conta que, desde que Donald Trumpassumiu, a primeira coisa que ele faz ao acordar é conferir qual é a barbaridade que o presidente americano escreveu no Twitter, porque sente que isso afeta diretamente a vida dele. E afeta.

Mario Corso, psicanalista e escritor gaúcho, aponta que não é possível pensar no que ele chama de “ethos depressivo” deste momento fora do contexto do Ocidente. “Veja o Reino Unido. O novo primeiro-ministro (referindo-se ao pró-Brexit Boris Johnson) é um palhaço. E eles já tiveram Churchill!”, exemplifica. “O problema, no Brasil, é que além de toda a crise global, elegemos um cretino para presidente”, diz o psicanalista. “O que assusta é que não há freios para impedi-lo. E, assim, ele segue atacando os mais frágeis. Como Bolsonaro é covarde, ele não engrossa com os maiores que ele.”

Boris Johnson não chega a ser um Donald Trump. E nem Donald Trump chega a ser um Jair Bolsonaro. Mas a diferença maior está na qualidade da democracia. Tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, as instituições têm conseguido exercer o seu papel. No Brasil, não chega a ser perda total – ou não bastou (ainda) “um cabo e um soldado” para fechar o STF, como sugeriu o futuro possível embaixador do país nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro, o garoto zerotrês. Mas a precariedade – e com frequência a omissão – das instituições – quando não conivência – são evidentes. “Enquanto Bolsonaro não consegue uma ditadura total, porque isso ele quer, mas ainda não conseguiu, ele antecipa a ditadura pelas palavras”, diz Corso. “Bolsonaro usa aquilo que você definiu como autoverdade para antecipar a ditadura. Os fatos não importam, o que ‘eu’ digo é o que é.”
“A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu”

Para Rinaldo Voltolini, professor de psicanálise da Universidade de São Paulo, a autoverdade é a amputação da palavra no sentido pleno. “Este é um grande disparador do sofrimento das pessoas, ao constatarem que estão fora no nível mais importante. Não é que você está fora porque não tem uma casa ou um carro, hoje você está fora das possibilidades de leitura do mundo. O que você diz não tem valor, não tem sentido, não tem significado. É como se, de repente, você já não tivesse lugar na gramática”, diz o psicanalista. “O que é a guerra? A guerra acontece quando a palavra, como mediadora, se extinguiu. Isso acontece entre duas pessoas, entre países. Sem a mediação da palavra, se passa diretamente ao ato violento".

A autoverdade, como escrevi neste espaço, determinou a eleição de Bolsonaro. E seguiu moldando sua forma de governar pela guerra, o que implica a destruição da palavra. Assim, desde o início do governo, Bolsonaro tem chamado os órgãos oficiais de mentirosos sempre que não gosta do resultado das pesquisas. Como quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que o número de desempregados tinha aumentado no seu governo.

Nos últimos dias, porém, o antipresidente levou a perversão da verdade, esta que torna a verdade uma escolha pessoal, à radicalidade. Decidiu que a jornalista Míriam Leitão não foi torturada – e ela foi. Insinuou que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil teria sido executado pela esquerda, quando ele desapareceu por obra de agentes do Estado na ditadura militar. Decidiu que ninguém mais passa fome no Brasil – o que é desmentido não só pelas estatísticas como pela experiência cotidiana dos brasileiros. Decidiu que os dados que apontaram a explosão do desmatamento na Amazônia, produzidos pelo conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, eram mentirosos. Isso porque apenas no mês de julho de 2019 foi destruída uma área de floresta maior do que a cidade de São Paulo, e o índice de desmatamento foi três vezes maiores do que em julho do ano passado. E Bolsonaro decidiu ainda que “só os veganos que comem vegetais” se importam com o meio ambiente.

Bolsonaro controla o cotidiano porque fora de controle. Bolsonaro domina o noticiário porque criou um discurso que não precisa estar ancorado nos fatos. A verdade, para Bolsonaro, é a que ele quer que seja. Assim, além da palavra, Bolsonaro destrói a democracia ao usar o poder que conquistou pelo voto para destruir não só direitos conquistados em décadas e todo o sistema de proteção do meio ambiente, mas também para destruir a possibilidade da verdade.
O que vivemos não é mal-estar, mas horror

“Narrar a história é sempre o primeiro ato de dominação. Não é por acaso que Bolsonaro quer adulterar a história. A história da ditadura é construída por muitos documentos, é uma produção coletiva. Mas ele decide que aconteceu outra coisa e não apresenta nenhum documento para comprovar o que diz”, analisa Voltolini. “Não é que estamos vivendo o mal-estar na civilização. Isso sempre houve. A questão é que, para ter mal-estar é preciso civilização. E hoje, o que está em jogo, é a própria civilização. Isso não é da ordem do mal-estar, mas da ordem do horror.”

Como enfrentar o horror? Como barrar o adoecimento provocado pela destruição da palavra como mediadora? Como resistir a um cotidiano em que a verdade é destruída dia após dia pela figura máxima do poder republicano? Rinaldo Voltolini lembra um diálogo entre Albert Einstein e Sigmund Freud. Quando Einstein pergunta a Freud como seria possível deter o processo que leva à guerra, Freud responde que tudo o que favorece a cultura combate a guerra.

Os bolsonaristas sabem disso e por isso estão atacando a cultura e a educação. A cultura não é algo distante nem algo que pertence às elites, mas sim aquilo que nos faz humanos. Cultura é a palavra que nos apalavra. Precisamos recuperar a palavra como mediadora em todos os cantos onde houver gente. E fazer isso coletivamente, conjugando o nós, reamarrando os laços para fazer comunidade. O único jeito de lutar pelo comum é criando o comum – em comum.

É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização.


Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.comTwitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Martin Niemöller ”E não sobrou ninguém“.



É muito divulgado e alterado o poema de Martin Niemöller (1892-1984), ao qual se deu o nome de ”E não sobrou ninguém“.

Ele desvelava com suas palavras a conduta de indiferença para com o outro. Criticava a covardia de muitos e, sobretudo, a neutralidade e omissão da maioria silenciosa frente às atrocidades cometidas por agentes do Estado.

Segundo relatos, essas palavras foram proferidas em seus discursos e sermões, inspiradas na leitura de poemas escritos pelo sensível poeta russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930). Se você, caro(a) leitor(a) desejar saber mais sobre Niemöller, bastará clicar no link abaixo:


São estas as belas palavras e o ensinamento que nos deixou Martin Niemöller:


” E não sobrou ninguém “



Primeiro levaram os comunistas

mas não me importei com isso

eu não era comunista;


Em seguida levaram os sociais-democratas

mas não me importei com isso

eu também não era social-democrata;


Depois levaram os judeus

mas como eu não era judeu

não me importei com isso;


Depois levaram os sindicalistas

mas não me importei com isso

porque eu não era sindicalista;


Depois levaram os católicos

mas como não era católico

também não me importei;


Agora estão me levando

mas já é tarde

não há mais ninguém para

se importar com isso. 



A autoria desses versos, vez ou outra, tem sido, equivocadamente, atribuída ao poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Para impedir a segregação de cristãos de origem judaica na alemanha Nazista, o então pastor Martin Niemöller criou no outono de 1933, com Dietrich Bonhöffer, a Pfarrernotbund ("Liga Pastoral de Emergência") para apoiar os pastores não-arianos ou casados com não-arianas, que foi transformada na Bekennende Kirche (Igreja Confessante) em 1934. A Igreja Confessante recusou obediência à direção oficial da Igreja Evangélica, tornando-se um importante centro de resistência alemã protestante ao regime Nazista.
Em 1934, Niemöller acreditava ainda que poderia discutir com os "novos donos do poder". Numa recepção na Chancelaria em Berlim, ele contestou pessoalmente Hitler, que queria eximir a Igreja de toda responsabilidade pelas questões "terrenas" do povo alemão:
"Ele (Hitler) me estendeu a mão para cumprimentar e eu aproveitei a oportunidade. Segurei a sua mão fortemente e disse: 'Sr. Chanceler, o senhor disse que devemos deixar em suas mãos o povo alemão, mas a responsabilidade pelo nosso povo foi posta na nossa consciência por alguém inteiramente diferente'. Então, ele puxou a sua mão, dirigindo-se ao próximo e não disse mais nenhuma palavra."
A partir deste incidente, Niemöller ficou cada vez mais na mira do regime Nazista. Era observado pela Gestapo nos cultos e proibido de fazer pregações, o que ele não aceitou. Em 1935, é preso pela primeira vez e logo libertado. Martin Niemöller já era tido nessa época como o mais importante porta-voz da resistência protestante. No verão de 1937, ele pregava:


"E quem como eu, que não viu nada a seu lado no ofício religioso vespertino de anteontem, a não ser três jovens policiais da Gestapo — três jovens que certamente foram batizados um dia em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e que certamente juraram fidelidade ao seu Salvador na cerimônia de crisma, e agora são enviados para armar ciladas à comunidade de Jesus Cristo –, não esquece facilmente o ultraje à Igreja e deseja clamar 'Senhor, tende piedade' de forma bem profunda."

Em julho de 1937, Niemöller foi preso novamente. Passados cerca de sete meses, no dia 7 de fevereiro de 1938, começou então o seu processo diante do Tribunal Especial II em Berlim-Moabit. Segundo a acusação, Martin Niemöller teria criticado as medidas do governo nas suas pregações "de maneira ameaçadora para a paz pública", teria feito "declarações hostis e provocadores" sobre alguns ministros do Reich e, com isto, transgredido o "parágrafo do Chanceler" e a "lei da perfídia". A sentença: sete meses de prisão, bem como dois mil marcos de multa.

Os juízes consideraram a pena como cumprida, em função do longo tempo de prisão preventiva. Niemöller deveria assim ter deixado a sala do tribunal como homem livre. Para Hitler, no entanto, a sentença pareceu muito suave. 

Hitler ordenou que fosse preso NOVAMENTE e enviou o pastor como seu "prisioneiro pessoal" para um campo de concentração

Durante mais de sete anos.

Martin Niemöller permaneceu preso — inicialmente, no campo de concentração de Sachsenhausen, depois no de Dachau, até o fim da guerra, quando foi libertado.