quinta-feira, 24 de maio de 2018

Pobreza e escolhas ruins...

Psicologia e filosofia são meus passatempos prediletos... O que quer dizer que, se tenho tempo livre, eu dedico a ler e aprender sobre psicologia e filosofia em vez de assistir futebol ou praticar um esporte. Ontem eu assisti uma matéria legal sobre “Pobreza”. Assisti a apresentação do historiador e jornalista holandês Rutger Bregman, no TED com uma ideia provocadora: o rendimento mínimo garantido.

Rutger Bregman é autor de "Utopia para Realistas" (2014) e defende ideias como o rendimento básico universal, a semana de trabalho de 15 horas e a liberdade de circulação para todos. A motivação não é “psicológica”, é econômica. Mas a argumentação é o efeito psocológico da pobreza e como supera-la.

Some os fatos... Apesar de lucros recorde na iniciativa privada, sobre tudo dos bancos, a maioria da população (de qualquer país) não se beneficia em NADA com isso.

No mundo o que se vê são salários estagnados, a taxa de desemprego cada ano mais alta, as dívidas para financiar estudos e com cuidados com a saúde crescem a olhos vistos, e o mercado de trabalho não recompensa bem aqueles já empregados com dinheiro o bastante para viver decentemente. A tal uberização da mão-de-obra – em que os trabalhadores são pagos por tarefa realizada e não um salário ou taxa estabelecida por hora – aumenta a precariedade das relações de trabalho. Sem contar a informatização e os avanços tecnológicos da produção, os robôs e a inteligência artificial que cada vez mais tomam empregos ou extingue outros tantos. Enquanto os Governos discutem conceitos de atendimento médico universal, manutenção ou não de salários mínimo, discussões sobre repensar, terminar ou expandir a previdência social em todos os países sem nenhuma solução exemplar poder nortear as opiniões.

A perspectiva não é boa.

Mas Islan... é a psicologia? Cadê? Bregman apresenta dados como os levantados alguns psicólogos americanos que tinham realizado um estudo fascinante na Índia. Foi um experimento com fazendeiros de cana-de-açúcar. Esses fazendeiros recebem em torno de 60% da sua renda anual de uma só vez, logo depois da colheita e precisavam gerenciar o resto do ano com uma renda insignificante. Isso significa que eles são relativamente pobres durante uma parte do ano e “ricos” em outra.

Os pesquisadores fizeram testes de QI antes e depois da colheita nos fazendeiros e o que eles descobriram foi surpreendente. Os fazendeiros mesmos fazendeiros tiveram pontuação DIFERENTE nos períodos anteriores e posteriores as colheitas. Detalhe: Os valores eram significativamente piores antes da colheita, ou seja, nos períodos de pobreza do ano.

Os efeitos de viver na pobreza, na verdade, correspondem a perder 14 pontos de QI.

Para vocês terem uma ideia, isto é comparável aos efeitos do alcoolismo em uma pessoa.

Bregman falou também do trabalho de Eldar Shafir, um professor da Universidade de Princeton e um dos autores de uma nova teoria sobre a pobreza. Resumidamente ele estuda a “mentalidade de escassez”.

As pessoas se comportam de forma diferente quando “percebem” a escassez de alguma coisa. E não importa o que seja, pode ser falta de tempo, dinheiro ou comida. Elas tomam decisões ERRADAS quando em percepção de escassez.

Compare isto a um computador novo rodando dez programas pesados de uma vez. Ele fica mais lento, dá erro. Até que ele trava, não por ser um computador ruim, mas porque tem que fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

Pobres têm o mesmo problema. Eles não estão tomando decisões burras porque são burros, mas porque estão vivendo em um contexto no qual todos tomariam decisões burras.

Escassez gera respostas ruins.

Rutger Bregman aponta que por este motivo os programas “antipobreza” das inúmeras nações não funcionam.

Investimentos em educação, por exemplo, são frequentemente ineficazes porquê “Pobreza” não é falta de conhecimento. É um estado de mente congesto.

Uma análise recente de 201 estudos sobre a eficácia de treinamentos em gestão financeira para pobres concluiu que eles quase não têm efeito prático algum.

Não quer dizer que os pobres não aprendem nada, eles podem ganhar sabedoria, é claro. Mas isso não é suficiente. Ou, como o professor Shafir me disse: "É como ensinar alguém a nadar e jogá-lo em um mar revolto".

Rutger Bregman disse :”Na verdade, percebi que já tinha lido sobre a psicologia da pobreza. George Orwell, um dos maiores escritores que já existiu, viveu a pobreza de fato na década de 1920. "A essência da pobreza", ele escreveu na época, é que ela "aniquila o futuro". E ele ficou admirado: "As pessoas assumem que têm o direito de pregar e rezar para você quando sua renda cai abaixo de um certo nível". Estas palavras ressoam até hoje.”

Então ele falou da experiência em “Dauphin”, Canadá, em 1974.

Durante o experimento, todos na cidade tiveram uma renda básica garantida, para que ninguém ficasse abaixo da linha de pobreza. No início um exército de pesquisadores aportou na cidade. Por quatro anos tudo deu certo. Mas aí um novo governo foi eleito e não viu muito motivo para continuar um "experimento social" caro. Quando ficou claro que não havia mais dinheiro para analisar os resultados, os pesquisadores decidiram guardar seus arquivos em 2 mil caixas. Vinte e cinco anos se passaram, e uma professora canadense, Evelyn Forget, encontrou os arquivos. Por três anos ela submeteu os dados a todo tipo de análise estatística, e de todas as formas que tentava, os resultados eram os mesmos: o experimento tinha sido um sucesso tremendo.

Evelyn Forget descobriu que as pessoas em Dauphin não só ficaram mais ricas, mas mais inteligentes e saudáveis. O desempenho escolar das crianças melhorou substancialmente. A taxa de hospitalização diminuiu em 8,5%. Havia poucos incidentes de violência doméstica e reclamações de saúde mental. E as pessoas não largaram seus empregos. Os únicos que trabalharam um pouco menos foram as novas mães e os estudantes, que ficavam mais tempo na escola. Resultados semelhantes foram encontrados em diversos outros experimentos em todo mundo, dos EUA à Índia.

Então... o que eu aprendi foi: quando se trata de pobreza, os ricos, precisam parar de achar que sabem mais que os pobres. Se um rico conseguiu um dia sair da “zona” de pobreza e progredir não foram suas “oportunidades” ou receitas que os retiraram dali. Mas foi uma complexa e intrincada cadeia de eventos e decisões que nunca vão se repetir.

Precisamos parar de mandar sapatos e ursinhos para pessoas que nunca conhecemos. E deveríamos nos livrar da vasta indústria de burocratas paternalistas.

Poderíamos simplesmente dar um salário “mínimo” aos pobres.

Isto geraria o ambiente mental que desestruturaria a cadeia de bloqueios que sustentam a pobreza.


Pense nisso.


quinta-feira, 29 de março de 2018

Método para aquisição de habilidades


publicado originalmente em 01 de Setembro de 2013, por Paulo Ribeiro






Vou deixar o método proposto pelo autor mais recente, Josh Kauffman. Se quiser entender um pouco mais, assista à palestra TEDx abaixo. 






Para quem não quiser ver, segue um pequeno passo a passo. 


1. Desconstrua. Qualquer habilidade é, na realidade, um amontoado de outras sub-habilidades bastante específicas. Se você quer jogar bem futebol, na realidade, você está falando em ficar bom no toque de bola, saber se posicionar em campo, ter visão de jogo, tranquilidade para armação de jogadas e afins. Quanto mais eficiente a desconstrução, melhor você poderá praticar deliberadamente cada fator que compõe seu objetivo. Você poderá também selecionar quais os mais importantes e em qual ordem irá abordá-los. 

2. Aprenda o suficiente para se corrigir. No caminho de um autodidata, reconhecer o próprio erro é fundamental. Enquanto no modo tradicional de estudo isso só viria muito mais tarde, numa abordagem acelerada, o conhecimento que você reuniu sobre a atividade antes de saber executá-la irá ajudar no processo. Ao saber o jeito certo de fazer – antes mesmo de conseguir executar do modo certo –, você dispensa a necessidade de professor nesse cenário: você sabe onde está errando, só precisa praticar mais até acertar. 

3. Remova as barreiras para a prática. Toda a formação de hábitos pode ser enxergada como remoção de barreiras. Se quer correr depois que acorda, deixe o material de corrida ao lado da cama. Ao acordar, você não vai ter trabalho – barreira removida – para juntar suas coisas e sair de casa. Do mesmo modo com o aprendizado: reúna todas as ferramentas e conhecimento necessário sobre a atividade antes de iniciá-la, para tornar mais provável que você continue praticando. 

4. Pratique pelo menos 20 horas. O maior impedimento para o aprendizado não é intelectual, mas emocional. As técnicas do meta-aprendizado permitem que você aprenda as coisas no limite humano, mas você não chegará lá se nem ao menos sair do zero. Ser ruim em algo é desagradável, machuca nosso ego e senso de identidade. Por isso, para romper essa barreira – fase do aprendizado em que você é ruim em algo e sabe – faça o compromisso de praticar pelo menos 20 horas. 

Vinte horas é o número que a pesquisa de Josh Kauffman encontrou para a prática necessária até você observar que está ficando bom em algo. 

Novamente, não são quaisquer vinte horas; tem que ser prática deliberada, consciente e estruturada; mas só a ideia de poder aprender qualquer coisa em 20 horas é libertadora. 

Quantos hobbies você iniciaria? Quantas paixões você descobriria se não tivesse medo das dez mil horas no momento de tentar?publicado em 01 de Setembro de 2013, 12:27 

segunda-feira, 19 de março de 2018

Porque querem assassinar Marielle pela segunda vez? Chomsky explica.




Existem dois Noam Chomsky, (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) no mínimo: o linguista e o filósofo político e ambos são geniais, para dizer pouco. E por gênio, não me entendam mal, quero dizer alguém que adquiriu um grande conhecimento sobre uma ou mais áreas no decorrer da vida.

Sobre o Chomsky linguista eu sempre caminho em casca de ovos: sua teoria consegue ser tão ou mais complexa e fantástica quanto a de Wittgenstein ou Frege. O modo como Chomsky estruturou sua tese sobre o aprendizado da linguagem ou sobre a sua estrutura comum é realmente elegante ao mesmo tempo que complexo. De qualquer forma, deixo como indicação para quem se interessar Logical Structure of Linguistic Theory de 1955, para quem quiser se interessar.

Quero falar hoje do Chomsky filósofo político, que não é menos brilhante, porém enganadoramente mais simples. Enganadoramente porque de uns tempos pra cá acredita-se que qualquer um que tenha assistido alguns vídeos no Youtube pode se dizer grandes entendedores da mesma. O que me faz refletir sobre a seguinte questão: se filosofia política é assim tão fácil de ser compreendida, se todo adolescente tem respostas prontas para os incríveis desafios de nossa sociedade, porque ainda estamos tão longe de uma sociedade minimamente justa enquanto há conhecimento disponível para nos permitir colonizar Marte?

Porque filosofia política é difícil, bem mais que engenharia espacial, e mesmo problemas antigos persistem. Conta a História que entre 169 a.C. e 133 a.C Tibério Graco, um tribuno da plebe romana afirmou quando discursava para uma multidão na Rostra que “As bestas selvagens que vagam pela Itália tem seus covis, todas contam com um local de repouso e refúgio. Mas os homens que lutam e morrem pela Itália não gozam de nada além do ar e da luz; sem casa ou lar, vagam com suas esposas e filhos”. 

Dois mil anos se passaram e algo mudou? Embora exista um exército de pessoas que se colocam contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é nela que consta como item obrigatório que todo ser humano tenha direito a propriedade, e mesmo assim nem todo mundo tem sua casa. Aliás, convém que se você seja contra os Direitos Humanos, comece por se colocar contra a propriedade privada.

De qualquer modo, nossas penúrias existem desde sempre. Em Requiem for the American Dream, filme documentário disponível no Netflix, produzido a partir de quatro anos de entrevistas com Chomsky, ele aponta algumas dessas penúrias, bem como a solução encontrada pela elite financeira – chamada em tom jocoso no filme de Mestres da Humanidade. E é importante dizer que essas soluções não são boas para o resto de nós.

Comecemos por relembrar a máxima vil de Adam Smith em A riqueza das nações de 1776. Em sua época Smith tinha, textualmente declarado que os arquitetos da sociedade eram os comerciantes e fabricantes e que estes agiam de modo a garantir seus interesses, mesmo que agindo assim outras camadas da sociedade sofressem. Hoje comerciantes e fabricantes se tornaram as instituições financeiras e as corporações multinacionais, diz Chomsky, e continuam agindo de acordo com a mesma máxima: apenas venha a nós, e o Vosso Reino que se foda.

Para garantir que seus interesses continuem sendo satisfeitos os agentes a trabalho dessas instituições e corporações espalham sua rede de poder e influência que acaba por fragilizar ainda mais a democracia ao mesmo tempo que destrói o famoso Sonho Americano, que para quem não sabe, tem como fundamento a mobilidade social. É a ideia de que você pode nascer pobre, mas caso se esforce, terá condições sociais e políticas para viver melhor. É um Sonho, eu sei, você sabe e o Chomsky também. Mas durante os anos 50 e 60, nos EUA, ele foi mais ou menos viabilizado. Houve uma grande expansão social amparada por bons serviços públicos e um movimento popular atuante.

Até durante a primeira metade do século XX os EUA tinham uma boa educação pública por exemplo, fosse educação básica ou programas universitários. E os movimentos negro, feminista, trabalhista, social, ambiental entre outros, estavam na vanguarda pedindo uma maior participação social para seus membros e ampliando as vias de acesso entre a população e os oficiais governamentais, que se viam na incômoda situação de ter que agir no sentido de tornar legítima as pautas reivindicadas através da inclusão dessas pautas na norma reguladora do Estado. Traduzindo: quando a população negra protesta pedindo o fim da segregação racial, o governo acaba cedendo a contragosto e derruba a lei que legalizava a segregação.

Essa onda de fortalecimento democrático capaz de ampliar e projetar a voz do povo até as esferas governamentais torna-se uma ameaça as instituições financeiras. E isto não é apontado por Chomsky, mas por gente como James Madison, pai da Constituição Americana, que via nos pobres uma clara ameaça a sociedade como um todo. De acordo com Madison – um Senador Americano em uma época onde os políticos eram escolhidos entre a elite financeira – o Sistema Constitucional formal foi feito para garantir que o poder fique sempre nas mãos daqueles mais ricos, pois eles seriam mais responsáveis. Nos debates da Convenção Constitucional vê-se Madisonafirmar que “a maior preocupação da Sociedade tem que ser proteger a minoria rica contra a maioria [pobre]” Porque? Madison responde: “Suponha que todos votem livremente: a maioria, os pobres, se reuniriam, se organizariam e tirariam as propriedades dos ricos. Isso obviamente seria injusto, então não é possível.”

Isto quer dizer que o Sistema Constitucional norte americano – e sabemos, não apenas o deles – foi pensado para minimizar a democracia de modo que os pobres continuem sem voz. Porque quando os pobres falam, quando o povo grita, não há quem não escute e os mais ricos sofrem. E quem diz isto, não se esqueçam, era um político rico.

É por isso que empresas podem doar dinheiro para campanhas eleitorais. No Brasil há um debate horrível sobre isso e mesmo com a proibição das doações, as empresas arrumam formas de driblar a lei e continuarem doando. E isto acaba em um círculo vicioso: a corporação distribui dinheiro para o político que quando eleito irá legislar ou fiscalizar a empresa. É razoável supor que alguma empresa dará dinheiro a um candidato que não prometa algum tipo de benefício durante o mandato? Esse benefício pode ser desde leis mais brandas – como por exemplo a suspensão de algum tipo de lei trabalhista que onere a corporação – até a suspensão ou diminuição da fiscalização da corporação. E é por isso que olho com maus olhos para essas “doações” – com todas as aspas do mundo – que a prefeitura de São Paulo vinha recebendo. Porque não tenho provas, mas tenho a convicção, de que há caroço nesse angu.

O que Chomsky está nos mostrando é que há uma engrenagem muito bem montada para impedir que a democracia se radicalize, que o povo realmente tenha acesso aos meios de influenciar na política de sua cidade e de seu país. Um estudo conduzido pelo professor de Política da Universidade de Princeton, Martin Gilens, aponta que 70% da população de um país não tem meios suficientes ou necessários para influenciar a política. E o povo tem consciência disso. Ao mesmo tempo, Chomsky nos alerta, isto não é por acaso. Nem que você não tenha como influenciar na política, nem que você tenha condição para isso. E sejamos francos, precisa de pesquisa pra você sentir que não tem como mudar a política de seu país? Mas continuemos.

Veja, por exemplo, a declaração de Alan Greespan, ex presidente do FED – o equivalente ao nosso Banco Central – em depoimento ao Congresso Nacional norte americano, quando este declara a razão do seu sucesso frente a economia foi ter causado uma “maior insegurança ao trabalhador”. Greespan alega que isto manterá o trabalhador sob controle, pois quem está constantemente com medo de perder sua fonte de renda não se sindicaliza, não faz greve, não protesta por melhores salários, por mais direitos, por melhores condições no trabalho. Até que por fim, o trabalhador sequer consegue compreender como existe quem o faça repetindo como um mantra: “se não está satisfeito com seu emprego, arrume um que o satisfaça”. O que o trabalhador esquece de pensar é que não existe emprego verdadeiramente satisfatório, exceto os cargos da elite financeira. Em qualquer ocupação disponível no mercado de trabalho, o trabalhador terá que se ver equilibrado entre salários baixos, condições insalubres, sindicato corrupto, direitos trabalhistas que não o asseguram, etc.

E o trabalhador pensa assim porque há um trabalho sendo feito desde o fim do século XIX, diz Chomsky, no sentido de moldar a ideologia entre os trabalhadores. O acervo disponível nos mostra que os operários do século XIX tinham plena consciência de que o trabalho assalariado era algo próximo da escravidão, porém com outros grilhões. Essa poderosa consciência de classe foi lentamente sendo substituída por algo mais inócuo.

O ponto final desta equação nos é dado por Thorstein Bunde Veblen, economista e sociólogo norte americano que nos mostra que nossa sociedade tem por finalidade produzir consumidores, pois consumidores são pessoas mais facilmente controláveis, com atitudes padronizadas e previsíveis. O consumidor é aquele que está de tal modo anestesiado e dominado pelo marketing que abre mão de participar da vida pública de sua cidade, para conseguir crédito suficiente para viajar para Miami e comprar porcarias. Ou então viajar para Orlando e tirar foto com o Pateta. E dessa forma alimentar a roda, deslocando seu capital entre a empresa que o emprega e a empresa de quem compra.

Temos por fim um modelo social e comportamental onde um adolescente típico de 19 anos terá como desejo genuíno de lazer ir ao Shopping de sua cidade fazer quatro horas de nada, comprar um sorvete, uma nova calça, tênis, celular, quando não tudo isso junto. O pai do adolescente desejará uma piscina para sua casa, ou uma casa maior, um carro mais novo, e tudo o que seu filho também quer.

E é por isso que Marielle precisa morrer de novo. E então, após os assassinos armados, agem os assassinos sem rosto que estão a difamando: porque Mariellerepresenta o aumento democrático ao se posicionar contra essa máquina. Porque a existência de uma veradora mulher, mãe, lésbica, negra, vinda da favela que não se corrompeu e ainda se dispôs a lutar contra o interesse dos corruptos e das empresas que se alimentam disto representa um perigo apenas por existir. Ela não pode ser tão boa assim porque desta forma o povo, a imensa maioria do povo brasileiro que é tão bom quanto Marielle irá perceber que se ela pode, eu também posso.

Então não basta matá-la, sua voz tem que se perder e se tornar suja. Sua vida precisa sumir e o povo precisa aceitar que 70% de nós não pode mudar a vida pública, que é normal viver em uma cidade ou em um país onde apenas 66% dos domicílios tem sistema de esgoto ou onde morrem 60 mil pessoas assassinadas por ano. Não há outra saída além de aceitar o que temos e nossa única fonte de felicidade se torna discutir BBB, assistir ao futebol de quarta, beber cerveja barata às sextas, comer churrasco aos domingos.

O que Chomsky nos mostra é que nossa situação política, seja nos EUA, seja aqui, não é fruto do acaso, e ele mostra os culpados: os legisladores e a elite financeira que trabalha para instituições financeiras e corporações multinacionais. Não é do interesse desta classe dominante – dominante porque eles possuem os dispositivos para dar ordens em quase toda esfera social – que a classe dominada – dominada porque a nós, resta obedecer, e quando muito reclamar pra mãe – tenha algum tipo de representante capaz de nos mobilizar e apontar uma direção. E Mariellemobilizou. Milhares foram as ruas, no Parlamento Europeu ela foi lembrada, Katy Perry a homenageou em seu show, a ONU estuda seu caso.

Sua reputação precisa ser destruída e sua voz, silenciada, para que a democracia morra enquanto tenta nascer em um país, cujo ranço da ditadura está mais vivo do que nunca. Para que nenhuma voz contrária fale e o medo e o desespero vença. Mas pela primeira vez em muito tempo, estou otimista.

Tudo leva crer que Marielle está mais viva do que nunca.

sábado, 17 de março de 2018

Marielle, os direitos e os humanos



Desde a noite desta quarta-feira, quando foi publicada a notícia do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro, chegaram ao site e às redes sociais do EXTRA milhares de comentários de leitores. Grande parte lamentava o ato de barbárie no Rio, mas outros muitos criticavam e até debochavam de Marielle por ela ser uma defensora dos direitos humanos.

"Pior coisa do mundo são os direitos humanos", dizia um deles. "Quem defende os direitos humanos gosta de bandido", afirmava outro. Com 20 anos de trajetória como um jornal popular com enfoque na garantia desses direitos para TODOS os humanos, o EXTRA, no papel de veículo de INFORMAÇÃO, se sente na obrigação de esclarecer aos seus leitores o que são, afinal de contas, os direitos humanos.

A definição é simples. Direitos humanos são os direitos básicos de todos os seres humanos. Ou seja, o direito à vida, à liberdade, à liberdade de opinião, ao trabalho, à educação, à crença religiosa e muitos outros.

Um marco na história dos direitos humanos é a criação, na década de 1940, na Organização das Nações Unidas (ONU), da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com as condutas que deveriam ser comuns a todos os povos do mundo. Traduzido em mais de 500 idiomas, esse documento inspirou as constituições de vários países.

Destacamos, a seguir, alguns dos mais relevantes entre os 30 artigos do documento.


Artigo 3: Todo o homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.


Artigo 5: Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.


Artigo 7: Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.


Artigo 10: Todo o homem tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.


Artigo 11: I) Todo o homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias a sua defesa.


quarta-feira, 14 de março de 2018

CIENTISTA DE ESQUERDA SIM! ! ! ! ! 10 cientistas que se posicionavam/posicionam à esquerda politicamente! ! !

10 CÉLEBRES CIENTISTAS QUE INVALIDAM O ESTEREÓTIPO DO “ESQUERDISTA DE HUMANAS”

Surpreenda-se com o que pensavam 10 famosos cientistas, alguns laureados com o Nobel, sobre política, sociedade, costumes e o próprio papel da ciência.

19 Comentários

Ainda: quantas vezes você não presenciou a aplicação desse mesmo rótulo, só que de sinal trocado, colocando as ciências biológicas e exatas como campos de estudo dos conservadores?
No entanto, esses estereótipos não se sustentam numa observação mais cuidadosa e comprometida com os fatos, mostrando que os ideais progressistas encontram recepção onde o senso comum menos poderia esperar.
Confira os 10 cientistas que se posicionavam/posicionam à esquerda politicamente, seja defendendo causas progressistas ou mesmo se declarando socialistas.

10Stephen-HawkingV
ocê já parou para pensar sobre a contradição entre trabalho humano e automação? Pense: se a tendência é que cada vez mais seres humanos sejam substituídos por robôs em qualquer tipo de trabalho, não chegará um momento que a criação de empregos não terá mais sentido? O que faremos diante dessa situação?  Uma questão complicada, tanto que ela foi colocada para um dos maiores gênios da atualidade responder, nada mais, nada menos que o Stephen Hawking (Oxford, 1942), na sessão  “Ask Me Anything” (Pergunte-me Qualquer  Coisa) do fórum Reditt. Hawking respondeu de um modo extremamente lógico, racional, como não poderia deixar de ser, tratando-se de um físico de sua envergadura:

Se as máquinas produzirem tudo o que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas serão distribuídas. Todos podem usufruir de uma vida de luxo e prazer se a riqueza produzida pelas máquinas for compartilhada, ou a  maioria das pessoas podem acabar miseravelmente pobres, caso a pressão dos proprietários das máquinas  contra a distribuição da riqueza obtiver êxito. Até agora, a tendência parece seguir na segunda opção, com a tecnologia conduzindo a uma desigualdade cada vez maior. (Stephen Hawking)
Na sua resposta, também ficou claro que entre a lógica do capital e o bem-estar da humanidade, ele fica com a última, evidenciado o seu posicionamento político à esquerda. Apesar de Hawking ser discreto a respeito da sua visão política,  Jane Hawking, sua primeira esposa,  conta em seu livro Teoria de Tudo – A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking, que ele chegou a recusar um quarto particular quando ficou hospitalizado, devido às suas convicções socialistas. Ela o definia como um socialista liberal.
O posicionamento de Hawking sobre diversas questões apenas confirmam o relato da sua primeira esposa, como o seu apoio ao partido trabalhista inglês ( apesar de não ter gostado da gestão do trabalhista Tony Blair, principalmente devido à sua conivência com a agressiva política externa dos EUA), sua defesa da saúde pública e da necessidade de investimentos públicos em ciência, assim como a sua adesão ao boicote junto com outros cientistas contra Israel em 2013, em apoio à Palestina.
Stephen Hawking desenhado por Matt Groening – O físico britânico se tornou uma celebridade, aparecendo em vários seriados de TV.
Hawking é um cosmólogo e físico teórico que ficou conhecido principalmente por seus estudos sobre os buracos negros (estrelas que colapsam em si próprias devido ao próprio peso, cuja gravidade é tão forte que nem a luz consegue escapar). Segundo uma de suas teorias, os buracos negros podem perder massa por meio de radiação térmica, a qual ficou conhecida como Radiação Hawking. Virou uma celebridade da ciência com o sucesso do livro Breve História do Tempo, lançado em 1988.
Desde então, Hawking é uma figura constante na mídia, chegando a fazer participações especiais em seriados, como Os SimpsonsFuturamaStar TrekThe Big Bang Teory e Dexter, ganhando assim status de astro pop. Com toda essa exposição, Hawking a aproveita para divulgar a ciência para o público leigo, já que, de acordo com o físico, “devemos ter conhecimentos elementares da ciência, de modo que possamos tomar nossas próprias decisões com conhecimento de causa e não as deixar nas mãos de especialistas”.
A vida de Hawking é uma história de superação. Quando estudava Matemática na universidade de Oxford, algo estranho começou a acontecer com sua coordenação motora. De início eram objetos que caiam de suas mãos sem explicação, depois constantes quedas, parecia que suas pernas não o obedeciam mais. Foi então que, aos 21 anos, veio o diagnóstico: hospitalizado, os testes apontaram que ele era portador de esclerose lateral amiotrófica, uma doença que paralisa aos poucos todos os músculos do corpo.  Em 1985, quando visitava o CERN, na Suíça, acabou contraindo uma pneumonia, obrigando-o a passar por uma traqueostomia para poder sobreviver, o que acabou comprometendo sua capacidade de fala. Desde então, ele se comunica com um sintetizador de voz
O próprio Hawking se refere à sua doença como uma desgraça e chegou a cair em depressão quando a descobriu, porém, de personalidade decidida, Hawking aprendeu a lidar com uma doença que transforma sua vida diária numa tarefa hercúlea. No entanto, a doença não o impede de aproveitar a vida e fazer coisas que nem imaginamos fazer, como experimentar a sensação da gravidade zero, o que ele fez a bordo de um boeing 727 num mergulho em alta velocidade, em 2007, ou poder viajar pelo mundo todo, chegando a conhecer até a Antártida em 1997.
Uma curiosidade: Stephen Hawking nasceu em 4 de janeiro de 1942, exatamente no aniversário de 300 anos da morte do histórico físico italiano Galileu Galilei.
Referências
• Stephen Hawking – The Official Website
• El País – Hawking sobre duas pernas

Livros de Stephen Hawking

• Buracos Negros, Universos Bebês e Outros Ensaios (1993)
• O Universo numa Casca de Noz (2001)

Stephen Jay Gould
E
m 1994 os conservadores nos EUA ficaram eufóricos com o lançamento do livro “The Bell Curve” (A Curva Normal, Free Press, 1994), escrito pelo cientista político Charles Murray e pelo professor de Harvard e psicólogo Richard Herrnstein, ambos americanos. Nesse livro eles usam vários dados de estatística e se baseiam em testes de QI para fazerem conclusões como a de que a inteligência é uma característica hereditária e a de que os negros em relação às demais etnias, assim como os brancos pobres em relação aos brancos ricos, possuem inteligência inferior. Esse livro se tornou um best-seller e serviu como um forte argumento contra as políticas  de assistência aos mais vulneráveis socialmente nos EUA.

No Brasil, com a conivência da nossa grande imprensa, os nossos conservadores ficaram igualmente exaltados e inclusive defenderam o livro das críticas, às quais eles diziam ser motivadas politicamente, como fez o jornalista Carlos Eduardo Luis da Silva, no caderno Mais da Folha de São Paulo. Contudo, essa comemoração foi interrompida por alguém decidido a acabar com essa festa. É aí que entra o cientista Stephen Jay Gould (Nova Iorque, 10 de Setembro de 1941 — Nova Iorque, 20 de Maio de 2002).  Indignado com a repercussão do  The Bell Curve – principalmente por se assentar em determinismo biológico, o qual ele já havia devidamente comprovado em 1982, no seu livro A Falsa Medida do Homem, tratar-se mais de uma antiga concepção eurocêntrica sobre o mundo do que ciência – ele expôs ao ridículo a forçosa tentativa de Murray e Herrnstein de recuperar a credibilidade de uma doutrina fundamentada no preconceito.
Gould também alertou que a inteligência é definida por vários fatores externos, principalmente o social, o que explica os negros dos EUA, historicamente discriminados e excluídos na sociedade americana, apresentarem baixo desempenho nos testes de QI, logo reduzir a inteligência a um número é extremamente  contraproducente.  Se hoje o livro The Bell Curve é considerado pseudociência, devemos agradecer em parte ao esforço de Gould em denunciar nos seus livros, ensaios e publicamente a debilidade dos argumentos baseados em doutrinas deterministas.
Gould foi um evolucionista que causou controvérsia por defender uma tese heterodoxa do darwinismo. De acordo com a teoria de Darwin, a evolução das espécies aconteceria de forma extremamente lenta e gradual, e essa concepção se tornou um consenso, até que, nos anos 70, quando Gould e seu colega do curso de doutorado, Niles Eldredge, ao fazerem uma pesquisa com fósseis, não encontram evidências que pudessem comprovar o gradualismo da evolução. Os registros fósseis que eles estudaram diziam que, na verdade, não ocorreu mudança alguma nas espécies por um longo intervalo de tempo (lembrando que, quando se fala de evolução, a medida de tempo é geológica, ou seja, estamos falando de milhões de anos), surgindo novas espécies repentinamente. Desta forma, Gould e Eldredge concluíram que as espécies evoluem de uma forma abrupta, geralmente causada por mudanças drásticas no ambiente, e criaram a hipótese do equilíbrio pontuado, a qual foi recebida com reservas e críticas da comunidade científica. Entre os críticos se encontravam cientistas de peso, como o evolucionista britânico Richard Dawkins, o qual protestou, dizendo que o principal fator da evolução é a seleção natural.
O leitor Arlúcio Filho também lembra que “apesar de ser fundamentada no registro fóssil, essa hipótese não leva em consideração o próprio processo de fossilização, que é composto de várias etapas, como sedimentação rápida, pouquíssima ação de decompositores e condições ideais de pressão e temperatura. Esse é basicamente o cerne da crítica gradualista: fósseis não são tão fáceis de se formarem e, portanto, é difícil documentar a evolução gradual por um meio ‘impreciso’ de sobre como se dão os processos de especiação.”
Um fóssil de Tiranossauro Rex despertou a paixão pela ciência em Gould quando ele tinha apenas 5 anos.
Numa entrevista à revista Veja em 1993, Gould demonstrou preocupação com a abordagem simplista que a mídia e alguns cientistas fazem da ciência. Lamentou que a febre sobre dinossauros provocada por filmes como Jurassic Park acaba nos seus bonecos expostos em shopping centers e museus, não instigando as crianças e jovens a irem além, e considerava irresponsável como alguns cientistas tentavam simplificar conceitos com o intuito de popularizá-los, o que, na visão de Gould, apenas confundia ainda mais as pessoas, como foi o caso da metáfora da “Eva mitocondrial” (na verdade o estudo do DNA das mitocôndrias mostrou que viemos de um grupo isolado de indivíduos, e não de uma “Eva”).
Apesar de ter sido extremamente criterioso, principalmente quando o assunto era Ciência, Gould foi um grande divulgador científico para as massas. Com um discurso eloquente e persuasivo, tanto na escrita, como na oratória, Gould divulgou a ciência de forma entusiasmada para o grande público por meio de ensaios, livros, palestras e entrevistas, despertando assim o interesse de muitos pela ciência.
Foi um fóssil de Tiranossauro Rex exposto no Museu de História Natural de Nova Iorque o responsável por fazer Jay Gould, então uma criança de 5 anos, tornar-se mais tarde um paleontólogo e um grande cientista, o que nos mostra a importância dos museus na nossa formação. Portanto, levemos nossas crianças aos museus, porque o mundo precisa de mais pessoas como Stephen Jay Gould! (E, no caso do Brasil, cobremos a existência de museus de história natural também, para ser possível a popularização da ciência entre as crianças brasileiras.)
Referências
• Youtube –  Gould sobre os testes de QI
• Museu de História Natural de Washington – Perfil de Gould

Livros de Stephen Jay Gould
• Vida Maravilhosa
• O Polegar do Panda
• A Falsa Medida do Homem

Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 8 Richard Levins
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ascinado pela complexidade. Talvez essa seja a melhor maneira de definir o prestigiado cientista Richard Levins (Nova Iorque, 1 de junho de 1930 – Cambridge, 19 de janeiro de 2016), que abalou a velha concepção que se tinha no meio acadêmico de como se fazer ciência. Com sua aparência de  Merlim dos dias atuais, Levins se mostrou tão sábio quanto as lendas diziam ser o mago da Bretanha medieval: inspirado em Hegel e Marx, ele criou um novo método de análise da evolução, dando origem ao conceito de metapopulações, no qual se preconiza o estudo da interação das espécies entre si e com o meio ambiente. Assim, Levins ajudou a mudar a Biologia moderna, que antes encarava o meio ambiente como algo objetivo, uniforme e em grande parte estático, para um sistema que é “selecionado, transformado e definido pelos organismos”.

O jovem Richard Levins nos anos 50, quando precisou se exilar em Porto Rico devido ao macartismo.
Levins se formou na Universidade de Cornell e se tornou um renomado ecólogo, geneticista, biomatemático, filósofo da ciência e se tornou professor das universidades de Harvard e Michigan, mas também ficou conhecido pelo seu combate à pseudociência e pelo seu engajamento político, mostrando-se um defensor radical do socialismo. Como Stephen Gould, foi crítico feroz do determinismo biológico e de concepções reducionistas da biologia, não poupando nem mesmo seus colegas de Harvard, caso do biologista Edward O. Wilson, que tentou com o seu livro A Conquista Social da Terra  justificar as diferenças sociais e culturais usando darwinismo social repaginado.  Levin fez uma revisão deste livro invalidando todas as conclusões levantadas por Wilson com propriedade, valendo-se do seu vasto conhecimento científico.
Em 1950, em pleno período de caça às bruxas promovido pelo macartismo, teve que fugir com sua esposa, a escritora porto-riquenha Rosario Morales, para Porto Rico, onde se tornou agricultor e um grande contribuidor dos movimentos sociais locais. Levins era marxista, mas seu posicionamento político à esquerda já havia sido definido desde muito cedo. Com apenas 8 anos, ele já demonstrava se importar com questões políticas e decidiu arrecadar dinheiro para ajudar o Batalhão Abraham Lincoln, grupo de voluntários americanos de esquerda que lutaram na Guerra Civil espanhola.
O interesse de Levins pela ciência e pela política foi estimulado em casa e faz parte da história de sua família.  Sua trisavó se rebelou contra o judaísmo ortodoxo, o qual continua extremamente conservador até hoje, que dirá naquele tempo.  Seu pai, um advogado, foi membro de uma liga de jovens comunistas.  Já com seu avô, ele aprendeu a importância da ciência, ao ouvir atentamente a leitura que seu avô fazia para ele e sua irmã de livros científicos para crianças.  Levins dizia que cresceu tendo a consciência de que política e ciência são inseparáveis, pois para ser possível transformar o mundo é necessário compreendê-lo.
Referências
• Harvard Public Health Review – Dialectics of Disease
• Harvard Chan School News – Finding truth in ‘the whole’

Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 7 Nikolas Tesla
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iz a lenda que Nikola Tesla veio ao mundo por volta da meia-noite, quando caía uma forte tempestade. Durante o parto, impressionada por ouvir um estrondoso trovão, a parteira fez um mau presságio: a criança que acabara de nascer seria “um filho das trevas”. Indignada, a mãe de Tesla imediatamente respondeu: “não, ele será um filho da luz!”

Tributo a Tesla próximo à hidrelétrica das Cataratas do Niágara – A consolidação da corrente alternada é uma consequência da obstinação de Tesla por energia livre e acessível a todos.
De fato a história de Tesla foi a de um ser humano iluminado, que irradiou o progresso humano com seu gênio e criatividade. Filho de pais sérvios ortodoxos, nascido em 10 de julho de 1856, em Smiljan, no então Império Austro-Húngaro, a fama de Tesla porém aconteceria para além dos Balcãs e do outro lado do Atlântico, quando imigrou para os EUA. Sua formação de engenheiro foi incompleta, mas seu autodidatismo e facilidade com a Física e a Matemática não impediram que ele se tornasse um mago da eletricidade e um grande inventor.
Tesla possuía memória fotográfica e era capaz de mentalizar o funcionamento dos aparelhos que, uma vez tornado reais, funcionavam exatamente como ele havia imaginado, como é o caso de uma de suas maiores invenções, o motor trifásico. A corrente alternada, o aperfeiçoamento dos motores elétricos, o transformador do poste da sua rua, a lâmpada fluorescente, a ignição elétrica que aciona o motor dos carros, a bobina de Tesla (que permitiu a transmissão de dados sem fio, como é o caso da sua rede Wi-Fi) e mesmo o rádio e o raio-X, que comumente são atribuídos como descobertas de Guilherme Marconi e Wilhelm Conrad Röntgen respectivamente, são algumas das contribuições de Tesla que possibilitaram boa parte do avanço tecnológico que facilita a nossa vida hoje. As limitações que existiam para a eletrificação em larga escala foram superadas graças à eficácia do sistema de corrente alternada na transmissão de energia que ele desenvolveu, apesar da resistência que existiu para a sua implantação, já que a corrente contínua do seu rival Thomas Edison era a que dominava na época. O industrial George Westinghouse acreditou no potencial da corrente alternada de Tesla e convenceu o governo norte-americano a construir uma usina hidrelétrica nas cataratas do Niágara com esse modo de transmissão. Ao serem ligadas as turbinas, impulsionadas pela queda de água das cataratas, toda a cidade de Nova Iorque foi iluminada com sucesso, sem desperdício de energia e livre dos perigos de curtos incendiários e da constante manutenção exigida pelo sistema DC de Edison.
Mesmo sendo dono de mais de 700 patentes, Tesla nunca se tornou milionário e praticamente ficou sem nada no fim de sua vida. Tudo o que ganhou ele investiu em laboratórios e em pesquisas que não visavam lucro, mas sim a realização do seu sonho de construir um sistema de transmissão de energia livre e sem fios, que estaria disponível para a humanidade em toda parte do globo:
“O dinheiro não vale tanto como os homens imaginam. Todo o meu dinheiro foi investido em experimentos que me possibilitaram fazer novas descobertas, que permitem a humanidade ter uma vida facilitada.”
A sua preocupação não era apenas humanitária, Tesla também via complicações no uso da energia de origem fóssil, a qual ele já percebia no início do séc. XX ser insustentável, e defendia o uso de fontes de energia renováveis:
“Todas as pessoas no mundo todo deveriam ter fontes de energia livre (…) A energia elétrica está por toda a parte presente em quantidades ilimitadas e podem alimentar o maquinário do mundo sem a necessidade de carvão, petróleo ou gás.”
Apesar de não ter habilidade para os negócios, Tesla sempre teve o suporte dos capitalistas da época, mas até o ponto que lhes interessavam, até onde eles percebiam que haveria um retorno bem lucrativo, do qual Tesla apenas receberia as migalhas. J.P. Morgan topou financiar um grande projeto de Tesla – uma estação de geração de energia, que já estava em um estágio avançado de construção, apresentando uma torre de quase 55 metros de altura, da qual grande quantidade de energia elétrica seria produzida – mas assim que soube se tratar de energia livre, que não pode ser medida e nem cobrada, ele imediatamente cancelou o apoio financeiro ao projeto. Mais tarde, o próprio governo americano destruiu a torre, dinamitando-a com o pretexto de que poderia servir de referência para submarinos alemães durante a 1ª Guerra Mundial
Não existe registro algum sobre o posicionamento político de Tesla, contudo, pelo que ele expressava em suas ideias e em seus atos, ele deixava claro que tinha um comprometimento com a humanidade e a sua emancipação. Tesla era um humanista e, por ter tentado durante toda a sua vida viabilizar a completa coletivização do acesso à energia elétrica, talvez fosse um socialista inconsciente também. Se hoje podemos usufruir de toda a comodidade possibilitada pelo advento da energia elétrica, como acender uma luz, ou se locomover utilizando o metrô, devemos agradecer em grande parte ao gênio de Tesla, ou, como o instinto materno de sua mãe precisamente vaticinou, do filho da luz que veio iluminar a modernidade.
Referências
• Live Science – Nikolas Tesla Biography
• International Vegetarian Union – Nikola Tesla (1857-1943)

Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 6 Mário Schenberg
I
magine uma pessoa que apresente as seguintes características, e ainda no cenário da política representativa de São Paulo: nordestino, judeu e comunista. Se teve até ex-presidente e ex-prefeita que não foram perdoados até hoje unicamente pelo fato de serem nordestinos e de centro-esquerda, que dirá uma pessoa que, além de nordestino, era judeu e comunista, que ousou se eleger deputado duas vezes nesse Estado, um dos mais conservadores do Brasil. Com um combo desses, o pernambucano Mário Schenberg (Recife, 2 de julho de 1914 — São Paulo, 10 de novembro de 1990) certamente seria massacrado por todo tipo de preconceito,  se tornaria alvo de discurso de ódio e poderia até mesmo correr risco de morte pelos setores mais fascistas da sociedade paulista, no entanto ele também foi um físico de reconhecimento internacional, chegando a ser considerado um dos dez físicos mais importantes do mundo por Albert Einstein. Sua importância como físico acabou inibindo os ataques preconceituosos, mas isso não impediu que ele fosse perseguido, chegando a ser preso por 2 meses, quando eleito deputado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1946, e exilado no período da ditadura militar.

Por conta do seu posicionamento político, Schenberg foi perseguido, recebeu ameaças, chegou a ser preso, teve direitos políticos cassados e foi afastado da USP.
Mesmo tendo que viver e conviver num ambiente tão hostil, isso em nada abalou a dedicação de Schenberg à ciência, a qual foi intensa e produtiva. Formado em engenharia elétrica e matemática pela USP, ele foi pioneiro nos estudos de física teórica no Brasil, sendo autor de 114 trabalhos sobre astrofísica, teoria quântica do campo, física experimental, física matemática, análise funcional e geometria, assim como desenvolveu pesquisas sobre Eletromagnetismo e Gravitação.
Trabalhou com cientistas renomados, entre eles três vencedores do prêmio Nobel de física: o alemão Albert Einstein, o italiano Enrico Fermi e o indiano Subrahmanyan Chandrasekhan. Com este, desenvolveu o limite Schönberg-Chandrasekhan, no qual é estipulado o valor máximo de massa do núcleo de uma estrela que suporta o seu colapso gravitacional sem entrar em processo de fusão. As estrelas e sua evolução foram o seu principal objeto de estudo, o que lhe rendeu a descoberta, junto com o físico russo George Gamow, do processo URCA, que explica como as supernovas explodem. O nome surgiu devido ao cassino URCA, no Rio de Janeiro, local onde Schenberg e Gamow conversavam sobre esse processo enquanto jogavam.
Na ocasião, Gamow fez uma analogia entre a rapidez de perda de energia do centro das supernovas e a perda de dinheiro na mesa de apostas no jogo de roleta, o que fez o nome ter sentido na língua russa também, já que urca significa ladrão em russo. O nome também gerou um fato engraçado: cientistas que não conheciam a origem desse nome, acabaram interpretando URCA como a sigla para Ultra Rapid Catastrophe
De espírito inquieto e ávido pelo saber, Schenberg não se contentou apenas em compreender a mecânica que rege o universo, mas também em como a mente humana o percebia e o expressava, tornando-se assim um físico incomum, que também era crítico da arte. Como deputado, lutou por mais investimento público na ciência brasileira, o que possibilitou o surgimento da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Schenberg faleceu em 10 de maio de 1990, deixando uma herança inestimável para a ciência e sociedade brasileiras. Sua vida foi um histórico de comprometimento com as artes, a filosofia, a sociedade, a política, e, como cientista, teve uma carreira tão brilhante quanto as estrelas que estudava. Um nordestino, judeu e comunista.


Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 5 Marie Curie
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ilha de professores da cidade de Varsóvia, outrora bem posicionados socialmente, mas que haviam empobrecido pelo suporte dado aos movimentos de independência do então Reino da Polônia contra a Rússia czarista, Marie Curie (Varsóvia, 7 de novembro de 1867 — PassySallanches, 4 de julho de 1934) enfrentou desde cedo uma vida de privações, mas que nunca a intimidou de desistir do seu sonho de ser uma cientista. Para driblar as proibições impostas pela Rússia e o machismo do próprio país, que a impedia de fazer um curso superior, frequentou uma universidade clandestina que admitia mulheres, enquanto tentava se sustentar trabalhando como governanta e professora particular. Visando aprofundar e completar seus estudos, fez um trato com sua irmã: ela a ajudaria ir para Paris, e a irmã faria o mesmo em retribuição quando alcançasse uma situação estável na capital francesa. Assim que sua irmã encontra seu espaço na sociedade parisiense, ela convida Curie para morar com ela em Paris em 1891.

Marie Curie numa das ambulâncias de radiologia, equipadas com aparelhos que ela desenvolveu e que salvaram muitas vidas na 1ª Guerra Mundial.
Admitida na universidade Paris, Curie prosseguiu com seus estudos em Matemática, Química e Física e assim que se graduou, foi incentivada pelo físico Henri Bacquerel a estudar a radiação de sais de urânio junto com seu marido Pierre Curie. O trabalho dos três rendeu-lhes um Nobel de física em 1903, e Curie entrou para a história como a primeira mulher a ser premiada pela Academia Sueca.
Curie repetiu o feito em 1911, recebendo o prêmio Nobel de Química pela descoberta dos elementos Polônio (uma homenagem ao seu país) e Rádio, tornado-se a única pessoa a possuir dois prêmios nobéis no campo da ciência. Porém seus feitos iam muito além do seu brilhantismo nos estudos científicos, Curie era também uma mulher comprometida com a humanidade, chegando a abrir mão de uma fortuna que poderia ganhar caso tivesse patenteado o processo de separação do rádio. Na época, apenas 1 grama de rádio poderia chegar a 100 dólares… Curie defendia a ciência para as pessoas, e não para o lucro. Na Primeira Guerra Mundial, convencida da utilidade benéfica dos raios-X, desenvolveu e doou equipamentos de radiologia, assim como treinou médicos e centenas de enfermeiros (a maioria de mulheres) para utilizá-los corretamente.
Ela própria chegou a dirigir ambulâncias equipadas com seus aparelhos até a linha de frente dos conflitos. Desta forma, as equipes médicas puderam identificar estilhaços e balas no corpo dos soldados com facilidade, evitando operações e aumentando suas chances de recuperação.
Curie também teve que enfrentar o machismo da era vitoriana, o qual voltou a lhe impor obstáculos em Paris. Apesar de não terem lhe negado o acesso à universidade por ser mulher, como acontecera na Polônia, Curie teve que lutar pelo seu espaço dentro da academia dominada por homens que fizeram de tudo para boicotá-la. Essa dominância já se mostrava evidente na sua própria graduação, em que a representatividade feminina se limitava a Curie e apenas mais uma mulher.
O trabalho de Curie apenas foi notado pela Academia de Ciências de Paris quando um homem  se dispôs a ler seu comunicado, o vencedor do prêmio Nobel de Física de 1908, Gabriel Lippman, amigo do casal Curie. Nesse ínterim, Pierre teve que assumir a coautoria das pesquisas para que o trabalho da esposa tivesse algum reconhecimento. O próprio Nobel lhe seria negado, caso seu marido não interviesse para lembrar ao comitê que era Curie a principal responsável pelos estudos sobre radiação. Mesmo sendo uma cientista de gênio extraordinário, celebrado com seu primeiro nobel e com um doutorado de física em 1903, o reconhecimento da academia francesa veio apenas 5 anos após a morte do seu marido, quando ela se tornou a primeira professora de Física Geral na Faculdade de Ciências. Curie também cooperou com o movimento feminista da época, permitindo que seu nome e imagem fossem utilizados nas manifestações a favor do sufrágio feminino.
Quando vemos as mulheres nas universidades ou no exercício das mais diversas funções, seguindo a trajetória que elas escolheram para suas vidas, mesmo ainda sendo alvo de preconceitos por conta disso, tendemos a acreditar que no Ocidente elas sempre tiveram essa liberdade.  Sequer desconfiamos que num passado bem próximo, a emancipação feminina era encarada como um desvio da natureza humana e foi tão combatida quanto é atualmente nos países islâmicos dominados pelo fundamentalismo. A saga vitoriosa de Marie Curie para se tornar uma cientista renomada e reconhecida, pode nos contar muito sobre isso e nos conscientizar sobre a importância do feminismo.
A sua genialidade e caráter foram transmitidos à sua filha Irène Joliot-Curie, a qual também foi agraciada com o prêmio Nobel de Química em 1935 e compartilhava os mesmos ideais humanistas de sua mãe, chegando a participar do partido socialista francês para lutar contra o fascismo.
Referências
• BBC History – Marie Curie
• Live Science – Marie Curie: Facts & Biography
• University of Illinois – About Marie Curie
• The New Atlantis – The Marvelous Marie Curie
• The Royal Society of Chemistry – It belongs to the people

Para saber mais sobre Marie Curie
• Sobre o “Caso Marie Curie”, de Gabriel Pugliese, editora Alameda

Voyager - 10 Cientistas Progressistas - 4 Julius Robert Oppenheimer
O
posicionamento político de J. Robert Oppenheimer era de simpatia pela causa socialista e explica em parte os dilemas e conflitos que ele teria ao longo de sua vida. Quando seu pai faleceu, ele usou parte da milionária herança que recebeu para financiar grupos socialistas de resistência contra o fascismo na Europa. Também ajudou os republicanos na Guerra Civil Espanhola, em sua luta contra o franquismo. Entre seus alunos era muito comentado que Oppenheimer havia lido inteiro o livro O Capital, de Karl Marx, numa viagem de trem na Europa. Seja uma história inventada ou não, ela denuncia que sua preferência política não era segredo para ninguém, apesar dele ter sempre evitado falar sobre política publicamente.

Oppenheimer foi marcado pelo estigma de ser o “pai da bomba atômica”, porém  a História mostra que, na verdade, a bomba atômica teve vários pais, sendo o medo e interesses geopolíticos as principais causas do seu nascimento. A ascensão e consolidação do nazismo assombrou o mundo acadêmico dos países europeus que estavam sob seu domínio ou influência. Vários intelectuais e cientistas que lá viviam, começaram a sofrer perseguição por não estarem de acordo com o regime nazista ou simplesmente por serem judeus, não lhes restando outra opção a não ser fugir para países neutros, como a Suíça, ou, como optou a grande maioria, para os EUA, onde foram muito bem recebidos. Foi nesse momento que ocorreu uma mudança do polo de criação científica mundial: a Europa acabou perdendo este posto para os EUA, o que se mantêm até o hoje.
Muitos dos melhores físicos que viviam na Europa, estudavam e pesquisavam nas universidades alemãs, principalmente nas de Berlim, e praticamente todos foram embora para os EUA diante da ameaça nazista. Uma vez nos EUA, eles alertaram o governo americano sobre a grande possibilidade dos nazistas desenvolverem uma arma atômica, convencendo-o assim, a iniciar o projeto Manhattan, liderado por Oppenheimer. Como resultado, o que os físicos europeus refugiados nos EUA mais temiam que os nazistas desenvolvessem, se tornou uma realidade nas mãos do governo americano e em 06 de agosto de 1945, foi lançada em Hiroshima uma bomba atômica de urânio (Little Boy), e 3 dias depois lançada em Nagasaki uma bomba nuclear de plutônio (Fat Man), deixando o mundo estarrecido com o seu poder de destruição.
Oppenheimer em foto da revista Life – Foi estigmatizado como pai da bomba atômica, porém seu maior feito foi ser um dos fundadores da Física teórica moderna nos EUA.
Considerando que a construção da bomba atômica foi em parte instigada pelo medo dos físicos europeus dela ser desenvolvida antes pelos nazistas, os quais inclusive participaram do projeto, como é o caso do Albert Einstein, além do projeto Manhattan ter contado com centenas de físicos americanos e a construção da bomba ter envolvido o número impressionante de mais de 200 mil trabalhadores, o fato de Oppenheimer ter carregado para sempre o estigma de ser o “pai da bomba atômica” por ter liderado o projeto parece um pouco injusto.
Inicialmente satisfeito com o lançamento exitoso da bomba Little Boy em Hiroshima, com o passar dos dias a consciência de Oppenheimer começa a pesar cada vez mais, principalmente quando ele fica ciente do número de civis mortos pelas bombas desenvolvidas num projeto que ele liderou. Por tal razão, durante a Guerra Fria, desta vez ele se opôs contra o governo americano, que estava interessado em desenvolver uma bomba de hidrogênio. Numa tentativa de calá-lo, o seu passado político foi utilizado como pretexto para a abertura de um inquérito, no qual foi acusado de traição devido a sua ligação com supostos e declarados comunistas, como era o caso do professor Haakon Chevalier.
O fim das investigações mostraram que de fato tentaram convencer Oppenheimer a passar dados sigilosos sobre as bombas aos soviéticos, porém a sua fidelidade aos EUA sempre falou mais alto. No mais, Oppenheimer estava profundamente decepcionado com a URSS devido ao seu autoritarismo, a chance dele ser um colaborador dos soviéticos era totalmente nula.
Oppenheimer foi um cientista que se tornou uma vítima das circunstâncias do conturbado século XX, primeiramente do período extremamente conflituoso do entreguerras, depois da caça às bruxas promovida pelo macartismo nos EUA em plena Guerra Fria. Simpatizante da causa socialista e comprometido com um mundo melhor, acabou se tornando uma pessoa de espírito perturbado por se sentir indiretamente responsável pela morte de milhares de pessoas e ter sido acusado e julgado pelo próprio país que ele tanto admirava, apesar de suas convicções políticas.
Estigmatizado, poucas pessoas lembram ou sabem que Oppenheimer foi responsável pela fundação da física teórica moderna nos EUA, além de ter divulgado diversos estudos sobre física quântica, principalmente durante o período que viveu na Europa. Num desses estudos ele indicava por meio de cálculos a existência de buracos negros, o qual poderia lhe garantir um prêmio Nobel de Física se ainda estivesse vivo quando mais tarde outros físicos foi comprovaram sua teoria. Fumante inveterado, Oppenheimer faleceu com 62 anos de câncer na laringe.
Referências
• National Science Digital Library – Oppenheimer Bio
• Scielo – A Gênese da Bomba
• Universidade de Berkeley – Oppenheimer: A Life.
• The New Atlantics – The Agony of Atomic Genius

Para saber mais sobre J. Robert Oppenheimer

Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 3 Jonas Salk
A
poliomielite é uma doença que castigava a humanidade desde tempos pré-históricos. Os antigos egípcios já a conheciam bem e chegaram a registrar vítimas da doença em suas pinturas e esculturas, nas quais apareciam adultos com pernas deformadas e crianças de bengala. Nem mesmo os avanços da medicina moderna e a implantação de saneamento básico em países desenvolvidos foi capaz de detê-la com eficácia. Em 1952 ocorreu um surto de pólio nos EUA, infectando mais de 58 mil pessoas, matando mais de 3 mil e provocando diferentes graus de paralisia em mais 21 mil.

As vítimas eram em sua maioria de crianças, o que entristeceu profundamente o médico e cientista Jonas Salk (Nova Iorque, 28 de outubro de 1914), que já estava desde 1947 dedicando-se integralmente – chegando a trabalhar 16 horas por dia, 7 vezes por semana – para encontrar uma vacina que pudesse erradicar a pólio não só dos EUA, mas de todo o globo.
O esforço de Salk colocava-o no limite, e, quando suas pesquisas pareciam não avançar ou  apenas trazer resultados pouco animadores, ele pensou até em desistir. De acordo com o artigo da revista Wisdom (agosto de 1956):
“Ele estava sentado em um parque e viu crianças brincarem. Percebeu, pois, o quão importante o seu trabalho era. Ele viu que havia milhares de crianças e adultos que jamais voltariam a andar e cujos corpos seriam paralisados. Ele percebeu sua enorme responsabilidade, e assim continuou sua tarefa com vigor renovado.”
O cientista anticapitalista: Jonas Salk não quis patentear a vacina que desenvolveu contra a poliomielite.
Em 1953 John Enders conseguiu cultivar o vírus da poliomielite in vitro, o que lhe garantiu o prêmio Nobel de medicina no ano seguinte. Tal técnica facilitou a manipulação do vírus, permitindo Salk desenvolver versões dele atenuada ou inativa (morto). Em teste com macacos, a vacina foi um sucesso, tornando-os imunes contra a Pólio.  Restava saber se a vacina faria o mesmo efeito em humanos. Salk, tendo  certeza de que havia vencido a batalha contra essa doença, aplicou a vacina em si próprio, na mulher e em seus 3 filhos (todos aceitaram voluntariamente). Finalmente, e para felicidade geral de todas as nações, em 1955 a vacina contra a pólio se tornou uma realidade, e foram iniciadas campanhas de vacinação em massa no mundo todo. O feito de Salk também evidenciou o seu humanismo e generosidade, quando ele anunciou que não tinha pretensão alguma de patentear a sua vacina. A solidariedade de Salk causou surpresa e deixou muita gente atônita numa sociedade de cultura individualista como é a norte-americana, a ponto de um jornalista cético sobre a generosidade de Salk lhe perguntar quem era o real detentor da patente, ao que Salk respondeu:
“Bem, eu diria que o povo. Não há patente. Você patentearia o Sol?”
Salk nunca se definiu politicamente, e nem poderia falar muito sobre política mesmo se quisesse, já que se entregava de corpo e alma ao seu trabalho. Porém, mais tarde também ficou comprovado que ele tinha mais razões além do trabalho para evitar temas políticos: quando jovem, Salk se tornou alvo de investigação pelo FBI por estar envolvido com causas de esquerda. Para evitar que fosse impedido de seguir os seus sonhos, Salk optou se dedicar a essas causas de uma forma que o governo norte-americano o deixasse em paz: trabalhando incessantemente como virologista para desenvolver curas contra doenças virais, o que ele fez até o fim da sua vida. Salk faleceu em 23 de junho de 1995, na cidade de San Diego, interrompendo assim o seu trabalho de 8 anos para encontrar uma vacina contra o vírus da AIDS.
Referências
• Salk – History of Jonas Salk

Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 2 Carl Sagan
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omo Jay Gould e Richard Levins, a paixão de Carl Sagan pela ciência começou muito cedo e ele costumava dizer que aprendeu o método científico em casa, quando seus pais o instigavam a ser cético e curioso. Foi essa curiosidade que o fez ir à biblioteca com apenas 6 anos, para procurar livros que falassem sobre as estrelas, e o que ele encontrou o deixou maravilhado: aprendeu que o sol também era apenas mais uma estrela entre bilhões existentes no universo, permitindo assim que o pequeno Sagan tivesse uma real noção da imensidão do cosmo pela primeira vez em sua vida. Essa descoberta o encantou tanto, que definiria o caminho pelo qual Sagan deveria seguir. Deste modo se tornou mais tarde físico pela Universidade de Chicago e um cientista da NASA nos anos 50, na qual foi consultor dos programas de viagens à Lua e de projetos das sondas Pioneer e Galileu.

Em 1960 finalizou seu doutorado em astronomia e astrofísica. A sua fascinação pela possibilidade da existência de vida extraterrestre, rendeu o seu trabalho mais conhecido na NASA: os discos dourados com imagens e sons que mostram a diversidade de culturas e da vida na Terra, os quais foram acoplados nas sondas Voyager 1 e Voyager 2.  Sagan se referia a esses discos como uma mensagem dentro de uma garrafa jogado no oceano cósmico, porém, mesmo ele considerava muito improvável elas serem achadas por uma civilização extraterrestre e preferia encará-las como uma cápsula do tempo ou uma declaração simbólica da humanidade vagando pelo espaço.
Sagan também foi exitoso em sua missão pessoal de tornar a ciência uma matéria mais acessível ao público leigo, para o qual sempre se dedicou com entusiasmo. Carl Sagan acabou se tornando o divulgador científico mais popular e querido do mundo. Ele sabia melhor do que ninguém que uma das melhores formas para trazer alguma luz  num “mundo assombrado pelos demônios” era por meio da popularização da ciência.
Sagan ao lado de uma réplica da sonda Voyager – O maior divulgador científico de todos os tempos era usuário de maconha e a favor de sua liberalização.
Politicamente era notório que Sagan tinha uma visão bem progressista. Numa sociedade em que a ideologia conservadora dita o senso comum tanto quanto no Brasil, a ponto de colocar seus liberais à esquerda do espectro político,  a postura progressista de Sagan foi encarada com desconfiança e numa entrevista em 1989 o então apresentador Ted Turner lhe fez a pergunta inevitável: “você é socialista?” Sagan respondeu que os EUA gastavam muito mal os seus recursos investindo demais no setor militar, quando poderia investir em políticas sociais. Sendo ferrenho opositor do governo conservador de Ronald Reagan, chegando a fazer campanhas contra o seu programa “Guerra nas Estrelas”, o qual, se aprovado, instalaria um “escudo” antimísseis nucleares no espaço e que custaria mais de 220 bilhões de dólares, o ativismo político de Sagan contra a megalomania e o total desprezo pelos problemas sociais da direita norte-americana foi respondido com autoritarismo: ele foi preso com mais 400 pessoas em Nevada, quando faziam manifestação contra o desenvolvimento de armas nucleares. Nos costumes se mostrou igualmente progressista, chocando o conservadorismo norte-americano ao falar abertamente sobre como o uso da maconha melhorou sua vida sexual e sua criatividade; Sagan foi uma das primeiras vozes a defender o uso e a liberalização da maconha nos EUA.
Além das questões políticas e sociais, Sagan também se preocupava com os impactos provocados pelo homem no meio ambiente e na vida do planeta. Condenava o antropocentrismo e advogava a favor dos direitos dos animais, o que muitas pessoas que se definem como racionalistas hoje, entre eles admiradores do próprio Sagan,  chamam de “mimimi de ecochatos”. Também nos alertava sobre o perigo do efeito estufa, baseando-se nos seus estudos sobre a atmosfera extremamente densa e quente de Vênus. Hoje a lógica de produção e reprodução do sistema dominante emite dióxido de carbono na atmosfera numa taxa muito superior da qual o planeta pode absorver e todas as tentativas de controle dessa emissão são frustradas. Sagan reconhecia as limitações e problemas causados pela má aplicação da ciência, mas ele defendia que os ganhos que ela trazia para a humanidade eram bem maiores e assim ele justificava o seu otimismo como cientista. Para Sagan, a humanidade poderia ter um universo com bilhões e bilhões de estrelas para explorar, no entanto ela está submetida à lógica de um sistema de bilhões e bilhões de cédulas monetárias, que dita um modelo de “desenvolvimento” inviável a longo prazo, insustentável ambientalmente e a empurra cada vez mais à beira do precipício.

Voyager - 10 Cientistas Progressistas: 1 Albert Einstein
P
or fim, para encerrar a lista, aquele que é considerado por muitos um dos maiores gênios do mundo, laureado com o Nobel da Física em 1922, o físico alemão Albert Einstein. Nascido em 14 de março de 1879 em Ulm, na Alemanha, Einstein foi um físico teórico cujo trabalho sobre a teoria geral da relatividade revolucionou a física moderna. Após Einstein, a forma como encaramos o espaço, tempo, matéria e energia nunca mais foi a mesma: o espaço e o tempo, antes apenas um “palco” estático e uma sucessão de acontecimentos, passam a ser uma estrutura de 4 dimensões chamada espaço-tempo, a qual pode ser distorcida por objetos com massa, o que explicaria a existência da gravidade; a matéria e a energia, antes apenas relacionados, passam a ser totalmente equivalentes, o que foi expressado por Einstein na famosa equação E=mc².

O que pouco falam sobre Einstein: ele era um cientista-filósofo e socialista.
Tal genialidade para teorizar com tanto acerto sobre as causas de fenômenos naturais extremamente complexos, em parte se deve ao interesse que Einstein sempre teve pela Filosofia, evidenciando uma tendência e tradição tipicamente alemã, pelo questionamento e discussão filosóficos, num tempo que a Filosofia era considerada essencial na formação do indivíduo, seja em cursos do colegial ou nas universidades. Aos 16 anos Einstein já tinha lido A Crítica da Razão Pura de Kant, uma obra nada fácil. Diante desses fatos, o que podemos esperar de um país como o nosso, que encara a Filosofia como algo inútil, onde existem grupos que se dizem esclarecidos e que são veemente contra o ensino da Filosofia nas escolas, entre eles, mais uma vez, os que se dizem racionalistas, que chegam ao cúmulo de decretar a Filosofia como morta com o advento da Ciência, quando deveriam saber pela história do Einstein a importância da filosofia no desenvolvimento da própria Ciência?
Outra característica de Einstein que é ignorada diz sobre o seu posicionamento político. Todos reconhecem a genialidade de Einstein, mas poucos se atrevem a relacionar sua inteligência com suas conclusões políticas, apesar dele ter declarado abertamente ser um socialista convicto. Aliás, você muito provavelmente ficou sabendo agora, ao ler essas linhas, que ele era um socialista convicto, não é mesmo? Com a palavra, o próprio Einstein, falando sobre o socialismo no artigo que escreveu especialmente para o lançamento da revista socialista Monthly Review, em maio de 1949:
“Estou convencido de que existe apenas um caminho para eliminar esses graves males, e esse é o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional orientado para objetivos sociais. Em uma economia tal, os meios de produção são a propriedade da própria sociedade, e utilizados de modo planejado. Uma economia planejada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos os capazes de trabalhar, e garantiria o sustento de cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de desenvolver suas próprias habilidades inatas, se empenharia em desenvolver nele um senso de responsabilidade por seus companheiros de humanidade, em lugar da glorificação do poder e do sucesso, como temos na sociedade atual.”
Porém fez um alerta, que também foi uma crítica indireta a então URSS:
“Contudo é preciso lembrar que uma economia planejada ainda não é socialismo. Uma economia planejada pode ser acompanhada por uma escravização completa do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, em face da centralização abrangente do poder político e econômico, impedir que a burocracia se torne todo-poderosa e prepotente? Como se podem proteger os direitos do indivíduo e garantir com isso um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”
Referências
• Ciência e Cultura na escola – A contribuição de Einstein à Física.
• Nobel Prize Official Site – Albert Einstein Facts
• MONTHLY REVIEW – Why Socialism? by Albert Einstein

A lista poderia continuar, mas…

N
ós poderíamos continuar aqui falando sobre mais cientistas renomados que eram progressistas ou socialistas declarados, como o soviético Aleksandr Prokhorov, que inclusive lutou na 2ª Guerra Mundial contra o nazismo, recebendo mais tarde o Nobel de Física em 1964; a filha de Marie Curie, a francesa Irène Joliot-Curie e seu marido Frédéric Joliot-Curie, ambos laureados com o Nobel de Química e socialistas; o matemático e engenheiro Charles Proteus Steinmetz, cujos estudos aperfeiçoou os motores elétricos para uso na indústria; o Ph. D. em matemática francês Jean-Pierre Vigier, que foi inclusive um ativista comunista; o matemático, geneticista e teórico evolucionista irlandês John Desmond Bernal, que era filiado ao partido comunista da Grã-Bretanha; e os ingleses John Burdon Sanderson Haldane, geneticista e biólogo declaradamente marxista; Lancelot Hogben, zoólogo e também geneticista, um socialista convicto e pacifista que durante a 1ª Guerra Mundial se dedicou a atender feridos pela guerra na Cruz Vermelha, sendo retribuído com uma prisão onde foi torturado quando voltou ao seu país; e Joseph Needham, bioquímico, historiador da ciência e embriologista que seguia o socialismo cristão; enfim, o que não falta na esquerda são representantes de qualquer campo de estudo.

Mas essa miríade de gênios progressistas em nenhum momento prova que ser de esquerda significa ser mais inteligente ou possuir uma alma mais elevada que os demais mortais: Marie Curie se recusou a aceitar que o elemento rádio que descobriu estava adoecendo as pessoas em sua aplicação comercial para pomadas e tintas, e existem fortes acusações de que Albert Einsteinnão reconheceu a coautoria da sua ex-mulher, a matemática sérvia Mileva Marić, em sua contribuição para resolver problemas matemáticos complexos (dizem que Einstein evitava a matemática por não gostar de cálculos) de alguns dos seus trabalhos, além de ter sido comprovadamente sexista.
No mais, os conservadores também estão muito bem representados na ciência, como é o caso do precursor da física quântica laureado com o Nobel de Física de 1918, o alemão Max Planck.
A intenção da lista não é pregar uma suposta superioridade intelectual ou moral da esquerda, mas sim destruir um preconceito que a cada dia mais se fortalece no senso comum, que fomenta o mito de que pessoas de esquerda não são capazes de irem além das ciências humanas, quando não uma tentativa vil de insinuar que suas convicções políticas apenas são uma consequência de sua falta de capacidade de ingressar nos cursos universitários mais concorridos ou de conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho.
Os preconceitos e as falácias devem ser combatidos, estejam eles prejudicando qualquer vertente política, caso contrário todos nós saímos perdendo a favor do crescimento da desinformação e da ignorância.

Conclusão

À
esquerda do espectro político pudemos conferir a existência de matemáticos, engenheiros, físicos, biólogos, químicos, todos renomados, entre eles vencedores de prêmios nobéis. Tal grupo de célebres cientistas no campo progressista não é algo inusitado ou inexistente como prega o senso comum conservador, pelo contrário, sua representatividade é vasta, assim como atuante e politicamente combativa, mesmo dentro da comunidade científica, seja se posicionando contra determinismos biológicos com os quais o status quo tenta justificar as diferenças sociais e os preconceitos, como fizeram Jay Gould e Richard Levins; seja se dedicando à divulgação científica para popularizar e democratizar o acesso à ciência, como fez Carl Sagan e como faz o Stephen Hawking; seja pelo uso da ciência para atender causas humanistas, como fez Nikola Tesla; seja para repudiar o uso da ciência para fins lucrativos, como fez Marie Curie e Jonas Salk ao se recusarem a patentear as suas descobertas científicas; ou seja para nos lembrar da importância da formação humanista no desenvolvimento da ciência, como nos ensina o exemplo de Albert Einstein.

Todos esses cientistas progressistas demonstram de uma forma cabal que não existe correlação alguma entre o agir político e as escolhas ou preferências pessoais, que determinam qual área de estudo ou ocupação profissional os indivíduos se dedicarão por toda sua vida.