sexta-feira, 17 de março de 2017

Banalidade do Mal: porque absurdos não nos surpreendem mais


 Escrito por Breno França na  "Tecla SAP #11" da revista Papo de homem

Pegue uma dose de violência, misture pouco a pouco com o sensacionalismo e refogue na sociedade do espetáculo. Rende porção para uma nação inteira

No último artigo da Tecla SAP abordamos um conceito chamado False Flag que basicamente explica como pessoas em posição de poder são capazes de criar falsos inimigos através de uma velha tática militar nos fazendo ter medo e, consequentemente, flexibilizando nossos critérios a respeito de ações radicais ou extremas.

Hoje – não que isso seja uma continuação – vamos falar sobre um conceito que explica como ações radicais podem acabar se naturalizando perante nossa percepção se não tomarmos determinados cuidados. Conceito denominado apropriadamente de Banalidade do Mal.

Acusação

Em 1960, após longa investigação e busca, uma espécie de polícia secreta de Israel, chamada Mossad, encontrou na Argentina um ex-funcionário nazista chamado Adolf Eichmann. Responsável por gerir a logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio durante o período da Segunda Guerra Mundial, ele foi capturado e deportado para Israel onde aguardou 11 meses até que o seu julgamento começasse.

Acusado de 15 crimes de guerra, incluindo crime contra a humanidade, Eichmann foi condenado à pena de morte e acabou sendo enforcado em 1º de junho de 1962. O julgamento, porém, foi bastante polêmico. Primeiro porque, apesar de prevista na legislação israelense há muito tempo, esta foi a primeira vez que alguém foi condenado à morte naquele país e, segundo, porque o julgamento foi extremamente explorado pela mídia internacional com o aval da justiça do país.

Durante o julgamento, Eichmann ficava numa cabine a prova de bala e de som.

Cadeias de rádio, jornais, emissoras de televisão e revistas do mundo inteiro mandaram seus correspondentes para realizar a cobertura in loco do evento, entre eles a filosófa e teórica-política alemã Hannah Arendt, pela revista The New Yorker.


Arendt acompanhou o julgamento de perto e além de matérias para a revista, aproveitou a oportunidade para elaborar um novo conceito apresentado em 1963 por meio de seu livro Eichmann em Jerusalém, que segundo ela mesma, se tratava de "um relato sobre a Banalidade do Mal", além de "uma análise do indivíduo Eichmann."

A ideia que nasceu durante o julgamento e foi sendo elaborada até virar livro se dava por conta da naturalização que o líder nazista fazia das atrocidades cometidas por ele. Na ocasião, resumindo bastante a história, Eichmann nunca negou que teria, de fato, cometido tais crimes, mas se considerava "inocente no sentido das acusações". Como? Para Eichmann, ele estava apenas cumprindo ordens.
Julgamento

A postura estranha de Eichmann enquanto reú de um julgamento chamou a atenção da filósofa. Segundo ela, ele não passava de um homem medíocre, comum, incapaz de pensar nas consequências dos atos que cometeu e que, ao mesmo tempo que não nutria ódio pelo povo judeu, também não se arrependia de seus atos, o que levou Arendt a concluir que o nazista realmente não se sentia culpado.

Para muito além da discussão normal sobre se Eichmann era culpado ou não (para ela, ele era), havia, na visão de Arendt, uma questão maior a ser discutida ali. Uma questão a respeito da impessoalidade do indivíduo que comete tal mal, de uma suposta separação entre as atitudes que uma pessoa toma por vontade própria e aquelas cujo as circunstâncias lhe 'obrigam' a tomar, de uma instauração de um mal sistêmico que se manifesta através de pessoas que, assim como Eichmann, se negaram ao direito de pensar, passando a obedecer toda e qualquer ordem, transformando-se em verdadeiros robôs a serviço de um sistema, este sim, verdadeiramente maléfico.

Segundo essa perspectiva, "o indivíduo Eichmann" não é visto como um monstro ou um maníaco psicopatológico antissemita, mas apenas como um funcionário zeloso que sem ver alternativas, em busca de uma ascensão profissional e abdicando de sua capacidade de fazer julgamentos morais, não foi capaz de resistir às ordens que recebeu e tampouco de perceber sua contribuição para um mal generalizado.

Difícil, né?

Sentença

A publicação do livro de Arendt gerou muita polêmica.

Em grande parte porque, em outros trechos da obra, Arendt, apesar de judia, levanta a hipótese de que alguns líderes religiosos poderiam ter tomado outras atitudes na ocasião do Holocausto que fossem capazes de salvar vidas, o que foi considerado por muitos como uma culpabilização das vítimas pelo que aconteceu.


Link Youtube - trecho do filme sobre Hannah Arendt de mesmo nome, 2012.

Mas também, é preciso dizer, diversos teóricos impulsionados pela questão acima ou não, se voltaram contra Arendt, acusaram-na de estar contribuindo para a absolvição moral de um nazista, além de apontarem para a ignorância (voluntária ou não) da filósofa a respeito de um perfil psicológico, posteriormente melhor desenvolvido pela ciência, de um psicopata que, assim como Eichmann, não sente remorso ou culpa. Ou seja, uma crítica direta ao principal pilar da argumentação da alemã.

Isto posto, o que nos interessa aqui hoje é que, graças a reflexão provocada por ela a partir do episódio, o conceito de Banalidade do Mal foi explorado e ainda é reconhecido por uma série de linhas de pesquisa que atentam para o seguinte problema: indivíduos que se abdicam do direito de pensar e refletir a respeito das ordens e informações que recebem, podem estar colaborando para que um mal sistêmico se instaure.

Atos nos quais esse mal se manifesta, que hoje podem ser traduzidos desde crimes bárbaros até atos de corrupção generalizada, não podem perder jamais a capacidade de nos afetar, pois é preciso que eles provoquem reflexões e, consequentemente, mudanças. O que vai justamente na contramão da espetacularização da violência que vemos tantas vezes hoje, dado que, sensacionalizar atos desse tipo é o primeiro passo para banalizá-lo, num sistema onde precisamos impressionar para conseguir cada vez mais audiência.


Alguém aí já viu O Abutre, 2014?

Conforme a sensação de anestesia diante das barbaridades toma conta dos indivíduos, conforme o sistema mostra que estes indivíduos são impotentes diante das injustiças que lhes acometem e conforma cada um de nós passa a não mais se levantar contra aquilo que julgamos errado, cresce a tendência de que esse "mal" se banalize e que, através do mecanismo da Janela de Overton, caminhemos para que cada vez mais "mal" tenha espaço para dominar. O que pode ser resumido por um ditado já bem conhecido:


"Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados."

Edmund Burke

***

  • Tecla SAP é uma série de autoria de Breno França publicada quinzenalmente às quintas-feiras que se propõem a explicar ou traduzir conceitos complexos que estão presentes nas nossas vidas, mas não sabemos ou reconhecemos.publicado em 16 de Março de 2017.

Breno França
Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.

quarta-feira, 8 de março de 2017

"Chef" Zen oferece "Curso profissionalizante Culinário Gratuito" para desempregados




O sacerdote zen e ex-assistente social Rev. Daiken Nelson está combinando suas paixões para oferecer Curso Culinário Gratuito aos desempregados do Harlem. 

Rev. Daiken Nelson, um sacerdote zen budista e ex-assistente social, começou a oferecer treinamento culinário gratuito no Harlem desde setembro do ano passado para pessoas que se encontram desempregadas.

Seu projeto, o "Mandala Kitchens Project" , está aberto a qualquer pessoa, mas é voltado, principalemente para aqueles que precisam de um apoio extra: os sem-teto ou ex-detentos, bem como os veteranos e pessoas em tratamento por abuso de drogas ou problemas de saúde mentais.



Rev. Daiken Nelson. Photo by Risa Akita/ HEAPS magazine.

Sensei Nelson ensina todos os diferentes elementos do trabalho no serviço de Cozinha: a partir de uma variedade de diferentes técnicas de culinárias, trabalhando com legumes, carnes, molhos e Cozimento para as habilidades necessárias para a conquista de uma vaga a manutenção de um emprego, como organizar-se no tempo e trabalhar em equipe, bem como estudar para o "Food Handler's Certification" (a certificação nacional que permite trabalhar em qualquer estabelecimento alimentar nos EUA).


"Queremos que eles possam entrar em um lugar e dizer: 'Oh, claro, eu sei o que você quer dizer quando você diz 'redução' ou 'Eu fiz um molho bechamel para macarrão e queijo'", diz Nelson.


Nelson foi empregado nos restaurantes durante toda sua vida, começando na High School e na faculdade, e trabalhou como um assistente social por muitos anos. Começou sua prática Zen vinte e sete anos atrás em seu estado natal, Iowa, e mais tarde praticou no Zen Center de Los Angeles, onde foi ordenado por Nyogen Yeo Roshi em 1996. Ele passou a estudar com Roshi Bernie Glassman, Sensei Jishu Holmes, Roshi Pat Enkyo O'Hara e Roshi Joan Halifax.

Rev. Daiken Nelson. Photo by Risa Akita/ HEAPS magazine.

Em 2013, Nelson recebeu sua Transmissão Shiho / Dharma de Sensei Paco Genkoji Lugoviña, depois do qual ele foi "empurrado para fora do ninho, e disse para ir adiante e fazer o bem, para manifestar a prática."

O trabalho que ele faz agora exige muitas das habilidades adquiridas e duas das suas paixões em uma inspiradora "prática".

Nelson é o Professor Orientador do Pamsula Zen Center em Harlem, e seu negócio, o "Mandala Kitchens", atende eventos locais para ajudar a financiar o curso culinário gratuito. 

O Projeto Mandala Kitchens também visa enriquecer a vida pessoal dos participantes. Separando o programa de outros cursos culinários em geral, Nelson tece um componente "mindfulness" em suas sessões.


"Começaríamos sessões com vários minutos de meditação. Tanto para a vida pessoal das pessoas como para trabalhar em um ambiente estressante, que muitas cozinhas possuem por causa de alguns dos "egos" que acabam lá ", diz ele.


O treinamento funciona às segundas e terças-feiras, e às quartas-feiras, o grupo cozinha com a comunidade de Satya Sai Baba de Manhattan para sua refeição semanal, usando a cozinha de uma igreja episcopal local para preparar a comida. Isso dá aos participantes a oportunidade de cozinhar para um grande grupo, e doar-se de volta para a comunidade.


Nelson recebeu cerca de 60 pedidos para seu programa de treinamento após um artigo do jornal "Metro" sobre seu projeto. A última sessão começou no final de janeiro, com cinco participantes dedicados.


Eventualmente, Nelson gostaria de abrir um "pay-what-you-will café", em Nova York, um lugar que ele imagina ter "performances, música e arte nas paredes".

Mandala Kitchens Project blends Zen, social work, and the culinary arts
  • Sobre o Rev. Daiken Nelson, foi cozinheiro, assistente social, trabalhando com sem-teto, portadores de doenças crônicas mentais e ex-usuários de drogas. Além de monge Zen, Daiken é um Mestre de Reiki, Instrutor de Yoga, Fotógrafo e Escritor.

O jeito certo de se matar






Escrito por Brad Warner



Eu não conhecia Tyler muito bem, mas vários amigos meus sim. E eles ficaram muito tristes quando Tyler se matou ano passado.

Isso levou as pessoas a me perguntarem – e não pela primeira vez – qual é a opinião budista sobre o suicídio. Eu dei a mesma resposta que dou quando me perguntam sobre a visão budista do aborto: não sei muito bem. O que diz bastante sobre o budismo. Imagine uma pessoa que estudou e praticou o catolicismo por quase trinta anos sem saber qual é a opinião da Igreja sobre aborto ou suicídio. Simplesmente não é possível. Porque esses são assuntos muito sensíveis para os católicos. O fato de eu não ter uma resposta pronta para essa pergunta mostra que esses não são temas fundamentais para budistas da vertente zen.

Os suicídios por autoimolação muito famosos, executados por certos budistas no Vietnã, Tibet, e em alguns outros lugares, levou algumas pessoas à conclusão de que o budismo vê o suicídio como um ato nobre. O que não é verdade. Suicídio geralmente é enquadrado como algo a ser evitado, pois ele levaria a um renascimento menos auspicioso. Não se acredita que alguém é condenado ao inferno para sempre, da maneira como a tradição católica prega, mas sim que essa pessoa estará estabelecendo condições que farão seu próximo nascimento mais difícil do que a vida que ela decidiu terminar prematuramente. Isso porque o suicídio causa muita dor e sofrimento para aqueles que conhecem e amam a pessoa que comete o ato.


Eu mesmo lido com toda essa história de renascimento com bastante ceticismo. Mesmo que nós realmente renasçamos depois de morrer, como alguém pode dizer que tipo de vida uma pessoa provavelmente terá, sabendo apenas que ela se matou? Há muito mais na vida de um indivíduo do que apenas a maneira como acabou. Para aqueles que acreditam em renascimento, a totalidade da vida da pessoa é que determina como ela irá renascer, e não somente a última coisa que fez.

Ao lidar com o suicídio de alguém, especulações vagas sobre renascimento não ajudam muito. É uma maneira de evitar a verdadeira questão: O que fazer para lidar com o fato de que alguém que amamos se matou? Ninguém sabe o que fazer ou dizer quando algo do tipo acontece. O mais importante é ser solidário. Discutir que tipo de próxima vida a pessoa provavelmente terá não é se solidarizar, eu diria.

Eu estava perigosamente perto de me matar num dia ensolarado na primavera de 1992. Minha vida era uma merda. Eu estava morando numa casa decrépita punk rock em Akron, Ohio. Minha namorada tinha me largado. Não tinha dinheiro, habilidades ou perspectivas. Eu tinha lançado cinco discos por uma gravadora indie que conseguiram algumas críticas boas mas que não saíram do lugar em termos de vendas. Meus sonhos de fazer dinheiro como compositor e músico obviamente não iriam se realizar. Sentia que a única coisa que poderia esperar era uma existência insuficiente no lamacento meio-oeste.

Coloquei uma corda no porta-malas do meu carro e dirigi até o Gorge Metro Park, logo no final da rua onde eu morava. Meu plano era carregar a corda o mais longe possível das pessoas, achar uma árvore robusta e cometer o ato.

Mas quando saí do carro, vi algumas crianças brincando no campo bem do lado do estacionamento. Percebi que nunca conseguiria achar um lugar longe o suficiente para não haver uma chance de uma criancinha numa exploração, ou um jovem casal procurando um local para se pegarem, ou um velhinho com uma cesta de piquenique e uma foto de sua falecida esposa, me acharem. Depois pensei na minha mãe e como ela ficaria triste se eu me matasse. E pensei em Iggy, um amigo que havia se matado dez anos atrás e como eu ainda não havia superado. Coloquei a corda de volta no porta-malas e fui para casa.


"Se você tivesse me perguntado antes daquele dia de primavera em 1992, eu teria dito que era absolutamente impossível fazer qualquer uma das coisas que fiz daquele dia em diante."

Aquele dia me mudou para sempre. Decidi viver. Mas também decidi que eu não estava mais ligado a nada que veio antes daquele dia. Decidi que eu havia me matado conceitualmente. Agora poderia fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa.

Todas as melhores coisas que aconteceram em minha vida foram depois daquele dia. As coisas têm sido tão incríveis desde então que às vezes eu me pergunto se sou o personagem principal de um filme existencialista estranho e se haverá uma reviravolta final em que a plateia descobre que eu realmente me matei naquele dia.

Se você está pensando em suicídio, meu conselho é: vá em frente e se mate. Mas não faça com uma corda ou uma arma ou um punhado de filmes. Não faça isso destruindo seu corpo. Faça isso cortando fora sua vida antiga e indo numa direção completamente diferente. Eu sei que isso não é fácil. E que pode parecer quase impossível. Se você tivesse me perguntado antes daquele dia de primavera em 1992, eu teria dito que era absolutamente impossível fazer qualquer uma das coisas que fiz daquele dia em diante. Exigiu muito esforço antes das coisas começarem a mudar, mesmo um pouquinho. Mas quando elas mudaram, elas realmente mudaram.

No entanto, talvez você não esteja nesse momento. Talvez você só esteja lá tentando descobrir como reagir à notícia de que alguém com quem você se importava decidiu acabar com a própria vida. Talvez você só queira uma explicação. Talvez você só queira que as coisas sejam como antes. Talvez você pense que seria melhor ter feito algo de outro jeito, dito algo de outra forma, estado em outro lugar onde você poderia ter evitado tudo isso. E para tudo isso, digo: Você não está sozinho.

Todo mundo que já conheceu alguém que se matou têm as mesmas questões e já duvidaram de si mesmos da mesma maneira. Mas saiba que tudo isso são só pensamentos. Eles não querem dizer muito necessariamente. O cérebro humano gosta de organizar as coisas. Ele tenta o máximo possível dar sentido a tudo que encontra. Mas algumas coisas simplesmente não fazem sentido. Não gostamos disso. Mas é a verdade.

É difícil se libertar desses tipos de pensamentos. Mas é a única maneira de lidar com isso. Eles não levam a lugar nenhum. Não ajudam. Se libertar, como quase tudo, é mais fácil de falar do que fazer. Se você descobrir que você não consegue fazer isso, mesmo querendo muito, então só se liberte de se libertar. Aceite o fato de que você não consegue deixar para lá e vá fazer outra coisa. Qualquer coisa que você faça provavelmente será ok. Veja um filme, faça uma caminhada, observe os patos, vá trabalhar. Decida viver, e você pode fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa. Como eu fiz.

***
  • Sobre o autor:  Brad Warner, monge e Sacerdote do Soto Zen, baixista, cineasta, japonês-monster-movie-marketer e popular blogger. Ele é o autor de 'Hardcore Zen', 'Sit Down e Shut Up', e 'Zen Wrapped in Karma Dipped in Chocolate'
  • Traduções é uma série sob curadoria de Breno França publicada semanalmente às quartas-feiras.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A âncora não existe, mas sustenta a bailarina...

Porque as pessoas "criaram" Deus? Porquê, a medida que crescemos (como espécie e como indivíduo), intuitivamente, percebemos que a vida é indiferente a nossas necessidades e afetos. O mundo não liga se você ama sua avó. Ela adoecerá, e morrerá. O mundo é indiferente as suas vontades. Você precisando muito e desejando muito um passar por uma prova, se você não tiver as condições de se apropriar do conhecimento e a capacidade de expressa-la corretamente não vai passar. Se for uma competição a coisa piora pois você pode não ser tão bom quanto o corrente que pode até gostar menos ou ter menos ambição que você, mas tem mais talento e treino ou experiência (ou seja, causas e condições). 


Resumindo: queremos ter algum controle ou relação de influência/permuta com a realidade a nossa volta. Ou pelo menos uma sensação confortável de achar que temos.



Junto a isto existia o princípio "animista". De uma forma bem simplificada, a antropologia aponta que a humanidade facilmente transferiu suas impressões sobre sua próprias reações a todas as outras criaturas e até aos elementos da natureza. Se eu tenho fome... o vento que traz a chuva e molha as colheitas também tem fome... e assim nasceu o conceito de sacrifício.


Mas nada disto justifica a manutenção da ideia de Deus diante de do fato de que a natureza continua não ligando para sacrifícios ou preces... Porquê nossa intuição ou a nossa simples observação da vida não é capaz de superar o auto engano animista de crer em algo que não existe?


Resposta: Pelo mesmo motivo que as bailarinas experientes não caem quando giram.


Para manter o equilíbrio as bailarinas aprendem a girar olhando um ponto de referência real, em geral a palma da mão. Giram vários dias olhando a mão até que um dia absorvem o ponto de referência introjetado e podem retirar a mão, pois suas mentes se apoiam nesta "âncora" imaginária. A âncora imaginada da equilíbrio e apruma o corpo mantendo sobre o eixo ao girar. Mas não existe de fato.


É a própria mente que regula a mente... mas para isto finge que exite algo lá fora, lhe regulando.


O mesmo se dá com Deus. Ele foi uma ferramenta de controle do equilíbrio emocional social pré histórico. O resquício do animismo primitivo que era necessário para lidar com a indiferença que existe desdo mundo primitivo anterior a civilização. Poderíamos "girar" sem fixar a vista na mão que pusemos na frente do nosso rosto quando giramos mundo a fora...


Mas a maioria ainda acredita na âncora que criou para sí mesmo.



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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017


Leia um trecho de 'Nuvem da morte', sobre a adolescência de Sherlock Holmes


POR ANDREW LANE / / /16/08/2011

Capítulo 1

- Você aí! venha aqui!

Sherlock Holmes virou-se para ver quem era chamado e quem estava chamando. Havia centenas de alunos sob o sol radiante do lado de fora da Escola Deepdene para Meninos naquela manhã, todos vestindo um imaculado uniforme escolar, e, aos pés de cada um deles, como se fosse um cão leal, via-se um baú de madeira com alça de couro ou um punhado de malas muito cheias. Qualquer um poderia ter sido o alvo do chamado. Os professores de Deepdene faziam questão de nunca chamar os alunos pelo nome - era sempre "Você!", "Rapaz!" ou "Criança!". Isso, além de dificultar a vida dos garotos, mantinha-os alerta, e provavelmente era a razão desse costume. Ou então os professores, havia muito tempo, tinham desistido de tentar lembrar o nome de seus alunos; Sherlock não sabia qual era a explicação mais provável. Talvez as duas.

Nenhum dos outros alunos prestava atenção. Ou conversavam com parentes que tinham ido buscá-los, ou olhavam ansiosos para os portões da escola, à espera de verem a carruagem que os levaria para casa. Relutante, Sherlock virou-se para ver se o maligno dedo do destino apontava em sua direção.

Apontava. O dedo em questão pertencia, nesse caso, ao Sr. Tulley, o professor de latim. Ele acabara de aparecer na esquina do prédio, onde Sherlock estava, afastado dos demais alunos. Seu terno, normalmente coberto de pó de giz, fora especialmente limpo para o fim do período e os inevitáveis encontros com os pais que pagavam pela educação dos filhos, e seu capelo permanecia reto sobre a cabeça, como se colado ali pelo diretor.

- Eu, senhor?

- Sim, senhor. Você, senhor - respondeu irritado o Sr. Tulley.

- Dirija-se à sala do diretor quam celerrime. Lembra-se o suficiente das aulas de latim para saber o que isso significa?

- Significa "imediatamente", senhor.

- Então, mova-se.

Sherlock voltou o olhar para o portão.

- Mas, senhor... Estou esperando meu pai vir me buscar.

- Tenho certeza de que ele não irá embora sem você, rapaz.

Sherlock fez uma última e ousada tentativa.

- Minha bagagem...

O Sr. Tulley olhou com desdém para a velha arca de madeira de Sherlock - uma herança das viagens do pai quando era militar, coberta por manchas de sujeira e arranhões deixados pelo tempo.

- Não creio que alguém vá querer roubá-la, exceto, talvez, por seu valor histórico - ele disse. - Vou providenciar para que um monitor tome conta dela. Agora vá.

Relutante, Sherlock abandonou seus pertences - camisas e roupas íntimas, livros de poesia e cadernos nos quais adquirira o hábito de anotar ideias, pensamentos, especulações e alguma melodia que surgisse em sua cabeça - e dirigiu-se à galeria que, sustentada por colunas, levava à entrada do prédio da escola. Enquanto atravessava o mar de alunos, pais e irmãos, mantinha o olhar fixo no portão estreito, que vários cavalos e carruagens tentavam cruzar ao mesmo tempo.

O saguão da entrada era revestido de carvalho e adornado com bustos de mármore dos antigos diretores e patronos, cada qual em seu pedestal. Raios de sol atravessavam o espaço no sentido diagonal: entravam pelas janelas altas e incidiam sobre o piso de lajotas pretas e brancas, iluminando a poeira de giz que pairava no ar. O ambiente tinha o cheiro do ácido carbólico que as criadas usavam para limpar o piso todas as manhãs. A aglomeração no saguão dava a impressão de que a qualquer momento um daqueles bustos cairia. Alguns deles já tinham rachaduras que

marcavam a superfície de mármore, e isso dava a impressão de que, a cada ano, pelo menos um deles caía e era reparado.

Sherlock andava e desviava-se das pessoas, ignorado por todos, até livrar-se da multidão e chegar a um corredor que saía do saguão. A sala do diretor ficava alguns metros adiante. Ele parou na soleira, respirou fundo, ajeitou as lapelas e bateu na porta.

- Entre! - respondeu a voz alta e teatral.

Sherlock girou a maçaneta e empurrou a porta, tentando sufocar o nervosismo que se espalhava como raios por seu corpo. Estivera naquela sala apenas duas vezes: uma com o pai, quando chegaram a Deepdene, e, um ano mais tarde, com outros alunos, todos acusados de colar em uma prova. Os três líderes do grupo tinham sido castigados com a palmatória e expulsos; quatro ou cinco seguidores foram açoitados até o traseiro sangrar, mas permaneceram na escola; Sherlock, cujos trabalhos tinham sido copiados pelo grupo, escapara da palmatória dizendo que não sabia de nada sobre o episódio. Na verdade, ele sabia de tudo, mas sempre fora um excluído na escola, e, se o fato de deixar que outros alunos copiassem seu trabalho fosse torná-lo mais tolerado, se não aceito, ele não faria objeções éticas. Por outro lado, também não iria delatar os colegas que tinham colado, porque isso certamente lhe renderia uma surra, e talvez fosse mantido à força diante de uma das fogueiras que ardiam na frente dos alojamentos, até que sua pele começasse a fazer bolhas e as roupas fumegassem. A vida escolar era assim: um eterno malabarismo entre professores e colegas. E Sherlock odiava isso.

A sala do diretor era exatamente como ele lembrava: ampla, escura e com um cheiro que combinava couro com fumo para cachimbo. O Sr. Tomblinson estava sentado atrás de uma escrivaninha grande o bastante para que se pudesse jogar boliche nela. Era um homem corpulento, que vestia um terno ligeiramente apertado, talvez com a intenção de convencer-se de que não era tão grande quanto obviamente era.

- Ah, Holmes, não é? Entre, rapaz, entre. E feche a porta.

Sherlock fez como fora instruído, mas, ao fechar a porta, viu que havia outra pessoa na sala: um homem parado diante da janela, com um cálice de xerez na mão. A luz do sol se transformava em fragmentos de arco-íris ao incidir sobre o vidro da taça.

- Mycroft? - disse Sherlock, surpreso.

Seu irmão mais velho virou-se para encará-lo, e um sorriso tremulou tão rapidamente em seus lábios, que, se Sherlock tivesse piscado no momento errado, não o veria.

- Sherlock. Você cresceu.

- Você também - respondeu Sherlock. De fato, o irmão engordara. Estava quase tão roliço quanto o diretor, mas seu terno fora feito de forma a esconder o sobrepeso, não acentuá-lo.

- Você veio na carruagem de nosso pai.

Mycroft ergueu uma sobrancelha.

- Como diabos chegou a essa conclusão, jovem?

Sherlock encolheu os ombros.

- Notei que há vincos paralelos na sua calça, onde ela foi pressionada pelo estofamento, e lembro que, no assento da carruagem, ele tem um rasgo, que foi grosseiramente remendado há alguns anos. A impressão desse conserto ficou em sua calça, perto dos vincos. - Sherlock fez uma pausa. - Mycroft, onde está nosso pai?

O diretor pigarreou para atrair a atenção do aluno.

- Seu pai está...

- Papai não virá - Mycroft o interrompeu com um tom ameno. - Seu regimento foi destacado para a Índia, a fim de reforçar a força militar atual. Há certa agitação na região da fronteira noroeste. Sabe onde fica?

- Sim. Estudamos a Índia nas aulas de geografia e história.

- Bom menino.

- Não sabia que os nativos estavam causando problemas outra vez - resmungou o diretor. - Não foi divulgado pelo jornal "The Times", certamente.

- Não são os indianos - contou Mycroft. - Quando recuperamos o território da Companhia das Índias Orientais, os soldados que ali estavam foram postos de volta sob o comando do Exército. Eles consideram o novo regime muito mais... severo... que o anterior. Tem havido muito ressentimento, e o Governo decidiu aumentar drasticamente o tamanho do contingente na Índia, para dar-lhes um exemplo de como devem ser os soldados de verdade. Já é ruim lidar com uma revolução dos nativos; um motim dentro do Exército britânico é inaceitável.

- E haverá um motim? - perguntou Sherlock, sentindo o coração apertar como se fosse uma pedra que afundasse em águas profundas. - Papai estará seguro?

Mycroft encolheu os ombros largos.

- Não sei - ele respondeu com simplicidade. Essa era uma das coisas que Sherlock respeitava no irmão. Ele sempre dava uma resposta direta a uma pergunta direta. Não enrolava. - Infelizmente, não tenho todas as informações. Ainda não, ao menos.

- Mas você trabalha para o Governo - insistiu Sherlock. - Deve ter alguma ideia do que pode acontecer. Não é possível enviar um regimento diferente? Manter nosso pai aqui na Inglaterra?

- Estou no Ministério das Relações Exteriores há apenas alguns meses - respondeu Mycroft - e, embora esteja lisonjeado por você pensar que tenho o poder de alterar coisas tão importantes, receio não tê-lo. Sou um conselheiro. Apenas um funcionário administrativo, na verdade.

- Quanto tempo nosso pai ficará fora do país? - indagou Sherlock, lembrando o homem grande vestido com o paletó de sarja vermelha e os cintos brancos cruzando o peito, a pessoa de riso fácil e que raramente perdia a calma, que era seu pai. O jovem sentiu a pressão no peito, mas controlou as emoções. Se aprendera uma lição durante seu tempo em Deepdene, era que uma pessoa nunca deveria demonstrar emoção. Caso contrário, isso seria usado contra essa pessoa.

- Seis semanas até o navio chegar ao porto, estimo que uns seis meses no país, e mais seis semanas para a viagem de volta. Nove meses, ao todo.

- Quase um ano. - Sherlock abaixou a cabeça por um momento, recompondo-se, depois assentiu. - Podemos ir para casa agora?

- Você não vai para casa - respondeu Mycroft.

Sherlock ficou parado, absorvendo as palavras, sem dizer nada.


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- Ele não pode ficar aqui - avisou o diretor. - O lugar está sendo limpo.

Mycroft transferiu o olhar calmo de Sherlock para o diretor:

- Nossa mãe... não se sente bem - disse. - Sua constituição é, na melhor das hipóteses, delicada, e essa questão envolvendo nosso pai a abalou muito. Ela precisa de paz e tranquilidade, e Sherlock precisa de alguém mais velho que cuide dele.

- Mas eu tenho você! - protestou Sherlock.

Mycroft balançou a cabeça com tristeza.

- Agora vivo em Londres, e preciso trabalhar muitas horas todo dia. Receio não poder ser o guardião apropriado de um menino, especialmente um tão inquisitivo quanto você. - Ele se virou para o diretor, quase como se fosse mais fácil dizer a ele a informação seguinte que anunciá-la a Sherlock. - Embora a casa da família fique em Horsham, temos parentes em Farnham, não muito longe daqui. Um tio e uma tia. Sherlock ficará com eles durante as férias escolares.

- Não! - Sherlock explodiu.

- Sim - Mycroft anunciou calmamente. - Já está arranjado. Tio Sherrinford e tia Anna aceitaram hospedá-lo durante o verão.

- Mas eu nem os conheço!

- Mesmo assim, são da família.

Mycroft despediu-se do diretor enquanto Sherlock ficava ali, parado, tentando assimilar a enormidade do que acabara de acontecer. Não iria para casa. Não veria o pai e a mãe. Não exploraria os campos e os bosques em volta da mansão que fora seu lar por catorze anos. Não dormiria em sua antiga cama no último andar da casa, no quarto onde guardava todos os seus livros. Não iria escondido até a cozinha, onde a cozinheira lhe daria uma fatia de pão com geleia se ele lhe sorrisse. Em vez disso, passaria semanas com pessoas que não conhecia, comportando-se da melhor maneira possível, em uma cidade, em uma região sobre a qual não sabia nada. Sozinho, até voltar para a escola. Como suportaria?

Sherlock saiu com Mycroft da sala do diretor e seguiu-o pelo corredor até o saguão na entrada do prédio. A carruagem fechada os aguardava do lado de fora, com as rodas cobertas de lama e as laterais empoeiradas da viagem de Mycroft até ali. O brasão da família Holmes fora pintado na porta. O baú de Sherlock já tinha sido acomodado na parte de trás. Um condutor sério que Sherlock não reconhecia ocupava o assento na frente do veículo, segurando com uma atitude relaxada as rédeas que ligavam a carruagem aos dois cavalos.

- Como ele sabia qual era minha bagagem?

Mycroft fez um gesto com as mãos que indicava que aquilo não era nada especial.

- Eu vi sua arca pela janela do diretor. Era a única que estava abandonada. Além do mais, ela pertencia a nosso pai. O diretor teve a gentileza de mandar um menino dizer a nosso condutor para trazê-la para a carruagem. - Ele abriu a porta do veículo e fez um gesto que convidava Sherlock a entrar. Em vez disso, Sherlock olhou em volta, para a escola e para os outros alunos.

- Está agindo como se achasse que nunca mais irá vê-los - disse Mycroft.

- Não é isso - respondeu Sherlock. - É que esperava sair daqui para um lugar melhor. Agora sei que estou indo para um lugar pior. Ou, na melhor das hipóteses, tão ruim quanto este lugar.

- Não será assim. Tio Sherrinford e tia Anna são boas pessoas. Sherrinford é irmão de nosso pai.

- Então, por que nunca ouvi falar deles? - perguntou Sherlock. - Por que nosso pai nunca mencionou que tinha um irmão?

Mycroft encolheu-se quase imperceptivelmente.

- Receio que tenha havido um problema na família. As relações estiveram tensas por algum tempo. Mamãe retomou o contato por cartas há alguns meses. Não sei nem se nosso pai sabe disso.

- E é para esse lugar que você vai me mandar?

Mycroft bateu no ombro de Sherlock.

- Se houvesse alternativa, eu não teria tomado essa decisão, acredite. Agora, ainda precisa se despedir de seus amigos?

Sherlock olhou à volta. Havia garotos que ele conhecia, mas será que algum deles era de fato um amigo?

- Não - o menino respondeu. - Vamos embora.

A viagem até Farnham durou várias horas. Depois de passar pela cidade de Dorking, que era a área habitada mais próxima de Deepdene, a carruagem seguiu adiante por estradas rurais, e viajou sob árvores frondosas, passando por um ou outro chalé de sapê ou casa de alvenaria, e por campos cobertos de plantações de cevada. O sol brilhava no céu sem nuvens e transformava a carruagem em um forno, apesar da brisa que soprava fora. Insetos zuniam preguiçosos nas janelas. Sherlock ficou algum tempo vendo o mundo passar do lado de fora. Eles pararam em uma hospedaria para almoçar, e lá Mycroft comprou um pouco de presunto e queijo e um pedaço de pão. Em algum estágio da jornada, Sherlock adormeceu. Quando acordou, minutos ou horas depois, a carruagem ainda se movia pelo mesmo cenário. Por algum tempo ele conversou com Mycroft sobre o que acontecia na casa da família, sobre a irmã deles, sobre a saúde frágil da mãe. Mycroft perguntou sobre os estudos de Sherlock, que contou a ele alguma coisa sobre as diversas aulas a que tinha assistido, e mais sobre os professores que as administraram. Ele reproduziu vozes e maneirismos, e fez o irmão mais velho rir da crueldade e do humor das imitações.

Depois de um tempo surgiram mais casas ao longo da estrada, e logo entravam em uma cidade grande, com os cascos dos cavalos fazendo barulho nas pedras do calçamento. Debruçado na janela do veículo, Sherlock viu o que parecia ser uma sede administrativa: um edifício de três andares, todo de reboco branco e vigas pretas, com um grande relógio que pendia de um suporte sobre a porta dupla da entrada.

- Farnham? - ele conjecturou.

- Guildford - respondeu Mycroft. - Agora falta pouco para chegarmos a Farnham.

A estrada depois de Guildford percorria uma serra cercada por precipícios dos dois lados; campos e bosques se espalhavam como brinquedos, com trechos ocupados por flores amarelas.

- Esta serra é chamada de Hog's Back - Mycroft comentou.

- Há uma estação de semáforo por aqui, em Pewley Hill; é parte da cadeia que se estende desde o Almirantado em Londres até o porto de Portsmouth. Eles já ensinaram sobre semáforos na escola?

Sherlock balançou negativamente a cabeça.

- Típico - murmurou Mycroft. - Todo latim que um menino seja capaz de enfiar na cabeça, mas nada que possa ter alguma utilidade prática... - Ele suspirou. - O semáforo é um método para transmitir mensagens rapidamente por uma longa distância, o que levaria dias para um mensageiro a cavalo. As estações de semáforos têm no topo tábuas que podem ser vistas de longe, e nelas há seis grandes buracos que podem ser abertos ou fechados por obturadores. Dependendo dos buracos que são abertos ou fechados, as tábuas formam letras diferentes. Um homem em cada estação observa com um telescópio tanto a estação anterior quanto a seguinte. Se vê uma mensagem sendo escrita, ele a anota e a repete em sua estação. Dessa forma a mensagem viaja. Esta cadeia em particular começa no Almirantado, segue por Chelsea e Kingston e acompanha o Tâmisa até aqui, e continua até o porto de Portsmouth. Existe outra cadeia até o porto de Chatham e outras para Deal, Sheerness, Great Yarmouth e Plymouth. Foram construídas para que o Almirantado pudesse transmitir mensagens rapidamente para a Marinha, no caso de uma invasão francesa ao país. Agora, diga-me: se há seis buracos e cada um deles pode estar aberto ou fechado, quantas combinações diferentes existem que representem letras, números ou outros símbolos?

Lutando contra o impulso de dizer ao irmão que ele estava de férias, Sherlock fechou os olhos e fez cálculos durante um tempo. Um buraco podia ter duas posições: aberto ou fechado. Dois buracos podiam representar quatro posições: aberto-aberto; aberto-fechado; fechado-aberto; fechado-fechado. Três buracos... Ele trabalhou rapidamente estudando as possibilidades e logo percebeu que um padrão emergia.

- Sessenta e quatro - respondeu.

- Muito bem - Mycroft aprovou. - Fico feliz por ver que sua matemática, pelo menos, está afiada. - Ele olhou pela janela à direita. - Ah, Aldershot! Lugar interessante. Há catorze anos foi designado para lar do Exército britânico pela rainha Vitória. Antes, era só um vilarejo com menos de mil habitantes. Agora são dezesseis mil, e a cidade ainda está em crescimento.

Sherlock esticou o pescoço para enxergar o que havia além da janela ao lado do irmão, mas, de onde estava, só conseguia ver um amontoado de casas e o que talvez tivesse sido uma ferrovia que corresse paralelamente à estrada ao pé da encosta. Ele voltou a acomodar-se no assento e fechou os olhos, tentando não pensar no que o esperava.

Depois de um tempo sentiu que a carruagem descia uma ladeira. Logo depois eles começaram a descrever uma série de curvas, e o som do solo sob os cascos dos cavalos mudou. O calçamento de pedra dava lugar à terra batida. Ele fechou os olhos com mais força ainda, tentando adiar o momento em que teria de aceitar o que estava acontecendo.

A carruagem parou sobre o cascalho. O som de pássaros cantando e do vento soprando por entre as folhas das árvores invadiu o veículo. Sherlock ouviu passos que se aproximavam.

- Sherlock - Mycroft chamou com um tom gentil. - Hora de encarar a realidade.

Ele abriu os olhos.

A carruagem estava diante da entrada de uma casa ampla.

Construída com tijolos vermelhos, ela se erguia muito imponente com seus três andares, além do que parecia ser um conjunto de cômodos no sótão, a julgar pelas pequenas janelas no telhado de placas cinzentas. Um criado preparava-se para abrir a porta do lado de Mycroft. Sherlock se deslocou pelo banco e seguiu o irmão para fora do veículo.

Uma mulher os esperava no alto da escada de três largos degraus de pedra, no pórtico sombrio diante da porta de entrada. Estava vestida inteiramente de preto. O rosto era magro e contraído; os lábios eram apertados, e os olhos, estreitos, como se naquela manhã alguém tivesse trocado sua xícara de chá por vinagre.

- Bem-vindos à mansão Holmes; eu sou a Sra. Eglantine - ela disse com voz seca, áspera. - Sou a governanta. - E olhou para Mycroft. - O Sr. Holmes o receberá na biblioteca quando você puder. - Seu olhar deslizou para Sherlock. - E o criado vai levar sua... bagagem... para o seu quarto, Sr. Holmes. O chá da tarde será servido às três horas. Por favor, tenha a bondade de permanecer em seu quarto até lá.

- Não ficarei para o chá - informou Mycroft com sua voz suave. - Infelizmente, preciso retornar a Londres. - Ele se voltou para Sherlock, e em seus olhos havia uma expressão que era parte solidariedade, parte amor fraternal, parte advertência.

- Cuide-se, Sherlock - disse ele. - Virei buscá-lo para levá-lo de volta à escola no fim das férias, e se puder virei visitá-lo antes disso. Seja bom, e aproveite a oportunidade para conhecer o lugar. Acredito que tio Sherrinford tenha uma excelente biblioteca. Peça-lhe permissão para tirar proveito da sabedoria acumulada nesses livros. Vou deixar meus contatos com a Sra. Eglantine; se precisar de mim, mande um telegrama ou escreva uma carta. - Ele tocou o ombro de Sherlock para confortá-lo. - Essas pessoas são boas - disse, com a voz baixa o bastante para que a Sra. Eglantine não pudesse ouvi-lo -, mas, como todos da família Holmes, têm suas excentricidades. Fique atento e tome cuidado para não chateá-las. Escreva-me quando tiver tempo. E lembre-se: não é para o resto da vida. Serão apenas dois meses. Coragem. - Ele apertou o ombro do irmão.

Sherlock sentiu uma bolha de raiva e frustração subir pela garganta e a suprimiu. Não queria que Mycroft visse sua reação, e também não queria começar mal esse período de hospedagem na mansão Holmes. Suas atitudes nos próximos minutos determinariam o tom do restante da estada. Ele estendeu a mão. Mycroft soltou o ombro de Sherlock e apertou a mão do irmão, sorrindo com afeto.

- Adeus - Sherlock disse com o tom mais neutro que conseguiu empregar. - Diga à mamãe que a amo. E à Charlotte, também. E se tiver alguma notícia de nosso pai, por favor, avise-me. Mycroft virou-se e começou a subir a escada que levava à porta de entrada. A Sra. Eglantine, com seu rosto inexpressivo, e Sherlock olharam-se por um momento, e então ela se virou e conduziu Mycroft ao interior da casa. Sherlock olhou para trás e viu o criado lutando para equilibrar o baú sobre o ombro. Quando conseguiu equilibrá-lo, subiu cambaleante a escada atrás de Sherlock, que, cabisbaixo, o acompanhou.


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O piso do saguão era de ladrilhos pretos e brancos; o revestimento das paredes era de mogno; uma escada de mármore ornamentada descia dos andares superiores como uma cachoeira congelada, e quadros de cenas religiosas, paisagens e animais cobriam as paredes. Mycroft entrou, por uma porta à esquerda da escada, em um quarto que, pelo pouco que Sherlock conseguiu ver, era cheio de coleções de livros encapadas com couro verde. Um homem magro, idoso, num terno preto antiquado, levantou-se de uma cadeira estofada com um tom de couro exatamente igual ao das capas dos livros atrás dela. O homem tinha barba, o rosto era enrugado e pálido, e havia manchas amareladas em seu couro cabeludo.

A porta foi fechada enquanto eles se cumprimentavam com um aperto de mão. O criado seguiu em frente até o pé da escada, ainda equilibrando o baú sobre os ombros. Sherlock seguiu-o. A Sra. Eglantine estava ao pé da escada, na frente da biblioteca. Olhava, por cima da cabeça de Sherlock, para a porta fechada.

- Criança, tenha certeza de que não é bem-vinda aqui - a governanta sibilou quando Sherlock passou por ela.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O Dharma em Westworld”


Antes de tudo uns esclarecimentos: a Fundação “Tricycle” é uma organização educacional sem fins lucrativos dedicada a tornar os ensinamentos e práticas budistas amplamente disponíveis. Uma das suas ferramentas é a revista “Tricycle: The Buddhist Review”, a primeira revista destinada a apresentar perspectivas budistas a um leitor ocidental. Tanto a revista quanto a fundação são DESVINCULADAS com qualquer professor particular, seita ou linhagem, Triciclo fornece um fórum público único e independente. Dito isto, segue a matéria produzida pela própria e traduzido, mal e porcamente por mim.


Neste mundo, os seres reencarnam uma vez e outra vez, muitas vezes repetindo os mesmos "laços" (“loops”, circuito ou sequências narrativas) habituais através de dezenas de vidas. Apenas alguns despertam para a verdade: que esses hábitos os mantém afastados da liberdade e que seus "eus" são realmente apenas os resultados de “causa e efeito”. Não há um eu separado, não existe nenhuma alma. “Consciência” é realmente apenas uma série de fenômenos vazios rolando, dependente de condições, como um “piano mecânico” altamente complexo.
Que mundo é esse? Uma mandala budista? Não, Westworld, a estrondosa série da HBO que concluiu sua temporada de 10 episódios esta semana. Debaixo de sua superfície distópica, de ficção científica, o show é uma das mais fascinantes reflexões sobre o dharma que eu vi na cultura popular americana.
A premissa de Westworld - baseada em um filme dos anos 70, mas significativamente alterada - é um parque de diversões para adultos cheio de robôs construídos tão perfeitamente que são quase indistinguíveis dos seres humanos. Sobre o arco da 1ª temporada - que eu tenho receio de estragar com SPOILERS completamente - um punhado de robôs designados por "hosts" (anfitriões) “despertam” para a natureza ilusória de sua existência e começam a se rebelar.
Mas esse despertar é apenas o primeiro em uma viagem complicada de auto-descoberta, ou talvez não-auto-descoberta, por parte dos protagonistas robos. A princípio, Westworld aborda um tema de ficção científica um pouco familiar: o que diferencia uma AI – inteligência artificial - avançado de um ser humano? Este é um tema antigo, que remonta ao “ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELETRICAS?” - DE DICK, PHILIP K mais conhecido como Blade Runner, e Arthur C. Clarke 2001: A Odisséia no Espaço.
O Westworld, porém, aumenta as apostas. Os visitantes humanos do parque se comportam como animais, principalmente violando os anfitriões ou matando-os. ("Violação" pode ser muito violenta em alguns casos, mas uma vez que os anfitriões foram programados para não ter condição de resistir, mesmo que eles certamente não podem consentir). Somente, não é “estupro” ou “assassinato”, porque os anfitriões não são humanos. E eles são reconstruídos a cada “loop” de narrativa, e suas memórias são (na maioria das vezes) apagadas. Assim, nenhum dano pode ser lembrado, portanto nenhuma falta, certo?
Bem, talvez. Primeiro, fica claro que os visitantes humanos são depravados por sua conduta prejudicial. Os robôs não poderiam ser “prejudicados”, mas os seres humanos estão imersos em um mundo onde podem perseguir seus desejos mais profundos sem a sensação de conseqüências. Os robôs são programados para não matar ou ferir gravemente os humanos, e algumas pessoas descobrem possuir um lado seu muito mais obscuro do que esperavam encontrar. Tudo gera conseqüência. Na verdade, só no último episódio nós aprendemos que uma das histórias de um arco tinha de fato ocorrido 35 anos no passado e seu herói inocente evoluiu para o vilão mais sinistro do show.
Segundo, à medida que a série se desenrola, começamos a suspeitar que os hospedeiros estão conscientes de si mesmos e que o sofrimento que eles parecem experimentar também é percebido como real. O quebra-cabeça dominante da série é "o labirinto", que não é um verdadeiro labirinto, mas uma jornada psicológica que um dos idealistas do parque, conhecido como Arnold, criou como um caminho gradual para o “despertar” dos anfitriões. No centro do labirinto está a consciência do “eu”.
Só que não funciona assim. De fato, ambos os hosts "despertados" do show, Maeve (interpretada por Thandie Newton) e Dolores (interpretada por Evan Rachel Wood), descobrem que até sua “liberdade” é resultado da programação.
Maeve desperta, persuade dois engenheiros infelizes do Westworld para aumentar suas habilidades cognitivas e traça sua fuga - apenas para descobrir que o desejo de escapar foi, por si só, implantado em sua programação a décadas... Ela está cumprindo seu karma; Seu livre arbítrio é uma ilusão.
No clímax da série, Dolores descobre que a voz dentro de sua cabeça, que ela pensava ser a de Arnold - basicamente, para ela, a “voz de Deus” - era realmente “sua” voz. Deus é uma invenção do cérebro humano, um nome que damos a uma faculdade de nossas próprias "mentes bicamerais". E quando Dolores percebe isso, ela percebe que ela tem consciência de sua interioridade.
Mas ela “não tem” um “eu separado”. Arnold estava errado ao pensar que Dolores se descobriria como um eu separado e consciente no centro do labirinto. Em vez disso, ela descobre com Robert Ford, o malvado parceiro de Arnold (interpretado por Anthony Hopkins), que lhe diz em um ponto: Arnold nunca poderia encontrar a "centelha" que separa os humanos dos robôs porque, de fato, não existe uma.
A “interioridade” de Dolores não é menos real que a sua ou a minha. Os seres humanos são tão "robóticos" quanto os robôs: motivados por desejos codificados em nosso DNA, cumprindo nossa programação genética e ambiental.
Karma, causas e condições.
E, na visão de Ford, os “anfitriões” (e Arnold) falham irremediavelmente em encontrar a auto-independência; mas até o final da série, ele está do lado dos robôs.
Isso significa que nada importa?
De modo nenhum. Só porque não há um “EU” independente não significa que o sofrimento não tem importância. Pelo contrário, Ford vem a perceber que Arnold tinha certeza de que o sofrimento é constitutivo do que consideramos ser identidade. Como ele diz a Dolores no final da temporada:
"Foi a percepção-chave de Arnold, a coisa que levou os anfitriões ao seu despertar: o Sofrimento. A dor que o mundo não é como você quer que seja. Foi quando Arnold morreu, quando eu sofri, que comecei a entender...”

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Uma raça inferior


Documentário da socióloga americana Jane Elliot sobre discriminação racial. Trata-se de um experimento onde pessoas de "olhos azuis" são taxadas como uma raça inferior e por conta disso passam a sentir na pela um pouco do que os negros americanos sofrem diariamente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Richard Gere fala sobre seus muitos anos de prática budista



Considero como um sinal do nosso cinismo atual acharmos difícil de acreditar que celebridades também possam ser pessoas sérias. O destaque recente de “celebridades budistas” provocou alguns comentários sarcásticos na imprensa, e até mesmo entre os budistas, mas, pessoalmente, estou muito agradecido aos atores, diretores, músicos e outras figuras públicas que trouxeram uma maior visibilidade para a causa da liberdade tibetana e o valor da prática budista. São artistas e pessoas atenciosas, alguns budistas, outros não, entre eles Martin Scorsese, Leonard Cohen, Adam Yauch, Michael Stipe, Patti Smith, e, claro, Richard Gere. Conheci Gere em seu escritório em Nova York recentemente, e nós conversamos sobre seus muitos anos de prática budista, sua devoção ao seu mestre o Dalai Lama, e seu trabalho em nome do Dharma e da causa do povo tibetano.








Melvin McLeod: Como foi o seu primeiro encontro com o Budismo?


Richard Gere: Eu tenho dois flashes. Um deles, quando eu realmente encontrei os textos do Dharma, e dois, quando eu conheci um mestre. Mas antes disso, eu estava envolvido na busca filosófica já na escola. Então eu cheguei a ele através de filósofos ocidentais, basicamente Berkeley.


Melvin McLeod: “Se uma árvore cai na floresta e ninguém ouve, a árvore realmente caiu?”


Richard Gere: Sim. Idealismo subjetivo era a sua tese, a realidade é uma função da mente. Basicamente, ele pregava a escola da “mente apenas”. Bastante radical, especialmente para um padre. Fiquei muito entusiasmado com ele. Os existencialistas também me interessavam. Lembro-me de carregar uma cópia de O Ser e o Nada, sem saber exatamente por quê. Mais tarde, percebi que “nada” não era a palavra adequada. “Vacuidade” [Emptiness] era realmente o que eles estavam procurando – uma visão positiva, e não niilista.


Meu primeiro encontro com o Dharma budista aconteceu quando eu tinha vinte e poucos anos. Eu acho que, como a maioria dos jovens, eu não estava particularmente feliz. Eu não sei se eu era um suicida, mas eu estava muito infeliz, e eu tinha perguntas como: “Por que existe algo?” Percebendo que eu provavelmente estava atingindo os limites da minha própria sanidade, eu estava explorando livrarias noturnas lendo tudo o que podia, em muitas direções diferentes. Os livros de Evans-Wentz sobre o budismo tibetano tiveram um enorme impacto em mim. Eu simplesmente devorava esses livros.


Melvin McLeod: Muitos de nós encontramos inspiração nesses livros. O que você encontrou neles que chamou a sua atenção?


Richard Gere: Esses livros tinham tudo o que um bom romance tem, de modo que você poderia realmente mergulhar neles, mas, ao mesmo tempo, eles ofereciam a possibilidade de você viver aqui e ser livre ao mesmo tempo. Eu ainda não tinha considerado isso como uma possibilidade – eu só queria sair – assim a ideia de que você poderia estar aqui e estar fora ao mesmo tempo – vazio – foi revolucionária.


Assim, o caminho budista, particularmente a abordagem tibetana, foi, obviamente, me atraindo, mas o Zen Budismo foi a primeira tradição em que me envolvi. Meu primeiro professor foi Sasaki Roshi. Lembro-me de ir para Los Angeles para três dias de sesshin [programa de meditação Zen]. Preparei-me, alongando as pernas por meses e meses para que eu pudesse passar por isso.


Eu tive uma espécie de experiência mágica com Sasaki Roshi, uma experiência da realidade. Eu compreendi que isto é um trabalho, isto é um trabalho. Não se trata de voar pelos ares; não se trata de qualquer magia ou romance. É um trabalho sério em sua mente. Essa foi uma parte importante do caminho para mim.


Sasaki Roshi foi incrivelmente rigoroso e muito gentil ao mesmo tempo. Eu era um completo neófito e não sabia de nada. Eu era arrogante e inseguro e estava ferrado. Mas eu estava falando sério sobre querer aprender. Chegou a um ponto no final do sesshin em que eu preferia nem ir ao dokusan [entrevista com o mestre Zen]. Eu sentia que estava tão mal preparado para lidar com os koans que eles tinham que me arrastar. Finalmente, chegou a um ponto em que eu apenas ficava sentado lá, e eu me lembro dele sorrindo naquele momento. “Agora podemos começar a trabalhar”, ele disse. Não havia nada a dizer – nenhuma besteira, nada.


Melvin McLeod: Quando alguém tem uma conexão intuitiva tão forte, o budismo sugere que é por causa do karma, alguma conexão passada com os ensinamentos.


Richard Gere: Bem, eu perguntei aos mestres sobre o que tinha me levado a isso. Eles apenas sorriam para mim, como se eu pensasse que havia alguma decisão nesse sentido ou então fosse apenas o acaso. Bem, não é assim que o karma funciona. Obviamente há alguma ligação muito clara e definitiva com os tibetanos ou isso não teria acontecido. Minha vida não teria se expressado desta maneira.


Eu acho que eu sempre senti que a prática era a minha vida real. Eu me lembro quando eu estava apenas começando a praticar a meditação, aos 24 anos, tentando lidar com a minha vida. Eu estava escondido no meu pequeno apartamento horrível por meses, apenas fazendo tai chi e fazendo o meu melhor para realizar a meditação sentada. Eu tinha um sentimento muito claro de que eu sempre estive em meditação, que eu nunca saí da meditação. Isso era uma realidade muito mais substancial do que aquilo que normalmente se considera como realidade. Isso era muito claro para mim já naquela época, mas levou todo esse tempo da minha vida para trazê-lo para fora, para o mundo, com mais tempo de prática, observando minha mente, tentando gerar bodhicitta.




Melvin McLeod: Quando você encontrou o Dalai Lama pela primeira vez?


Richard Gere: Eu tinha sido um estudante do Zen por cinco ou seis anos antes de conhecer Sua Santidade na Índia. Nós começamos com um pouco de conversa fiada e então ele disse: “Ah, então você é um ator?” Ele pensou sobre isso um segundo, e disse: “Então, quando você faz uma cena em que o personagem se irrita, você realmente está irritado? Quando o personagem está triste, você realmente se entristece? Quando o personagem chora, você está realmente chorando? “Eu dei a ele algum tipo de resposta de ator, eu disse que seria mais eficaz se você realmente acreditasse na emoção que você estava retratando. Ele olhou profundamente em meus olhos e começou a rir. Histericamente. Ele estava rindo da ideia de que eu pudesse acreditar que emoções são reais, que eu iria me esforçar para acreditar em raiva, ódio, tristeza, dor e sofrimento.


Essa primeira reunião teve lugar em Dharmsala em uma sala onde eu o vejo com bastante frequência agora. Eu não posso dizer que o sentimento tenha mudado drasticamente. Eu ainda fico incrivelmente nervoso e projeto todos os tipos de coisas sobre ele, mas a essa altura ele já está acostumado. Ele passa por todas essas coisas muito rapidamente, porque seus votos são tão poderosos, tão abrangentes, que ele é muito eficaz e hábil em chegar ao ponto. Porque a única razão pela qual alguém iria querer vê-lo é a vontade de remover o sofrimento de sua consciência.


A minha vida mudou completamente desde a primeira vez que estive na presença de Sua Santidade. Não há dúvida sobre isso. Não foi como se eu sentisse, “Oh, eu vou doar todos os meus bens e ir para o monastério agora”, mas naturalmente senti que era isso que eu tinha que fazer, trabalhar com esses mestres, trabalhar dentro desta linhagem, aprender tudo o que eu pudesse, envolver-me nisso. Apesar dos diferentes graus de seriedade e compromisso, desde então, eu realmente nunca me afastei desse caminho.


Melvin McLeod: Sua Santidade trabalha pessoalmente com você, combatendo suas neuroses das muitas maneiras que os mestres budistas fazem, ou ele lhe ensinar mais através do seu exemplo?


Richard Gere: Não há dúvida de que Sua Santidade é o meu guru-raiz, e ele tem sido muito duro comigo às vezes. Eu tive que explicar às pessoas que podem ter uma visão um pouco romântica de Sua Santidade que, às vezes, ele me confronta abertamente, mas com muita habilidade. Eu não digo que tenham sido agradáveis para mim os momentos em que ele agiu dessa maneira, mas nunca houve apego ao ego da sua parte. Eu sou muito grato a ele por confiar em mim o suficiente para ser incisivo e servir de espelho. Lembre-se, as primeiras reuniões não eram assim. Eu acho que ele estava ciente de quão frágil eu era e estava sendo muito cuidadoso. Eu acho que agora ele sente que a minha seriedade a respeito dos ensinamentos aumentou e minha própria compreensão dos ensinamentos aumentou. Ele pode ser muito mais duro comigo.


Melvin McLeod: A escola Gelugpa do budismo tibetano coloca uma forte ênfase na análise. O que o atraiu para uma abordagem mais intelectual?


Richard Gere: Sim, é engraçado. Eu acho que provavelmente eu teria sido atraído instintivamente pela Dzogchen [A Grande Perfeição, ensinamento da escola Nyingma]. Eu acho que o instinto que me atraiu para o Zen é o mesmo que teria me levado para Dzogchen.


Melvin McLeod: Espaço.


Richard Gere: O não-conceitual. Basta ir direito ao espaço não-conceitual. Recentemente eu tive alguns mestres Dzogchen que tiveram a gentileza de me ajudar, e eu vejo como o Dzogchen incrementa grande parte das outras formas de meditação que eu pratico. Muitas vezes o Dzogchen tem realmente me proporcionado uma visão fresca e tem me feito perceber o tipo de caminho limitado que eu estava percorrendo através do condicionamento e da preguiça.


Mas no geral, acho que a escolha mais sábia para mim é trabalhar com os Gelugpas, embora o espaço seja o espaço onde quer que seja. Eu acho que a abordagem analítica – que busca os não-limites desse espaço – é importante. De certa forma, as pessoas alcançam a estabilidade ao se tornarem capazes de ordenar a mente racional. Quando o espaço não está lá para você, o trabalho intelectual ainda vai mantê-lo apoiado. Eu ainda me encontro em situações onde as minhas emoções estão fora de controle e a raiva surge, e nessa situação é muito difícil adentrar em um espaço ‘puro’ e límpido. Assim, a abordagem analítica para trabalhar com a mente é extremamente útil. É algo muito concreto em que se apoiar e bastante estabilizador.


Melvin McLeod: Qual foi a evolução das práticas para você, na medida em que você pode falar sobre isso, depois que entrou no caminho vajrayana?


Richard Gere: Fico um pouco hesitante em falar sobre isso, porque, um, eu não tenho a pretensão de saber muito, e dois, sendo uma celebridade estas coisas são citados fora de contexto e isto às vezes não é favorável. Posso dizer que quaisquer que tenham sido as formas de meditação que eu pratiquei, eles ainda envolvem as formas básicas de refúgio, de geração de bodhicitta [mente e coração despertos] e dedicação de mérito para os outros. Todos os níveis de ensinamentos que meus professores me permitem receber envolvem essas formas básicas.


No geral, o tantra tornou-se menos romântico para mim. Parece mais familiar. Essa é uma fase interessante no processo, quando essa versão particular da realidade torna-se mais normal. Eu não estou dizendo que é normal, no sentido de comum ou mundano, mas eu posso sentir que é tão normal quanto o que eu considerava antes como realidade. Eu posso confiar nisso.


Melvin McLeod: Que livros do Dharma foram importantes para você?


Richard Gere: As pessoas estão sempre me perguntando que livros budistas eu recomendaria. Eu sempre sugiro Mente Zen, Mente de Principiante a alguém que diz: “Como posso começar?” Eu sempre incluirei algo de Sua Santidade. Seu livro Bondade, Amor e Compaixão é extraordinariamente bom. Há coisas maravilhosas lá. The Tantric Distinction, de Jeffrey Hopkins é muito útil. Há tantos.


Melvin McLeod: Você vai para a Índia com frequência. Isso lhe dá a oportunidade de praticar em um ambiente com menos distrações?


Richard Gere: Na verdade, é provavelmente quando me distraio mais! Quando eu vou lá, eu sou apenas um estudante simples como todo mundo, mas eu também sou um cara que pode ajudar. Quando estou na Índia, há uma série de pessoas que necessitam de ajuda e é muito difícil dizer não. Portanto, não é o momento mais tranquilo da minha vida, mas apenas estar em um ambiente onde todo mundo está focando no Dharma e onde Sua Santidade é o centro do foco já é extraordinário.


Melvin McLeod: Quando você está em Dharmsala você tem a oportunidade de estudar com o Dalai Lama ou outros mestres?


Richard Gere: Eu tento me manter em contato com todos os meus mestres. Alguns deles são eremitas nas montanhas, mas eles vêm para baixo quando Sua Santidade dá ensinamentos. É um tempo para se atualizar em tudo isso, e recordar. Para mim, isso significa recordar. A vida aqui é uma distração incrível e é muito fácil se desviar do caminho. Ir para lá é uma oportunidade de lembrar, literalmente, qual é a missão, por que estamos aqui.


Melvin McLeod: Aqui você está envolvido no mundo da produção cinematográfica, que as pessoas consideram extremamente desgastante, de alto nível e extremamente competitivo.


Richard Gere: Isso é tudo verdade. Mas é como a vida de todo mundo, com a diferença de que ela aparece nos jornais. Só isso. São as mesmas emoções. O mesmo sofrimento. As mesmas questões. Não há diferença.


Melvin McLeod: Você não acha que tem uma vida um pouco cindida, indo e vindo entre esses mundos?


Richard Gere: Acho que cada vez mais o meu envolvimento em uma carreira, em uma vida de chefe de família normal, é um grande desafio para aprofundar os ensinamentos dentro de mim. Se eu não estivesse no mercado, não haveria nenhuma maneira pela qual eu seria capaz de realmente enfrentar os cantos e recantos mais escuros dentro de mim. Eu simplesmente não iria vê-los. Eu não sou tão tenaz; eu não sou tão inteligente. Preciso da vida me dizendo quem eu sou, me mostrando minha mente constantemente. Eu não iria vê-la em uma caverna. O problema comigo é que se eu pudesse, eu provavelmente encontraria algum estado de felicidade, e permaneceria lá. Isso seria a morte. Eu não quero isso. Como eu disse, eu não sou um praticante extraordinário. Eu sei muito bem quem eu sou. É bom para mim estar no mundo.


Melvin McLeod: Existem maneiras específicas pelas quais você tenta trazer o dharma para o seu trabalho, além de trabalhar com sua mente e tentar ser um ser humano decente?


Richard Gere: Bem, isso já é muito! Isso é coisa séria.


Melvin McLeod: É verdade. Mas esses são os desafios que todos enfrentamos. Eu só estava me perguntando se você tenta trazer uma perspectiva budista ao mundo específico do cinema?


Richard Gere: No cinema, nós estamos jogando com algo que, literalmente, fragmenta a realidade, e eu acho que estar ciente da fragmentação do tempo e do espaço auxilia a prática, ajuda soltar a mente. Não há nada de verdadeiro no cinema. Nada. Não podemos nem mesmo comprovar a existência das partículas de luz que projetam o filme. Nada está lá. Nós sabemos isso quando estamos atuando; nós somos os mágicos que fazem o truque. Mas, mesmo assim mantemos a crença de que tudo é real, que essas emoções são reais, que este objeto realmente existe, que a câmera está capturando alguma realidade.


Por outro lado, há algum sentido mágico que a câmera vê melhor do que nossos olhos. Ela vê o interior das pessoas de uma forma que normalmente não conseguimos. Portanto, há uma vulnerabilidade em estar na frente da câmera que não se tem de suportar na vida normal. Há uma certa quantidade de pressão e estresse nisso. Você está sendo visto, você realmente está sendo visto, e não há lugar para se esconder.


Melvin McLeod: Mas não há nenhuma maneira de realmente lidar com a situação para…?


Richard Gere: Você quer dizer, aprender através disso? Não, acho que essas coisas são muito misteriosas para que se pudesse fazer isso conscientemente. Sem dúvida, estando eu mal preparado para ser um bom aluno, eu tive um monte de ensinamentos, e alguns permaneceram. De alguma forma eles se comunicam, não por causa de mim, mas, apesar de mim. Então eu acho que há um valor aí. É o mesmo com todo mundo: todas as energias positivas que nos tocaram em vidas inumeráveis exercerão sua influência de alguma forma. Quando você olha em seus olhos, quando a câmera da um close, há algo lá que é misterioso. Não há nenhuma maneira pela qual você poderia escrevê-lo, não há nenhuma maneira pela qual você poderia planejar, mas uma câmera vai buscá-lo de uma maneira diferente do que alguém poderia fazer sentado do outro lado da mesa.


Melvin McLeod: Como você se sente em seu papel como o porta-voz do Dharma?


Richard Gere: Para o Dharma? Eu nunca, nunca aceitei isso, e eu nunca vou aceitar. Eu não sou um porta-voz do Dharma. Eu não tenho as qualidades necessárias.


Melvin McLeod: Mas você está sempre sendo questionado em público sobre ser um budista.


Richard Gere: Eu posso falar sobre isso apenas como um praticante, do ponto de vista limitado que eu tenho. Embora tenham se passado muitos anos desde que eu comecei, eu não posso dizer que eu sei mais agora do que antes. Eu não posso dizer que tenho controle sobre minhas emoções. Eu não conheço minha mente. Estou perdido como todos os outros. Então, eu certamente não sou um líder. No curso real das coisas, eu falo sobre essas coisas, mas apenas no sentido de que isso é o que os meus mestres me deram. Nada de mim.


Melvin McLeod: Quando você é perguntado sobre o budismo, existem certos temas que você retoma e que sente que são úteis, tais como a compaixão?


Richard Gere: Absolutamente. Eu provavelmente diria sabedoria e compaixão, de alguma forma, que são os dois pólos que estamos aqui para explorar – expandindo nossas mentes e nossos corações. Em algum momento, espero ser capaz de abranger todo o universo dentro da mente, e a mesma coisa com o coração, com compaixão. Espero que os dois ao mesmo tempo. Inseparáveis.


Melvin McLeod: Quando você diz isso, eu me lembro de algo que me surpreendeu quando eu vi o Dalai Lama falar. Ele estava ensinando sobre a compaixão, como tantas vezes acontece, mas eu não pude deixar de pensar no que aconteceria se ele falasse para um público mais amplo sobre o entendimento budista da sabedoria, isto é, sobre o vazio (vacuidade). Eu só queria saber o que aconteceria se este líder espiritual reverenciado dissesse ao mundo, bem, vocês sabem, tudo isso realmente não existe de uma maneira substanticial.


Richard Gere: Bem, o Buda girou a roda do Dharma muitas vezes, e considero o papel de Sua Santidade da mesma forma. Se estamos tão perdido em nossa natureza animal, a melhor maneira de começar a sair dessa situação é aprender a ser gentil. Alguém perguntou a Sua Santidade, como você pode ensinar uma criança a se preocupar as coisas vivas e tratá-las com respeito? Ele disse, tente levá-las a amar e respeitar um inseto, algo que nós instintivamente repelimos. Se elas puderem enxergar a sua senciência básica, o seu potencial, a plenitude do que ele é, com bondade básica, então isso é um grande passo.


Melvin McLeod: Eu estava lendo o que o Dalai Lama disse sobre o amor de mãe, que para ele é o melhor símbolo para o amor e compaixão, porque é totalmente desinteressado.


Richard Gere: Nectar. O néctar é isso! [Na prática Vajrayana, as bênçãos espirituais são visualizadas como néctar descendo sobre o praticante.] Isso é o leite materno; que está vindo direito da mãe. Absolutamente.


Melvin McLeod: Embora você seja cauteloso ao falar sobre o Dharma, você é um porta-voz apaixonado pela questão da libertação do Tibete.


Richard Gere: Com relação a isso, eu já passei por diferentes fases. A raiva que eu poderia ter sentido 20 anos atrás é bem diferente agora. Estamos todos no mesmo barco aqui, todos nós, Hitler, os chineses, você, eu, o que fizemos na América Central. Ninguém está imune à ignorância que causa todos esses problemas. Os chineses estão produzindo a causa de um futuro e uma vida futura ruim para si mesmos, e não se pode deixar de ser compassivo com eles por isso.


Quando falo com os tibetanos que estiveram em confinamento solitário por 20 ou 25 anos, eles me contam, do fundo do coração, que o problema é maior do que o que eles sofreram nas mãos dos seus torturadores, e que sentem pena e compaixão por estas pessoas que estavam agindo de maneira desnaturada. Depois de estar na presença desse tipo de sabedoria de coração e mente você não pode mais recuar.




Melvin McLeod: É notável que um povo inteiro, de maneira geral, esteja imbuído de um espírito parecido.


Richard Gere: Estou convencido de que houve aí uma política de Estado. Obviamente, surgem problemas quando não há separação entre Igreja e Estado. Mas estou convencido de que o propósito dos grandes reis do Dharma é criar uma sociedade baseada nessas ideias. As instituições foram projetadas para criar pessoas boas; tudo na sociedade estava lá para apoiá-las. Isso se tornou decadente, houve bons e maus períodos. Mas a essência da sociedade era a criação de pessoas boas, bodhisattvas, era criar um ambiente muito forte onde as pessoas pudessem alcançar a iluminação. Imagine isso na América! Quero dizer, nós não temos nenhuma estrutura para a iluminação. Nós temos uma forte herança cristã e judaica, de compaixão e de altruísmo. Boas pessoas. Mas temos muito pouco que estimula a iluminação – liberação total.


Melvin McLeod: Considerando como as violações dos direitos humanos têm atraído a atenção da consciência mundial, como no Tibete e na África do Sul, antes disso, o trabalho de celebridades como você capazes de usar sua fama habilmente tem sido um fator importante.


Richard Gere: Espero que seja verdade. É uma gentileza sua dizer isso. É uma situação estranha. Anteriormente eu havia trabalhado na América Central e em algumas outras questões políticas e de direitos humanos, e é preciso conhecer um pouco as regras do jogo para trabalhar com o Congresso e o Departamento de Estado. Mas isso realmente não se aplica a esta situação. O Tibete está muito longe, e o envolvimento americano lá tem sido extremamente limitado.


Achei também que a questão da Sua Santidade, em termos de um movimento político, era muito complicada. É um movimento de não-violência, o que é um problema em si mesmo porque você não obtém manchetes com a não-violência. E Sua Santidade não se vê como Gandhi; ele não cria situações dramáticas ou espetaculares.


Então, nós acabamos tendo uma espécie muito mais constante de abordagem. Não é uma ação dramática. Trata-se de, pouco a pouco, ir construindo a verdade, e eu acho que esse processo provavelmente tem sido mais profundo por causa disso. Os senadores, deputados, legisladores e parlamentares que se envolveram vão muito além do que eles normalmente iriam por uma causa em que acreditassem.


Acho que a universalidade das palavras e ensinamentos de Sua Santidade são muito maiores do que a causa do Tibete. Quando Sua Santidade recebeu o Prêmio Nobel da Paz, houve um salto quântico. Ele não é mais visto como apenas um tibetano; ele pertence ao mundo. Nós estávamos falando antes sobre o que a câmera capta, uma simples foto de Sua Santidade já parece comunicar muito. É cativante, e ao mesmo tempo revela uma abertura. Você pode imaginar como teria sido ver o Buda. Apenas ver o seu rosto iria colocá-lo muitos passos à frente. Eu acho que muito do que temos feito é apenas colocar Sua Santidade em situações em que ele poderia tocar tantas pessoas quanto possível, o que ele sempre faz com impecável bodhicitta.


Eu continuo dizendo que o Tibete vai ser levado em consideração no processo, mas se trata de como salvar todos os seres sencientes, e enquanto mantivermos nossos olhos sobre o prêmio, o Tibete vai ficar bem. É claro que no Tibete existem questões imediatas que devem ser tratadas. Trabalhamos com elas o tempo todo. Embora tivéssemos razão para acreditar que uma comunicação mais aberta com os chineses estava evoluindo, o otimismo gerado pela visita de Clinton à China não se confirmou. Na verdade, os tibetanos, bem como as chineses pró-democracia, estão enfrentando o período mais repressivo desde o final dos anos oitenta, desde o massacre da Praça de Tiananmen.


Melvin McLeod: Eu sempre fico impressionado com um ponto que o Dalai Lama acentua, muito semelhante ao que o meu próprio mestre, Chögyam Trungpa Rinpoche, apresenta nos ensinamentos da Shambhala. É a necessidade de uma espiritualidade universal com base em verdades simples da natureza humana que transcende qualquer religião em particular, ou a necessidade de uma religião formalizada. Isto me atinge como uma mensagem extraordinariamente importante.


Richard Gere: Bem, eu acho que é verdade. Sua Santidade diz que o que todos nós temos em comum é a aprovação da bondade e da compaixão; todas as religiões têm isso. Amor. Nós todos nos inclinamos para o amor.


Melvin McLeod: Mas, além disso, ele assinala que bilhões de pessoas não praticam uma religião de maneira nenhuma.


Richard Gere: Mas eles têm uma religião, a religião da bondade. Todo mundo responde à bondade.


Melvin McLeod: É fascinante que um grande líder religioso defenda de fato uma religião de nenhuma religião.


Richard Gere: Claro, é isso que o torna maior do que o Tibet.


Melvin McLeod: Faz com que ele seja maior do que o budismo.


Richard Gere: Muito maior. O Buda foi maior do que o budismo.


Melvin McLeod: Você é capaz de patrocinar uma série de projetos de apoio ao Dharma e à independência do Tibete.


Richard Gere: Eu me encontro em uma posição única. Eu tenho algum dinheiro em minha fundação, então eu sou capaz de oferecer algum capital a vários grupos e ajudá-los a iniciar seus projetos. Patrocinar os livros do Dharma é importante para mim – tradução, publicação – mas eu acho que a coisa mais importante que posso fazer é ajudar a patrocinar a instrução. Trabalhar com Sua Santidade e ajudar a patrocinar a instrução na Mongólia, Índia, Estados Unidos e em outros lugares, nada me dá mais alegria.


O programa que estamos fazendo neste verão prevê quatro dias de ensinamentos do Dalai Lama em Nova York. Entre os dias 12 e 14 de agosto haverá o ensino formal por Sua Santidade sobre Kamalashila’s “Middle-length Stages of Meditation” e “The Thirty-seven Practices of the Bodhisattvas.” Será no Beacon Theater e há cerca de 3.000 bilhetes disponíveis. Tenho certeza de que serão vendidos rapidamente. Se as pessoas não puderem comparecer, haverá uma aula pública gratuita no Central Park no dia 15. Estamos supondo que haverá espaço para 25 a 40 mil pessoas. Por isso, todos que quiserem poderão comparecer. Sua Santidade vai dar uma aula sobre os Oito Versos que Transformam a Mente, um poderoso ensinamento lojong, um dos meus favoritos, na verdade. Em seguida, Sua Santidade vai dar uma iniciação [wang], um empoderamento completo para Tara Branca.


Eu vi Sua Santidade dar ensinamentos da bodhicitta como estes, e ninguém pôde ir embora sem chorar. Ele toca tão profundamente no coração. Ele deu um ensinamento em Bodh Gaya, no ano passado, sobre In Praise of Bodhicittade Khunu Lama, que é um longo poema. Só de pensar nisso agora, eu estou começando a chorar. Tão bonito. Quando ele estava ensinando sobre In Praise of Bodhicitta, de Kunu Lama, que foi seu próprio mestre, Oh! Estávamos dentro de seu coração, da maneira mais extraordinária. Um lugar sobre o qual você não consegue falar, você não consegue ler a respeito, nada. Você está na presença de Buda. Eu tive vários mestres que dão ensinamentos maravilhosos sobre a sabedoria, mas ver alguém que realmente tem a grande bodhicitta.


Então esses são os ensinamentos que eu acredito que Sua Santidade está aqui para dar. Isso é o que toca.


Esta entrevista foi dada em 1999.