sexta-feira, 13 de julho de 2018

Nariz de porco e budas




Nariz de porco e budas por Monge Ryozan


Na Coréia, um general chamado Yi Kang Won conquistou todo o país e fundou a dinastia Yi, por volta de 1392. Ele então instituiu-se como "Rei Taejo", o primeiro rei da nova dinastia. Antes dele se tornar rei tinha muitos amigos e um ótimo relacionamento com as pessoas, mas depois ninguém ousava nem mesmo conversar com ele, ninguém fazia nenhuma brincadeira - era elevado demais para isso.
Quando todo o país ficou em ordem, ele caiu no tédio, porque as pessoas ofereciam somente um grande e isolador respeito. Certo dia ele quis relaxar, se divertir um pouco, e então convidou o Mestre Zen Mu Hak para visitá-lo pois sentia que esse era o único homem com quem não precisava estar sério o tempo todo. Ele conhecia Mu Hak há muito tempo e sentia um grande respeito por ele. Naquele dia o rei queria se divertir e fazer umas brincadeiras. Assim, logo que Mu Hak entrou no salão, o Rei Taejo disse:

"Mu Hak, você sabe que eu o conheço há muito tempo, mas é apenas neste exato momento que estou me dando conta de que você tem um grande nariz de porco. De certo modo, você realmente parece um porco!".

Ele estava esperando que Mu Hak o insultasse de volta, mas ele não o fez. Ao contrário, ele se curvou profundamente perante o rei e disse:
"E Vossa Majestade se parece um Buda brilhando em toda a Sua glória."


O rei disse:
"Eu não entendo. Eu acabei de dizer que você se parecia com um porco. Eu lhe insultei e você me chamou de Buda."


Mu Hak disse:

"Sua Alteza, não é que vós me insultastes. Na verdade eu vos insultei mais."


"O que você quer dizer", perguntou o rei. 


E Mu Hak respondeu:
"Se eu vos explicasse, tenho certeza de que vós ficaríeis furioso comigo."


"O que é?", perguntou o rei. 


O Mestre respondeu:
"Se você tem olhos de porco, tudo o que você vê é porco. Através de olhos de Buda, tudo o que se vê é Buda." 

O rei explodiu numa gargalhada e disse:
"Mu Hak, você é muito mais inteligente que eu e um gozador mais esperto também.


Ji Kwang Dae Poep Sa Nim
One dust particle swallows Heaven and Earth
Tradução de Khalis Chacel e Tárika Lima
in http://renascimento.com.br/meditacao/histzen.htm

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Os perigos da paternidade distraída






Os smartphones já foram implicados em tantos resultados desastrosos - fatalidades no trânsito, distúrbios do sono, perda de empatia, problemas de relacionamento, falha em perceber um palhaço em um monociclo - que parece ser mais fácil listar as coisas que eles não estragam do que coisas que eles efetivamente estragam. Nossa sociedade pode estar chegando a um pico nas críticas aos dispositivos digitais.


Mesmo assim, pesquisas recentes sugerem que um problema-chave continua sendo pouco explorado. Envolve o desenvolvimento das crianças, mas provavelmente não é o que você pensa. Mais do que crianças pequenas obcecadas pelas telas, deveríamos nos preocupar com pais desconectados.

Sim, os pais têm, agora, mais tempo com seus filhos do que quase todos os pais na história. Apesar de um aumento dramático no percentual de mulheres no mercado de trabalho, as mães hoje gastam mais tempo cuidando de seus filhos do que as mães na década de 1960. Mas o engajamento entre pais e filhos é cada vez mais de baixa qualidade e até mesmo artificial. Os pais estão constantemente presentes fisicamente nas vidas de seus filhos, mas estão cada vez menos sintonizados emocionalmente. Para ser claro, não sou antipática aos pais nessa situação. Meus próprios filhos adultos gostam de brincar que eles não teriam sobrevivido à infância se eu tivesse um smartphone nas minhas mãos há 25 anos.

Argumentar que o uso de gadgets pelos pais é um problema subestimado não é descontar os riscos diretos que as telas representam para as crianças: evidências substanciais sugerem que muitos tipos de tempo em frente às telas (especialmente aqueles que envolvem imagens em ritmo acelerado ou violentas) são prejudiciais aos cérebros jovens. Os pré-escolares de hoje passam mais de quatro horas por dia diante de uma tela. E, desde 1970, a idade média de início do uso “regular” passou de 4 anos para apenas quatro meses.


Alguns dos jogos interativos mais recentes que as crianças usam em celulares ou tablets podem ser mais benignos do que assistir à TV (ou YouTube), pois imitam melhor os comportamentos naturais de brincar das crianças. E, é claro, muitos adultos plenamente funcionais sobreviveram a uma infância entorpecente, gasta vendo muito lixo cognitivo. (Minha mãe - incomumente para o seu tempo - proibiu Speed ​​Racer e Gilligan's Island alegando falta de coisas interessantes e instigantes nesses programas. O fato de que eu, de alguma forma, consegui assistir a cada episódio de cada show dezenas de vezes nunca foi explicado.) Ainda assim, ninguém realmente discute os tremendos custos de oportunidade para crianças pequenas que estão conectadas a uma tela: o tempo gasto em dispositivos é tempo não gasto explorando ativamente o mundo e se relacionando com outros seres humanos.

No entanto, apesar de toda a conversa sobre o tempo de tela das crianças, surpreendentemente pouca atenção é dada ao seu uso pelos pais, que agora sofrem com o que a especialista em tecnologia Linda Stone, há mais de 20 anos, chamou de “atenção parcial contínua”. Essa condição está prejudicando não apenas a nós, como Stone argumentou; está prejudicando nossos filhos. O novo estilo de interação dos pais pode interromper um antigo sistema de pistas emocionais, cuja marca registrada é a comunicação responsiva, a base da maioria das aprendizagens humanas. Estamos em território desconhecido.

Especialistas em desenvolvimento infantil têm nomes diferentes para o sistema de sinalização diádica entre adulto e criança, que constrói a arquitetura básica do cérebro. Jack P. Shonkoff, um pediatra e diretor do Centro para o Desenvolvimento da Criança de Harvard, chama isso de estilo de comunicação “servir e retornar”; os psicólogos Kathy Hirsh-Pasek e Roberta Michnick Golinkoff descrevem um "dueto de conversação".

Os padrões vocais que os pais adotam durante as trocas com bebês e crianças pequenas são marcados por um tom de voz mais agudo, gramática simplificada e entusiasmo engajado e exagerado. Embora essas conversas sejam enjoativas para observadores adultos, os bebês não se cansam disso. Não só isso: um estudo mostrou que as crianças expostas a este estilo de fala interativo e emocionalmente responsivo aos 11 meses e 14 meses sabiam o dobro de palavras aos 2 anos do que as que não estavam expostas a ele.

O desenvolvimento infantil é relacional, e é por isso que, em um experimento, bebês de nove meses que receberam algumas horas de instrução em Mandarim de um humano vivo, conseguiram isolar elementos fonéticos específicos na língua, enquanto que um outro grupo de bebês que recebeu exatamente a mesma instrução, via vídeo, não conseguia. De acordo com Hirsh-Pasek, professor da Temple University e membro sênior da Brookings Institution, mais e mais estudos estão confirmando a importância da conversação. “A língua é o melhor prognostico do desempenho escolar”, ela me disse, “e a chave para habilidades linguísticas fortes são aquelas conversas fluentes de ida-e-vinda entre crianças e adultos.”

Surge, portanto, um problema quando o sistema de pistas emocionais ressonantes entre adulto-criança, tão essencial para a aprendizagem precoce, é interrompido - por um texto, por exemplo, ou um rápido check-in no Instagram. Qualquer pessoa que tenha sido atropelada por um operador de carrinho desatento no smartphone pode atestar a onipresença do fenômeno. Uma consequência de tais cenários tem sido notada por um economista que acompanhou o aumento dos machucados em crianças à medida que os smartphones se tornaram predominantes. (A AT&T lançou o serviço de smartphone em diferentes momentos em diferentes lugares, criando um intrigante experimento natural.

Área por área, à medida que a adoção de smartphones aumentava, visitas de crianças às emergências dos hospitais aumentaram.) Essas descobertas atraíram um tanto da atenção da mídia alertando sobre perigos físicos impostos por pais distraídos, mas temos sido mais lentos em calcular seu impacto no desenvolvimento cognitivo das crianças. "As crianças não conseguem aprender quando interrompemos o fluxo de conversas, pegando nossos celulares ou olhando para o texto que passa pelas nossas telas", disse Hirsh-Pasek.

No início de 2010, pesquisadores de Boston observaram, discretamente, 55 cuidadores comendo com uma ou mais crianças em restaurantes fast-food. Quarenta dos adultos estavam absortos em seus celulares em graus variados, alguns quase totalmente ignorando as crianças (os pesquisadores descobriram que digitar e rolar as telas representa maiores problemas a esse respeito do que receber uma ligação). Sem surpresa, muitas das crianças começaram a fazer pedidos de atenção, que eram freqüentemente ignorados.

Um estudo subsequente trouxe 225 mães e seus filhos de aproximadamente 6 anos para um ambiente familiar e filmou suas interações enquanto cada pai e filho recebiam alimentos para experimentar. Durante o período de observação, um quarto das mães usou espontaneamente o celular, e estas promoveram substancialmente menos interações verbais e não verbais com os filhos.

No entanto, outro experimento rigorosamente desenhado, este conduzido na Filadélfia por Hirsh-Pasek, Golinkoff e Jessa Reed, da Temple University, testou o impacto do uso de celulares pelos pais no aprendizado de idiomas das crianças. Trinta e oito mães e suas crianças de 2 anos foram levadas para uma sala. As mães foram então informadas de que precisariam ensinar duas novas palavras a seus filhos (blicking, que significava “saltar” e frepping, que significava “tremer”) e receberam um celular para que os pesquisadores pudessem contatá-las a partir outra sala.

Quando as mães eram interrompidas por um telefonema, as crianças não aprendiam a palavra, e o oposto também se confirmou. Em um resultado colateral irônico no estudo, os pesquisadores tiveram que excluir sete mães da análise porque elas não atenderam o telefone, “não seguindo o protocolo”. Bom para elas!.


Nunca foi fácil equilibrar as necessidades de adultos e crianças, muito menos seus desejos, e é ingênuo imaginar que as crianças possam ser o centro inabalável da atenção dos pais. Os pais sempre deixaram as crianças para se entreterem sozinhas por vezes - “brincando nos barcos”, em uma frase memorável do The Wind in the Willows [O Vento nos Salgueiros, na versão em português], ou simplesmente brincando nos cercadinhos. Em alguns aspectos, o tempo em frente às telas, das crianças do século XXI, não é muito diferente das diferentes coisas em que toda geração de adultos confiou para manter as crianças ocupadas. Quando os pais não têm chiqueirinhos, literais ou figurados, o caos raramente demora a chegar. A recente biografia de Caroline Fraser sobre Laura Ingalls Wilder, autora de Little House on the Prairie [série de TV, ‘Os pioneiros’ em português], descreve o estilo parental excepcionalmente diferente dos pais da fronteira no século 19, que colocavam os bebês nas portas abertas dos fornos para aquecê-los e os deixavam vulneráveis ​​a “todos os tipos de acidentes, uma vez que que suas mães tinham que lidar com responsabilidades concorrentes.” A própria Wilder relatou uma variedade de quase calamidades com sua filha, Rose; uma vez, ela olhou por cima de suas tarefas para ver um par de pôneis de equitação saltando sobre a cabeça da criança.

A desatenção ocasional dos pais não é catastrófica (e pode até mesmo aumentar a resiliência), mas a distração crônica é outra história. O uso de smartphones tem sido associado a sinais claros de dependência: adultos distraídos ficam irritados quando o uso do celular é interrompido; eles não apenas perdem sinais emocionais, mas os interpretam mal. Um pai dessintonizado pode se irritar mais rapidamente do que um pai engajado, e ainda supor que uma criança esteja tentando ser manipuladora quando, na realidade, ela só quer atenção.

Separações curtas e deliberadas podem, naturalmente, ser inofensivas, até mesmo saudáveis, tanto para pais quanto para crianças (especialmente quando as crianças ficam mais velhas e exigem mais independência). Mas esse tipo de separação é diferente da desatenção que ocorre quando um pai está com um filho, mas comunica, através de seu não-compromisso, que o filho é menos valioso do que um e-mail. Uma mãe dizendo às crianças para sair e brincar, um pai dizendo que precisa se concentrar em uma tarefa pela próxima meia hora - essas são respostas inteiramente razoáveis ​​para as exigências conflitantes da vida adulta.

O que está acontecendo hoje, no entanto, é o aumento da imprevisibilidade do cuidado, regido pelos bips e incentivos dos smartphones. Parece que nos deparamos com o pior modelo de criação de filhos que se pode imaginar - sempre presente fisicamente, bloqueando, assim, a autonomia das crianças, mas apenas intermitentemente presentes emocionalmente.

Corrigir o problema não será fácil, especialmente porque é composto por mudanças drásticas na educação. Mais crianças pequenas do que nunca (cerca de dois terços das crianças de 4 anos de idade) estão em alguma forma de cuidado institucional, e as tendências recentes na educação infantil encheram muitas das salas de aula com aulas altamente roteirizadas, sem brilho e com monólogos do professor. Nesses ambientes, as crianças têm poucas oportunidades de conversas espontâneas.

Uma boa notícia é que as crianças pequenas são pré-preparadas para conseguir o que precisam dos adultos, como a maioria de nós descobre na primeira vez em que nosso olhar perdido é puxado de volta por um par de mãos rechonchudas nos repreendendo. As crianças pequenas farão de tudo para chamar a atenção de um adulto distraído e, se não mudarmos nosso comportamento, elas tentarão fazer isso por nós; podemos esperar muito mais birras, conforme os bebês forem envelhecendo e indo pras escolas. Mas, eventualmente, as crianças podem desistir. São necessários dois para dançar, e estudos de orfanatos romenos mostraram ao mundo que há limites para o que um cérebro de bebê pode fazer sem um parceiro de dança disposto. A verdade é que nós não sabemos realmente o quanto nossos filhos sofrerão quando não nos envolvemos.

Naturalmente, os adultos também estão sofrendo com o arranjo atual. Muitos construíram sua vida cotidiana em torno da infeliz premissa de que podem estar sempre ligados - sempre trabalhando, sempre cuidando dos filhos, sempre disponíveis para o cônjuge e seus próprios pais e qualquer um que precise deles, ao mesmo tempo em que ficam em dia com as notícias, enquanto lembram, na caminhada até o carro, de encomendar mais papel higiênico na Amazon. Eles estão presos no equivalente digital de um ciclo vicioso.

Nestas circunstâncias, é mais fácil concentrar nossas preocupações no tempo em frente às telas dos nossos filhos do que guardar nossos próprios dispositivos. Eu entendo esta tendência muito bem. Além de meus papéis como mãe e mãe adotiva, sou a guardiã de um Basset de meia-idade e acima do peso. Sendo eu mesma de meia-idade e com excesso de peso, prefiro ficar obcecada com a ingestão calórica do meu cão, restringindo-o a uma dieta austera de ração fibrosa, em vez de tratar do meu próprio regime alimentar e abdicar (Deus me livre) do meu bolo matinal de canela. Psicologicamente falando, trata-se de um caso clássico de projeção - o deslocamento defensivo de seus defeitos para outros, relativamente inocentes. No que diz respeito ao tempo em frente às telas, a maioria de nós deveria projetar muito menos.

Se conseguirmos colocar as mãos em nossa “tecnointerferência”, como alguns psicólogos a estão chamando, provavelmente descobriremos que podemos fazer muito mais por nossos filhos simplesmente fazendo menos - independentemente da qualidade de sua educação e independentemente da número de horas que dedicamos a eles. Os pais deveriam se dar permissão para se afastarem da pressão sufocante de serem tudo para todos. Pode colocar seu filho em um cercadinho. Deixe de ir àquele jogo de futebol se você quiser. Seu filho vai ficar bem. Mas quando você estiver com seu filho, guarde seu maldito celular.



publicado em 21 de Junho de 2018.

Resultado de imagem para Erika Christakis, a autora do livro The Importance of Being Little
Erika Christakis
Erika Christakis é uma educadora da primeira infância e autora do New York Times best- seller de A importância de ser pouco: o que as crianças realmente precisam de adultos.Ex-membro do corpo docente do Yale Child Study Center, ela escreveu amplamente sobre o desenvolvimento infantil desde a pré-escola até os anos de faculdade. Erika é graduada pelo Harvard College, onde se formou em antropologia e possui mestrado em saúde pública, comunicação e educação infantil. Ela é professora certificada em Massachusetts e Vermont (pré-k até a 2 a série) e também como diretora de pré-escola licenciada. Por dois anos, ela escreveu uma coluna no TIME.com Ideas e seu trabalho foi apresentado em vários outros locais, incluindo The Atlantic , The Washington Post, The Boston Globe , CNN.com, Nightline, Salon e NPR.

Este artigo foi escrito por Erika Christakis, a autora do livro The Importance of Being Little: What Young Children Really Need From Grownups. [“A importância de ser pequeno: o que as crianças pequenas realmente precisam dos adultos” ainda inédito no Brasil]. Foi originalmente publicado na The Atlantic, você pode ver o link original aqui.A tradução foi feita por Marcos Bauch, autor e parceiro de longa data do P.papodehomemH.

Luciano Andolini
Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas.
U.S. IMMIGRATION
A Reckoning After Trump’s Border Separation Policy: What Kind of Country Are We?

Karl Vick @karl_vick 6:00 AM ET
John Moore—Getty ImagesCentral American immigrants detained for possible separation in McAllen, Texas, on June 12
Trump's brutal gambit at the border reflects a President uncomfortable with ideals

Presidents have many jobs, and one is telling us who we are.

For the first 240 years of U.S. history, at least, our most revered chief executives reliably articulated a set of high-minded, humanist values that bound together a diverse nation by naming what we aspired to: democracy, humanity, equality. The Enlightenment ideals Thomas Jefferson etched onto the Declaration of Independence were given voice by Presidents from George Washington to Barack Obama.

Donald Trump doesn’t talk like that. In the 18 months since his Inauguration, Trump has mentioned “democracy” fewer than 100 times, “equality” only 12 times and “human rights” just 10 times. The tallies, drawn from factba.se, a searchable online agglomeration of 5 million of Trump’s words, contrast with his predecessors’: at the same point in his first term, Ronald Reagan had mentioned equality three times as often in recorded remarks, which included 48 references to human rights, according to the American Presidency Project at the University of California, Santa Barbara.

Trump embraces a different set of values. He speaks often of patriotism, albeit in the narrow sense of military duty, or as the kind of loyalty test he’s made to NFL players. He also esteems religious liberty and economic vitality. But American’s 45th President is “not doing what rhetoricians call that ‘transcendent move,'” says Mary E. Stuckey, a communications professor at Penn State University and author of Defining Americans: The Presidency and National Identity. Instead, with each passing month he is testing anew just how far from our founding humanism his “America first” policies can take us. And over the past two months on our southern border, we have seen the result.TIME Photo-Illustration. Photographs by Getty Images

On April 6, Attorney General Jeff Sessions announced a new “zero tolerance” policy toward those crossing illegally into the U.S. from Mexico. In mere weeks, over 2,000 children were taken from their parents and held, alone, sometimes behind chain-link fences, under the cold care of the federal government. In Texas, three “tender age” centers were set up for detained toddlers and infants. Incessant wails of “Mamá” and “Papá” were heard on audio from a Customs and Border Protection detention center. An advocate told of a child being led away from her mother crying so hard she vomited. In a case mocked by former Trump campaign manager Corey Lewandowski, the child taken from a parent was a 10-year-old with Down syndrome.



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NEARLY 2,000 CHILDREN HAVE BEEN SEPARATED FROM THEIR FAMILIES DURING TRUMP BORDER CRACKDOWN
HERE'S WHAT IT'S LIKE INSIDE A DETENTION FACILITY FOR IMMIGRANTS, ACCORDING TO THE BORDER PATROL

The reality on the southern U.S. border was so difficult to reconcile with Americans’ vision of themselves that Trump did not even make the effort. The President’s first mention of the order to separate children from their parents was a May 26 Twitter post calling it “horrible” even though he had personally authorized it. Three weeks later, his motives were fully in the open: by driving attention to the border, his signature campaign issue, Trump aimed to force a vote on his long-promised border wall before midterm elections can undo the GOP majority in Congress.

The attention part certainly worked. A week after his return from the June 12 summit with North Korea’s dictator, family separation dominated the national conversation like no other political story since former FBI chief James Comey was shown the door. A steadily building wave of revulsion washed over the political spectrum, from MSNBC to the editorial page of the Wall Street Journal to Franklin Graham and into the White House living quarters, when a spokeswoman for the First Lady said she called for “a country that governs with heart.”

Which leaves us facing a question: What kind of country are we? The world has been nervously asking that since November 2016. And while Trump ultimately capitulated on the forced separation of children, his new order suggested that families would be detained not only together, but perhaps indefinitely. For many Americans, the forced separation of immigrant families left them looking into the void from which the brutal policy emerged: the dark space left by the words Trump does say.Mike Blake—ReutersImmigrant children in custody in Tornillo, Texas, on June 18

In the first days of the Trump Administration, the State Department moved to drop two words—just and democratic—from the list of qualities the U.S. sought to promote beyond its borders. The change did not go through, but the effort signaled a retreat from idealism that is re-ordering the world. In the name of “America first,” a slogan that first surfaced to keep America out of World War II, Trump is angrily sawing away at the global structures the U.S. spent decades building after prevailing in that conflict, which left America not only as the globe’s only intact major economic power, but also holding the moral high ground. Imperfect in myriad ways (lynching was still common in 1945; women had been allowed to vote for just a quarter-century), the U.S. looked plenty good beside the Third Reich and Imperial Japan, and vowed to do better. In a postwar world divided between the West and communism, America assumed the role of beacon. Presidents spoke relentlessly of democracy, humanitarianism and universal rights.

“Go to the United States, that’s the place,” was what Ivars Kalnins’ parents heard in the displaced-persons camp where the family lived for five years after World War II, having fled their native Latvia ahead of the Soviets. Kalnins’ father, as a city official, was a target for the Communists. The young family ended up in the southwestern Wisconsin hamlet of Burton, sponsored by the families of St. Paul Lutheran, where my father later preached. Kalnins’ dad started out as a hired hand, doing the chores for local farmers that Mexicans now do, for half the wages a local would demand. His son, Ivars Kalnins, grew up to be a lawyer and ardent Trump supporter.

“My opinion on immigration basically is, wait your turn,” Kalnins says. “We waited five years. I don’t have any time or use for people sneaking in. You can’t blame them for wanting a better life. On the other hand, we can’t take in the whole world here, because everyone wants a better life. It’s up to them to make the place they’re from a better place.”

Kalnins’ journey from refugee to Trump loyalist is as complex and nuanced as the immigration issue, then and now. His grandmother, who had suffered a nervous breakdown from incessant shelling, ended up in Britain, having been told the U.S. was not accepting refugees who were disabled physically or mentally. (“So there’s your family separation,” he says. “I’ve been through it. It happens.”) But it was a Republican, Reagan, who extended amnesty to undocumented immigrants, and a Democrat, Obama, who deported more immigrants than any previous President and detained families, a policy abhorred by liberal critics.John Moore—Getty ImagesCentral American immigrants leave ICE custody on June 11 pending future hearings

But Obama also spoke of America’s lofty values with an eloquence that intentionally sought to echo Reagan. “Nobody did this like Ronald Reagan did,” says Stuckey. “Reagan could talk about national identity in ways that even liberals would nod their head and say, yes, I see myself there.” By contrast, Stuckey says, Trump doesn’t reach for America’s loftier values in an attempt to unify. “Trump isn’t interested in those things,” she adds, “he speaks almost exclusively to his base.”

That suits the base just fine. “All these grandiose speeches,” says Kalnins, who counts himself among those who relish that Trump does not sound like a politician. “Even Bush, who wanted to be the aw-shucks guy, it was all in there, a nice half-hour speech saying absolutely nothing. That’s what we’ve gotten away from. It scares the hell out of some people, but I personally feel that there must have been something there that helped him win, because we were on the road of the fall of the Roman Empire.”

What’s lost in Trump’s approach is any expectation of higher purpose. He makes no apology for lavishing praise on authoritarian leaders that past U.S. Presidents dealt with at arm’s length—Egypt’s Abdul Fattah al-Sisi (“somebody that’s been very close to me from the first time I met him”), the Philippines’ Rodrigo Duterte (“great relationship”) and Russia’s “strong leader” Vladimir Putin. When China’s Xi Jinping announced he would be President for life, placing 1.4 billion people deeper under government control, Trump offered congratulations.

American deference to authoritarian rulers now extends even into the nation’s capital. When Turkey’s Recep Tayyip Erdogan directed his security detail to beat protesters in full view of the press on a Washington, D.C., street on May 16, 2017, there were no consequences. Federal charges against his bodyguards were dropped in March, a day before Erdogan was scheduled to meet with Trump’s Secretary of State.

The story we tell the world is also the story we tell ourselves. Trump began June by blowing up the G-7 gathering of the world’s leading democracies by refusing to sign a joint statement endorsing “shared values of freedom, democracy, the rule of law and respect for human rights and our commitment to promote a rules-based international order.” He slapped tariffs on Canada, Mexico and the European Union, advised France to drop out of the E.U., and urged Germans to support right-wing anti-immigrant parties intent on deposing Chancellor Angela Merkel. The leaders of France and Canada replied by citing “values,” but Trump had moved on to Singapore, where he praised North Korea’s dictator Kim Jong Un, whose regime actively operates a network of gulags, as “a funny guy … very smart … his country does love him. You see the fervor.”

What values does America’s billionaire President embrace in place of the Founders’? A kind of gimlet-eyed competition. Trump purports to run the country as a business, the most meaningful metric being exports vs. imports: if you have more than your counterpart, you’re a winner, and the other guy a loser. But even in the bloodless world of accounting, “goodwill” has a place on the ledger (the left side; it’s an asset) and the U.S. may be writing down a loss. Its economy is strong. The people pitching up at its borders surely count as proof of that.

It was Alexis de Tocqueville, the French observer of the early American character, who recognized the danger of placing too much value on business, law and order at the expense of the higher values. Warning of the country’s obsession with material gain and the enforcement of order necessary to pursue it, he wrote, “A nation that asks nothing of its government but the maintenance of order is already a slave at heart.”

Which is why the test posed with Trump’s “zero tolerance” policy is as much about our future as it is about the tragedy of the families separated by its implementation. Trump may have backed down on the specific practice of family separation, but the larger question remains. In the balance between the integrity of the U.S. border with Mexico and a parent’s love for a child, where will we come down?

“Without a Border, you don’t have a Country,” the President wrote on June 19. Everyone knows that. The question is, what kind of country?
This appears in the July 02, 2018 issue of TIME.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Bossa Zen: A Ignorância é o calo no sapato do despertar



Por Jeane Dal Bo 30 abril, 2018


O Dharma não tem partidos, mas pessoas tem. E pessoas precisam agir de acordo com sua consciências e não se esconder por trás de dogmas. Dogmas nos engessam. O Budismo não é para satisfazer nossas preferencias é para nos tirar da ignorância e quem defende abertamente injustiças, seja de que lado for, muito possivelmente não deveria se declarar Budista. Deveria olhar para a sua ignorância e se envergonhar de ainda estar no nível raso dos animais. Há um longo caminho para dissolver essa ignorância. Caminho que talvez, só o Buda Shakiamuni o tenha feito. Então vejam só como estamos atrasados e perdendo tempo dando trela a nosso ego, teimando em ter razão, causando sofrimentos sem fim.



Há sanseis que preferem não se manifestar para não dividir a sangua. Acho que são covardes. Mesmo dentro do Budismo há uma profunda divisão. Sempre houve desde os tempos do Buda. Porque as pessoas estão mais preocupadas em alcançar seu rabo do que em despertar. E os sanseis talvez estejam mais preocupados em não ter problemas a ensinar o Caminho do Buda. É duro, é chato, é uma luta de enfrentamento, mas essas pessoas que fingem serem budistas, os budistas fashion, não devem ser poupados de reprimendas quando agem como crianças tampouco os conservadores ou fascistas que atacam seu semelhante, seja com palavras ou com força física. O professor que se omite é corresponsável.


Por isso estamos ainda aqui no Sansara sofrendo e sofrendo por causa dessa profunda ignorância que nos afunda cada vez mais e nos afasta do despertar.


Parem de ser egoístas, de pensar só em seu beneficio e em seu ganho. Pensem no que Buda ensinou: que todos precisamos nos dar as mãos e caminhar juntos. Se um ficar para trás não haverá todos. Enquanto um não puder despertar, ninguém irá despertar.


Temos que trabalhar para diminuir a ignorância e esse é um trabalho não só dos monges e monjas. mestres e sacerdotes mas de todos nós. Somos responsáveis pelo que fazemos e pelo o que não fazemos. Melhor fazer errado do que não fazer nada. Mas virar as costas e deixar de fazer porque aquele não é do meu time, do meu partido, isso não é humano. Se vc. não é humano vista-se com pele de animal para que possam te identificar.


Há tantas pessoas, principalmente de gerações passadas, que acreditam em coisas falsas, memes com inverdades e se dedicam a espalhar essas falsidades como verdades pétreas. Brigam com todo mundo por causa de fake news, com família. Vejo isso todo dia, com pessoas próximas que nem sabem o quão toxicas são. 

São pessoas que se recusam a evoluir, a sair da sua zona de conforto. Todos passarão. O mundo seguirá seu rumo com outras gerações progressistas ou conservadoras porque há aqueles que olham para frente e há os que olham para trás.

Quem não entendeu a lição básica do Budismo, que todos somos Buda. Eu você os odiados do momento, Lula, quem você gosta ou não gosta. Todos sem exceção. Se você ainda não entendeu isso e não está a fim de por em pratica. Se vc. não sabe o que é se por na pele do outro, melhor pegar sua almofada e ir fazer algo de útil pelo outro do que ficar fazendo posse de Budista. 

A minha fotoAs causas do Budismo são as causas de todos os seres, sem exceção. Qualquer coisa que você pense ou diga ao contrário é fruto de seu padrão mental. Quando vc. quebrar ou dissolver esses padrões que causam tanto sofrimento no mundo vc. dará um passo para o lado dos que são verdadeiramente discípulos do Buda. Antes disso, o silêncio pode ser um bom remédio.




Busque o despertar incessantemente.

Postado por Jeane Dal Bo

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Pobreza e escolhas ruins...

Psicologia e filosofia são meus passatempos prediletos... O que quer dizer que, se tenho tempo livre, eu dedico a ler e aprender sobre psicologia e filosofia em vez de assistir futebol ou praticar um esporte. Ontem eu assisti uma matéria legal sobre “Pobreza”. Assisti a apresentação do historiador e jornalista holandês Rutger Bregman, no TED com uma ideia provocadora: o rendimento mínimo garantido.

Rutger Bregman é autor de "Utopia para Realistas" (2014) e defende ideias como o rendimento básico universal, a semana de trabalho de 15 horas e a liberdade de circulação para todos. A motivação não é “psicológica”, é econômica. Mas a argumentação é o efeito psocológico da pobreza e como supera-la.

Some os fatos... Apesar de lucros recorde na iniciativa privada, sobre tudo dos bancos, a maioria da população (de qualquer país) não se beneficia em NADA com isso.

No mundo o que se vê são salários estagnados, a taxa de desemprego cada ano mais alta, as dívidas para financiar estudos e com cuidados com a saúde crescem a olhos vistos, e o mercado de trabalho não recompensa bem aqueles já empregados com dinheiro o bastante para viver decentemente. A tal uberização da mão-de-obra – em que os trabalhadores são pagos por tarefa realizada e não um salário ou taxa estabelecida por hora – aumenta a precariedade das relações de trabalho. Sem contar a informatização e os avanços tecnológicos da produção, os robôs e a inteligência artificial que cada vez mais tomam empregos ou extingue outros tantos. Enquanto os Governos discutem conceitos de atendimento médico universal, manutenção ou não de salários mínimo, discussões sobre repensar, terminar ou expandir a previdência social em todos os países sem nenhuma solução exemplar poder nortear as opiniões.

A perspectiva não é boa.

Mas Islan... é a psicologia? Cadê? Bregman apresenta dados como os levantados alguns psicólogos americanos que tinham realizado um estudo fascinante na Índia. Foi um experimento com fazendeiros de cana-de-açúcar. Esses fazendeiros recebem em torno de 60% da sua renda anual de uma só vez, logo depois da colheita e precisavam gerenciar o resto do ano com uma renda insignificante. Isso significa que eles são relativamente pobres durante uma parte do ano e “ricos” em outra.

Os pesquisadores fizeram testes de QI antes e depois da colheita nos fazendeiros e o que eles descobriram foi surpreendente. Os fazendeiros mesmos fazendeiros tiveram pontuação DIFERENTE nos períodos anteriores e posteriores as colheitas. Detalhe: Os valores eram significativamente piores antes da colheita, ou seja, nos períodos de pobreza do ano.

Os efeitos de viver na pobreza, na verdade, correspondem a perder 14 pontos de QI.

Para vocês terem uma ideia, isto é comparável aos efeitos do alcoolismo em uma pessoa.

Bregman falou também do trabalho de Eldar Shafir, um professor da Universidade de Princeton e um dos autores de uma nova teoria sobre a pobreza. Resumidamente ele estuda a “mentalidade de escassez”.

As pessoas se comportam de forma diferente quando “percebem” a escassez de alguma coisa. E não importa o que seja, pode ser falta de tempo, dinheiro ou comida. Elas tomam decisões ERRADAS quando em percepção de escassez.

Compare isto a um computador novo rodando dez programas pesados de uma vez. Ele fica mais lento, dá erro. Até que ele trava, não por ser um computador ruim, mas porque tem que fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

Pobres têm o mesmo problema. Eles não estão tomando decisões burras porque são burros, mas porque estão vivendo em um contexto no qual todos tomariam decisões burras.

Escassez gera respostas ruins.

Rutger Bregman aponta que por este motivo os programas “antipobreza” das inúmeras nações não funcionam.

Investimentos em educação, por exemplo, são frequentemente ineficazes porquê “Pobreza” não é falta de conhecimento. É um estado de mente congesto.

Uma análise recente de 201 estudos sobre a eficácia de treinamentos em gestão financeira para pobres concluiu que eles quase não têm efeito prático algum.

Não quer dizer que os pobres não aprendem nada, eles podem ganhar sabedoria, é claro. Mas isso não é suficiente. Ou, como o professor Shafir me disse: "É como ensinar alguém a nadar e jogá-lo em um mar revolto".

Rutger Bregman disse :”Na verdade, percebi que já tinha lido sobre a psicologia da pobreza. George Orwell, um dos maiores escritores que já existiu, viveu a pobreza de fato na década de 1920. "A essência da pobreza", ele escreveu na época, é que ela "aniquila o futuro". E ele ficou admirado: "As pessoas assumem que têm o direito de pregar e rezar para você quando sua renda cai abaixo de um certo nível". Estas palavras ressoam até hoje.”

Então ele falou da experiência em “Dauphin”, Canadá, em 1974.

Durante o experimento, todos na cidade tiveram uma renda básica garantida, para que ninguém ficasse abaixo da linha de pobreza. No início um exército de pesquisadores aportou na cidade. Por quatro anos tudo deu certo. Mas aí um novo governo foi eleito e não viu muito motivo para continuar um "experimento social" caro. Quando ficou claro que não havia mais dinheiro para analisar os resultados, os pesquisadores decidiram guardar seus arquivos em 2 mil caixas. Vinte e cinco anos se passaram, e uma professora canadense, Evelyn Forget, encontrou os arquivos. Por três anos ela submeteu os dados a todo tipo de análise estatística, e de todas as formas que tentava, os resultados eram os mesmos: o experimento tinha sido um sucesso tremendo.

Evelyn Forget descobriu que as pessoas em Dauphin não só ficaram mais ricas, mas mais inteligentes e saudáveis. O desempenho escolar das crianças melhorou substancialmente. A taxa de hospitalização diminuiu em 8,5%. Havia poucos incidentes de violência doméstica e reclamações de saúde mental. E as pessoas não largaram seus empregos. Os únicos que trabalharam um pouco menos foram as novas mães e os estudantes, que ficavam mais tempo na escola. Resultados semelhantes foram encontrados em diversos outros experimentos em todo mundo, dos EUA à Índia.

Então... o que eu aprendi foi: quando se trata de pobreza, os ricos, precisam parar de achar que sabem mais que os pobres. Se um rico conseguiu um dia sair da “zona” de pobreza e progredir não foram suas “oportunidades” ou receitas que os retiraram dali. Mas foi uma complexa e intrincada cadeia de eventos e decisões que nunca vão se repetir.

Precisamos parar de mandar sapatos e ursinhos para pessoas que nunca conhecemos. E deveríamos nos livrar da vasta indústria de burocratas paternalistas.

Poderíamos simplesmente dar um salário “mínimo” aos pobres.

Isto geraria o ambiente mental que desestruturaria a cadeia de bloqueios que sustentam a pobreza.


Pense nisso.


quinta-feira, 29 de março de 2018

Método para aquisição de habilidades


publicado originalmente em 01 de Setembro de 2013, por Paulo Ribeiro






Vou deixar o método proposto pelo autor mais recente, Josh Kauffman. Se quiser entender um pouco mais, assista à palestra TEDx abaixo. 






Para quem não quiser ver, segue um pequeno passo a passo. 


1. Desconstrua. Qualquer habilidade é, na realidade, um amontoado de outras sub-habilidades bastante específicas. Se você quer jogar bem futebol, na realidade, você está falando em ficar bom no toque de bola, saber se posicionar em campo, ter visão de jogo, tranquilidade para armação de jogadas e afins. Quanto mais eficiente a desconstrução, melhor você poderá praticar deliberadamente cada fator que compõe seu objetivo. Você poderá também selecionar quais os mais importantes e em qual ordem irá abordá-los. 

2. Aprenda o suficiente para se corrigir. No caminho de um autodidata, reconhecer o próprio erro é fundamental. Enquanto no modo tradicional de estudo isso só viria muito mais tarde, numa abordagem acelerada, o conhecimento que você reuniu sobre a atividade antes de saber executá-la irá ajudar no processo. Ao saber o jeito certo de fazer – antes mesmo de conseguir executar do modo certo –, você dispensa a necessidade de professor nesse cenário: você sabe onde está errando, só precisa praticar mais até acertar. 

3. Remova as barreiras para a prática. Toda a formação de hábitos pode ser enxergada como remoção de barreiras. Se quer correr depois que acorda, deixe o material de corrida ao lado da cama. Ao acordar, você não vai ter trabalho – barreira removida – para juntar suas coisas e sair de casa. Do mesmo modo com o aprendizado: reúna todas as ferramentas e conhecimento necessário sobre a atividade antes de iniciá-la, para tornar mais provável que você continue praticando. 

4. Pratique pelo menos 20 horas. O maior impedimento para o aprendizado não é intelectual, mas emocional. As técnicas do meta-aprendizado permitem que você aprenda as coisas no limite humano, mas você não chegará lá se nem ao menos sair do zero. Ser ruim em algo é desagradável, machuca nosso ego e senso de identidade. Por isso, para romper essa barreira – fase do aprendizado em que você é ruim em algo e sabe – faça o compromisso de praticar pelo menos 20 horas. 

Vinte horas é o número que a pesquisa de Josh Kauffman encontrou para a prática necessária até você observar que está ficando bom em algo. 

Novamente, não são quaisquer vinte horas; tem que ser prática deliberada, consciente e estruturada; mas só a ideia de poder aprender qualquer coisa em 20 horas é libertadora. 

Quantos hobbies você iniciaria? Quantas paixões você descobriria se não tivesse medo das dez mil horas no momento de tentar?publicado em 01 de Setembro de 2013, 12:27 

segunda-feira, 19 de março de 2018

Porque querem assassinar Marielle pela segunda vez? Chomsky explica.




Existem dois Noam Chomsky, (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) no mínimo: o linguista e o filósofo político e ambos são geniais, para dizer pouco. E por gênio, não me entendam mal, quero dizer alguém que adquiriu um grande conhecimento sobre uma ou mais áreas no decorrer da vida.

Sobre o Chomsky linguista eu sempre caminho em casca de ovos: sua teoria consegue ser tão ou mais complexa e fantástica quanto a de Wittgenstein ou Frege. O modo como Chomsky estruturou sua tese sobre o aprendizado da linguagem ou sobre a sua estrutura comum é realmente elegante ao mesmo tempo que complexo. De qualquer forma, deixo como indicação para quem se interessar Logical Structure of Linguistic Theory de 1955, para quem quiser se interessar.

Quero falar hoje do Chomsky filósofo político, que não é menos brilhante, porém enganadoramente mais simples. Enganadoramente porque de uns tempos pra cá acredita-se que qualquer um que tenha assistido alguns vídeos no Youtube pode se dizer grandes entendedores da mesma. O que me faz refletir sobre a seguinte questão: se filosofia política é assim tão fácil de ser compreendida, se todo adolescente tem respostas prontas para os incríveis desafios de nossa sociedade, porque ainda estamos tão longe de uma sociedade minimamente justa enquanto há conhecimento disponível para nos permitir colonizar Marte?

Porque filosofia política é difícil, bem mais que engenharia espacial, e mesmo problemas antigos persistem. Conta a História que entre 169 a.C. e 133 a.C Tibério Graco, um tribuno da plebe romana afirmou quando discursava para uma multidão na Rostra que “As bestas selvagens que vagam pela Itália tem seus covis, todas contam com um local de repouso e refúgio. Mas os homens que lutam e morrem pela Itália não gozam de nada além do ar e da luz; sem casa ou lar, vagam com suas esposas e filhos”. 

Dois mil anos se passaram e algo mudou? Embora exista um exército de pessoas que se colocam contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é nela que consta como item obrigatório que todo ser humano tenha direito a propriedade, e mesmo assim nem todo mundo tem sua casa. Aliás, convém que se você seja contra os Direitos Humanos, comece por se colocar contra a propriedade privada.

De qualquer modo, nossas penúrias existem desde sempre. Em Requiem for the American Dream, filme documentário disponível no Netflix, produzido a partir de quatro anos de entrevistas com Chomsky, ele aponta algumas dessas penúrias, bem como a solução encontrada pela elite financeira – chamada em tom jocoso no filme de Mestres da Humanidade. E é importante dizer que essas soluções não são boas para o resto de nós.

Comecemos por relembrar a máxima vil de Adam Smith em A riqueza das nações de 1776. Em sua época Smith tinha, textualmente declarado que os arquitetos da sociedade eram os comerciantes e fabricantes e que estes agiam de modo a garantir seus interesses, mesmo que agindo assim outras camadas da sociedade sofressem. Hoje comerciantes e fabricantes se tornaram as instituições financeiras e as corporações multinacionais, diz Chomsky, e continuam agindo de acordo com a mesma máxima: apenas venha a nós, e o Vosso Reino que se foda.

Para garantir que seus interesses continuem sendo satisfeitos os agentes a trabalho dessas instituições e corporações espalham sua rede de poder e influência que acaba por fragilizar ainda mais a democracia ao mesmo tempo que destrói o famoso Sonho Americano, que para quem não sabe, tem como fundamento a mobilidade social. É a ideia de que você pode nascer pobre, mas caso se esforce, terá condições sociais e políticas para viver melhor. É um Sonho, eu sei, você sabe e o Chomsky também. Mas durante os anos 50 e 60, nos EUA, ele foi mais ou menos viabilizado. Houve uma grande expansão social amparada por bons serviços públicos e um movimento popular atuante.

Até durante a primeira metade do século XX os EUA tinham uma boa educação pública por exemplo, fosse educação básica ou programas universitários. E os movimentos negro, feminista, trabalhista, social, ambiental entre outros, estavam na vanguarda pedindo uma maior participação social para seus membros e ampliando as vias de acesso entre a população e os oficiais governamentais, que se viam na incômoda situação de ter que agir no sentido de tornar legítima as pautas reivindicadas através da inclusão dessas pautas na norma reguladora do Estado. Traduzindo: quando a população negra protesta pedindo o fim da segregação racial, o governo acaba cedendo a contragosto e derruba a lei que legalizava a segregação.

Essa onda de fortalecimento democrático capaz de ampliar e projetar a voz do povo até as esferas governamentais torna-se uma ameaça as instituições financeiras. E isto não é apontado por Chomsky, mas por gente como James Madison, pai da Constituição Americana, que via nos pobres uma clara ameaça a sociedade como um todo. De acordo com Madison – um Senador Americano em uma época onde os políticos eram escolhidos entre a elite financeira – o Sistema Constitucional formal foi feito para garantir que o poder fique sempre nas mãos daqueles mais ricos, pois eles seriam mais responsáveis. Nos debates da Convenção Constitucional vê-se Madisonafirmar que “a maior preocupação da Sociedade tem que ser proteger a minoria rica contra a maioria [pobre]” Porque? Madison responde: “Suponha que todos votem livremente: a maioria, os pobres, se reuniriam, se organizariam e tirariam as propriedades dos ricos. Isso obviamente seria injusto, então não é possível.”

Isto quer dizer que o Sistema Constitucional norte americano – e sabemos, não apenas o deles – foi pensado para minimizar a democracia de modo que os pobres continuem sem voz. Porque quando os pobres falam, quando o povo grita, não há quem não escute e os mais ricos sofrem. E quem diz isto, não se esqueçam, era um político rico.

É por isso que empresas podem doar dinheiro para campanhas eleitorais. No Brasil há um debate horrível sobre isso e mesmo com a proibição das doações, as empresas arrumam formas de driblar a lei e continuarem doando. E isto acaba em um círculo vicioso: a corporação distribui dinheiro para o político que quando eleito irá legislar ou fiscalizar a empresa. É razoável supor que alguma empresa dará dinheiro a um candidato que não prometa algum tipo de benefício durante o mandato? Esse benefício pode ser desde leis mais brandas – como por exemplo a suspensão de algum tipo de lei trabalhista que onere a corporação – até a suspensão ou diminuição da fiscalização da corporação. E é por isso que olho com maus olhos para essas “doações” – com todas as aspas do mundo – que a prefeitura de São Paulo vinha recebendo. Porque não tenho provas, mas tenho a convicção, de que há caroço nesse angu.

O que Chomsky está nos mostrando é que há uma engrenagem muito bem montada para impedir que a democracia se radicalize, que o povo realmente tenha acesso aos meios de influenciar na política de sua cidade e de seu país. Um estudo conduzido pelo professor de Política da Universidade de Princeton, Martin Gilens, aponta que 70% da população de um país não tem meios suficientes ou necessários para influenciar a política. E o povo tem consciência disso. Ao mesmo tempo, Chomsky nos alerta, isto não é por acaso. Nem que você não tenha como influenciar na política, nem que você tenha condição para isso. E sejamos francos, precisa de pesquisa pra você sentir que não tem como mudar a política de seu país? Mas continuemos.

Veja, por exemplo, a declaração de Alan Greespan, ex presidente do FED – o equivalente ao nosso Banco Central – em depoimento ao Congresso Nacional norte americano, quando este declara a razão do seu sucesso frente a economia foi ter causado uma “maior insegurança ao trabalhador”. Greespan alega que isto manterá o trabalhador sob controle, pois quem está constantemente com medo de perder sua fonte de renda não se sindicaliza, não faz greve, não protesta por melhores salários, por mais direitos, por melhores condições no trabalho. Até que por fim, o trabalhador sequer consegue compreender como existe quem o faça repetindo como um mantra: “se não está satisfeito com seu emprego, arrume um que o satisfaça”. O que o trabalhador esquece de pensar é que não existe emprego verdadeiramente satisfatório, exceto os cargos da elite financeira. Em qualquer ocupação disponível no mercado de trabalho, o trabalhador terá que se ver equilibrado entre salários baixos, condições insalubres, sindicato corrupto, direitos trabalhistas que não o asseguram, etc.

E o trabalhador pensa assim porque há um trabalho sendo feito desde o fim do século XIX, diz Chomsky, no sentido de moldar a ideologia entre os trabalhadores. O acervo disponível nos mostra que os operários do século XIX tinham plena consciência de que o trabalho assalariado era algo próximo da escravidão, porém com outros grilhões. Essa poderosa consciência de classe foi lentamente sendo substituída por algo mais inócuo.

O ponto final desta equação nos é dado por Thorstein Bunde Veblen, economista e sociólogo norte americano que nos mostra que nossa sociedade tem por finalidade produzir consumidores, pois consumidores são pessoas mais facilmente controláveis, com atitudes padronizadas e previsíveis. O consumidor é aquele que está de tal modo anestesiado e dominado pelo marketing que abre mão de participar da vida pública de sua cidade, para conseguir crédito suficiente para viajar para Miami e comprar porcarias. Ou então viajar para Orlando e tirar foto com o Pateta. E dessa forma alimentar a roda, deslocando seu capital entre a empresa que o emprega e a empresa de quem compra.

Temos por fim um modelo social e comportamental onde um adolescente típico de 19 anos terá como desejo genuíno de lazer ir ao Shopping de sua cidade fazer quatro horas de nada, comprar um sorvete, uma nova calça, tênis, celular, quando não tudo isso junto. O pai do adolescente desejará uma piscina para sua casa, ou uma casa maior, um carro mais novo, e tudo o que seu filho também quer.

E é por isso que Marielle precisa morrer de novo. E então, após os assassinos armados, agem os assassinos sem rosto que estão a difamando: porque Mariellerepresenta o aumento democrático ao se posicionar contra essa máquina. Porque a existência de uma veradora mulher, mãe, lésbica, negra, vinda da favela que não se corrompeu e ainda se dispôs a lutar contra o interesse dos corruptos e das empresas que se alimentam disto representa um perigo apenas por existir. Ela não pode ser tão boa assim porque desta forma o povo, a imensa maioria do povo brasileiro que é tão bom quanto Marielle irá perceber que se ela pode, eu também posso.

Então não basta matá-la, sua voz tem que se perder e se tornar suja. Sua vida precisa sumir e o povo precisa aceitar que 70% de nós não pode mudar a vida pública, que é normal viver em uma cidade ou em um país onde apenas 66% dos domicílios tem sistema de esgoto ou onde morrem 60 mil pessoas assassinadas por ano. Não há outra saída além de aceitar o que temos e nossa única fonte de felicidade se torna discutir BBB, assistir ao futebol de quarta, beber cerveja barata às sextas, comer churrasco aos domingos.

O que Chomsky nos mostra é que nossa situação política, seja nos EUA, seja aqui, não é fruto do acaso, e ele mostra os culpados: os legisladores e a elite financeira que trabalha para instituições financeiras e corporações multinacionais. Não é do interesse desta classe dominante – dominante porque eles possuem os dispositivos para dar ordens em quase toda esfera social – que a classe dominada – dominada porque a nós, resta obedecer, e quando muito reclamar pra mãe – tenha algum tipo de representante capaz de nos mobilizar e apontar uma direção. E Mariellemobilizou. Milhares foram as ruas, no Parlamento Europeu ela foi lembrada, Katy Perry a homenageou em seu show, a ONU estuda seu caso.

Sua reputação precisa ser destruída e sua voz, silenciada, para que a democracia morra enquanto tenta nascer em um país, cujo ranço da ditadura está mais vivo do que nunca. Para que nenhuma voz contrária fale e o medo e o desespero vença. Mas pela primeira vez em muito tempo, estou otimista.

Tudo leva crer que Marielle está mais viva do que nunca.