sexta-feira, 17 de março de 2017

Banalidade do Mal: porque absurdos não nos surpreendem mais


 Escrito por Breno França na  "Tecla SAP #11" da revista Papo de homem



Pegue uma dose de violência, misture pouco a pouco com o sensacionalismo e refogue na sociedade do espetáculo. Rende porção para uma nação inteira

No último artigo da Tecla SAP abordamos um conceito chamado False Flag que basicamente explica como pessoas em posição de poder são capazes de criar falsos inimigos através de uma velha tática militar nos fazendo ter medo e, consequentemente, flexibilizando nossos critérios a respeito de ações radicais ou extremas.

Hoje – não que isso seja uma continuação – vamos falar sobre um conceito que explica como ações radicais podem acabar se naturalizando perante nossa percepção se não tomarmos determinados cuidados. Conceito denominado apropriadamente de Banalidade do Mal.

Acusação

Em 1960, após longa investigação e busca, uma espécie de polícia secreta de Israel, chamada Mossad, encontrou na Argentina um ex-funcionário nazista chamado Adolf Eichmann. Responsável por gerir a logística das deportações em massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio durante o período da Segunda Guerra Mundial, ele foi capturado e deportado para Israel onde aguardou 11 meses até que o seu julgamento começasse.

Acusado de 15 crimes de guerra, incluindo crime contra a humanidade, Eichmann foi condenado à pena de morte e acabou sendo enforcado em 1º de junho de 1962. O julgamento, porém, foi bastante polêmico. Primeiro porque, apesar de prevista na legislação israelense há muito tempo, esta foi a primeira vez que alguém foi condenado à morte naquele país e, segundo, porque o julgamento foi extremamente explorado pela mídia internacional com o aval da justiça do país.

Durante o julgamento, Eichmann ficava numa cabine a prova de bala e de som.

Cadeias de rádio, jornais, emissoras de televisão e revistas do mundo inteiro mandaram seus correspondentes para realizar a cobertura in loco do evento, entre eles a filosófa e teórica-política alemã Hannah Arendt, pela revista The New Yorker.


Arendt acompanhou o julgamento de perto e além de matérias para a revista, aproveitou a oportunidade para elaborar um novo conceito apresentado em 1963 por meio de seu livro Eichmann em Jerusalém, que segundo ela mesma, se tratava de "um relato sobre a Banalidade do Mal", além de "uma análise do indivíduo Eichmann."

A ideia que nasceu durante o julgamento e foi sendo elaborada até virar livro se dava por conta da naturalização que o líder nazista fazia das atrocidades cometidas por ele. Na ocasião, resumindo bastante a história, Eichmann nunca negou que teria, de fato, cometido tais crimes, mas se considerava "inocente no sentido das acusações". Como? Para Eichmann, ele estava apenas cumprindo ordens.
Julgamento

A postura estranha de Eichmann enquanto reú de um julgamento chamou a atenção da filósofa. Segundo ela, ele não passava de um homem medíocre, comum, incapaz de pensar nas consequências dos atos que cometeu e que, ao mesmo tempo que não nutria ódio pelo povo judeu, também não se arrependia de seus atos, o que levou Arendt a concluir que o nazista realmente não se sentia culpado.

Para muito além da discussão normal sobre se Eichmann era culpado ou não (para ela, ele era), havia, na visão de Arendt, uma questão maior a ser discutida ali. Uma questão a respeito da impessoalidade do indivíduo que comete tal mal, de uma suposta separação entre as atitudes que uma pessoa toma por vontade própria e aquelas cujo as circunstâncias lhe 'obrigam' a tomar, de uma instauração de um mal sistêmico que se manifesta através de pessoas que, assim como Eichmann, se negaram ao direito de pensar, passando a obedecer toda e qualquer ordem, transformando-se em verdadeiros robôs a serviço de um sistema, este sim, verdadeiramente maléfico.

Segundo essa perspectiva, "o indivíduo Eichmann" não é visto como um monstro ou um maníaco psicopatológico antissemita, mas apenas como um funcionário zeloso que sem ver alternativas, em busca de uma ascensão profissional e abdicando de sua capacidade de fazer julgamentos morais, não foi capaz de resistir às ordens que recebeu e tampouco de perceber sua contribuição para um mal generalizado.

Difícil, né?

Sentença

A publicação do livro de Arendt gerou muita polêmica.

Em grande parte porque, em outros trechos da obra, Arendt, apesar de judia, levanta a hipótese de que alguns líderes religiosos poderiam ter tomado outras atitudes na ocasião do Holocausto que fossem capazes de salvar vidas, o que foi considerado por muitos como uma culpabilização das vítimas pelo que aconteceu.


Link Youtube - trecho do filme sobre Hannah Arendt de mesmo nome, 2012.

Mas também, é preciso dizer, diversos teóricos impulsionados pela questão acima ou não, se voltaram contra Arendt, acusaram-na de estar contribuindo para a absolvição moral de um nazista, além de apontarem para a ignorância (voluntária ou não) da filósofa a respeito de um perfil psicológico, posteriormente melhor desenvolvido pela ciência, de um psicopata que, assim como Eichmann, não sente remorso ou culpa. Ou seja, uma crítica direta ao principal pilar da argumentação da alemã.

Isto posto, o que nos interessa aqui hoje é que, graças a reflexão provocada por ela a partir do episódio, o conceito de Banalidade do Mal foi explorado e ainda é reconhecido por uma série de linhas de pesquisa que atentam para o seguinte problema: indivíduos que se abdicam do direito de pensar e refletir a respeito das ordens e informações que recebem, podem estar colaborando para que um mal sistêmico se instaure.

Atos nos quais esse mal se manifesta, que hoje podem ser traduzidos desde crimes bárbaros até atos de corrupção generalizada, não podem perder jamais a capacidade de nos afetar, pois é preciso que eles provoquem reflexões e, consequentemente, mudanças. O que vai justamente na contramão da espetacularização da violência que vemos tantas vezes hoje, dado que, sensacionalizar atos desse tipo é o primeiro passo para banalizá-lo, num sistema onde precisamos impressionar para conseguir cada vez mais audiência.


Alguém aí já viu O Abutre, 2014?

Conforme a sensação de anestesia diante das barbaridades toma conta dos indivíduos, conforme o sistema mostra que estes indivíduos são impotentes diante das injustiças que lhes acometem e conforma cada um de nós passa a não mais se levantar contra aquilo que julgamos errado, cresce a tendência de que esse "mal" se banalize e que, através do mecanismo da Janela de Overton, caminhemos para que cada vez mais "mal" tenha espaço para dominar. O que pode ser resumido por um ditado já bem conhecido:


"Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados."

Edmund Burke

***

  • Tecla SAP é uma série de autoria de Breno França publicada quinzenalmente às quintas-feiras que se propõem a explicar ou traduzir conceitos complexos que estão presentes nas nossas vidas, mas não sabemos ou reconhecemos.publicado em 16 de Março de 2017.

Breno França
Novo editor do PapodeHomem, é (quase) formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.

quarta-feira, 8 de março de 2017

"Chef" Zen oferece "Curso profissionalizante Culinário Gratuito" para desempregados




O sacerdote zen e ex-assistente social Rev. Daiken Nelson está combinando suas paixões para oferecer Curso Culinário Gratuito aos desempregados do Harlem. 

Rev. Daiken Nelson, um sacerdote zen budista e ex-assistente social, começou a oferecer treinamento culinário gratuito no Harlem desde setembro do ano passado para pessoas que se encontram desempregadas.

Seu projeto, o "Mandala Kitchens Project" , está aberto a qualquer pessoa, mas é voltado, principalemente para aqueles que precisam de um apoio extra: os sem-teto ou ex-detentos, bem como os veteranos e pessoas em tratamento por abuso de drogas ou problemas de saúde mentais.



Rev. Daiken Nelson. Photo by Risa Akita/ HEAPS magazine.

Sensei Nelson ensina todos os diferentes elementos do trabalho no serviço de Cozinha: a partir de uma variedade de diferentes técnicas de culinárias, trabalhando com legumes, carnes, molhos e Cozimento para as habilidades necessárias para a conquista de uma vaga a manutenção de um emprego, como organizar-se no tempo e trabalhar em equipe, bem como estudar para o "Food Handler's Certification" (a certificação nacional que permite trabalhar em qualquer estabelecimento alimentar nos EUA).


"Queremos que eles possam entrar em um lugar e dizer: 'Oh, claro, eu sei o que você quer dizer quando você diz 'redução' ou 'Eu fiz um molho bechamel para macarrão e queijo'", diz Nelson.


Nelson foi empregado nos restaurantes durante toda sua vida, começando na High School e na faculdade, e trabalhou como um assistente social por muitos anos. Começou sua prática Zen vinte e sete anos atrás em seu estado natal, Iowa, e mais tarde praticou no Zen Center de Los Angeles, onde foi ordenado por Nyogen Yeo Roshi em 1996. Ele passou a estudar com Roshi Bernie Glassman, Sensei Jishu Holmes, Roshi Pat Enkyo O'Hara e Roshi Joan Halifax.

Rev. Daiken Nelson. Photo by Risa Akita/ HEAPS magazine.

Em 2013, Nelson recebeu sua Transmissão Shiho / Dharma de Sensei Paco Genkoji Lugoviña, depois do qual ele foi "empurrado para fora do ninho, e disse para ir adiante e fazer o bem, para manifestar a prática."

O trabalho que ele faz agora exige muitas das habilidades adquiridas e duas das suas paixões em uma inspiradora "prática".

Nelson é o Professor Orientador do Pamsula Zen Center em Harlem, e seu negócio, o "Mandala Kitchens", atende eventos locais para ajudar a financiar o curso culinário gratuito. 

O Projeto Mandala Kitchens também visa enriquecer a vida pessoal dos participantes. Separando o programa de outros cursos culinários em geral, Nelson tece um componente "mindfulness" em suas sessões.


"Começaríamos sessões com vários minutos de meditação. Tanto para a vida pessoal das pessoas como para trabalhar em um ambiente estressante, que muitas cozinhas possuem por causa de alguns dos "egos" que acabam lá ", diz ele.


O treinamento funciona às segundas e terças-feiras, e às quartas-feiras, o grupo cozinha com a comunidade de Satya Sai Baba de Manhattan para sua refeição semanal, usando a cozinha de uma igreja episcopal local para preparar a comida. Isso dá aos participantes a oportunidade de cozinhar para um grande grupo, e doar-se de volta para a comunidade.


Nelson recebeu cerca de 60 pedidos para seu programa de treinamento após um artigo do jornal "Metro" sobre seu projeto. A última sessão começou no final de janeiro, com cinco participantes dedicados.


Eventualmente, Nelson gostaria de abrir um "pay-what-you-will café", em Nova York, um lugar que ele imagina ter "performances, música e arte nas paredes".

Mandala Kitchens Project blends Zen, social work, and the culinary arts
  • Sobre o Rev. Daiken Nelson, foi cozinheiro, assistente social, trabalhando com sem-teto, portadores de doenças crônicas mentais e ex-usuários de drogas. Além de monge Zen, Daiken é um Mestre de Reiki, Instrutor de Yoga, Fotógrafo e Escritor.

O jeito certo de se matar






Escrito por Brad Warner



Eu não conhecia Tyler muito bem, mas vários amigos meus sim. E eles ficaram muito tristes quando Tyler se matou ano passado.

Isso levou as pessoas a me perguntarem – e não pela primeira vez – qual é a opinião budista sobre o suicídio. Eu dei a mesma resposta que dou quando me perguntam sobre a visão budista do aborto: não sei muito bem. O que diz bastante sobre o budismo. Imagine uma pessoa que estudou e praticou o catolicismo por quase trinta anos sem saber qual é a opinião da Igreja sobre aborto ou suicídio. Simplesmente não é possível. Porque esses são assuntos muito sensíveis para os católicos. O fato de eu não ter uma resposta pronta para essa pergunta mostra que esses não são temas fundamentais para budistas da vertente zen.

Os suicídios por autoimolação muito famosos, executados por certos budistas no Vietnã, Tibet, e em alguns outros lugares, levou algumas pessoas à conclusão de que o budismo vê o suicídio como um ato nobre. O que não é verdade. Suicídio geralmente é enquadrado como algo a ser evitado, pois ele levaria a um renascimento menos auspicioso. Não se acredita que alguém é condenado ao inferno para sempre, da maneira como a tradição católica prega, mas sim que essa pessoa estará estabelecendo condições que farão seu próximo nascimento mais difícil do que a vida que ela decidiu terminar prematuramente. Isso porque o suicídio causa muita dor e sofrimento para aqueles que conhecem e amam a pessoa que comete o ato.


Eu mesmo lido com toda essa história de renascimento com bastante ceticismo. Mesmo que nós realmente renasçamos depois de morrer, como alguém pode dizer que tipo de vida uma pessoa provavelmente terá, sabendo apenas que ela se matou? Há muito mais na vida de um indivíduo do que apenas a maneira como acabou. Para aqueles que acreditam em renascimento, a totalidade da vida da pessoa é que determina como ela irá renascer, e não somente a última coisa que fez.

Ao lidar com o suicídio de alguém, especulações vagas sobre renascimento não ajudam muito. É uma maneira de evitar a verdadeira questão: O que fazer para lidar com o fato de que alguém que amamos se matou? Ninguém sabe o que fazer ou dizer quando algo do tipo acontece. O mais importante é ser solidário. Discutir que tipo de próxima vida a pessoa provavelmente terá não é se solidarizar, eu diria.

Eu estava perigosamente perto de me matar num dia ensolarado na primavera de 1992. Minha vida era uma merda. Eu estava morando numa casa decrépita punk rock em Akron, Ohio. Minha namorada tinha me largado. Não tinha dinheiro, habilidades ou perspectivas. Eu tinha lançado cinco discos por uma gravadora indie que conseguiram algumas críticas boas mas que não saíram do lugar em termos de vendas. Meus sonhos de fazer dinheiro como compositor e músico obviamente não iriam se realizar. Sentia que a única coisa que poderia esperar era uma existência insuficiente no lamacento meio-oeste.

Coloquei uma corda no porta-malas do meu carro e dirigi até o Gorge Metro Park, logo no final da rua onde eu morava. Meu plano era carregar a corda o mais longe possível das pessoas, achar uma árvore robusta e cometer o ato.

Mas quando saí do carro, vi algumas crianças brincando no campo bem do lado do estacionamento. Percebi que nunca conseguiria achar um lugar longe o suficiente para não haver uma chance de uma criancinha numa exploração, ou um jovem casal procurando um local para se pegarem, ou um velhinho com uma cesta de piquenique e uma foto de sua falecida esposa, me acharem. Depois pensei na minha mãe e como ela ficaria triste se eu me matasse. E pensei em Iggy, um amigo que havia se matado dez anos atrás e como eu ainda não havia superado. Coloquei a corda de volta no porta-malas e fui para casa.


"Se você tivesse me perguntado antes daquele dia de primavera em 1992, eu teria dito que era absolutamente impossível fazer qualquer uma das coisas que fiz daquele dia em diante."

Aquele dia me mudou para sempre. Decidi viver. Mas também decidi que eu não estava mais ligado a nada que veio antes daquele dia. Decidi que eu havia me matado conceitualmente. Agora poderia fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa.

Todas as melhores coisas que aconteceram em minha vida foram depois daquele dia. As coisas têm sido tão incríveis desde então que às vezes eu me pergunto se sou o personagem principal de um filme existencialista estranho e se haverá uma reviravolta final em que a plateia descobre que eu realmente me matei naquele dia.

Se você está pensando em suicídio, meu conselho é: vá em frente e se mate. Mas não faça com uma corda ou uma arma ou um punhado de filmes. Não faça isso destruindo seu corpo. Faça isso cortando fora sua vida antiga e indo numa direção completamente diferente. Eu sei que isso não é fácil. E que pode parecer quase impossível. Se você tivesse me perguntado antes daquele dia de primavera em 1992, eu teria dito que era absolutamente impossível fazer qualquer uma das coisas que fiz daquele dia em diante. Exigiu muito esforço antes das coisas começarem a mudar, mesmo um pouquinho. Mas quando elas mudaram, elas realmente mudaram.

No entanto, talvez você não esteja nesse momento. Talvez você só esteja lá tentando descobrir como reagir à notícia de que alguém com quem você se importava decidiu acabar com a própria vida. Talvez você só queira uma explicação. Talvez você só queira que as coisas sejam como antes. Talvez você pense que seria melhor ter feito algo de outro jeito, dito algo de outra forma, estado em outro lugar onde você poderia ter evitado tudo isso. E para tudo isso, digo: Você não está sozinho.

Todo mundo que já conheceu alguém que se matou têm as mesmas questões e já duvidaram de si mesmos da mesma maneira. Mas saiba que tudo isso são só pensamentos. Eles não querem dizer muito necessariamente. O cérebro humano gosta de organizar as coisas. Ele tenta o máximo possível dar sentido a tudo que encontra. Mas algumas coisas simplesmente não fazem sentido. Não gostamos disso. Mas é a verdade.

É difícil se libertar desses tipos de pensamentos. Mas é a única maneira de lidar com isso. Eles não levam a lugar nenhum. Não ajudam. Se libertar, como quase tudo, é mais fácil de falar do que fazer. Se você descobrir que você não consegue fazer isso, mesmo querendo muito, então só se liberte de se libertar. Aceite o fato de que você não consegue deixar para lá e vá fazer outra coisa. Qualquer coisa que você faça provavelmente será ok. Veja um filme, faça uma caminhada, observe os patos, vá trabalhar. Decida viver, e você pode fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa. Como eu fiz.

***
  • Sobre o autor:  Brad Warner, monge e Sacerdote do Soto Zen, baixista, cineasta, japonês-monster-movie-marketer e popular blogger. Ele é o autor de 'Hardcore Zen', 'Sit Down e Shut Up', e 'Zen Wrapped in Karma Dipped in Chocolate'
  • Traduções é uma série sob curadoria de Breno França publicada semanalmente às quartas-feiras.