sábado, 27 de fevereiro de 2010

Obesidade Mental

Por João César das Neves

O prof. Andrew Oitke, catedrático de Antropologia em Harvard, publicou em 2001 o seu polêmico livro “Mental Obesity”, que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Nessa obra introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna. Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física decorrente de uma alimentação desregrada. É hora de refletir sobre os nossos abusos no campo da informação e do conhecimento, que parecem estar dando origem a problemas tão ou mais sérios do que a barriga proeminente. ”
Segundo o autor, “a nossa sociedade está mais sobrecarregada de preconceitos do que de proteínas; e mais intoxicada de lugares-comuns do que de hidratos de carbono.

As pessoas se viciaram em estereótipos, em juízos apressados, em ensinamentos tacanhos e em condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. ”
“Os ‘cozinheiros’ desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas, os articulistas, os editorialistas, os romancistas, os falsos filósofos, os autores de telenovelas e mais uma infinidade de outros chamados ‘profissionais da informação’”.

“Os telejornais e telenovelas estão se transformando nos hamburgers do espírito. As revistas de variedades e os livros de venda fácil são os “donuts” da imaginação. Os filmes se transformaram na pizza da sensatez.”

“O problema central está na família e na escola. ”

“Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se abusarem dos doces e chocolates. Não se entende, então, como aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, por videojogos que se aperfeiçoam em estimular a violência e por telenovelas que exploram, desmesuradamente, a sexualidade, estimulando, cada vez com maior ênfase, a desagregação familiar, a permissividade e, não raro, a promiscuidade. Com uma ‘alimentação intelectual’ tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é possível supor que esses jovens jamais conseguirão viver uma vida saudável e regular”.

Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado “Os abutres”, afirma:

“O jornalista alimenta-se, hoje, quase que exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, e de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.”

O texto descreve como os “jornalistas e comunicadores em geral se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante”.

“Só a parte morta e apodrecida ou distorcida da realidade é que chega aos jornais.”

“O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para quê ela serve. Todos acham mais cômodo acreditar que Saddam é o mau e Mandella é o bom, mas ninguém se preocupa em questionar o que lhes é empurrado goela abaixo como “informação”.

Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um “cateto.”

Prossegue o autor:

“Não admira que, no meio da prosperidade e da abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se e o folclore virou “mico”. A arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce, entretanto, a pornografia, o cabotinismo (aquele que se elogia), a imitação, a sensaboria (sem sabor) e o egoísmo.
Não se trata nem de uma era em decadência, nem de uma ‘idade das trevas’ e nem do fim da civilização, como tantos apregoam. ”

“Trata-se, na realidade, de uma questão de obesidade que vem sendo induzida, sutilmente, no espírito e na mente humana. O homem moderno está adiposo no raciocínio, nos gostos e nos sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental.”





Nota do autor do blog "Teoria da Conspiração" (Marcelo Del Debbio) - Quando eu fiz especialização em semiótica, um dos meus professores, em uma conversa informal, me contou que, a pedido de alguns produtores, certa vez foi feita uma pesquisa aqui no Brasil que chegou à conclusão que o brasileiro (uma porcentagem alta, do tipo 80-85%) acredita que, quando um apresentador ou ator/atriz recomenda uma marca em um programa de auditório, ele realmente está fazendo uma recomendação e não um merchandising pago e que realmente usa aquele produto! Dê um salto especulativo e pense em como isso foi usado nas Igrejas Pentecostais… As pessoas não sabem mais nem quando estão sendo manipuladas ou como. É a “preguiça mental” que acompanha a “obesidade mental”.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A verdadeira felicidade vem da mente atenta.

A verdadeira felicidade vem da mente atenta
Assim como outros autores que ja postei aqui, Thich Nhat Hanh, o mestre Zen Vietnamita, aborda o tema da "felicidade" sob o prisma da psicologia budista.

Ele ensina que a felicidade não é algo que vem pela "sorte" ou é "destinada" para alguns... infelizmente os caminhos naturais para a "felicidade" foram “desaprendidos históricamente”. Foram trocados pela segurança da inconsciência e da alienação do cotidiano. Foram trocados pela construção de uma rede de defesa: o "Ego".

Para re-adquirirmos o hábito da felicidade, precisamos aprender a lição do viver consciente com os nossos corpos e com a nossa consciência armazenadora (consciência profunda), ao invés de com a nossa consciência mental (superficial).

A mente atenta nos ajuda a reconhecer as muitas condições de felicidade que estão disponíveis no aqui e agora.

A concentração nos ajuda a entrar em contato mais profundamente com estas condições.

Leia o texto completo (veja aqui: http://www.viverconsciente.com/textos/verdadeira_felicidade_vem_da_mente_atenta.htm) e aprenda um pouco mais em como obter a felicidade verdadeira.

Se você quiser saber o que são a consciência armazenadora e a consciência mental pode ler um texto que já publicamos anteriormente (veja aqui: http://www.viverconsciente.com/textos/seis_perfeicoes_3.htm).



Como podemos aprender a prática da inexistência do eu? Quando você aprende algo pela primeira vez, você usa a sua consciência mental para compreender. E depois de algum tempo aquilo se torna um hábito, e a sua consciência mental não tem mais que estar consciente. Existe um processo de criar hábitos, uma tendência a automatizar tudo e usar a nossa consciência armazenadora; de modo que, mesmo que você não preste atenção ao que está fazendo, você pode fazer aquilo corretamente, como andar. Quando você anda, sua mente pode estar totalmente absorvida em pensamentos sobre outras coisas, e, no entanto, a consciência visual colabora com a consciência armazenadora o suficiente para que você evite acidentes.



Nós usamos este processo de levar a informação para dentro da consciência armazenadora para criar hábitos. Se você opera excessivamente com sua consciência mental, envelhece rapidamente. Suas preocupações, o seu pensamento, o seu planejamento e a sua reflexão requerem muita energia. Uma pessoa chamada Wuzisi na China antiga passou somente uma noite se preocupando e se amedrontando, e pela manhã todos os cabelos da cabeça dele tinham ficado brancos. Não faça isto! Não use a sua consciência mental em demasia; ela consome muita energia sua. É melhor ser do que pensar.



Isto não significa que perdemos nossa consciência plena, mas sim que a nossa consciência plena se torna um hábito que conseguimos praticar sem esforço.


A consciência mental é o nível no qual conseguimos nos treinar no hábito da atenção plena, e então esta se infiltrará na consciência armazenadora criando um padrão de atenção plena naquele nível. A mente atenta tem a capacidade de estimular o cérebro, de engajar de uma maneira nova com o que estamos percebendo, de forma que não estamos apenas operando no piloto automático. É possível re-programar a nossa consciência armazenadora para que responda com atenção plena e não descuidadamente? É possível instilar em nossa consciência armazenadora o hábito da felicidade?



Para fazer isto, precisamos aprender a lição do viver consciente com os nossos corpos e com a nossa consciência armazenadora, ao invés de com a nossa consciência mental. A lição que estamos aprendendo é que temos que tratar nosso corpo como consciência. A prática tem que envolver o nosso corpo nela. Você não pode praticar apenas com sua mente, porque o seu corpo é um aspecto da sua consciência e sua consciência é uma parte do seu corpo.



Quando a nossa consciência armazenadora e a nossa consciência sensorial (que poderia também ser chamada de consciência corporal) estão em harmonia, nós acharemos mais fácil cultivar o hábito da felicidade.

Quando somos apenas iniciantes na prática e ouvimos o sino temos que fazer um esforço para concentrar, para curtir o sino, para praticar a respiração consciente e nos acalmar.

Nós usamos muita energia. Mas depois de praticar por seis meses, um ano ou dois, isto acontecerá naturalmente e a mente não terá que intervir.

O sino vai diretamente à consciência armazenadora através da consciência auditiva, e a resposta se torna natural.

Nós não temos mais que fazer um esforço ou usar muita energia como fazíamos no início.

É assim que a prática pode se tornar um hábito.

Quando a prática tiver se tornado um hábito, nós não temos que despender um esforço demasiado a nível de consciência mental.


Isto mostra que a boa prática consegue transformar hábitos antigos que não estão mais nos servindo.

A boa prática também pode criar bons hábitos.

Chegará um tempo em que não temos mais que usar a consciência mental para tomar decisões – apenas praticamos naturalmente.

Muitos de nós não precisamos tomar uma decisão para praticar a respiração consciente.

Quando ouvimos o sino, praticamos a respiração consciente naturalmente, e nos deleitamos com ela. Deste modo, quando se tornou um hábito, um comportamento é menos dispendioso.


Consciência plena é uma prática de deleite, e não para criar mais privações em nossa vida.

A prática não é um trabalho pesado, é uma causa de alegria. E alegria pode se tornar um hábito.

Alguns de nós temos o hábito do sofrimento.

Outros entre nós têm cultivado o hábito de sorrir e ser feliz.



A capacidade de ser feliz é a melhor coisa que podemos cultivar.

Então, por favor, deleitem-se em sentar e caminhar por vocês, por nossos ancestrais, por nossos parentes, amigos e as pessoas que amamos, e àqueles que são chamados de inimigos.

Andar como um Buda – esta é a sua prática.

Não precisamos aprender e compreender todos os sutras, todos os ensinamentos escritos do Buda, para sermos capazes de andar como um Buda.

Não.

Só precisamos de nossos dois pés e a nossa consciência.

Podemos beber o nosso chá conscientemente, escovar nossos dentes conscientemente, nós podemos respirar conscientemente, dar um passo conscientemente.

E isto pode se feito com muita alegria e sem qualquer luta ou esforço.

É uma questão de deleite.

[...]

A verdadeira felicidade vem da mente atenta.
o Blog da Sanga Marga postou um vídeo com as imágens do "Documentário de Tânia Quaresma".

Mostra um sesshin no mosteiro Pico de Raios em Ouro Preto com o mestre Tokuda em 1992. Há no final um teishö (palestra).


http://sanghamargha.blogspot.com/2010/02/deus-e-nada.html








Gasshô!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Karma, culpa e pregos

O Karma de uma pessoa, geralmente é imaginado como uma susseção de ações dimencionadas em um tempo linear.

Faço "algo" ruim e fatalmente serei "julgado" ali a diante. Tranfigura aí uma função: "a causa como culpa". E, em geral, a natureza não ta nem ai para culpas. A gravidade é inexorável, seja com planetas seja com pregos.

Esta interpretação de "causa como culpa" tem mais relação com a identificação e neuroses que sustentam o ego que com a teoria e prática do karma de fato e tranforma a busca por algum crescimento espiritual em uma "contágem de pontos" tal qual uma dieta de cálculo de calorias...

Uma ótima receita para uma Neurose Obsessiva Compulsiva e de reforço do ego.

Karma opera fora do julgo das culpas.

Por mais que se possa pensar em karma como algo individual, karma age mais como "tecido" que como "fio".

Sim meu karma individual é de responsabilidade minha. Não tranfiro minhas responsabilidades a quem quer que seja, nem poderia. Mas minha relação é mais "causa=efeito" e não "causa=culpa".

A culpa exige julgamento e valores. O efeito "percebe" que uma morte pode ser "efeito" do fim de uma vida (ou de uma manifestação de vida) simplesmante porque nada vive para sempre, e não "transforma" a morte numa punição (leitura mais comum da culpa).


Em Porto Alegre temos a quase 40 anos uma famosa feira do livro. Neste período Monta-se estandes na velha praça do centro. Um dia alguém deixou um prego cair no montar ou desmontar um dos estandes e o prego ficou escondido entre as pedras do piso da praça. Meses ou até anos depois, escapando dos varredores de rua este prego vai parar enterrado no tênis de algum passante e vai faze-lo lembrar da ironia de um assunto doméstico... O seu tênis ja estava fazendo um barulho estranho e por mais que eu, digo, ele gostasse do calçado, talvez precisasse troca-lo...

Como furo ficou ainda mais "evidente" que ta na hora de adiquirir um novo calçado. Mesmo que o tênis tenha uma "história"... e um passado.


Sem culpa.