domingo, 28 de novembro de 2010

Seminário e Exame de Faixas em AIKIDÔ no RS

Seminário e Exame de Faixas


Data: 11/12/2010

Horário: 09h às 12h e das 15h às 17h

Local: Dojô Central RS Aikikai
Investimento: R$ 60
NAMU KIE BUTSUTomo refúgio no Buddha
NAMU KIE HÔTomo refúgio no Dharma
NAMU KIE SÔTomo refúgio na Sangha



Sankiraimon

Os Três Refúgios
MIZUKARA HOTOKO NI KIE SHI TATEMATRUSU
MASA NI NEGAWAKU WA SHUJÔ TO TOMO NI
DAIDÔ WO TAIGESHITE MUJÔI WO OKOSAN
Tomanos refúgio no Buddha, juntamente com todos os seres. Possamos nós compreender a realidade do Mahayana, revelando a mente suprema.
MIZUKARA HÔ NI KIE SHI TATEMATSURU
MASA NI NEGAWAKU WA SHUJÔ TO TOMO NI
FUKAKU KYÔZÔ NI IRITE CHIE UMI NO GOTOKURANAM
Tomamos refúgio no Dharma, juntamente com todos os seres. Penetrando profundamente nos sutras, a sabedoria torna-se como oceano.
MIZUKARA SÔ NI KIE SHI TATEMATSURU
MASA NI NEGAWAKU WA SHUJÔ TO TOMO NI
DAISHÛ O TÔRISHITE ISSAI MUGENARAN
Tomamos refúgio na Sangha, juntamente com todos os seres. Seguindo as relações verdadeiras e a comunidade buddhista, tudo torna-se livre de obstáculos.

Estudo muito, leio bastante, mas não me perco... Zen esta além dos saberes.





Sentado quietamente,


Nada fazendo,


A primavera vem,


A grama cresce por si.



— Zenrin Kushû






No instante de um pensamento,



Minha mente turbulenta chegou a um descanso.






O interior e o exterior,


Os sentidos e seus objetos,


São completamente lúcidos.






Em uma volta completa,


Esmaguei a grande vacuidade.






As dez mil manifestações


Surgem e desaparecem


Sem qualquer razão.




— Han-shan

 
 
 
 
 

Pesquisadoras contestam evolucionismo de Darwin

Para a revista "Galileu" por Mariana Lucena



Segundo Eva Jablonka e Marion J. Lamb a herança genética é só um dos quatro fatores que determinam a evolução.

ShutterstockLembra da aula de ciências sobre Lamarck? Seu professor deu o exemplo das girafas, que iam esticando os pescoços para comer folhas do alto das árvores e depois transmitiam esses pescoços alongados para suas girafinhas. Depois, certamente, o mestre contou que Lamarck estava errado, e que certo mesmo era outro cientista, Darwin, que mostrou que a evolução era a seleção dos mais aptos - esses eram os que passavam suas caracteríticas aos filhos. Lembrou? Pois das cientistas querem que você esqueça toda essa história. Para elas, Darwin e o determinismo genético não estavam completamente certos e Lamarck, veja só, tinha sua parcela de razão.



Eva Jablonka e Marion J. Lamb desafiam a teoria em seu livro recentemente lançado no Brasil, Evolução em quatro dimensões (Companhia das Letras, 511 páginas, R$ 59,00). Elas propõem que a evolução de fato não acontece em uma dimensão como previam Darwin e Mendel (pai da genética), mas em quatro. E, sim, características adquiridas em vida podem ser transmitidas aos descendentes em três delas. As dimensões seriam: genética, epigenética, herança simbólica e herança comportamental.



Para não dar nó na sua cabeça, vamos imaginar dois irmãos gêmeos idênticos. Se a primeira dimensão da evolução, a genética, fosse a única, ambos teriam as mesmas chances de prosperar e passar adiante suas heranças genéticas idênticas aos seus filhos. No entanto, não é incomum encontrar gêmeos idênticos que desenvolvem doenças diferentes, por exemplo. Aí entrariam as outras dimensões.




Digamos que um dos irmãos fume desde muito jovem, enquanto o outro vive uma vida saudável. Uma área de estudo criada há 10 anos, chamada epigenética, afirma que o hábito do tabagismo poderia deixar marcas nos filhos do gêmeo fumante. Como? Fumar pode marcar alguns dos genes, “desativá-los” ou “ativá-los”. Mas atenção: isso é muito diferente de mutação. Neste caso, o código do DNA não teria mudado em absolutamente nada. O gene continuaria ali, só que inativo (não exercendo papel na determinação de características) ou ativo.




Uma pesquisa feita pela universidade de College, na Inglaterra, em 2006, constatou que homens que começam a fumar antes dos 10 anos geram crianças com risco elevado de serem obesas. Logo, os filhos do gêmo fumante teriam mais chances de desenvolver doenças relacionadas à obesidade, e estariam menos aptos que os filhos o gêmeo saudável, embora tenham recebido o mesmo código genético de seus pais.



Se um dos gêmeos fosse criado em uma sociedade isolada muito mais desenvolvida e aprendesse a viver com mais qualidade de vida, ele estaria mais “apto” a sobreviver, mesmo tendo o mesmo código genético. E também poderia passar esse conhecimento o que tornaria seus filhos mais aptos também. As pesquisadoras chamam isso de “aprendizado socialmente mediado” ou herança comportamental. “A capacidade de aprender com os outros pode parecer uma modificação muito pequena na vida, mas tem efeitos profundos, pois permitem que padrões de comportamento se disseminem pela população”, escrevem.




Já o sistema simbólico, quarta dimensão da teoria das pesquisadoras, se diferencia do anterior pela forma de passar o conhecimento. Em vez de aprender copiando o comportamento dos mais velhos, a pessoa pode receber uma herança comportamental por meio de palavras (símbolos) escritas em um livro – o conhecimento pode passar por gerações antes que alguém decida retomá-lo. “As diferenças consistentes e de longo prazo nos hábitos culturais das diferentes sociedades humanas mostram que o sistema simbólico fornece maneiras muito eficazes de transmitir informação”, escrevem as autoras.




Eva e Marion acreditam que está em tempo de superarmos a visão do darwinismo centrada nos genes - e que há muito mais na evolução do que acaso e mutações genéticas. Se elas vão convencer a comunidade científica disso? Precisaremos de mais dimensões de pensamento para saber.

Religião é componente genético? É a teoria de Nicholas Wade

Britânico Nicholas Wade, autor do livro The Faith Instinct, defende que a seleção natural privilegiou os humanos religiosos

Para a revista "Galileu", por Érika Kokay.





Nicholas Wade, repórter especializado em ciência do New York Times, juntou religião e as ideias evolutivas de Darwin - duas coisas aparentemente opostas. Em seu livro: The Faith Instinct (O Instinto de Fé, sem edição no Brasil), defende que a religiosidade é um comportamento universal humano, presente em todas as sociedades, e provavelmente moldada pela seleção natural em milhares de anos. Para ele, todos nós temos um instinto religioso, que nos faz querer ter fé.






>> Pesquisadoras contestam evolucionismo de Darwin


>> Confira linha do tempo da comida






A relação do repórter com a religiosidade começou no Eton College, no condado inglês de Buckingham. Fundada pelo rei da Inglaterra Henrique VI, a escola manteve seu currículo quase intacto ao longo dos mais de 500 anos que separam sua fundação, em 1440, do ingresso de Nicholas Wade, durante o colegial. Devido à grade secular, ele aprendeu latim e grego, estudou diversas religiões e frequentava a igreja duas vezes ao dia, exceto aos domingos. “Eu acho que essa familiaridade com os hinos e com a liturgia da Igreja da Inglaterra me fez apreciar a religião e me ajudou a entender porque ela tem sido uma força tão poderosa ao longo da história”, diz Wade.






Em seu livro, ele reúne citações de antropólogos, sociólogos, economistas, historiadores, psicólogos, teólogos para mostrar ao mundo com quanto de fé se constrói um homem. Nicholas Wade conversou conosco sobre seu livro - que é de ciência, segundo ele. “Enquanto a base genética para o comportamento religioso existir, as pessoas estarão inclinadas em relação à religião”, ele destaca. Confira a entrevista






Seu livro é um livro religioso ou um livro de ciência?


Olho para a religião a partir da perspectiva da ciência e, mais especificamente, da teoria da evolução. Portanto, é um livro de ciência - um livro de ciência sobre a religião.






Há quanto tempo o homem é religioso?


Toda sociedade humana conhecida tem alguma forma de religião. Desde que a religião é como um comportamento distintivo, é altamente improvável que cada sociedade tenha desenvolvido sua religião de forma independente. Religião deve ter sido um dos comportamentos que as sociedades humanas herdaram da população ancestral antes que estas se dispersassem por todo o globo. Como a dispersão da população humana moderna ocorreu há cerca de 50 mil anos, a religião deve existir há pelo menos esse tempo.






E quando ela teve início?


Ninguém sabe. Os rituais religiosos, com base em danças e cantos sem palavras, poderiam ter existido antes mesmo da linguagem. Mas a data em que a linguagem evoluiu também é desconhecida, só se sabe que foi depois de nos separarmos dos chimpanzés, há 5 milhões de anos, e antes da dispersão da população humana moderna, há 50 mil anos.






As religiões podem estar conectadas em um ponto de origem comum?


A população ancestral humana era muito pequena, houve um ponto em que não éramos mais de 5.000 pessoas. Pode ser que, nesta época, existisse uma religião única, a partir da qual todas as religiões de hoje são descendentes.






E por que isso é importante?


Novas religiões são formadas quando uma seita se separa de uma religião-mãe, e isso significa que, em um princípio, todas as religiões do mundo podem estar postas em uma única árvore de descendência. Isto é importante porque mostra a unidade da religião. Também nos ensina a olhar para as ligações históricas entre as religiões, que os autores religiosos podem ter tido o cuidado de ocultar. O Islã, por exemplo, pode ter raízes profundas no cristianismo, mas não é evidente.






A religiosidade trouxe benefícios à evolução dos seres humanos?


A religião resolveu, de forma muito eficiente, um problema difícil: como o nosso cérebro cresceu, cada indivíduo pode calcular melhor o seu próprio interesse e colocá-lo à frente do interesse do grupo. Mas uma sociedade em que todos colocam seu próprio interesse em primeiro plano se fragmentará brevemente.






A religião era uma maneira de dar coesão ao grupo. Com cânticos e rituais, fez com que todos se comprometessem com as regras, que foram criadas para promover comportamentos que ajudariam o grupo. Este compromisso não foi uma promessa ou uma intenção consciente. O compromisso criado pela religião é profundo, emocional, e muito mais difícil de ser ignorado. Grupos ligados à religião tiveram um forte tecido social, e seus membros estavam mais dispostos a defendê-los, mesmo a sacrificar suas próprias vidas na batalha por aquela religião.






E como a seleção natural está ligada a isso?


Os primeiros humanos eram bastante territoriais e agressivos. Nesta circunstância, a seleção natural teria favorecido os grupos mais religiosos, uma vez que tinham um grupo mais coeso, mais unido, e conseguiram prevalecer mais vezes contra os seus inimigos. Por fim, os genes para os comportamentos religiosos se tornaram universais na população humana inicial.






Essa teoria da seleção natural vem sido criticada por muitos cientistas


Os seres humanos são animais altamente sociais, e sua sociabilidade deve ter evoluído de alguma forma. Mas a sociabilidade - o que significa colocar os interesses da sociedade à frente do próprio interesse - constitui um sério desafio para a teoria evolutiva, uma vez que qualquer esforço para ajudar outras pessoas prejudica os esforços para resolver as próprias necessidades.






Os biólogos evolucionistas não estão de acordo com a resposta a esta questão, então eu não posso resolvê-la. Mas eu acho que a seleção natural pode favorecer grupos, assim como indivíduos. A ideia foi proposta inicialmente pelo próprio Darwin, embora seja impopular no momento. Alguns biólogos, como E. O. Wilson (vencedor de dois Pulitzer e apontado pela Time em 1995 como uma das 25 pessoas mais influentes dos Estados Unidos), já se manifestaram a favor da seleção de grupos e espero que ela se torne mais difundida no futuro.






Por que algumas religiões sobreviveram – e se tornaram dominantes – e outras não?


É difícil separar o que molda uma sociedade bem-sucedida do que molda uma religião bem-sucedida. É claro que as duas coisas estão ligadas. Uma religião que molda a sua sociedade com mais coesão se espalha melhor em detrimento de outras; em primeiro lugar dentro da sociedade e, em seguida, conquistando outras sociedades.


Dentro do Império Romano, por exemplo, o cristianismo mostrou-se mais atraente do que a religião romana tradicional. Uma vez adotado como religião oficial, o destino do cristianismo estava ligado ao do Império Romano. O Islã propagou-se no interior das áreas conquistadas pelos árabes. O judaísmo não é uma religião do Império, mas sobreviveu por causa da tenacidade com que seus seguidores a abraçaram. Os judeus, por sua vez, não teriam sobrevivido sem a sua religião.






Você acredita que o tempo mudou o tipo de religião que as pessoas precisam?


Sim, as religiões tradicionais parecem estar perdendo sua influência, certamente na Europa.






Por que então as pessoas ainda têm o desejo de acreditar em algo?


As pessoas ainda têm o desejo de acreditar porque um instinto para o comportamento religioso foi incorporado pela evolução no circuito neural do cérebro - este é o principal argumento do livro. Assim, mesmo as pessoas que não acreditam nas religiões tradicionais vão buscar a iluminação espiritual de outras formas.






Então, há um ponto de vista que diz que a religiosidade é boa, mesmo se Deus não existir?


Se você acredita que a religião é uma força coesa, como eu, então a religião foi certamente boa para a maioria das sociedades no passado e ainda pode ser importante hoje.






Finalmente, qual é o futuro da religião?


Enquanto a base genética para o comportamento religioso existir, as pessoas estarão inclinadas em relação à religião e as sociedades farão uso desta tendência. No entanto, a intensidade do comportamento religioso pode subir ou descer, dependendo de outras circunstâncias. Em países de estado de bem-estar social, como a Suécia, as pessoas podem não ver muita necessidade da religião, mas o instinto ainda está lá, e a religião pode se tornar mais popular no futuro. Fora da Europa, grande parte do mundo (incluindo os Estados Unidos) ainda é muito religiosa, e há pouca base para prever que, em breve, a religiosidade irá desaparecer.

SOBRE DOENÇA E CARMA - Ken Wilber

Abaixo, trechos do livro Grace and Grit, de Ken Wilber, onde este filósofo e pensador nos dá a conhecer o pináculo de seus pensamentos em relação ao difícil problema que ele e Treya, sua esposa, enfrentaram: o câncer (que acabou por vitimá-la).

Na visão "new age", a doença é uma lição. Você está-se permitindo esta doença porque há algo muito importante a aprender com ela a fim de continuar seu crescimento espiritual e evolução. A mente sozinha causa a doença e somente a mente pode curá-la. Já a visão integralista de Ken Wilber segue abaixo:







Tradução de Ari Raynsford










1. O argumento básico da filosofia perene é que homens e mulheres estão imersos na Grande Cadeia do Ser. Isto é, temos em nós matéria, corpo, mente, alma e espírito.






2. Para cada doença, é extremamente importante tentar determinar que nível ou níveis primariamente a originam – físico, emocional, mental ou espiritual.






3. É muito importante usar procedimento do "mesmo nível" (mas não necessariamente o único) para o rumo inicial do tratamento. Use intervenção física para doenças físicas, terapia emocional para distúrbios emocionais, métodos espirituais para crises espirituais e assim por diante. No caso de uma mistura de causas, use uma mistura de tratamentos dos níveis apropriados.






4. Isto é especialmente importante porque se você errar no diagnóstico da doença pensando que ela origina-se num nível mais elevado, então gerará culpa; se diagnosticá-la num nível inferior ao correto, gerará desespero. Em qualquer dos casos, o tratamento não será eficaz, com a desvantagem adicional de gerar no paciente culpa ou desespero devido somente a um erro de diagnóstico.






Por exemplo, se você for atropelado por um ônibus e quebrar a perna, esta é uma doença física com recursos físicos: coloca-se o osso no lugar e engessa-se a perna. É uma intervenção do "mesmo nível". Você não se senta na calçada e visualiza sua perna curando-se. Esta é uma técnica do nível mental que não é efetiva para este problema do nível físico. E mais, se lhe disserem que a causa do seu acidente foram simplesmente seus pensamentos e que você deveria ser capaz de curar sua perna com seus pensamentos, então a única coisa que vai acontecer é que você sentirá culpa, irá autocondenar-se e sua auto-estima diminuirá. É um completo descasamento de níveis e tratamentos.






Por outro lado, se você está sofrendo, digamos, de baixa auto-estima por causa de certos papéis internalizados de que é um fraco e um incompetente, este é um problema do nível mental que responde bem a intervenções do nível mental, tais como visualização ou afirmação (reescrita do papel – exatamente o que a terapia cognitiva faz). Se usar intervenções do nível físico – tomar megavitaminas ou mudar sua dieta – não terá muito efeito (a menos que você realmente esteja com um desbalanceamento vitamínico contribuindo para o problema). E se tentar usar somente tratamentos do nível físico, terminará em alguma forma de desespero, porque os tratamentos são do nível errado e simplesmente não funcionarão bem.






Assim, em minha opinião, a abordagem genérica para qualquer doença deve começar de baixo para cima. Primeiro, procure por causas físicas. Pesquise todas as possibilidades da melhor maneira. Depois, pesquise possíveis causas emocionais; seja exaustivo. Então passe para causas mentais e, por fim, espirituais.






Isto é particularmente importante, porque muitas doenças que no passado eram creditadas a origens puramente psicológicas ou espirituais, hoje sabe-se que são causadas principalmente por componentes físicos ou genéticos. Antigamente, pensava-se que a asma se devia a uma "mãe asfixiante". Hoje sabe-se que ela é principalmente biofísica nas causas e na emergência. Tuberculose era fruto de uma "personalidade consumptiva"; gota, de fraqueza moral. Acreditava-se largamente em uma "personalidade artritóide", que não resistiu ao teste do tempo. Tudo o que essas crenças faziam era gerar culpa em suas vítimas; as curas não aconteciam simplesmente porque estavam sendo considerados os níveis errados.






Entretanto, isto não significa que os tratamentos dos outros níveis não sejam muito importantes como suporte ou coadjuvantes. Definitivamente, eles poderão ser. No exemplo simples da perna quebrada, técnicas de relaxamento, visualização, afirmação, meditação, psicoterapia se necessária – todas elas podem contribuir para uma atmosfera mais equilibrada na qual a cura física poderá ocorrer mais facilmente e rapidamente.






O que não ajuda é, considerando-se que todos esses aspectos psicológicos e espirituais podem ser muito úteis, afirmar-se que a razão de você ter quebrado sua perna é que lhe faltam, em primeiro lugar, essas características psicológicas e espirituais. Uma pessoa acometida de uma doença grave pode modificar-se profundamente em função da mesma; daí não se pode inferir que ela contraiu a doença por falta de mudanças. Isto é o mesmo que pensar: se você está com febre e toma uma aspirina, a febre baixa; portanto, ter febre deve-se a uma deficiência de aspirina.






Agora, obviamente muitas doenças não se originam de um simples nível isolado. O que quer que aconteça em um nível ou dimensão do ser afeta todos os outros níveis em maior ou menor grau. A composição emocional, mental e espiritual de uma pessoa com certeza pode influenciar na doença física e na cura física, do mesmo modo que a doença física pode repercutir fortemente nos níveis superiores. Quebre sua perna e este fato provavelmente acarretará efeitos emocionais e psicológicos. Na teoria de sistemas isto é chamado "causação ascendente" – um nível mais baixo produz certos eventos em um nível mais alto. E o inverso, "causação descendente", é quando um nível mais elevado tem um efeito causal ou influencia um nível mais baixo.






A pergunta, então, simplesmente é: quanta "causação descendente" nossa mente – nossos pensamentos e emoções – tem na doença física? E a resposta parece ser: muito mais do que se pensava anteriormente, mas muito menos do que os adeptos da "new age" acreditam.






A nova escola da psiconeuroimunologia (PNI) tem descoberto evidências convincentes de que nossos pensamentos e emoções podem influenciar diretamente nosso sistema imunológico. O efeito não é grande, mas é detectável. Obviamente, isto é o que esperaríamos do axioma segundo o qual todos os níveis afetam todos os outros níveis de algum modo, embora secundariamente. Mas, uma vez que a medicina enveredou para uma ciência puramente do nível físico e desconsiderou a influência dos níveis superiores na doença nível-físico ("o fantasma na máquina"), a PNI veio prover a correção necessária, oferecendo uma visão mais equilibrada. A mente pode afetar o corpo num grau pequeno, mas não insignificante.






Em particular, descobriu-se que formação de imagens e visualização talvez sejam os mais importantes ingredientes na influência "pequena mas não insignificante" da mente sobre o corpo e sobre o sistema imunológico. Por que imagem? Observemos a versão mais completa da Grande Cadeia do Ser, notando onde as imagens ocorrem: matéria, sensação, percepção, impulso, imagem, símbolo, conceito e assim por diante. A imagem é a mais baixa e a mais primitiva parte da mente, colocando-a diretamente em contato com a parte mais alta do corpo. Em outras palavras, a imagem é a conexão direta da mente com o corpo – suas tendências, seus impulsos, sua bioenergia. Nossos pensamentos e conceitos mais elevados podem ser traduzidos para baixo em simples imagens e estas, aparentemente, têm influência modesta, porém direta, nos sistemas do corpo (via influência ou impulso, a dimensão inferior seguinte).






Então, todas as coisas consideradas, as tendências psicológicas representam algum papel em cada doença. E concordo que esse componente deve ser exercitado ao máximo. Numa eleição, essas tendências podem ser suficientes para fazer pender o prato da balança em favor da saúde ou da doença, mas, sozinhas, não são capazes de encher a urna de votos.






Assim, como Steven Locke e Douglas Colligan escreveram em The Healer Within (O Curador Interno), com efeito, toda doença tem um componente psicológico e todo processo de cura é afetado pela psicologia. Mas, continuam os autores, o problema é que as pessoas confundem o termo psicossomático, que significa que um processo de doença física pode ser afetado por fatores psicológicos, com o termo psicogênico, que significa que a doença é causada somente por fatores psicológicos. Os autores afirmam: "No sentido correto da palavra, toda doença pode ser considerada psicossomática; talvez seja a hora de aposentar definitivamente o termo psicossomático. [Porque] tanto o público como alguns médicos usam as palavras psicossomático (significando que a mente pode influenciar a saúde do corpo) e psicogênico (significando que a mente pode causar doenças no corpo) intercambiavelmente. Eles perderam de vista o verdadeiro significado de doença psicossomática." Como Roberto Ader sugere, "Não estamos falando sobre a causação das doenças mas sim da interação entre eventos psicossociais e condições biológicas pré-existentes."






Os próprios autores mencionam hereditariedade, estilo de vida, drogas, local, ocupação, idade e personalidade. É a interação de todos esses fatores – eu adicionaria fatores existenciais e espirituais – de todos os níveis que, juntos, parecem influenciar a causa e o curso das doenças físicas. Escolher um desses fatores e ignorar os demais é uma simplificação absurda.






Então, de onde vem essa idéia dos divulgadores da "new age" de que sua mente sozinha causa e cura todas as doenças físicas? Eles afirmam, afinal, ter uma sólida base nas grandes tradições místicas, espirituais e transcendentais do mundo. E, aqui, acho que eles se encontram num campo minado. Jeanne Achterberg, autora de Imagery in Healing (que recomendo com empenho), acredita que esta noção pode ser historicamente rastreada até o Novo Pensamento, ou Pensamento Metafísico, que emergiu de uma leitura (distorcida) dos Transcendentalistas da Nova Inglaterra, Emerson e Thoreau, os quais basearam muito da sua obra no misticismo oriental. As escolas do Novo Pensamento, das quais a Ciência Cristã é a mais famosa, confundem a noção correta "Deus cria tudo" com a noção "Desde que eu sou um com Deus, eu crio tudo."






Esta posição apresenta dois erros e, acredito, teria a discordância veemente tanto de Emerson quanto de Thoreau. Primeiro, que Deus é uma pai interveniente para o universo ao invés de Realidade, Essência ou Condição imparcial. E segundo, que o ego é um com esse Deus paternal e, portanto, pode intervir e ordenar o universo ao redor. Não encontrei o menor suporte para estas noções em quaisquer das tradições místicas.






Os advogados da "new age" afirmam estar baseando esta idéia no princípio do carma, que diz que as circunstâncias da sua vida atual são o resultado de pensamentos e ações de uma vida passada. De acordo com o Hinduísmo e o Budismo, isto é parcialmente verdadeiro. Mas mesmo que fosse totalmente verdadeiro, o que não é, os adeptos da "new age", em minha opinião, passaram por cima de um ponto crucial: conforme essas tradições, suas circunstâncias presentes são o resultado de pensamentos e ações de uma vida anterior e seus pensamentos e ações atuais afetarão, não sua vida presente, mas sua próxima vida, sua próxima encarnação. Os budistas dizem que na vida atual você está simplesmente lendo um livro que escreveu na vida passada e o que você está fazendo agora só se concretizará em sua próxima vida. Em nenhum dos casos, seu pensamento presente cria sua realidade atual.






Agora, acontece que, pessoalmente, não acredito nesta visão particular de carma. É uma noção muito primitiva, subseqüentemente refinada (e largamente abandonada) pelas escolas superiores do Budismo, onde reconheceu-se que nem tudo que acontece com você é resultado das suas ações passadas. Como Namkhai Norbu, mestre do Budismo Dochen (geralmente considerado como o pináculo do ensinamento budista), explica: "Há doenças devidas ao carma ou a condições prévias do indivíduo. Mas também há doenças geradas por energias que vêm de outros, de fora. E há doenças provocadas por causas provisionais, como alimentos ou outras combinações de circunstâncias. E há doenças devidas a acidentes. Assim, há todos os tipos de doenças ligadas ao ambiente." Minha opinião é que nem a versão primitiva do carma nem os ensinamentos mais desenvolvidos dão suporte à visão "new age".






Então, de onde realmente veio esta noção? Aqui, afastar-me-ei de Treya e apresentarei minha teoria predileta sobre as pessoas que assim acreditam. Não irei falar com compaixão sobre os sofrimentos que essas idéias causam. Tentarei separá-las, categorizá-las, formular teorias sobre elas, porque creio que essas idéias são perigosas e precisam ser arrumadas, se não por qualquer outra razão, pelo menos para prevenir sofrimentos posteriores. E meus comentários não são dirigidos ao grande número de pessoas que acreditam nelas de um modo inocente, ingênuo e inócuo. Tenho mais em mente os líderes nacionais desse movimento, indivíduos que dão seminários criando sua própria realidade; que desenvolvem "workshops" que ensinam, por exemplo, que o câncer é causado somente por ressentimento; que ensinam que a pobreza é responsabilidade sua e a opressão, algo que você trouxe consigo. Talvez sejam pessoas bem-intencionadas, mas, de qualquer modo, em minha opinião, perigosas, uma vez que desviam a atenção dos níveis reais – físico, ambiental, legal, moral e sócio-econômico, por exemplo – onde há muito trabalho a ser realizado urgentemente.






Para mim, essas crenças – particularmente a crença de que você cria sua própria realidade – são crenças do nível dois. Elas têm todas as marcas autenticadoras da visão de mundo infantil e mágica das desordens de personalidade narcisísticas. A idéia de que os pensamentos não só influenciam a realidade como também a criam é o resultado direto, em minha opinião, da diferenciação incompleta da fronteira do ego que define o nível dois. Pensamentos e objetos não são claramente separados; assim manipular o pensamento é manipular de modo onipotente e mágico o objeto.






Acredito que a cultura hiperindividualista da América, que atingiu seu apogeu na "década do eu", incentivou a regressão para os níveis narcisístico e mágico. Creio (como Robert Bellah e Dick Anthony) que o colapso de estruturas sociais mais coesivas levou os indivíduos de volta a seus próprios recursos, e isto também ajudou a reativar tendências narcisísticas. E acredito, junto com psicólogos clínicos, que por baixo da superfície do narcisismo, furtivamente está a raiva, particularmente, mas não somente, expressa pela crença: Não quero machucar você, eu a amo; mas se você discordar de mim contrairá uma doença que a matará. Concorde comigo, concorde que pode criar sua própria realidade e você melhorará, você viverá." Isto não tem nenhuma base nas grandes tradições místicas do mundo; baseia-se em patologia narcisística e limítrofe.






Enquanto a maioria da correspondência e respostas da revista New Age concordava com meu sentimento de insulto moral com respeito ao que essas idéias estavam fazendo a tanta gente inocente, os new agers radicais reagiam furiosamente dizendo coisas como: se eu e Treya pensávamos daquela maneira ela merecia estar com câncer; ela o estava gerando em si mesma com esses pensamentos.






Esta não é uma condenação cega de todo o movimento "new age". Há aspectos dele – acima de tudo é uma besta grande e variada – que efetivamente baseiam-se em genuínos princípios místicos e transpessoais (como a importância da intuição e a existência da consciência universal). O problema é que qualquer movimento genuinamente transpessoal sempre atrai um grande número de elementos pré-pessoais, simplesmente porque ambos são não-pessoais; é exatamente esta confusão entre "pré" e "trans" um dos principais problemas do movimento "new age" em minha opinião.






Eis um exemplo concreto baseado em pesquisa empírica. Durante os tumultos em Berkeley em protesto contra a guerra do Vietnam, um grupo de pesquisadores aplicou o teste de desenvolvimento moral de Kohlberg a uma amostra representativa de estudantes. Os estudantes, enfim, afirmavam que sua maior objeção à guerra era por ser ela imoral. Ora, em que estágios de desenvolvimento moral os estudantes estavam operando?






O que os pesquisadores descobriram foi que uma pequena percentagem de estudantes, algo como 20%, estava efetivamente operando nos estágios pós-convencionais (ou estágios transconvencionais). Isto é, suas objeções eram fundamentadas em princípios universais de certo e errado; eles não se baseavam em padrões de uma sociedade particular ou em caprichos individuais. Suas crenças sobre a guerra poderiam estar certas ou erradas, mas sua argumentação denotava um elevado desenvolvimento moral. Por outro lado, a grande maioria dos protestantes – cerca de 80% - era pré-convencional, o que significa que sua argumentação moral fundamentava-se em motivos pessoais extremamente egoístas. Eles não queriam lutar, não porque a guerra era imoral, não porque se preocupassem com o povo vietnamita, mas sim porque não queriam ninguém dizendo-lhes o que fazer. Seus motivos não eram universais ou mesmo sociais, mas simplesmente egoístas. E, como esperado, não havia quase estudantes no nível convencional, o nível do "meu país certo ou errado" (simplesmente porque estes estudantes não teriam do que protestar, em primeiro lugar). Em outras palavras, um pequeno número de estudantes verdadeiramente pós ou transconvencionais atraiu um grande número de tipos pré-convencionais, porque o que ambos tinham em comum era o fato de serem não-convencionais.






Do mesmo modo, creio que, no movimento "new age", uma pequena percentagem de genuínos elementos e princípios místicos, transpessoais ou transracionais (níveis sete a nove) atraiu um grande número de elementos pré-pessoais, mágicos e pré-racionais (níveis um a quatro) simplesmente porque ambos são não-racionais, não-convencionais, não-ortodoxos. E, então, esses elementos pré-pessoais e pré-racionais afirmam, como fizeram os estudantes pré-convencionais, que possuem a autoridade e o suporte de um estado "superior", quando o que realmente estão fazendo, temo dizer, é racionalizar sua própria postura egoísta. Como Jack Engler enfatizou, eles são atraídos pelo misticismo transpessoal como um modo de racionalizar suas inclinações pré-pessoais. É uma clássica "falácia pré-trans".






Concluiria também, com William Irwin Thompson, que cerca de 20% do movimento "new age" é transpessoal (transcendental e genuinamente místico); cerca de 80%, pré-pessoal (mágico e narcisístico). Normalmente descobrem-se os elementos transpessoais porque eles não gostam de ser chamados de "new age". Não há nada de "novo" (new) neles; eles são perenes.






No campo da psicologia transpessoal, constantemente temos que lidar com as tendências pré-pessoais do modo mais gentil e delicado possível, porque elas conferem ao campo toda uma reputação de "esquisito" ou "bobo". Não temos nada contra crenças pré-pessoais; simplesmente sentimo-nos incomodados quando nos pedem para adotar essas crenças como se fossem transpessoais.






Nossos amigos "esquisitos" ficam danados conosco porque pensam existir somente dois campos no mundo: racional e não-racional; assim, deveríamos juntar-nos a eles contra o campo racionalista. Mas há de fato três campos: pré-racional, racional e transracional. Na realidade, estamos mais próximos dos racionalistas do que dos pré-racionalistas. Os níveis superiores transcendem, mas incluem os inferiores. O Espírito é translógico, não antilógico; ele abrange a lógica e vai além, e não simplesmente rejeita a lógica. Todo princípio transpessoal tem que passar pelo teste da lógica e, então, e somente então, seguir em frente com seus insights adicionais. O Budismo é um sistema extremamente racional que complementa a racionalidade com a consciência intuitiva. Alguns dos princípios "esquisitos" não estão além da lógica, mas aquém.






Assim, estamos tentando separar os elementos genuínos, universais, "testados em laboratório", do desenvolvimento místico das tendências mais idiossincráticas, mágicas, narcisísticas. Esta é uma tarefa complicada e nem sempre chegamos a bom termo. Líderes nesta área são Jack Engler, Roger Walsh, William Irwin Thompson e Jeremy Hayward.






Mas deixe-me concluir esta discussão reafirmando meu ponto original: ao tratar qualquer doença, esforce-se ao máximo para determinar de quais níveis estão provindo os seus vários componentes e use os tratamentos do mesmo nível para lidar com eles. Se você identificar corretamente os níveis, você gerará ação que terá a mais alta chance de ser curativa; se você errar, gerará somente culpa ou desespero.



Retirado daqui:Saindo da matrix

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Nomes Vazios


Por Lin-chin (Rinzai)




Todos os fenômenos mundanos e transcendentes não têm uma identidade fixa e real por si mesmos, não têm uma natureza inerente. São apenas nomes vazios e os nomes são vazios também. 

Se você continuar assim, aceitando estes nomes vazios como sendo coisas reais, estará cometendo um grande erro. 

Apesar de estarem lá, são todos objetos e cenas dependentes da transformação.

Também há essa coisa de depender da iluminação, do nirvana e da liberação, depender dos três corpos do buddha, depender da sabedoria objetiva, depende dos bodhisattvas e buddhas.

O que você está procurando das terras dependentes de transformação? 

Até mesmo os ensinamentos escriturais em múltiplas partes dos três veículos são apenas um papel velho para limpar a sujeira.

O Buddha é uma ilusão, uma aparição. 

Os professores ancestrais foram apenas velhos monges.




Você não nasceu de sua mãe? Se procurar pelo buddha, você é controlado pela delusão "buddha". Se procurar pelos professores ancestrais, você está amarrado pela delusão "professores ancestrais". Enquanto estiver procurando, tudo isto é sofrimento. Seria melhor não ter quaisquer preocupações.



Há um tipo de monge careca que diz aos estudantes, "O Buddha é o absoluto. Você atinge a iluminação apenas depois da realização dos resultados de três éons imensuráveis de cultivo da prática." Boas pessoas, se vocês pensarem que o Buddha é o absoluto, então por que ele se deitou e morreu na idade de oitenta entre as árvores gêmeas no bosque de Kushinagara? Onde está o Buddha hoje? É claro que ele não nasceu e morreu diferente de nós. Você pode dizer que as trinta e duas marcas auspiciosas e as oitenta qualidades excelentes fazem-no um buddha e que um sábio rei que gira a roda [sânsc. chakravartin] deve ser um tathagata. Mas você deve entender claramente que estas são apenas aparições ilusórias. O homem do passado [chamado Fu] disse, "Os tathagatas tomam a forma corpórea a fim de estarem de acordo com os sentimentos mundanos. Temendo que as pessoas formassem visões niilistas, ele estabeleceu provisoriamente alguns nomes vazios, falando temporariamente das trinta e duas marcas e das oitenta qualidades excelentes. Estas também são palavras vazias. Se houver um corpo, ele não é o corpo essencial da iluminação. A não-forma é a verdadeira forma."







 



Você pode dizer que o Buddha tem seis poderes espirituais que são inconcebíveis. Mas todos os deuses, mortais, semideuses e demônios poderosos também têm poderes espirituais. Isto significa que eles são buddhas também? Não se engane quanto a isto. Os semideuses batalharam com Indra, rei dos deuses, e quando foram derrotados, reuniram sua hoste de oitenta e quatro mil e se esconderam em um orifício de uma fibra de lótus. Isto não é sobrenatural? Todos estes exemplos que citei são casos de poderes espirituais devido ao karma e dependentes [de fabricações]. No caso dos seis poderes espirituais do Buddha, não é assim. Buddha entra na forma, no som, no odor, no sabor, no toque e nos pensamentos sem ser deludido por eles. Assim, já que ele chegou à vacuidade da forma, do som, do odor, do sabor, do toque e dos pensamentos, estes não podem amarrar a pessoa independentes do caminho. Para ele, até mesmo o corpo maculado da forma, sensação, percepção, vontade e consciência é, em si mesmo, um poder espiritual para caminhar sobre a terra.






Boas pessoas, o verdadeiro Buddha é sem forma; o verdadeiro Dharma não tem marcas. O modo como estão agindo é erguer modelos e padrões baseados nas transformações ilusórias [que foram colocadas provisoriamente nos ensinamentos]. Até mesmo se conseguirem algo a partir disto, vocês serão todos espíritos de raposas selvagens. Este realmente não é o verdadeiro buddhismo, mas sim a visão daqueles que estão fora [do caminho].










As pessoas que estudam genuinamente o caminho não agarram buddhas, bodhisattvas ou arhats; não agarram os atingimentos de excelência especial dentro do mundo tríplice. 


São transcendentes, livres e estão por si mesmos — não são constrangidos pelas coisas. 

Até mesmo se a terra e o céu forem virados de cabeça para baixo, elas não estão em dúvida. 

Se todos os buddhas das dez direções aparecerem diante delas, elas não sentem alegria. 

Se [todos os tormentos] dos fantasmas famintos, dos animais e dos seres nos inferno aparecerem diante delas, elas não sentem medo. 

Por que são assim?

Eles vêem a vacuidade de todos os fenômenos, que existe através da transformação e não existe sem ela.

Vêem que o mundo tríplice é apenas mente e que a miríade de coisas são apenas consciência.

Portanto, por que se preocupar em agarrar [as coisas, que são apenas] ilusões e aparições, semelhantes a sonhos?




terça-feira, 23 de novembro de 2010

Percurso para uma visão integral - Parte 3 - "One Taste"

Esta terceira parte vem do livro "One Taste", de Ken Wilber - Tradução e notas de Ari Raynsford - roubado do querido Blog Saindo da Matrix


Justamente porque o ego, a alma e o Eu (Self) podem estar presentes ao mesmo tempo, não será difícil entender o sentido verdadeiro de "ausência do ego" – expressão que tem causado imensa confusão.

Ausência do ego não significa a ausência de um eu (self) funcional (o que seria próprio de um psicótico e não de um sábio); significa que não estamos mais exclusivamente identificados com aquele eu.


Um dos muitos motivos de não sabermos lidar com a noção de "ausência do ego" é que desejamos que nossos "sábios sem ego" satisfaçam às nossas fantasias relativas a "santidade" ou "espiritualidade", o que, habitualmente, significa que essas pessoas estejam mortas do pescoço para baixo, livres das vontades ou desejos da carne, eternamente sorridentes. Desejamos que esses santos não passem por todas as coisas que nos incomodam – dinheiro, comida, sexo, relacionamentos, desejos. "Sábios sem ego" estão "acima de tudo isso" – assim desejamos. Queremos cabeças que falem. Acreditamos que a religião bastará para livrá-los de todos os instintos básicos, de todas as formas de relacionamento, considerando a religião, não como orientação para viver a vida com entusiasmo, mas, sim, como guia para evitá-la, reprimi-la, negá-la, fugir dela.


Em outras palavras, o homem típico espera que o sábio espiritual seja "menos que uma pessoa", de alguma forma liberto dos impulsos confusos, difusos, complexos, pulsantes, compulsivos, que guiam a maior parte dos seres humanos. Esperamos que nossos sábios sejam a ausência de tudo o que nos impulsiona.


Queremos que não sejam sequer tocados por todas as coisas que nos atemorizam, que nos confundem, que nos atormentam, que nos atordoam. É a essa ausência, a essa falta, a esse "menos que uma pessoa" que, frequentemente, chamamos "sem ego".


Entretanto, "sem ego" não significa " menos que uma pessoa"; significa "mais que uma pessoa". Não pessoa menos, mas pessoa mais – isto é, todas as qualidades normais da pessoa mais algumas transpessoais.

Pensemos nos grandes iogues, santos e sábios – de Moisés a Cristo, a Padmasambhava. Não foram desfibrados maneirosos, mas dinâmicos e instigantes – desde o episódio dos vendilhões do Templo até a imposição de novos rumos a nações inteiras. Lidaram com o mundo em seus próprios termos, não em termos de uma piedade melosa; muitos deles provocaram revoluções sociais significativas, que se estenderam por milhares de anos. E assim fizeram, não porque tivessem evitado as dimensões físicas, emocionais e mentais da humanidade, e o ego, que é o veículo de todas elas, mas porque as assumiram com tal garra e intensidade que sacudiram as próprias fundações do mundo. Indiscutivelmente, estavam também intimamente ligados com a alma (o psiquismo mais profundo) e o espírito (o Eu informe) – fonte última de sua força – mas expressaram essa força e tiraram dela resultados concretos, exatamente porque assumiram, decididamente, as dimensões menores através das quais ela poderia expressar-se de modo a ser sentida por todas as pessoas.


Esses grandes mobilizadores e agentes de mudança não foram egos pequenos; foram, na mais completa acepção do termo, grandes egos, justamente porque o ego (veículo funcional do domínio da mente) pode existir e de fato existe com a alma (veículo do sutil) e o Eu (veículo do causal). Na mesma medida em que esses grandes mestres mobilizaram o domínio da mente, eles mobilizaram o próprio ego, porque o ego é o veículo desse reino. Entretanto, não se identificavam meramente com seu ego (isso seria narcisismo); simplesmente perceberam seu ego conectado a uma fonte Kósmica radiante. Os grandes iogues, santos e sábios conseguiram tanto, exatamente porque não foram tímidos bajuladores, mas grandes egos ligados ao seu Eu superior, animados pelo puro Atman (o puro Eu – eu) que é um com Brahman; abriram a boca e o mundo estremeceu, caiu de joelhos e pôde ver face a face o Deus radioso.


Santa Teresa não foi uma grande contemplativa? Sim, e Santa Teresa foi a única mulher que reformou uma tradição monástica inteira (pensemos nisso). Gautama Buda sacudiu a Índia nos seus fundamentos. Rumi, Plotino, Bodhidharma, Lady Tsogyal, Lao Tsé, Platão, o Baal Shem Tov – estes homens e mulheres deram início a revoluções no mundo que duraram centenas, às vezes milhares de anos – coisa que nem Marx, nem Lenin, nem Locke, nem Jefferson, poderiam afirmar ter conseguido.


E não agiram assim porque estivessem mortos do pescoço para baixo. Não, eles eram fantasticamente, divinamente grandes egos, ligados profundamente ao psíquico, que estava diretamente ligado a Deus.


Existe certa verdade na noção do transcender o ego: não significa destruir o ego, mas, sim, conectá-lo a alguma coisa maior. Como afirma Nagarjuna, no mundo relativo, atman é real; no absoluto nem atman nem anatman são reais. Assim, em nenhum caso annatta corresponde a uma descrição correta da realidade. O pequeno ego não se evapora; permanece como o centro funcional da atividade no domínio convencional. Como eu disse, perder esse ego significa tornar-se um psicótico, não um sábio.


"Transcender o ego", significa, pois, em verdade, transcender mas incluir o ego num envolvimento mais profundo e mais elevado, primeiro na alma ou psiquismo mais profundo, depois na Testemunha ou Eu superior e, então, após a absorção nos níveis precedentes, envolver-se, incluir-se e abraçar-se na radiância do Um Sabor. E isto não significa, portanto, "livrar-se" do pequeno ego, mas, ao contrário, habitar nele plenamente, vivê-lo com entusiasmo, usá-lo como veículo necessário, através do qual as grandes verdades podem ser transmitidas. Alma e espírito incluem o corpo, as emoções e a mente; não os eliminam.


Grosseiramente, podemos dizer que o ego não é uma obstrução ao Espírito, mas uma radiosa manifestação do Espírito. Todas as Formas não são senão o Vazio, inclusive a forma do próprio ego. Não é necessário livrar-se do ego, mas, simplesmente, vivê-lo com certa intensidade. Quando a identificação transborda do ego no Kosmos em geral, o ego descobre que o Atman individual é, de fato, da mesma espécie de Brahman.


O Eu superior não é, em verdade, um pequeno ego, e, assim, no caso de estarmos presos ao nosso pequeno ego, a morte e a transcendência são necessárias. Os narcisistas são, simplesmente, pessoas cujos egos não são ainda suficientemente grandes para abraçar o Kosmos inteiro e, para compensar, tentam tornar-se o próprio centro do Kosmos.


Não queremos que nossos sábios tenham grandes egos; sequer desejamos que exibam qualquer característica evidente. Sempre que um sábio se mostra humano – a respeito de dinheiro, comida, sexo, relacionamentos – sentimo-nos chocados, porque estamos planejando fugir inteiramente da vida, e o sábio que vive a vida nos ofende. Queremos estar fora, queremos ascender, queremos escapar, e o sábio que assume a vida com prazer, vive-a totalmente, pega cada onda da vida e surfa nela até o fim – nos perturba e nos assusta intensamente, profundamente, porque significa que nós, também, deveríamos assumir a vida com prazer, em todos os níveis, e não simplesmente fugir dela numa nuvem etérea, luminosa. Não queremos que nossos sábios tenham corpo, ego, impulsos, vitalidade, sexo, dinheiro, relacionamentos ou vida, porque essas são coisas que habitualmente nos torturam e queremos vê-las longe de nós. Não queremos surfar as ondas da vida, queremos que as ondas desapareçam. Queremos uma espiritualidade feita de fumaça.


O sábio completo, o sábio não-dual está aqui para mostrar-nos o contrário. Geralmente conhecidos como "tântricos", estes sábios insistem em transcender a vida, vivendo-a. Insistem em procurar libertação no envolvimento, encontrando o nirvana no meio do samsara, encontrando a liberação total pela completa imersão. Passam com consciência pelos nove círculos do inferno, certos de que em nenhum outro lugar encontrarão os nove círculos do céu. Nada lhes é estranho porque nada existe que não seja Um Sabor.

Na verdade, o segredo consiste em estar inteiramente à vontade no corpo e com seus desejos, com a mente e suas idéias, com o espírito e sua luz. Assumi-los inteiramente, plenamente, simultaneamente, uma vez que todos são igualmente manifestações do Um e Único Sabor. Vivenciar a paixão e vê-la funcionar; penetrar nas idéias e acompanhar seu brilho; ser absorvido pelo Espírito e despertar para a glória que o tempo esqueceu de nomear. Corpo, mente e espírito, totalmente contidos, igualmente contidos, na consciência eterna que é a essência de todo o espetáculo.


Na quietude da noite, a Deusa sussurra. Na luminosidade do dia, Deus amado brada.

A vida pulsa, a mente imagina, as emoções ondulam, os pensamentos vagam.

O que são todas estas coisas senão movimentos sem fim do Um Sabor, eternamente jogando com suas próprias manifestações, sussurrando mansamente a quem quiser ouvir: isto não é você mesmo?

Quando o trovão ruge, você não ouve o seu Eu?

Quando irrompe o raio, você não vê o seu Eu?

Quando as nuvens deslizam mansamente no céu, não é o seu próprio Ser ilimitado que está acenando para você?




 Ler em espanhol (por Teresa)

Percurso para uma visão integral - Parte 2

por Felipe Cherubin em 29/08/2010 às 7:30.

Começa aqui  na parte 1


Aproveitando o lançamento da edição em português do livro Up from Eden, com tradução de Ari Raysnford, apresentamos uma entrevista exclusiva com Ken Wilber (se não o conhece, leia antes a introdução).

1. Qual sua posição em relação ao movimento New Age, já que muitos críticos assim identificam seu trabalho?


É comum que meu trabalho seja incluído no movimento New Age. Contudo, eu tenho sido bastante crítico desse movimento. Considero que, embora a maioria de suas ideias apontem na direção correta, elas basicamente não chegam a lugar nenhum.

Eu não concordo, por exemplo, com o fato de que muitos deles acreditem em astrologia. Não que eu tenha algo contra a astrologia, o fato é que já foram feitos centenas de testes utilizando astrólogos conhecidos e todos falharam. Não existe nenhuma evidência de que a astrologia funcione; sendo assim, a maioria das teorias em que o movimento New Age se baseia estão erradas por seguirem premissas desse tipo.

Penso que a crença de que eu seja um adepto do movimento New Age, quando na verdade eu seja um crítico dele, venha da mídia, jornais e revistas que na realidade não entendem muito bem a espiritualidade e assim rotulam um tanto levianamente meu trabalho sem entenderem todas as nuances e sutilezas que estão envolvidas.



Alex Grey vê em Wilber a espada de prajna, que corta todas as ilusões.

 

2. E quanto à psicologia transpessoal?


Quando eu comecei a escrever, era comum dizer que haviam quatro escolas de psicologia: psicanalítica, behaviorista, humanista e a transpessoal. Eu comecei escrevendo como psicólogo transpessoal, mas ao longo de dez anos eu pude constatar que a psicologia transpessoal apresentava muitas deficiências, não abria espaço para incluir muitas das verdades importantes das outras escolas.

Então eu formalmente me distanciei da psicologia transpessoal e passei a chamar aquilo que estava fazendo de psicologia integral. Naquela época, nos Estados Unidos, entre um terço e talvez a metade dos psicólogos transpessoais vieram a mim e passaram a se identificar como psicólogos integrais. O termo integral foi selecionado para tentar dar uma indicação de que incluíamos todas aquelas escolas de psicologia na tentativa de desenvolver modelos mais abrangentes.

3. Você escreveu um livro chamado “Uma Teoria de Tudo”. Você têm uma teoria para tudo ou isso é uma paródia?


O título foi uma brincadeira que fiz. A razão porque escolhi esse título é que, de fato, no mundo da física existe uma busca daquilo que se convencionou chamar “Uma Teoria de Tudo”.


O que eu quis fazer foi dizer:

Espere um pouco, o que vocês estão chamando de “tudo” na realidade engloba uma parte muito pequena do mundo. Ao chamá-la de tudo e ao dizer que vocês têm uma teoria para tudo, vocês estão sendo incrivelmente reducionistas, ligando-se a um materialismo incrivelmente limitado onde não há espaço para o mundo interior: a consciência, as emoções, os valores, o bem e a beleza.


Vocês reduzem o mundo a quatro forças – força nuclear forte, força nuclear fraca, força eletromagnética e força gravitacional –, alegam que essas são as únicas forças que existem na natureza e assim, na teoria de tudo, vocês mostram apenas como essas forças interagem.

Bem, não resta dúvida de que seria uma descoberta importante se, de fato, fosse possível criar um único modelo físico que englobasse toda a realidade do mundo em que vivemos. Contudo, eu dei esse título para caçoar dessa noção de que você pode reduzir tudo a um punhado de partículas.

Uma outra razão porque eu usei esse título foi porque, se você quer uma teoria que vai falar sobre tudo, então eu ofereço um modelo que, pelo menos, engloba muito mais aspectos da realidade. Este meu livro foi, portanto, uma maneira de chamar a atenção para o fato de que a busca desse tipo de materialismo científico é, na realidade, uma filosofia muito pobre. Um alerta para que as pessoas tenha cuidado com esse reducionismo simplista.


Link YouTube |  Tudo o que você pode descrever sobre si mesmo não é você mesmo.

 

4. Os temas da religião, ciência e espiritualidade são constantes em sua obra. Como você os entende?


Eles são claramente três das mais importantes disciplinas que os seres humanos abraçam e são variações do Bem, da Verdade e da Beleza (ou Moral, Ciência e Arte).

A ciência, naturalmente, é muito importante por causa dos insights e a verdade que ela propicia nas dimensões objetiva e interobjetiva. As ciências trouxeram uma contribuição enorme ao mundo moderno e pós-moderno nos dando de tudo, desde a cura de doenças até nos colocar na Lua. É claramente uma parte importante do esforço humano no mundo.

Já a espiritualidade e a religião são interessantes porque ambas estão se tornando cada vez mais separadas.

É comum para as pessoas nos Estados Unidos dizerem que “São espirituais mas não religiosas”, ou seja, elas estão separando ambas, elas se identificam com o espiritual mas não com a religião, existe algo sobre a religião que eles não apreciam e existe algo na espiritualidade que eles gostam e esta é a razão deles se definirem daquela forma.

A espiritualidade significa uma consciência mística de uma experiência imediata, que passa diretamente por alguma forma de experiência que não pode ser descrita como parte de alguma mitologia ou dogma, mas pura e simplesmente uma experiência imediata. A religião para essas pessoas significa as formas institucionais de religião e seus mitos, crenças e dogmas; e elas não se sentem mais confortáveis com esse tipo de religião mas se sentem confortáveis com aquilo que eles denominam de espiritualidade, que consiste em não acreditar em dogmas e sim em um processo que emerge na consciência pessoal.

Claramente ambas existem e são importantes para os seres humanos. Provavelmente cerca de 60% da população mundial frequenta algum tipo de religião institucional, seja ela islamismo, judaísmo, cristianismo, budismo ou hinduísmo, eles acreditam em seus fundamentos, sendo muito importante o significado de tudo isso em suas vidas.

Essas questões são centralmente importantes para a condição humana e , assim, continuo a escrever sobre ciência, espiritualidade e religião em uma tentativa de mostrar como elas se fundem e como elas podem ser incluídas em uma visão de mundo coerente.


Com o padre Thomas Keating, num diálogo sobre cristianismo e espiritualidade integral.

 

5. Em 2007, o Dr. James Watson, co-descobridor da hélice dupla do DNA, prêmio Nobel de 1962, fez declarações interpretadas como racistas, estimulando a imagem popular do gênio científico a serviço do mal. Como podemos entender esse paradoxo?


Esta é uma das razões por que é importante olharmos todos os cinco elementos que compõem o Modelo Integral. O que descobriremos quando olharmos as linhas de desenvolvimento é que elas podem se desdobrar de uma maneira muito desigual. Este é o caso de alguém que é altamente desenvolvido cognitivamente, mas moralmente subdesenvolvido.

É um fator importante para se levar em conta para entendermos alguns desses tipos de declarações. Os racistas são indivíduos que podem apresentar um desenvolvimento cognitivo alto e um desenvolvimento moral muito pobre, e o fato de que eles obtenham alta pontuação em testes de Q. I. não significa que esses pontos possam ser traduzidos em feitos concretos – estamos falando de inteligências múltiplas.

 

6. Frijof Capra e Amit Goswani, que professam um “novo paradigma” misturando física quântica com religião, e ateus no outro extremo – Richard Dawkins, Hitchens, Dennett e Sam Harris – parecem nadar contra a corrente daquilo que você vem propondo. Qual sua posição frente a essas tendências do debate contemporâneo?


O que eu tenho a dizer é que ambos os lados estão errados.

Começando com Richard Dawkins e cia, eles estão simplesmente negando todas as formas de espiritualidade. O que isso quer dizer, na maior parte das vezes, é que eles estão negando as formas literais e míticas da religião.

Abordando a questão no nível científico, eles naturalmente descartam o nível mítico, crítica com a qual eu concordo em parte, contudo existem outros tipos de espiritualidade que precisam ser reconhecidas e entendidas.

Eles simplesmente jogam ralo abaixo o bebê junto com a água do banho.

O outro grupo, do Tao da Física, está querendo dizer inocentemente que as afirmações da física quântica e os ensinamentos das tradições de sabedoria são idênticas.

Eu até entendo o que eles estão querendo dizer, porém eu não acredito que seja verdade.

Penso que tanto a mecânica quântica quanto a espiritualidade sejam verdadeiras mas não creio que a física quântica possa provar ou demonstrar a não-dualidade espiritual.


Em primeiro lugar, a mecânica quântica é um esquema de símbolos de terceira pessoa: quando você experimenta a mecânica quântica você não está tendo nenhuma experiência mística, você está apenas lidando com um esquema de símbolos matemáticos.

É essa operação matemática que eles dizem ser mística, mas não há nada de místico na mecânica quântica. Portanto, em todo esse debate ambos os lados cometeram grandes erros.

Eu até posso concordar em parte com o que eles estão dizendo, mas essencialmente eles estão assumindo posições incorretas em termos de espiritualidade.


Link YouTube | Sátira ao filme new age “What the bleep do we know” (“Quem somos nós”), com falas de Amit Goswami.

 

7. Você escreveu um romance criticando o narcisismo da geração Baby Boomer (Boomerite, 2002). O que você pensa sobre essa nova geração que vive a era da Internet e parece ficar confusa entre o mundo real e o virtual?


Tenho um sentimento confuso com relação a essa questão porque a impressão que tenho é que há um desnível entre o que eu percebo por estar lidando diretamente com os jovens no Instituto Integral e o que parece estar acontecendo lá fora.

Os jovens com os quais eu travo contato me parecem surpreendentes: não são narcisistas, são inteligentes e demonstram possuir um desenvolvimento saudável. Parece, assim, ser uma grande geração.


Contudo, algumas das coisas que eu leio sobre essa geração são de fato perturbadoras.


Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns alunos recentemente graduados das escolas secundárias receberam testes para medir o Q.I. e também para avaliar o seu grau de narcisismo.

De acordo com esses testes parece que essa geração é a mais narcisista de todos os tempos.

 

8. Quais são as principais características do novo milênio e quais são os desafios que atualmente a humanidade precisa enfrentar?


É interessante notar que pela primeira vez na história os principais problemas mundiais são globais e são essencialmente provocados pela ação do homem – e isso inclui coisas como a crise global financeira, a crise ambiental das mudanças climáticas e o terrorismo.

Essas questões são de fato globais, são tendências transnacionais e não há nada que uma nação individualmente possa fazer. Então, estamos enfrentando não apenas problemas que são globais em sua natureza, mas que exatamente por isso as suas soluções precisam, também, ser globais.



 

Agradecimentos

Gostaria de agradecer ao Dr. Ari Raynsford, o maior especialista na obra de Ken Wilber no Brasil, que gentilmente me recebeu em sua casa me esclarecendo sobre diversos pontos da vida e da obra wilberiana.

Deixo também um abraço para o pessoal do PapodeHomem, que abriu um espaço para um autor tão importante quanto desconhecidos por muitos brasileiros.

E aguardo seus comentários. Já conheciam Ken Wilber? Ficaram instigados para ler mais?

Felipe Cherubin

Jornalista, formado em Direito e Filosofia, cursou filosofia na Harvard Extension School e é colaborador do jornal O Estado de S. Paulo, Revista Cult e Revista Dicta & Contradicta. Trabalha na É Realizações (@erealizacoes).