segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Plena Atenção, Êxtase, e Mais Além -- Um Manual do Meditador


Plena Atenção, Êxtase, e Mais Além
 
Um Manual do Meditador
 
AJAHN BRAHM

Capítulo 3



Os obstáculos à Meditação I

Parte 1
Neste capítulo e no próximo vou falar em detalhes sobre os cinco obstáculos, obstáculos que você vai encontrar em sua meditação e que você deve aprender a superar. Estes obstáculos para a meditação profunda são chamados na língua Pali de “nivarana”, que significa literalmente “fechar uma porta” ou “obstruir a entrada em algo”, e isto é exatamente o que os obstáculos fazem. Eles bolqueiam a sua entrada nos estados de profunda absorção, ou jhanas, além de obstruir ou enfraquecer a sabedoria, reforçando a delusão.


Portanto, se vamos afirmar algo sobre os inimigos da meditação no Budismo, pode-se dizer que os cinco obstáculos são o Inimigo Público Número Um. Eles impedem que as pessoas se iluminem e é precisamente por esta razão que a compreensão e superação destes cinco obstáculos é crucial. Se você não os compreende completamente, não pode superá-los.


Alguns professores deixam de falar dos obstáculos com suficiente clareza, especialmente aqueles obstáculos muito sutis. São estes obstáculos mais refinados que impedem você de entrar em meditação profunda. Se você não buscar identificá-los e superá-los, então eles permanecerão no controle da sua mente. Você estará obstruído para desfrutar o êxtase da mente e do desenvolvimento dos grandes “insights” da iluminação.


Basicamente estes cinco obstáculos ficam entre você e a iluminação. Quando você os conhece, tem uma boa chance de superá-los. Se você ainda não alcançou os jhanas, significa que você ainda não compreendeu totalmente os cinco obstáculos. Se tiver mergulhado nos estados mais profundos, então você já superou os obstáculos. É simples assim.


O Buda denominou os cinco obstáculos da seguinte forma: desejo sensorial (kama-cchanda), má vontade (vyapada), preguiça e torpor (thina-middha), inquietação e remorso (uddhacca-kukkucca), e dúvidas (vicikiccha). Esta é a ordem usual como o Buddha os classifica, e é também a ordem em que serão apresentados aqui.



O Primeiro Obstáculo – Desejo Sensorial


Kama-cchanda, ou desejo sensorial, é o primeiro da lista dos obstáculos devido à sua importância. É o principal obstáculo que nos impede de entrar na meditação profunda. Poucos meditadores compreendem plenamente o seu alcance. Não se trata apenas do desejo sensorial como este é geralmente entendido. Em primeiro lugar, a palavra Pali kama se refere a qualquer coisa relevante aos cinco sentidos da visão, audição, olfato, paladar e tato. Chanda significa “ter deleite em” ou “estar de acordo com”. Juntos o termo composto kama-cchanda quer dizer “prazer, interesse, envolvimento com o mundo dos cinco sentidos.”


Por exemplo, quando estamos meditando e ouvimos um som, por que não podemos simplesmente ignorá-lo? Por que é que o som nos perturba tanto? Muitos anos atrás, na Tailândia, os vilarejos locais em torno de nosso mosteiro realizaram uma festa. O ruído dos alto-falantes era tão alto que parecia destruir a paz em nosso mosteiro. Então fomos reclamar para o nosso professor, Ajahn Chah, que o ruído estava perturbando a nossa meditação. O grande mestre respondeu, “Não é o ruído que perturba vocês, são vocês quem perturbam o ruído! “


Nesse exemplo kama-cchanda era o envolvimento da mente com o som. Da mesma forma, quando a sua meditação é interrompida por uma dor nas pernas, por exemplo, então não é a dor que perturba você, mas é você quem perturba a dor. Se você tivesse mantido a plena atenção, teria percebido a sua percepção indo para o corpo, interessando-se novamente pelas sensações. Isso foi kama-cchanda em ação.


É difícil superar o kama-cchanda porque somos muito apegados aos nossos cinco sentidos e os seus assuntos. Tudo aquilo a que somos apegados, acreditamos que é impossível abrir mão. Para entender esse apego é útil analisar a ligação entre os cinco sentidos e o nosso corpo. O senso comum alega que os cinco sentidos estão ali para proteger o nosso corpo, mas o insight vai nos dizer o oposto: que o corpo está lá para servir de veículo para os seus cinco sentidos brincarem no mundo. Além disso você vai perceber que quando os cinco sentidos desaparecem também o seu corpo desaparece. O deixar ir de um equivale ao deixar ir do outro.


Abandonar Kama-cchanda pouco a pouco


Você não pode simplesmente decidir abrir mão dos cinco sentidos e do corpo com um único esforço de vontade. O abandono de kama-cchanda na meditação é alcançado pouco a pouco. Você começa pela escolha de um lugar confortável e tranquilo para meditar. Você pode se sentar em uma cadeira se for mais confortável para você, lembrando que até mesmo o Buddha às vezes sentava numa cadeira. Quando inicialmente fechar os olhos você ainda não conseguirá sentir muito do corpo. Da mesma forma que leva alguns minutos para voltarmos a enxergar quando saímos de uma sala bem iluminada para a escuridão, também leva alguns minutos para nos tornarmos sensíveis às nossas sensações corporais. Assim, os ajustes finais para a nossa postura corporal são feitos alguns minutos depois de termos fechado os olhos.


Ser tolerante desta forma com o kama-cchanda fará aquietá-lo por algum tempo. Seu corpo vai se sentir confortável e os cinco sentidos satisfeitos, mas não por muito tempo. Você deve usar essa liberdade inicial para começar a colocar a mente além do alcance dos cinco sentidos. Você começa com a consciência do momento presente. A maior parte, se não todo o nosso passado e futuro, é ocupado pelos assuntos dos nossos cinco sentidos. Nossas lembranças são de sensações físicas, sabores, sons, cheiros ou imagens. E os nossos planos são igualmente preenchidos com os assuntos dos cinco sentidos. Conquistando a consciência do momento presente eliminamos boa parte do kama-cchanda.


A próxima etapa da meditação é a consciência silenciosa do momento-presente. Nela é possível abandonar todos os pensamentos. O Buda identificou um aspecto de kama-cchanda que é chamado de kama-vitakka, que significa pensar o mundo dos cinco sentidos. Para o meditador novo, a forma de kama-vitakka mais óbvia é a fantasia sexual. Uma pessoa pode gastar muitas horas com este tipo de kama-vitakka, especialmente durante um retiro longo. Este obstáculo para progredir na meditação é transcendido quando percebemos, através de “insight” ou de fé, que a liberdade total dos cinco sentidos (ou seja, jhana) é mais estática e profunda do que o melhor das experiências sexuais. Um monge ou monja abre mão de sua sexualidade não por medo ou repressão, mas pelo reconhecimento de algo superior. Mesmo pensamentos sobre comida pertencem ao kama-vitakka. Eles perturbam o silêncio.


Poucos meditadores entendem que observar as sensações corporais como, por exemplo, pensar consigo mesmo “inspirando” ou “ouvindo um som” ou “sentindo uma dor cortante”, também faz parte do kama-vitakka e é um obstáculo para o progresso.


Lao Tzu, o grande sábio Taoísta, permitia que um aluno o acompanhasse em sua caminhada noturna desde que o aluno se mantivesse em silêncio. Uma noite, chegando no alto da montanha, o aluno comentou, “Que pôr-do-sol lindo”. Lao Tzu nunca mais deixou que este aluno o acompanhasse. E ao perguntarem o motivo, o mestre explicou: “Quando o aluno disse, ‘Que pôr-do-sol lindo’, ele já não estava assistindo ao pôr-do-sol, estava apenas observando as palavras”. É por isso que você tem que abandonar o ato de observar, pois assistir às palavras não é estar atento à coisa que tenta em vão descrever.


Na consciência silenciosa do momento-presente, é como se o mundo dos cinco sentidos estivesse então confinado em uma jaula, incapaz de vagar ou criar qualquer confusão. Em seguida, a fim de abandonar completamente os cinco sentidos e, com eles, o corpo, você escolhe focar a sua atenção sobre uma pequena parte do mundo dos cinco sentidos e exclui o resto. Você focaliza a sua atenção sobre a sensação física da respiração, não dando atenção para as outras sensações em seu corpo, nem aos sons e assim por diante.  A respiração torna-se o trampolim do mundo dos cinco sentidos para o domínio da mente.


Quando você conseguir sustentar a plena atenção sobre a respiração, vai notar a ausência de qualquer som. Você não vai reconhecer o momento em que a audição pára porque a sua natureza é de desaparecer gradativamente. Tal desvanecimento, como a morte física, é um processo, não um acontecimento.


Geralmente você percebe, quando revisa a sua meditação no final da sessão (como aconselhado no capítulo 2), que durante um certo período a sua mente estava indiferente a qualquer som. Você também vai perceber que o seu corpo havia desaparecido, que você não podia sentir as mãos, nem recebia mensagens de suas pernas. Tudo o que você percebia era a sensação da sua respiração.


Alguns meditadores ficam alarmados quando partes dos seus corpos parecem desaparecer. Isto evidencia o forte apego seu ao corpo. É kamacchanda em ação, prejudicando o progresso da meditação. Normalmente você logo se familiariza com o desaparecimento das sensações corporais e começa a deliciar-se na tranqüilidade maravilhosa que fica alés do alcance das sensações. É a liberdade e alegria que nascem do “abrir mão” que repetidamente nos incentivam a abandonarmos os nossos apegos.


 Logo a respiração desaparece e a sua mente é preenchida pela imponência do nimitta. É somente nesta fase que você abandonou totalmente o kama-cchanda, o seu envolvimento com o mundo dos cinco sentidos. Pois quando o nimitta se estabelece, todos os cinco sentidos são extinguidos e o seu corpo está fora de alcance.


O primeiro e maior obstáculo foi então superado e você está em êxtase. Está à porta dos jhanas. Este é o método para abandonar kama-cchanda aos poucos.


É por isso que as fases da meditação são ensinadas desta forma. Como o Buda disse na Jatakas (Ja 4,173) “quanto mais você abandona o mundo dos cinco-sentidos, tanto mais você experimenta o êxtase. Se quiser experienciar o êxtase completo, então abandone completamente o mundo dos cinco sentidos.”



(a continuar)

Tradução: Muriel Paraboni

Revisão: Monja Isshin

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