quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Meditar e cozinhar...

Meditar e cozinhar, uma boa dupla

Os preceitos da culinária Shôjin, adotada nos mosteiros zen budistas, podem transformar a maneira como você prepara a sua refeição.


Cortar os legumes e apenas cortá-los. Lavar as louças e apenas limpá-las. Tudo em silêncio e sem a algazarra estrondosa do bater panelas, derrubar ou quebrar copos, esquecer o fogo alto aceso. Mais do que fritar, assar,cozinhar, grelhar, estar na cozinha, preparar a refeição, limpar a bagunça, pode ser um tremendo treinamento para acalmar a mente e trazer a almejada paz de espírito.

A ideia, em um primeiro momento, soa bem estranha. Meditação tem a ver com um lugar calmo, uma almofada, um incenso e você sentado na tradicional posição de lótus. Pois bem, cozinhar e, na sequencia, saborear o alimento pode provocar efeitos semelhantes aos experimentados na tradicional meditação. Mesmo com aroma da sopa fervilhando no fogão e as mãos cheirando a alho ou cebola recém-fatiada. Pelo menos esse é o pensamento da chamada culinária Shôjin, praticada nos mosteiros que seguem a tradição do zen budismo. Nesses mosteiros, o tenzô (o cozinheiro) é sempre um monge com alta elevação espiritual. É ele quem decide o que será preparado e quem coordena o trabalho na cozinha.

Os princípios da culinária Shôjin, aliás, muito têm a ver com um jeito mais sustentável de se nutrir. Por exemplo, o alimento deve ser aproveitado integralmente - nenhum talo, semente ou casca é desperdiçada. E só se usa legumes, verduras e frutas `da época¿ e cultivados na região - obviamente tudo é orgânico. Muitos mosteiros têm, inclusive, seu pomar e horta. A alimentação é vegetariana e os monges cozinheiros fazem tudo em absoluto silêncio. Na maneira mais tradicional, também não se usa nem cebola, nem alho. E as cores e os sabores dos alimentos também devem ser levados em conta para que exista um perfeito equilíbrio. Por isso, não podem faltar, em uma refeição, amarelo, branco, verde, vermelho, preto ou roxo e marrom; e os sabores ácido, picante, amargo, salgado e doce.

São poucos os mosteiros no mundo - boa parte deles estão no Japão que seguem o Shôjin. No Brasil, o Mosteiro Zen Morro da Vargem, que fica em Ibiraçu, no Espírito Santo, segue os ensinamentos do mestre Dogen (1200 a 1253), que introduziu a escola Soto, do Budismo Zen. Em Morro da Vargem, o preparar a refeição e saboreá-la faz parte da prática para entender o caminho da iluminação. E quando o assunto é cozinhar, o mosteiro segue livros como o Tenzo Kyokun (instrução para o chefe de cozinha do mosteiro), o Fushuku Hanpo (como comer o desjejum e o almoço) e o Jikuinmon (orientações sobre a cozinha, armazenamento e processamento dos alimentos). "No Mosteiro, preparam-se as refeições diárias com vegetais e legumes em sua maioria colhidos na própria horta. Seguindo o preceito de respeitar todas as criaturas vivas, Dogen Zenji nos diz que o melhor alimento é resultado de três elementos: do próprio alimento, de quem o come e de quem o prepara", escreve o Reverendo Hokan Saito, abade do Templo Mirokuji, em Ieakuni, no Japão. "O alimento na vida do Zen nos dá não somente a nutrição, mas contentamento e gratidão", completa Hokan Saito. A pedido das pessoas que frequentam o mosteiro de Morro da Vargem e que já provaram as deliciosas refeições preparadas por lá, foi publicado, ano passado, o Livro de Receitas Mosteiro Zen Morro da Vargem, no qual o mestre cozinheiro do lugar ensina a fazer delícias como o estrogonofe de glúten com couve-flor, a panqueca de ricota com taioba e a sopa de cenoura com gengibre, que ilustra essa matéria.


O preparo

Monja Gyoku En, do Budismo Zen, já provou a saborosa comida preparada no Mosteiro Morro da Vargem. "Os monges comiam o que havia por lá. Às vezes, serviam jaca assada, jaca cozida, jaca à milanesa. Caroço de jaca assado, cozido, torrado e feito farinha. Tinha milho que virava uma massa de pizza deliciosa, com molho de tomate da horta e queijo produzido ali mesmo com leite da vaca que era criada pelos monges", conta Gyoku. E continua: "o que mais me encantou definitivamente naquela cozinha foi a simplicidade, a limpeza, a organização, a disposição dos objetos da cozinha e o comportamento dos monges, que, ao cozinhar, mantinham-se atentos e em silêncio". Monja Gyoku En teve contato mais direto e intenso com a culinária Shôjin depois que recebeu a ordenação monástica e passou algum tempo no Mosteiro Shogoji, no Japão, onde pode observar como os monges mais experientes preparam o alimento. Esse aprendizado se transformou em oficinas sazonais. E, há pouco mais de um ano, em um livro O Zen na Cozinha (editora Sustentar).

Gyoku nasceu em Belo Horizonte e sempre adorou ver a avó e a mãe cozinhar. Foi criada com a casa sendo perfumada pelo aroma dos pratos preparados no fogão a lenha. Quando jovem, foi para São Paulo e começou a fazer sozinha a própria refeição. Da relação emocional com a cozinha da infância, brotou o interesse pela culinária Shôjin, que conheceu depois de sua ordenação. "Nos grandes mosteiros, é o tenzô quem define o cardápio, escolhe os alimentos. E o cozinhar é silencioso. Mas é um silêncio natural, porque enquanto se cozinha, os outros monges meditam", conta ela. "É o silêncio que ajuda a transformar o cozinhar em meditação. E é pelo silêncio que você entende mais as pessoas do que quando está falando. Sua percepção fica mais aguçada", pondera. Segundo a monja, que hoje mora em Brasília, com uma certa dose de atenção - o tal estar presente no aqui agora - conseguimos perceber, na cozinha, como está nosso lado emocional. Se estamos agitados ou com muitas preocupações, é quase inevitável derrubar o copo, bater as panelas, deixar a comida queimar, exagerar no sal na hora de temperar. "Isso é envolvimento, o estar inteiramente presente, não dividido e totalmente devotado ao ofício decozinhar", acredita a delicada e simpática Monja Gyoku En, que adora assistir a programas de culinária na TV a cabo, como os de Jamie Oliver, Chuck Hughes, que tem um restaurante em Toronto, no Canadá, e Rachel Koo, uma inglesinha que mora em Paris, estudou na prestigiada escola Le Cordon Bleu etransformou sua quitinete em um restaurante: La Petite Cuisine à Paris.


O saborear

O respeito pela comida é muito importante no Shôjin. Isso, aliás, é um princípio do zen budismo: a não discriminação. "Cozinhar no estilo Shôjin requer uma atitude sincera e respeitosa em relação aos alimentos, não julgá-los pela aparência e ter os mesmos cuidados e consideração para com todos os alimentos. Preparar a comida cuidadosamente, seja grande ou pequena a quantidade, raro, caro comum ou acessível, sem discriminação", diz a Monja Gyoku En.


Além do respeito no comer, é importante manter o ambiente agradável. Monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista por aqui, costuma dizer que a refeição não precisa ser silenciosa. No dia a dia, em família, a conversa épermitida, mas nada de assuntos que possam causar aflição, angústia ou discórdia. "É um momento para compartilhar o que temos e para compartilhar a vida", diz.

Para Gyoku En, uma das coisas que está adoecendo no mundo de hoje é a nossa atitude no comer. Isso porque as pessoas não percebem o que estão colocando na boca, fazem isso de frente para a tevê, se alimentam de maneira ansiosa e não se permitem experimentar novos e diferentes sabores. Segundo ela, o espírito da culinária Shôjin está em cozinhar para fazer os outros felizes e compartilhar essa refeição com quem a gente ama.

Cozinhar, afinal, pode ser algo bem mais profundo do que podemos imaginar. Como diria Monja Coen, precisamos fazer a cada instante da nossa vida, um instante de prática. E por que não na cozinha, certo?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Pico da Montanha é onde estão os meus pés.: Quem é este que quer permanecer?

Quem é este que quer permanecer?

Quem é este que quer permanecer?


Aluno – Se a pessoa faleceu, a mente acaba também? Gostaria de saber se há uma continuidade...

Monge Genshô – Por que você realmente quer saber isso?

Aluno – Por mais grandiosa que é a vida, às vezes parece pouco. Parece que nós queremos, de certa forma, permanecer na vida.

Monge Genshô – Quem quer permanecer nessa vida?

Aluno – Eu gostaria de permanecer...

Monge Genshô – Cada EU individual quer se manter, permanecer. É por isso que fazemos estas perguntas, como: “A consciência sobrevive à morte”? Mas o EU não tem como sobreviver à morte. Você tem como relembrar da sua vida passada? Portanto o EU daquela vida passada não sobreviveu, uma vez que este EU é basicamente constituído de suas memórias. Então meu EU, nenhum EU, sobrevive à morte. Mas sabemos que a vida continua, que o universo continua. Inevitavelmente, pela lógica, nós continuamos. Nosso carma, essa onda cármica, continua se manifestando. Sua personalidade, certas características, vieram de algum lugar. Portanto você é continuidade, mas não de um eu. Que existe continuidade é certo, que não há continuidade de um EU, também é certo. Até porque não há necessidade de você morrer para que seu EU desapareça. Minha mãe morreu de Alzheimer com 97 anos. Ela não sabia mais quem ela era. Nem quem eu era. Nem como o mundo funcionava. Isso é natural. O nome que ela deu-me é Petrucio. Eu estava sentado com ela, pouco antes dela morrer, quando ela me disse: “Mas quem é você?”. Eu disse: “Eu sou Petrucio”. Ela disse: “Não, Petrucio é uma criança”.

Aluno – A filosofia budista não toca no assunto da reencarnação?

Genshô – Isto não é um assunto budista, como uma alma ou partícula essencial. Essa é a pergunta mais frequente que eu respondo aqui. Essa idéia vem da doutrina hinduísta, baseada na idéia do atman, uma alma indivisível que transita de um corpo para outro. E o espiritismo moderno, que apareceu na França, também assimilou esse tipo de doutrina, que está bastante espalhada pelo mundo. Mas Buda ensinou que não existem nem almas nem espíritos permanentes. Nada é permanente, nem nenhum EU é permanente. Portanto, a palavra reencarnação não se aplica, pois não há nada para ganhar uma carne nova. Esta é uma tentativa do ser humano de permanecer. Como queremos permanecer, há necessidade de ganhar um corpo novo. Eu também quero um corpo novo, este aqui já está um pouco prejudicado. Então nós podemos perceber que nós queremos tremendamente que o EU permaneça, pois nós amamos demais a nós mesmos. E é exatamente por isso que as religiões foram criadas, para dar a esperança que meu EU continue. Então inventamos céus, infernos, reencarnações… Por isso o budismo tem a tendência de não ser muito popular, pois quando as ilusões chegam, a tarefa do professor do Zen é puxar o tapete debaixo do aluno e tirar-lhe todas as muletas, todas as crenças e apoios, e dizer-lhe: “Agora sim, agora você está livre”, e por isso fazemos o voto: “delusões são inexauríveis, faço o voto de extinguí-las todas”. E a mais forte, mais terrível, mais venenosa ilusão é o EU. Parece uma falta de esperanças, mas, na realidade, esta é a grande esperança, maravilhosa, pois significa engolir todo universo e a eternidade.

Aluno – Como realizar tudo isso em apenas uma vida?

Genshô – Não tenha pressa,  há bastante tempo nas próximas...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Arte e psicanálise, a cultura molestada por Freud

Arte e psicanálise, a cultura molestada por Freud | WTF #35







A psicanálise, um peculiar método terapêutico que foi coqueluche no século XX, e se embasa na interpretação da fala mais ou menos espontânea do paciente segundo modelo teórico específico, continua relativamente forte em certos nichos: aqui, França e Buenos Aires são exemplos. Porém, é bastante claro — na formação dos departamentos universitários, e para onde vai o dinheiro de pesquisa, num nível mundial –, que ela cada vez mais cede espaço para tentativas de finalmente transformar a psicologia numa ciência hard, matematicamente modelada e dotada de verificações experimentais universais e repetíveis. Em meio a esse cenário, a psicanálise perde seu lugar nas universidades e acaba espremida em institutos privados e autocredenciados, onde gente com uma ideia de chique (talvez meio datada) muitas vezes a busca estudar com élan de atividade extracurricular da vida, como quem faz cerâmica ou tapeçaria.

Quando em algumas conversas levanto críticas (por exemplo, as de Wittgenstein, num nível epistemológico) com relação à psicanálise, uma reação comum e digna de respeito é martelada: a psicanálise é o último bastião da alma num admirável mundo novo de epifenomenalismo, funcionalismo e, principalmente, fisicalismo. Explico. O viés psicanalítico é tido por seus defensores como mais humano do que a mecânica psiquiátrica e das neurociências, e mais propriamente profundo do que o behaviorismo 2.0 da psicologia cognitiva. Enfim, não interessa a base ou sustentação física do fenômeno mental por excelência subjetivo, é dele e apenas dele que trata o processo de análise. Essas outras disciplinas estão preocupadas com dados grosseiros, informações brutas, tais como indícios químicos e físicos na caixola, ou comportamentos mensuráveis — nem que seja por questionários e testes (cuja elaboração, por si só, mesmo na psicologia mais poindexteriana e com pretensões de método científico clássico, está cheia de labirintos epistêmicos insolúveis, que vão das determinações linguísticas ao processo de adaptação seletiva, e toda sorte de complexidade biológica, matemática e estatística até um limiar quase autodeclaradamente místico, que, ironicamente, acaba por soar tão charlatão quanto o autoconfesso próprio “Lacan”. Essas aspas aí também só para gerar frisson lanacal, não repare.)

Lacanagem: “De um discurso que não fosse semblante”. Fingimento, claro, como cara-de-pau

Esse ponto é digno de respeito porque realmente há problemas com a psiquiatria e seu manual principal, claramente voltado para o benefício da indústria farmacêutica e não da saúde pública (a psicanálise não tem interesse econômico? Bom para a isenção dela!).

E não só o viés econômico assola a “ciência dura”: por maiores que sejam as conquistas da neurociência e das outras ciências cognitivas, o fato é que não há evidências ou provas dos fundamentos assumidos, tais como o fisicalismo. Bastam algumas aulas de filosofia da mente para se entender que todas as tentativas usuais de explicação da mente estão carregadas de problemas complexos. Nenhuma delas “provada” sob nenhuma concepção adequada do termo.

O sucesso da mecânica newtoniana em explicar a maioria dos fenômenos mecânicos corriqueiros de forma alguma é prova de que a noção de espaço newtoniano é o caso. Algo semelhante ocorre hoje com as ciências cognitivas, que se mostram efetivas em explicar determinados fenômenos, mas que a partir disso querem esfregar, de lambuja, seus fundamentos injustificados em nossas caras.

O funcionalismo, mais ou menos

Mas a psicanálise, com sua “crítica literária” do discurso do paciente, sujeito tornado objeto de hermenêutica bizantina, é mesmo o tipo de contraposição adequada aos métodos cada vez mais vitoriosos das ciências cognitivas? Em vez da análise meticulosa (e tediosa) dos dados brutos, um espaguete teórico em torno do fenômeno complexo do discurso, em amostras breves e relativamente aleatórias, com os vieses levemente disfarçados com suposto rigor conceitual?

Pessoalmente acredito, como única possibilidade de combate a essa tendência mecanicista, no método introspectivo com a instrumentalização de métodos orientais de meditação — instrumento aperfeiçoado e aguçado da introspecção, que é justamente o que faltava nas primordiais tentativas frustradas de Wilhelm Wundt e Edward Titchener.

Ainda que muito se fale nessas conexões em certos âmbitos, e dentro da ciência cognitiva mesmo, o desafio da crença metafísica no monismo fisicalista (e no mais insidioso e complexo funcionalismo) está muito longe de ocorrer nesse contexto. Mas ainda virá. Mas dificilmente das emoções baratas do interpretatio furioso dos conceitos psicanalíticos.

Outro fetiche cada vez mais lugar-comum: mensurar monges

A moribunda psicanálise raramente tenta, hoje, posar como ciência, e de fato há uma tendência nesses círculos de certa “discriminação engenheira”, isto é, de zombar das tentativas meio nerds (é verdade) de colocar fios, tubos de ensaio e estatísticas na mente.

Por mais que a moda entre os jovens já seja, por mais de 10 anos, o geek desbragado, quase evangélico da ciência e seguidor do Neil Degrasse Tyson, ou algo do tipinho… o psicanalista segue o arquétipo do intelectual sempre de alguma forma ligado a algum tipo datado de classicismo pós-iluminista/pós-darwinista, e hype de performer pós-estruturalista/pós-moderno, que utiliza todo um arcabouço cultural e artístico, histórico e antropológico, adicionado a uma série de conceitos não óbvios dentro de uma teoria que sempre soa um pouco deliberadamente demais complexa — um uso quase totêmico da polissemia e do jargão, definições que “requerem anos de clínica e estudo para depreender” –, tudo isso para extrair do indivíduo certas pistas sobre, em particular, tópicos “ocultos” dele, sobre ele mesmo, para ele mesmo. Algum viés terapêutico sobrevive, em algum lugar. No mais das vezes aponta-se o quanto é frustrado sexualmente, ou alguma platitude dessas — isso, claro, bem lá no fundo, escondido por trás de uma pilha de verborragia.

Trata-se, enfim, de outra forma de cultura de epifania, em que coisas sempre significam outras coisas, numa dança infinita de anagramas simbólicos, salientes particularmente se nos deixam de cabelos eriçados, ou se apelam para nosso cabritismo – horror ou lascívia, e, preferencialmente, ambos.

Capa do Seminário, Livro VI, O desejo e sua interpretação. “Ora, meter, né?”, diria um conhecido meu que é putanhesco e vulgar

(Podemos até desconfiar se na tentativa toda não há uma “cabala do pequeno outro ‘a’”, não do outro biggus dickus, Deus – se é que vamos nos enveredar em imputar complexos judaicos milenares implícitos na verve freudiana. O fanático poder argumentativo de Freud, que realmente escrevia extremamente bem, é tão talmúdico quanto brilha de cristais de cocaína e ruas recém iluminadas por eletricidade. É o paradigma da ciência vitoriana, com o ethos judaico reprimido mas bem presente, se deparando com a complexidade da modernidade — cosmopolita, de cidade grande, num nível nunca antes visto — pela primeira vez.)

Mas e a penetração da teoria psicanalítica na cultura? No título, brinquei com Freud como um molestador, mas quem me explicou pela primeira vez quem foi Dr. Freud e o que era o complexo de Édipo foi, ora, minha mãe.

Salvador Dalí, “O enigma do desejo ou minha mãe, minha mãe, minha mãe”, 1929

Nada demais nisso, e se com você não foi assim, foi provavelmente pela tela da TV, no comentário de alguém entrevistado pelo Jô Soares, na novela Mandala (Globo, 1987-88), ou sei lá, lendo Tio Patinhas.

E esse é o aspecto que considero mais interessante da teoria psicanalítica: seu efeito na cultura, em feedback. Embora tenha claramente se beneficiado do modismo em torno de sua teoria, Freud se horrorizou com as primeiras tentativas de artistas de incorporar versões de almanaque da psicanálise em obras de arte. Ora, o que seria o movimento surrealista senão exatamente uma tentativa de transformar em arte a exposição pública do objeto de análise?

Afinal, a teoria tinha um apelo para as massas que misturava histórias de detetive e literatura erótica.

Slavos Žižek no apartamento de Dorothy, de Blue Velvet

Essa retroalimentação, o Ouroboros incestuoso do porn epistêmico — isto é, o frisson quase sexual com a contínua descoberta de sentidos (também estes, no mais das vezes, sexuais) transformou a teoria psicanalítica ela mesma num objeto de fetiche. E esse aspecto sexy da latência de um “curandeiro da histeria” que masturba sua (o feminino aqui proposital) paciente de forma puramente platônica, e bem verbalmente voyeurística, torna-se aos poucos, no século XX, o espetáculo do pensador público que acata o pós-pós todo e os estudos culturais. Um polemista Vaudeville tal como Slavos Žižek, ironicamente glorificando, via Lacan e, pasmem, Marx, a análise do impacto cultural da psicanálise – seja este, numa dada obra, propositado ou inadvertido.

Da psicanálise pelo artista no surrealismo também marxista de um Buñuel, por exemplo, nos voltamos ao psicanalista público da cultura como bobo da corte. E os dois extremos se encontram num beijo apaixonado do Alien (desenhado como fálico e vaginal, simultaneamente) com a Tenente Ripley.

E isso, curiosamente, acaba um espetáculo cativante — também por sua inclusão num momento histórico, e seu apelo de nicho.

Costurando Esse Obscuro Objeto do Desejo da Conchita duas-caras, a suposta virgem. Filme de Luis Buñuel, 1977

Isto é, não só a arte embute deliberadamente discurso psicanalítico, em incontáveis exemplos no séc XX; cada vez é mais aceitável nos estudos culturais utilizar a bolsa psicanalítica do Gato Félix para tudo: análise da trama e do autor, zeitgeist e consciência histórica — e assumindo o ponto de vista de analista divino, panorâmico, da produção cultural e da própria cultura.

Em meio a isso, nas notícias, a piada freudiana pronta: o charuto de Clinton, que foi além da função simbólica, príncipes que querem ser o OB de suas amantes, Anthony Weiner (Armando Pinto, ou algo pior). Na produção textual acadêmica, o ato falho constantemente imortalizado e glorificado, durante o próprio ato da teorização, como “riqueza polissêmenca”, ou algo do typo — ou, mais atual, autocorreção automática.

O psicanalista talvez busque uma união topológica do real com o simbólico e o imaginário, e diga que enfim, esses elementos teóricos são fatos, não invenções psicanalíticas. Mas, que diferença faz? Não é como se, fora de si mesma, ela sirva para qualquer coisa senão vender o frisson de si própria, junto com todo o universo de possibilidades do universo de frissons. Se revela estruturas subjacentes ou as incita, inventa, produz: tanto faz.

Freud, com sua pretensão vitoriana de ciência certamente se horrorizaria com a kitschificação via, por exemplo, Hitchcock – outro que descaradamente usava uma versão de almanaque das teorias para apimentar enredos, diálogos cheios de entrelinhas e até cinematografia. Filmes ótimos, aconchegantemente datados até na importância que dão a pirações freudianas!

Mas o pensador cultural hoje talvez glorifique exatamente a psicanálise pop, ou do pop, com o objetivo de incluí-la na teoria, ou intensificá-la, ou apenas, quem sabe, angariar simpatia. Afinal de contas os quadris da Shakira não mentem.

North by Northwest, uma ode psicanalítica à cunilíngua? A loura fatale hitchcockiana insinua depilação íntima e desce pelo nariz da enorme estátua de presidente

E isso também ocorre com o sexo e a morte no horror lynchiano. Um diretor cuja meditação transcendental e o compromisso quase asceta e “livre de ego” com a não interpretação da própria obra não enganam ninguém quanto à deliberação ultrassofisticada (e pós-moderninha) do simbolismo profícuo em sua obra, grande parte dele de viés escancaradamente psicanalítico.

E ninguém domina o pânico irracional da tela como Lynch. Passamos algumas vezes duas horas sem entender nada, mas só quem não arrepia é morto. E olhe lá.

O quão explícito será o porn epistêmico psicanalítico numa dada obra pode variar tanto quanto das entrelinhas do cinema ultralatente da era do código de decência ao smut gonzo, o reality show efetivamente pornográfico. Que, confessemos a nossos parceiros, está cheio de pirações ao estilo “Freud Explica” — afinal, a mente simbólica e fruitiva também rende punheta.

Mas esta lacanagem toda, esse Guia do Pervertido para o Cinema (o título do vídeo ele mesmo demonstrando, ainda que ironicamente, a lubricidade, agora feita explícita e desavergonhada, com a aplicação da teoria na cultura — mesmo que “perversão” sempre seja polissêmico técnico da psicanálise e julgamento moral na linguagem cotidiana, algo que não escapa ao piadista) indicam mesmo um sucesso inesperado da teoria freudiana.

A sua efetividade terapêutica segue irrelevante, seja porque a teoria é naturalmente antitética à mensuração, seja porque seus resultados são definidos de forma circular. Mas também porque, independente disso, que surge como mais importante, se mantém viva como, no mínimo, fetiche cultural.

Mas não só isso: se temos um exemplo do poder da teoria freudiana, ele está na aterrorizantemente efetiva psicologia de massas empregada em publicidade e relações públicas ao longo do século XX. Freud de fato conquistou algum talismã de atrair ou repelir o que quer que seja esfregado com certos fluídos teóricos, isso não podemos negar. O sigilo do gênio abraâmico segue ungido.

Somos todos Frank? “Abra as pernas… não, não olhe para mim, sua vaca!

Com o passar dos anos até sua velhice Freud se tornou cada vez mais cínico e pessimista com a natureza humana. Desconheço o quanto ele considerou o impacto de expor sua teoria, e versões mastigadas desta, sobre as massas. Se é que ele cogitava coisas nesse sentido senão para defender a pureza de seus argumentos: a pretensão original era científica, revelar o funcionamento da mente, não angariar discípulos, ou ser uma espécie de Kardashian do intelecto — por mais que a psicanálise desde o início tenha sido uma competição por espaço na mente dos intelectuais “da era do rádio”, e, ora, moda.

Ainda que ele ele, todos compreendamos, nunca tenha querido que ela se tornasse objeto de fascínio por motivos frívolos e talvez torpes. Isso ele de fato nunca esperou. Independente disso, o voyeurismo analítico (platônico, linguístico, cabalístico, assunto sério como a Alemanha) inexoravelmente paira sobre a cultura, embutido em nossos olhos agora treinados, e viciados, pela tara simbólica do totem e tabu do judeu vienense com um charuto na boca.


Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia.
Outros artigos escritos por Eduardo Pinheiro

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Pico da Montanha é onde estão os meus pés.: Corpo e mente estão ligados

Corpo e mente estão ligados


Aluno – Monge, tenho um questionamento que venho pensando há algum tempo sobre a diferença entre o corpo e a mente. Eles andam juntos, mas o corpo e a mente são a mesma coisa ou estão separados? Isso é muito confuso para mim…    

Monge Genshô – Nós separamos as coisas com palavras na tentativa de entendê-las. Nosso corpo e nossa mente estão intrinsecamente ligados. Se você ficar com febre, irá se sentir mal, bastante impaciente e vai querer sair daqui, ir para casa deitar e dormir. Sua mente será diretamente atingida pela doença do seu corpo. Por outro lado, se você tiver uma mente com raiva e sentir ódio de alguém, seu coração vai bater mais rápido, você vai ter adrenalina circulando, etc. Se você sentar em zazen e começar a pensar em uma situação de briga, sentirá as consequências. Seu corpo estará parado, mas sua mente agitada. Seu corpo, portanto, está ligado à sua mente, eles não podem ser considerados separados.

Por isso nós usamos o corpo para controlar a mente. Nós aquietamos o corpo e isso ajuda a aquietar a mente. Não adianta você dizer: “ah, eu quero ter uma boa mente”, mas vive agitando o corpo todo o tempo sem parar, ou com fones de ouvido com música bem alta, balançando as pernas e pensando: “o que vamos fazer agora?”. Eu fui pegar um parente no aeroporto e ele disse: “E aí, qual é o programa?”. Eu disse: “não tem programa…nós vamos chegar em casa em uma reunião de família, quando sentirmos fome colocamos a mesa, comemos, conversamos, se tiver um tempo bom podemos sair para caminhar, ir à praia… não tem programa”. Para ele aquilo é muito difícil. Ele estava com as costas muito tensas, pois trabalhava em uma empresa muito competitiva. Tentei levá-lo para o zendo em casa. “Suas costas estão terríveis, vou bater um pouco com o kyosaku (bastão zen)”. Ele deve estar contando a história até hoje. Na realidade, ele tinha que tratar o corpo, que estava tão atingido por essa tensão constante porque a mente dele está constantemente turbulenta.

A maioria das pessoas está vivendo um sonho assim, um sonho agitado e de grande ilusão. Então não conseguem aproveitar e viver a vida. Meu mestre, Saikawa Roshi, diz assim: “Enjoy your life”, aproveite a vida. Mas o que é aproveitar a vida? Ah, vamos sentar no jardim e conversar um pouco. Vamos regar as plantas… Mas nunca, até hoje, eu recebi um Monge na minha casa que tenha dito assim: “E ai, vamos ver televisão?” Isso é bastante interessante. Isso diz muito sobre o que o treinamento budista acaba fazendo. Não estou dizendo que não podemos ver televisão, mas o que você está vendo? Por que está vendo? O que pretende com isso? Quer enriquecer sua vida? Hoje temos canais apenas com concertos e coisas assim, mas suponho que eles tenham tido grandes dificuldades para vender isso. Não é o que parece lógico para as pessoas, assistir um concerto ou uma missa. É coisa de louco!

Durante toda a história do Budismo, muitos mestres foram considerados pessoas loucas no seu tempo. Ryokan é um dos mestres mais interessantes. Ele viveu há uns 200 anos atrás. Grande poeta e calígrafo. Filho de um político, ele retirou-se e foi viver em uma cabana que tinha quatro tatames. Significa que a cabana tinha mais ou menos 4x2m. Esta era o espaço onde ele vivia. Este poeta e calígrafo muito famoso, Ryokan, estava um dia em sua cabana catando piolhos e colocando em uma folha de papel. E estava muito frio, por isso Ryokan pensou “Ah, eles vão passar frio!” e os recolocou na cabeça. Perfeitamente louco não é?  Muito maravilhosa a atitude de Ryokan.

Bossa Zen: Preso a padrões

 Preso a padrões



Bossa Zen



As religiões tradicionais ainda levarão algum tempo para admitirem que pessoas do mesmo sexo se casem em suas instituições. Mas isso não deve ser um empecilho para a união de iguais.

Qualquer um pode fazer cerimonia de casamento ou de batizado, mas o que se vê é que as pessoas ficam presas a dependência de uma religião ou outra aceita-los para que sejam felizes nos seus relacionamentos. Se for por falta de bênção, até eu posso fazer a cerimonia. 

Não existe casamento gay ou casamento budista ou qualquer outro casamento em qualquer religião. O que existe é a união de duas pessoas que querem construir algo juntas. O casamento é um padrão institucional no qual não precisamos nos amarrar. Podemos ser felizes sem seguir padrões. Casemos no papel, ok. Uma bênção por quem nos respeita e isso já seria o suficiente. Insistir em mais pode trazer sofrimento pois as instituições religiosas também tem seus padrões e tem o direito de preserva-los ou muda-los quando acharem que assim deve ser.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O Pico da Montanha é onde estão os meus pés.: O teto do inferno é transitório

O teto do inferno é transitório

O Pico da Montanha é onde estão os meus pés.

Frequentemente recebo cartas de pessoas passando por grande sofrimento. Esse sofrimento é normalmente gerado pelos acontecimentos da vida. Hoje foi uma senhora, cuja mãe está hospitalizada e será submetida a uma cirurgia de grande porte, estando em uma situação grave. Ontem era uma esposa, cujo casamento tinha acabado repentinamente e sentia-se sofrendo grande dor. Na carta dela, dor era um sentimento tão forte que escrevia, por ser da Espanha, DOLORRR, em letras maiúsculas e muitos érres. Grande sofrimento!

Essas pessoas, neste momento, procuram o Dharma. Todos sabem o que é a dor da perda e todos se entendem nisso. Apenas os muito jovens, que ainda não viveram uma grande perda ou desilusão amorosa, não sabem deste sentimento. Mas os que viveram um pouco mais, têm a experiência da perda, da morte, da doença ou do rompimento dos relacionamentos. Há um dito budista sobre o “teto do inferno” um grande amigo monge tem um blog com este título. Nós andamos no teto do inferno. Poucas pessoas poderão dizer que isto é desconhecido. Qual a característica deste andar no teto do inferno?  Normalmente é a perda, a desilusão, ou o fato que você tenta fazer algo e não consegue, um empreendimento que você tenta dá errado, e todos começam a falar mal de quem tentou e não conseguiu são os amigos que estão ao seu lado só no sucesso.

Os EUA costumam dividir as pessoas em dois tipos, as pessoas winners e os loosers , ou seja, os ganhadores e os perdedores, com um desprezo generalizado pelos perdedores. “Você é um fracassado, um perdedor”. Na nossa sociedade também, para as pessoas de sucesso perdoa-se tudo e, quando alguém  fracassa, muitas pessoas sentem-se felizes, pois isso compensa seus fracassos pessoais, então todos ficam um pouco “contentes” com o fracasso daquele grande empresário ou político. Tudo isso causa sofrimento nas pessoas, porque elas vêem o olhar dos outros, as conversas, e vêem a perda.

Mas o importante do ponto de vista budista é: o teto do inferno não é infinito. Nós andamos em um vale de sofrimento, mas ele tem um fim, ele sempre tem um fim. É difícil explicar isso para as pessoas. Hoje você tem uma perda, mas daqui a dois anos esta perda não parecerá o que parece agora, não é bem assim. Nós acabamos aceitando as perdas, absorvendo aquele sofrimento e nos conformando com ele. Existe também a benção do esquecimento, pois não conseguiríamos ficar para sempre lembrando daquela tremenda angústia, provocada por um sofrimento.
Então tenho acompanhado cada vez mais, essas perdas e sofrimentos e tento dizer: “Isto é impermanente, você vai poder superar isso”. “Não se deixe derrotar”. “Sofra, mas não se deixe derrotar completamente”. É bobagem nós dizermos para as pessoas: “Ah, não sofra, você vai esquecer isso, vai aparecer outra pessoa para você, você vai esquecer essa morte. Afinal de contas todo mundo perde pai, mãe, avós”. Isto é muita falta de sensibilidade, porque as pessoas que sofrem querem ouvir que nós sabemos o que é o sofrimento, que nos solidarizamos com elas e que compreendemos. Não estamos sofrendo com você da mesma forma, porque isso é uma mentira, mas podemos chorar juntos. E esta partilha do sofrimento é a compaixão. Compadecer-se: padecer junto.

Este é um sentimento que devemos cultivar, compreender profundamente o sentimento que o outro tem e que às vezes é incompreensível para nós, pois está longe demais da nossa experiência. Às vezes é uma doença que talvez nunca teremos, mas nós podemos padecer junto.

Esse é o melhor remédio, mostrando, de alguma forma, que o teto do inferno pode ser percorrido. Nós queimaremos a sola dos nossos pés, mas ele acaba, ele tem um fim. Ou seja, nenhum sofrimento é permanente, todos eles são transitórios.

zendo brasilia - meditação Zen Budista: A felicidade não é uma questão individual

A felicidade não é uma questão individual
 
zendo brasilia - meditação Zen Budista:


Não é preciso que você oculte a sua raiva. Você tem que deixar a outra pessoa saber que você está sentindo raiva e que está sofrendo. Isso é muito importante. Quando você se zangar com alguém, por favor, não finja que não está sentido raiva. Não finja que não está sofrendo. Se você ama a outra pessoa, confesse que está com raiva e que sofrendo. Mas diga isso a ela quando puder fazê-lo de um jeito calmo.

No verdadeiro amor, não existe orgulho. Você não pode fingir que não está sofrendo ou que não está sentindo raiva, porque esse tipo de negação se baseia no orgulho. "Com raiva? Eu? Por que eu sentiria raiva? Eu estou muito bem." Mas na verdade você não está bem. Você está no inferno. Quando a raiva nos está consumindo, precisamos dizer isso ao nosso companheiro, ao nosso filho ou filha. Sentimos muitas vezes vontade de dizer: "Não preciso de você para ser feliz!" Além de não ser verdade, esta frase é uma traição da promessa que fizemos ao nosso cônjuge e aos nossos filhos de compartilhar todas as coisas.

No início vocês disseram um ao outro: "Não posso viver sem você. Minha felicidade depende de você."  É possível que, com o desgaste, o amor acabe. Mas quando o amor permanece, e apesar disso o outro fez algo que provocou raiva, você é capaz de afirmar coisas como: "Não preciso de você. Não chegue perto de mim! Não me toque!" Você vai para seu quarto e tranca a porta, querendo demonstrar que não precisa da outra pessoa. Esta é uma tendência muito humana e comum. Mas não é sábia. A felicidade não é uma questão individual. Se um de vocês não está feliz, é impossível que o outro esteja. 

(Thich Nhat Hanh - Aprendendo a lidar com a raiva - sabedoria para a paz interior)

Folhas no Caminho: Um Livro de Filosofia Oriente-Ocidente

Na minha listya de Natal!

Um Livro de Filosofia Oriente-Ocidente

Folhas no Caminho: : Kiyozawa Manshi (1863-1903)

Um Livro de Filosofia Oriente-Ocidente

Kiyozawa Manshi (1863-1903) foi um filósofo de grande importância para a modernidade japonesa por vários motivos. Consciente da necessidade de responder à filosofia feita no Ocidente, Kiyozawa buscou nas fontes japonesas as bases para sua crítica, ao mesmo tempo em que tentou igualmente uma conciliação entre o pensamento oriental e o ocidental. Ele teve também um papel fundamental na reforma e renovação da maior escola buddhista japonesa, a Jōdo Shinshū (Verdadeira Escola da Terra Pura). Por fim, ele tentou articular, filosoficamente, uma das dualidades fundamentais da prática religiosa, a escolha entre um caminho de esforço próprio e um caminho baseado na esperança e na graça vinda de fora.

O Esqueleto de uma Filosofia da Religião” se propõe discutir filosoficamente a existência da religião. Kiyozawa Manshi abre o livro com a proposta: "A questão de porque temos uma religião entre nós pode ser explicada de várias formas. Colocando de lado, no momento, as diferentes teorias sobre a origem da religião, dizemos que naturalmente temos uma faculdade ou propensão em nós para fazer surgir o que é chamado de religião. Esta faculdade ou propensão chamamos de faculdade religiosa".

Ao oferecer a tradução desta obra para o público em língua portuguesa, nosso objetivo principal é colaborar com o diálogo entre Oriente e Ocidente, em seus campos da Filosofia e da Espiritualidade. A obra de Kiyozawa Manshi representa uma das primeiras tentativas originadas no Japão no sentido de tal diálogo, e delineia algumas de suas possíveis vias de comunicação. O Prefácio e a tradução são de Ricardo Sasaki e a Introdução do Dr. Alfred Bloom.

O Pico da Montanha é onde estão os meus pés.: Ria de seus erros

Ria de seus erros
O Pico da Montanha é onde estão os meus pés.:



Aluno –  O senhor poderia falar um pouco mais sobre o caminho do meio?

Monge Genshô –  O caminho do meio, é o caminho budista. Isto é caracterizado por uma célebre história de Buda, uma metáfora. Você tem uma cítara, um instrumento musical. Se você aperta demais a corda, ela não toca, pode arrebentar. Se você aperta de menos, você não consegue som. Então deve afiná-la no tom justo e para afinar um instrumento no tom justo, existe um meio. Os instrumentos musicais são afinados com a nota “lá”. Quando uma orquestra vai tocar, o primeiro violino, o spalla, toca o “lá” para toda orquestra. Ela é afinada ali, naquele momento. Por que os instrumentos não vêm afinados lá de trás? Porque ali temos outra temperatura e os instrumentos com pequenas variações de temperatura mudam sua afinação. Então o spalla dá o “lá”, e todos afinam. E esta é uma nota média. A partir do caminho do meio nós podemos produzir música. Quando nós exageramos para qualquer lado, nós não conseguimos.

Mas isto é muito típico na prática espiritual. Se você tentar ser um santo perfeito, não cometer nenhum erro, não ter nenhum pensamento errado, não dizer nenhuma palavra errada e punir-se cada vez que você comete um erro, você não fará mais que viver em culpas, tentando ser um santo. No Zen nós dizemos que não queremos santos. Nós queremos pessoas despertas e pessoas despertas riem dos seus erros. Eles não querem ser santos, sabem que cometem erros, sempre. Do outro lado, algumas pessoas imaginam: o budismo não tem pecado, não tem mandamentos, nem um Deus para nos castigar, não existe um inferno nos esperando nem um céu para nos premiar, então tudo é permitido e poderei fazer o que EU quero.

Este é um grande erro, porque Buda disse: para evitar o sofrimento você precisa seguir tais caminhos, e ensinou o Caminho Óctuplo. E este caminho é composto de muitas regras morais e virtuosas. Regras para falar, para pensar, para agir, trabalhos para viver, o que é bom e o que não é. Buda não escapa do certo e errado no Caminho Óctuplo. Você não pode ficar com algo que não lhe é dado espontaneamente, ou seja, você não pode roubar. Se você roubar, isto será um caminho para grande sofrimento. Existe certo e errado, bem como regras. Então o Caminho do Meio é um caminho de moderação, nem o exagero do ascetismo, da tentativa de ser um santo, nem o caminho da licenciosidade, onde tudo é permitido e corremos atrás de prazeres. Isto é o Caminho do Meio.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Mente Zen Mente Atenta: "Gate gate paragate parasamgate bodhi svaha"

"Gate gate paragate parasamgate bodhi svaha":




O mantra de Avalokitesvara é "Gate gate paragate parasamgate bodhi svaha".

Gate significa ter ido. Ter ido da inconsciência até a mente atenta. Ter ido da dualidade até a não-dualidade. Assim, Gate, gate significa "ter ido, ter ido".

Paragate significa "ter atravessado até a outra margem".

Então, este mantra é recitado de uma maneira muito forte. "Ter ido, ido completamente".

Parasamgate: 'sam' significa "todas as pessoas", a sangha, toda a comunidade de seres. 

Bodhi é a luz interna, iluminação ou despertar. Você a vê e a visão da realidade desperta você.

E Svaha é um grito de exaltação ou euforia, como "Bem-vindo!" ou "Aleluia!".


"Gate gate, paragate, parasamgate, bodhi svaha".
"Foi, foi, 
foi completamente, 
todos terem foram à outra margem,
a iluminação, saudemos!"

(Adaptado da explicação de Thich Nhat Hanh em "O coração da compreensão, Bodigaya")

Avalokiteshvara (em sânscrito Avalokiteśvara, "Aquele que enxerga os clamores do mundo"; em tibetano Chenrezig), é o/a bodisatva (bodhisattva) que representa a suprema compaixão de todos os Budas. 
Um bodhisattva é aquela criatura que está adiantada ou pronta para alcançar o estado deBuda; contudo faz voto de só alcançá-lo plenamente quando nenhum ser estiver mais no samsara, ou na roda de encarnações neste mundo. 
Sendo a compaixão uma virtude central do budismo, Avalokiteshvara tornou-se muito conhecido por budistas e não budistas, sendo comum encontrar inscrições com seu mantra - Om mani padme hum- mesmo em meios não budistas. 
Conta uma historinha sobre a ligação entre Avalokiteshvara e o Buddha Amitaba. 
A parábola diz que o bodisatva, ao ver o sofrimento nos infernos, fez o voto de só atingir a iluminação quando os esvaziasse. 
Amitaba então perguntou que castigo ele receberia se falhasse e Avalokiteshvara lhe respondeu que poderia lhe partir a cabeça ao meio se não o fizesse. 
Imediatamente, Avalokiteshvara começou a retirar os seres dos infernos e trabalhando incessantemente, conseguiu esvaziá-los. Porém, tão logo se apresentou a Amitaba, os infernos estavam repletos, pois apenas os humanos mortos eram suficientes para enchê-los. 
Amitaba então bateu em sua cabeça e ela se partiu, nascendo em seguida mais cabeças e mais braços, para que Avalokiteshvara pudesse ver e acudir o número imenso de seres presos nos infernos e no samsara. Essa pequena história retrata a compaixão providente dos budas, que mesmo diante de nossos compromissos mais estranhos - partir a cabeça, por exemplo - podem extrair benefício a todos.
Encontra-se na iconografia budista imagens de Avalokiteshvara com mil braços e cabeças.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Albert Einstein e Buda


Por Karen Mary Giffin*

Encontrei essas citações num site budista, e fui confirmá-las em outras fontes. Realmente Albert Einstein disse isso:

“O budismo tem as características que se podem esperar de uma religião cósmica do futuro: Transcende um Deus pessoal, evita dogmas e teologia; é ligada ao natural e ao espiritual, e baseia-se num sentido religioso que aspira a experiência de todas as coisas, naturais e espirituais, como uma unidade significativa.”

“Se existe qualquer religião para lidar com as necessidades científicas modernas, essa é o budismo”.

“Um ser humano é parte do todo que chamamos “Universo”; uma parte limitada pelo tempo e o espaço. Ele se sente, seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto – um tipo de alucinação ótica de sua consciência. Essa alucinação é um tipo de prisão para nós, que nos resume aos nossos desejos e afeições para uns poucos que nos cercam. Nossa tarefa é nos livrar desta prisão pelo alargamento do nosso círculo de compaixão para que abrace todas as criaturas vivas e toda a natureza em sua beleza. Ninguém pode conseguir isso totalmente, mas a luta para a realização desta façanha, em si mesma, é parte da libertação e base da segurança interior.”

“A coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. É a fonte de toda arte verdadeira e da ciência. Aquele para a qual essa emoção não existe, que não pode mais parar para surpreender-se e se enlevar com reverência, está morto: seus olhos estão fechados.”

Acabo de descobrir um livro de 220 páginas, editado por Thomas J. McFarlane, físico quântico.
O livro se chama “Einstein e Buda: Discursos Paralelos”(”Einstein and Buddha: The Parallel Sayings”), que está à venda na Amazon.

Neste site, é feita a crítica do livro, e aparecem citações paralelas de Eistein e Buda."

* KAREN MARY GIFFINGraduação em Ciências Humanas - University of Toronto (1969), mestrado em Sociologia - University of Toronto (1971) doutorado em Sociologia - University of Toronto (1979) e pos-doutorado em Medical Anthropology at U. California, Berkeley (1998). Atualmente é pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz e colaboradora eventual da Universidade Federal do Rio de Janeiro.