quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Nietzsche tinha razão... Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos!



O homem Louco.

 – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? –

 E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada.

Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. 

O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. 

“Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” 

Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. 

“Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – 

Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder:

 “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

NIETZSCHE, F. A gaia ciência. Aforismo 125

OS ROBÔS DE BOLSONARO

Um texto do caderno Ilustrada publicado na quinta (18) está repercutindo nas redes sociais nas últimas horas por sugerir ação de bots (robôs) nos comentários da publicação da Folha no Twitter.
A reportagem “Joalheria quer competir com obras de arte pelo bolso dos super-ricos” contém a palavra “bolso”, muito similar a “Bolsonaro”, o que possivelmente atraiu robôs pró-Bolsonaro a comentarem na publicação que nada falava sobre política.

Na sequência, usuários percebem a ação de robôs e os comentários fora de contexto.
Isso divertiu alguns usuários
E também serviu para muita gente mostrar como, afinal, se dá a ação de bots nas redes sociais
E o mesmo aconteceu com um texto da revista sãopaulo sobre bolovo.
Novamente, robôs em ação
E novamente a turma da risada
Em comum a esses perfis, poucos seguidores, nomes de usuários incomuns (com números e letras), poucas postagens e quase sempre uniformes e monotemáticas.
A Folha entrou com uma representação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) nesta terça-feira (23) solicitando à Polícia Federal que instaure inquérito para apurar ameaças contra uma jornalista e um diretor da empresa.
Os ataques começaram após a publicação da reportagem “Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp“, na quinta-feira (18).
O jornal considera haver indícios de uma ação orquestrada com tentativa de constranger a liberdade de imprensa.
​A autora da reportagem, Patrícia Campos Mello, recebeu centenas de mensagens nas redes sociais das quais participa e por e-mail.
Entre sexta-feira (19), dia seguinte à publicação, e esta terça (23), um dos números de WhatsApp mantidos pelo jornal recebeu mais de 220 mil mensagens de cerca de 50 mil contas do aplicativo.

"Não quero ter parte nisso"' Por Elio Gaspari



Por Elio Gaspari* para a Folha

O risco de golpe está na retórica de Bolsonaro, de seus colaboradores e de seguidores

Resultado de imagem para Elio Gaspari Jornalista,Na noite de domingo (28) o Brasil terá escolhido um novo presidente da República. O resultado virá da vontade dos eleitores e, seja qual for o voto que se tenha dado, cada um deles terá parte no que vier a acontecer.

Milhões de pessoas que votaram em Dilma Rousseff ou em Aécio Neves tiveram motivos para se arrepender mas, como hoje, era um ou outro. O arrependimento acompanhou também os eleitores de Fernando Collor em 1989 e de Jânio Quadros em 1960. Nenhum deles se elegeu sugerindo medidas que pudessem prenunciar uma ameaça às instituições democráticas.

O caso agora é outro. O deputado Eduardo Bolsonaro tratou de uma situação hipotética de conflito com o Supremo Tribunal Federal e disse que bastariam um cabo e um soldado para fechá-lo.

Um general da reserva, eleito deputado federal pelo PSL depois de ocupar a Secretaria da Segurança de Natal, defendeu o impeachment e a prisão de ministros do Supremo: "Não tem negociação com quem se vendeu". Antes dele, um general da reserva que disputaria sem sucesso um cargo eletivo disse que "corte que muda de decisão para beneficiar criminoso não é corte, é quadrilha".

O general Hamilton Mourão, também da reserva e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, elaborou sobre o mecanismo do "autogolpe". Noutra digressão mencionou as virtudes de uma Constituição redigida por sábios e ratificada num plebiscito. Jair Bolsonaro prometeu o fim do "ativismo" e anunciou que "os marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria". Como?

Essas foram afirmações de candidatos, feitas em diferentes contextos, às vezes partindo de situações hipotéticas. Não se deve esquecer que o deputado petista Wadih Damous, numa argumentação que nada teve a ver com a retórica bolsonarista, já sugeriu "fechar o Supremo Tribunal Federal" para criar uma Corte Constitucional. O doutor foi um dos marqueses da OAB.

Bolsonaro já prometeu mais de uma dezena de providências que dependem de reformas constitucionais. Elas precisam do voto de três quintos da Câmara e do Senado. Serão necessários 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores. Mesmo tendo formado a segunda bancada da Câmara, o PSL não os tem. Como pretende consegui-los, é outra história. Admitindo que os consiga, será o jogo jogado e a vida seguirá. Se não conseguir, vem aí uma crise anunciada.

O eleitor ficou entre a cruz e a caldeirinha. Até o dia da posse, tudo será encanto e sedução. Como ensinou Marco Maciel, "as consequências vêm depois." A essência da questão está na parte que caberá a cada um quando elas chegarem.

Há casos em que o cidadão tem que traçar a linha que não atravessará. No dia 29 de maio de 1966 o marechal Cordeiro de Farias entrou no gabinete do presidente Castello Branco. Ele acabara de capitular diante da candidatura do ministro da Guerra, Arthur da Costa e Silva.

Cordeiro era ministro do Interior. Aos 65 anos, estivera em todas as encrencas militares da primeira metade do século, da Coluna Prestes à deposição de João Goulart. Como general, comandou a Artilharia Divisionária da FEB na Itália.

No encontro, Cordeiro disse ao presidente: "Você é generoso com o Costa e Silva, eu sou justo. Você sabe que ele vai afundar o país, pois é incapaz, e eu não quero ter parte nisso".

Cordeiro deixou o ministério e foi para casa. Costa e Silva assumiu em 1967 e afundou o país em 1968, baixando o Ato Institucional nº 5.

Numa manhã de agosto de 1976, em cena emocionante, o velho marechal entrou, de bengala, no saguão onde se velava o corpo de Juscelino Kubitschek. Doze anos antes, havia votado pela sua cassação, mas não teve parte na ascensão de Costa e Silva.

Elio Gaspari
Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada".


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

1984 & os PILARES DO FASCISMO

Hoje eu falei muitas vezes sobre esse livro 1984 de George Orwell. Mas pra não ficar repetitivo eu vou deixar um vídeo e uma leitura SUPER interessante.
É um livro que não saiu em português ainda, mas o autor esta de olho no Brasil e acabou sendo super CERTEIRO antes de qualquer um...
É o "How Fascism Works" do Filosofo de Yale, Jason Stanley. Nele ele aponta as 10 características da política fascista.
segue um resumo e o vídeo de introdução:
"Todos os movimentos fascistas são baseados no hipernacionalismo", disse Stanley.
Ele disse que o hipernacionalismo pode ser racial, etnicamente ou religiosamente baseado, e que é sempre patriarcal e sempre anti-gay. O objetivo final da política fascista, disse ele, é que um líder autoritário ou partido tome o poder e mantenha o poder pelo maior tempo possível, alterando a realidade para se ajustar à sua visão distorcida do mundo.
Stanley identificou dez características que definem os movimentos políticos fascistas. "Eu observo todos os dez pilares nos Estados Unidos hoje", disse ele.
1. Um passado mítico. "O fascismo sempre promete nos devolver a um passado mítico", disse Stanley. Para Hitler, isso significava retornar ao passado do Sacro Império Romano, quando os alemães governavam os não-alemães; para Mussolini, isso significava o próprio Império Romano.~~ Trump usou o "Make America Great Again" e Bolsonaro e sua campanha de querer o Brasil de 50 anos atrás e da nostalgia pelos anos de chumbo.
Este passado é um lugar onde o patriarcado reina supremo, onde os homens do grupo são guerreiros e as mulheres do grupo são mães e esposas. Este passado é mítico, Stanley disse: é falso. Nunca foi realmente, exceto nas palavras de políticos fascistas.
2. Propaganda. Stanley disse que os políticos fascistas sempre recorrem a campanhas anticorrupção, mesmo quando elas são transparentemente corruptas. Ele disse que os nazistas estavam entre os regimes mais corruptos da história, saqueando a riqueza e a propriedade dos judeus europeus, e ainda empreendeu uma campanha de propaganda impiedosa que prometia livrar o continente da corrupção supostamente introduzida pelos judeus.
Trump rotulou Clinton como “Torta Hillary” e prometeu “drenar o pântano”, apesar de sua longa história de negócios dissimulados e acordos políticos. Vladimir Putin, na mesma época em que revive o pensador fascista russo Ivan Ilyin em meados do século XX, constantemente critica a União Européia como fascista.
3. Anti-intelectualismo. "O inimigo do fascismo é a igualdade", disse Stanley. Ele disse que as universidades são continuamente atacadas por políticos fascistas como focos do marxismo cultural e político. Ele disse que esses políticos defendem um mítico "homem comum" como sempre sabendo o que é certo, e ridicularizam as mulheres e as minorias raciais e sexuais que buscam a igualdade básica como de fato buscando dominação política e cultural.
4. Hierarquia. Ao contrário das democracias liberais, que são baseadas na liberdade e na igualdade, o fascismo consagra as tradições de um grupo dominante como a regra inequívoca.
5. Vítima. Ao longo da política fascista, o grupo dominante sempre se retrata como vítimas. Stanley disse que os nazistas disseram que foram vítimas dos judeus minoritários. Ele disse que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, realizou uma conferência internacional sobre a perseguição aos judeus em outubro de 2017, durante a qual declarou que os cristãos são o grupo mais perseguido do mundo.
6. Irrealidade. Políticos fascistas confiam em teorias conspiratórias em vez de fatos para justificar seus pedidos de poder. "Quando "Birtherism" veio", disse Stanley, "todos os americanos deveriam ter ficado aterrorizados." Birtherism foi um conjunto de "Teorias da conspiração" envolvendo Barack Obama e uma série de polêmicas bizarras que envolvem a vida e a atuação política do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Podemos chamar de Fake News.
7. Lei e ordem. O político fascista promete um regime de lei e ordem para não punir criminosos reais, mas para criminalizar "grupos externos" como minorias raciais, étnicas, religiosas e sexuais. "Agora", disse Stanley, "estamos vendo a criminalidade sendo escrita em status de imigração" nos Estados Unidos. Ele disse que os políticos fascistas prosperam no lançamento de ataques supostamente específicos contra certos segmentos de uma população, como imigrantes "criminosos" ou judeus, e então ampliam essa definição para incluir todo o grupo.
8. ansiedade sexual. Stanley disse que o político fascista sempre fomenta o pânico em torno da ameaça de estupro perpetrada por homens fora do grupo contra mulheres do grupo. “A ameaça em particular é o estupro”, ele disse, “e então você cria medo entre as pessoas ao falar sobre estupro, e então você tenta atacar o senso de segurança e aumenta a paranoia tradicional das pessoas fomentando o medo da sexualidade.”
9. Sodoma e Gomorra. Políticos fascistas sempre localizam a virtude no campo e em cidades pequenas, e nunca em cidades com suas misturas de pessoas, raças, “decadência” e permissividade.
10. Arbeit macht frei. Políticos fascistas identificam os grupos como preguiçosos, atacam os sistemas de previdência social e os sindicalistas e promovem a ideia de que o grupo no topo é trabalhador, os grupos no fundo são preguiçosos e drenam o Estado e devem ser forçados a trabalhar .
Você vê essas características em algum lugar????

https://www.youtube.com/watch?v=vgEvVdeT-xs

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Já somos um país fascista





"Já somos um país fascista, você não percebeu?" - comenta Capitão Von Trapp, no quarto ato da montagem original de "A Noviça Rebelde", no Schubert's Theatre, em Boston.


O patriarca, a família e o público haviam acabado de saber, com supressa e horror, que o simpático e leve carteiro que paquerava Liesl, a filha mais velha dos irmãos Von Trapp, havia aderido ao nazismo, e agora, arma de fogo na mão, ameaçava abater a tiros todos os heróis, todos os seus ex-amigos, incluindo o próprio amor da sua vida.


Todos haviam, no primeiro ato do musical, cantado junto a inesquecível e solar "Sixteen on Seventeen" dueto entre os dois jovens interrompido por uma trovoada e um temporal. Nuvens não vistas no horizonte. Todos, agora, pensavam: como um garoto tão gente boa foi se tornar um adorador de Hitler?


A história da Noviça Rebelde, todo mundo sabe, é real. Situada na Áustria de 1938, um país a beira de ser conquistado por Hitler, nos ensina, no fim das contas, como um país se torna fascista sem perceber.


Mais que isso: como as pessoas se tornam fascistas convictas que estão do lado do bem. E de como ditaduras se instalam em silêncio, sem disparar um tiro, e aplaudidas pela população convertida.


O povo austríaco era reconhecido então como um povo alegre, doce, que adorava música. Quase todos, de camponeses a a barões, passando, claro, por noviças e freiras, sabiam tocar um instrumento. Pacifistas, porque o rescaldo da queda do império Austro-Húngaro.


Pós 1a guerra mundial e crash 1929, veio a crise econômica. Com a crise, o desemprego. Com o desemprego, a corrupção. E a consequente procura de culpados externos e soluções rápidas e messiânicas.


Os culpados escolhidos para serem odiados foram comunistas e judeus.


A solução rápida e messiânica veio com Hitler, militar que havia lutado na guerra e que prometia acabar com a corrupção, com os comunistas, os judeus, e com "o ciclo vicioso da política". Por fim, valorizar a família, a propriedade e "homem de bem", o "ariano puro".



A indústria, na figura de seus patrões, começou a chantagear seus empregados. "Ou vocês aderem a Hitler ou o país afunda e seremos obrigados a demitir vocês todos". Muitas das marcas de carro e roupa que consumimos hoje, na época chegaram a obrigar seus funcionários a usar a famigerada braçadeira com a suástica.


Os jovens, sem perspectiva de emprego e encantados com o discurso de "Tornar a Alemanha grande de novo", de aos 17 anos ganhar do governo uma arma de fogo para caçar "cidadãos que não respeitam a bandeira nacional", aderiram imediatamente.


Pronto. A elite e agora os pobres se uniram. Os inimigos da nação, da pureza, da moral e bons costumes passaram rapidamente a ser, além de judeus e comunistas, gays, ciganos e pessoas portadoras de necessidades especiais.


E da noite pro dia, o espírito inteiro de uma nação passa a ser orientado pelo ódio. Pessoas doces, gente boa, que frequentavam sua casa, se divertiam e não se metiam na vida de ninguém, se transformaram em nazistas.


Os poucos Austríacos que não foram enfeitiçados pelo fascismo, não perceberam, mas já estavam vivendo em uma sociedade fascista, quando Hitler finalmente invadiu o país sob aplausos de multidões.


Agora já era tarde. Mesmo que o Fuhrer desistisse da Áustria, ela já havia se transformado em uma nação de fascistas. Aquele povo alegre havia se transformado no povo que odeia. Mesmo que Hitler recuasse, o país já estava perdido sua identidade. Já estava conquistado. E, otimista, achando tudo normal.


Democraticamente, a Áustria, então, tornou-se, uma ditadura fascista.


Em 2018, faz 80 anos da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich.


Um exemplo de como um povo inteiro se torna fascista, sem perceber.


Um exemplo de que o verdadeiro amor de nossa vida é o poder em subjugar o outro.