domingo, 28 de novembro de 2010

Pesquisadoras contestam evolucionismo de Darwin

Para a revista "Galileu" por Mariana Lucena



Segundo Eva Jablonka e Marion J. Lamb a herança genética é só um dos quatro fatores que determinam a evolução.

ShutterstockLembra da aula de ciências sobre Lamarck? Seu professor deu o exemplo das girafas, que iam esticando os pescoços para comer folhas do alto das árvores e depois transmitiam esses pescoços alongados para suas girafinhas. Depois, certamente, o mestre contou que Lamarck estava errado, e que certo mesmo era outro cientista, Darwin, que mostrou que a evolução era a seleção dos mais aptos - esses eram os que passavam suas caracteríticas aos filhos. Lembrou? Pois das cientistas querem que você esqueça toda essa história. Para elas, Darwin e o determinismo genético não estavam completamente certos e Lamarck, veja só, tinha sua parcela de razão.



Eva Jablonka e Marion J. Lamb desafiam a teoria em seu livro recentemente lançado no Brasil, Evolução em quatro dimensões (Companhia das Letras, 511 páginas, R$ 59,00). Elas propõem que a evolução de fato não acontece em uma dimensão como previam Darwin e Mendel (pai da genética), mas em quatro. E, sim, características adquiridas em vida podem ser transmitidas aos descendentes em três delas. As dimensões seriam: genética, epigenética, herança simbólica e herança comportamental.



Para não dar nó na sua cabeça, vamos imaginar dois irmãos gêmeos idênticos. Se a primeira dimensão da evolução, a genética, fosse a única, ambos teriam as mesmas chances de prosperar e passar adiante suas heranças genéticas idênticas aos seus filhos. No entanto, não é incomum encontrar gêmeos idênticos que desenvolvem doenças diferentes, por exemplo. Aí entrariam as outras dimensões.




Digamos que um dos irmãos fume desde muito jovem, enquanto o outro vive uma vida saudável. Uma área de estudo criada há 10 anos, chamada epigenética, afirma que o hábito do tabagismo poderia deixar marcas nos filhos do gêmeo fumante. Como? Fumar pode marcar alguns dos genes, “desativá-los” ou “ativá-los”. Mas atenção: isso é muito diferente de mutação. Neste caso, o código do DNA não teria mudado em absolutamente nada. O gene continuaria ali, só que inativo (não exercendo papel na determinação de características) ou ativo.




Uma pesquisa feita pela universidade de College, na Inglaterra, em 2006, constatou que homens que começam a fumar antes dos 10 anos geram crianças com risco elevado de serem obesas. Logo, os filhos do gêmo fumante teriam mais chances de desenvolver doenças relacionadas à obesidade, e estariam menos aptos que os filhos o gêmeo saudável, embora tenham recebido o mesmo código genético de seus pais.



Se um dos gêmeos fosse criado em uma sociedade isolada muito mais desenvolvida e aprendesse a viver com mais qualidade de vida, ele estaria mais “apto” a sobreviver, mesmo tendo o mesmo código genético. E também poderia passar esse conhecimento o que tornaria seus filhos mais aptos também. As pesquisadoras chamam isso de “aprendizado socialmente mediado” ou herança comportamental. “A capacidade de aprender com os outros pode parecer uma modificação muito pequena na vida, mas tem efeitos profundos, pois permitem que padrões de comportamento se disseminem pela população”, escrevem.




Já o sistema simbólico, quarta dimensão da teoria das pesquisadoras, se diferencia do anterior pela forma de passar o conhecimento. Em vez de aprender copiando o comportamento dos mais velhos, a pessoa pode receber uma herança comportamental por meio de palavras (símbolos) escritas em um livro – o conhecimento pode passar por gerações antes que alguém decida retomá-lo. “As diferenças consistentes e de longo prazo nos hábitos culturais das diferentes sociedades humanas mostram que o sistema simbólico fornece maneiras muito eficazes de transmitir informação”, escrevem as autoras.




Eva e Marion acreditam que está em tempo de superarmos a visão do darwinismo centrada nos genes - e que há muito mais na evolução do que acaso e mutações genéticas. Se elas vão convencer a comunidade científica disso? Precisaremos de mais dimensões de pensamento para saber.
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