sexta-feira, 25 de abril de 2008

Eu, Aqui e Agora

de Shundo Aoyama Roshi abadessa do Mosteiro Feminino de Aichi(Aichi Senmon Nisodo)
O contrário do esforço diligente - Shojin - é a auto-indulgência, a negligência que segue apenas as paixões - Hoitsu. Na vida que busca o Shojin, precisamos deixar de lado nossa vontade pessoal e nos esforçar ao máximo para desempenhar o papel que nos foi confiado, aqui e agora.
Recentemente fiquei comovida ao ler uma poesia chamada “Pano de chão”, do poeta Michio Mado :

"Quando volto para casa em um dia de chuva
o pano de chão está me esperando
com a cara de um pano de chão.
Um rosto conhecido!
Mas certamente não era sua opção
tornar-se um pano de chão.
Até pouco tempo atrás
tinha a cara de uma camisa.
“sou uma camisa”, dizia.
Era macia como se fosse minha segunda pele
mas certamente tornar-se camisa
não foi sua opção.
Talvez há muito tempo,
em uma terra como a América
teria sorrido como uma flor de algodão
sorrindo para o vento e para o sol.


Se eu fosse um pano de chão, talvez dissesse: “seria melhor ser uma camisa”.
Ou então: “agora me tornei um pano de chão, mas antes eu era uma bela camisa”.
Um pano de chão que se lamenta assim não é útil.
Não é nada fácil um pano de chão com a forma de uma camisa. Desempenhar plenamente o papel que nos foi confiado significa transformar-se plenamente em uma camisa quando temos que ser uma camisa, e voltar a ser um pano de chão quando devemos ser um pano de chão. Esta é a imagem de quem vive seguindo o caminho da verdade - Shojin - sem pensar em seus desejos caprichosos.

Pensar que o pano de chão não é importante e tem menos valor do que a camisa é uma idéia banal, a mentalidade típica dos seres humanos. Neste mundo, não há diferença de valor entre um objeto e outro. Ouvi dizer que um pino de poucos milímetros que sustenta os mecanismos de um relógio de cem mil yens custa apenas dez yens. Mas este pino tão barato é tão essencial ao funcionamento da vida quanto um objeto muito mais caro. Cada parte do relógio tem seu papel no funcionamento do mecanismo e, a cada instante, trabalha sem cessar para que o relógio não pare. Também nosso trabalho - qualquer que seja ele - é como as engrenagens de um relógio, mantendo uma família, uma empresa, um país e o mundo.

Se trabalharmos seriamente a cada instante, colocando de lado nossos pensamentos e interesses egoístas, podemos nos transformar em uma luz que ilumina as pessoas que nos circundam. Nossa presença por si só é suficiente para iluminar e nos tornamos a própria aparição de Shojin Haramitsu
- de Shundo Aoyama Rôshi.

Nota: Shojin (virya em sânscrito) é, de acordo com os textos antigos, a função mental que permite a alguém perseverar diligentemente na doutrina correta enquanto se afasta de todas as doutrinas falsas.
Em épocas mais recentes passou a significar diligência, assiduidade, constância, devoção e até mesmo abstinência.
É um dos Seis Paramitas:
dana - doação,
sila - preceitos,
kasnti - paciência,
virya - assiduidade,
dyana - meditação e
prajna - sabedoria.
São as seia espécies de prática dos bodhisattvas.

A palavra japonesa ‘haramitsu’ significa ‘paramita’.
Do livro Para uma pessoa bonita: Contos de uma mestra zen, Prefácio da Monja Coen, traduzido por Tomoko Ueno.São Paulo: Editora Palas Athena / Zen do Brasil, 2002. Pág. 103-105
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