terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A forma mais comum do medo é o medo do medo


A forma mais comum do medo é o medo do medo 
[1]
Por Marcia Tiburi

Até mesmo os animais sentem medo. Seres humanos que também são animais, do mesmo modo, sentem medo. Na vida humana o medo é mais que uma sensação corporal. Ele é também um sentimento e, como tal, tem sua carga de enigma. Por isso é tão difícil analisá-lo.

Nenhum sentimento consegue se explicar muito bem, mas sabemos que o medo tem certa validade objetiva. Quando alguém sente medo é porque há, ou pode haver, alguma ameaça. Sentir medo, portanto, é não só aceitável, mas algo razoável. E se ele tem sentido, não é errado pensar que ele seja até desejável. Em certa medida, o medo pode até proteger. Porém, ao ultrapassar sua medida aceitável, ou seja, aquela que não causa sofrimento, o medo pode transformar-se em medo do medo, eis o que significa o pânico. O pânico é o medo desmedido que ataca a capacidade de viver e conviver. É uma espécie de medo da vida e de tudo o que ela implica. Alguém em pânico está doente de medo como alguém apaixonado pode estar doente de amor. O problema, em qualquer dos casos não é o sentimento em si, pois não é possível viver a vida humana sem sentimentos. 

O problema é sempre a sua desmedida.

Que o medo seja um sentimento significa que ele está pleno de uma carga simbólica. Ou seja, que o medo sentido nunca está livre dos seus significados, do modo como nos relacionamos com ele. Não existe um grau zero do medo. O medo não é só uma sensação. Isto quer dizer que nunca experimentamos o medo diretamente, mas sempre por meio do que se diz dele.

O medo e a política

Poucas vezes os filósofos se ocuparam do medo. Thomas Hobbes, filósofo do século XVII que tornou famosa a frase de Plauto “o lobo é o lobo do homem” foi um dos poucos a pensar o medo como um sentimento manipulável que estaria na base da fundação do estado social. A frase explica que o homem, em vez de ser solidário e parceiro de seu semelhante, seria, na verdade, seu maior inimigo. Em função disso, a autoridade política teria a função específica de proteger os homens uns dos outros. Sem medo não haveria governabilidade, mas o governo deveria justamente tornar a vida das pessoas livre do medo. Cidadãos seriam aqueles que não viveriam mais do medo, mas em função de leis. O medo de ser morto pelo outro, ou de ser por ele dominado e escravizado, faria com que cada indivíduo entregasse ao governante a sua própria liberdade e até mesmo o direito que tem sobre suas próprias coisas. Em troca, o governante agiria como bem entendesse na realização do seu objetivo.

A teoria de Hobbes explica assim a função do governo e, por outro lado, a obediência dos homens às leis que viriam regular as relações humanas sempre perturbadas pelo medo que os homens têm dos próprios homens. A forma de vida na qual o medo seria absoluto foi chamado por Hobbes de “estado de natureza”. Nesta condição estaria em vigência a “guerra de todos contra todos”. Seria um tempo sem lei, de ameaça e angústia geral. O “estado de natureza” pode assustar, mas é bom lembrar que ele é hipotético. Nunca ninguém poderia localizá-lo na história. O que significa que, até hoje, o estado de natureza serve para que seres humanos pensem no que fazem com a política. Se não valeria a pena viver uma vida e trabalhar por uma sociedade na qual o medo não ocupasse a cena geral.

Deixar o medo em paz

Se bastasse falar do medo para superá-lo, já estaríamos livres deste sentimento há muito tempo. É impossível viver sem ele. Podemos dizer que o medo faz parte daquelas razões do coração desconhecidas da razão que rege os pensamentos. Sentimos medo, mas em uma sociedade que perde o sentido dos sentimentos diariamente, o medo se torna mais um destes nomes para uma diversidade de sensações inespecíficas. Como sentimento ele é intangível e, em certo sentido, até intraduzível. Melhor guardar o medo para falar de coisas sérias do que inflacionar seu sentido e produzir histerias desnecessárias.

Se é difícil compreendê-lo, será muito difícil superá-lo, deixar de ser sua vítima ou fazer dele um uso benéfico. Nossa cultura, por exemplo, trata o medo como um defeito, como algo negativo. Neste caso, ela deveria valorizar a coragem como seu oposto. Mas não é bem assim. Se esquecemos, no entanto, que a coragem precisa do medo para existir, podemos, ao assumir o medo como uma coisa absoluta, tornarmo-nos covardes, ou, negando absolutamente o medo, tornarmo-nos temerários. Nem uma coisa nem outra ajuda a ultrapassar o medo. Pode-se, assim, até renová-lo. Por isso, se o medo, em certa medida é até bom, mas é ruim quando desmedido, do mesmo modo, superá-lo vale apenas em certa dose.

Podemos odiar o medo, querer extirpá-lo de nossas vida, mas nem sempre o fazemos pela via mais simples, porque é muito difícil combater um sentimento. Melhor, quando se trata de sentimentos, aprender a conviver com eles. Um sentimento cresce na exata proporção em que o negamos. Torna-se mais leve quando o aceitamos. É a única chance de que nos deixe em paz.



[1] Publicado em Vida Simples em 2008.
Marcia Tiburi é graduada em filosofia (PUC-RS) e artes (UFRGS) e mestre (PUC-RS, 1994) e doutora em filosofia (UFRGS, 1999). Publicou diversos livros de filosofia, entre elas as antologias As Mulheres e a Filosofia (Editora Unisinos, 2002),  O Corpo Torturado (Ed. Escritos, 2004), e Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero (2008, Edunisc), os ensaios: Crítica da Razão e Mímesis no pensamento de Theodor Adorno (EDIPUCRS, 1995),Uma outra história da razão (Ed. Unisinos, 2003), Diálogo sobre o Corpo (Escritos, 2004), Filosofia Cinza - a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004) e Metamorfoses do Conceito (ed. UFRGS, 2005) e, em 2010, o infantil Filosofia Brincante (Record) e Diálogo/Desenho (ed. SENAC), entre outras obras.
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