quarta-feira, 7 de maio de 2008

Um pai um dia disse:

Uma vez, uma semente acordou sob a terra, mas se sentiu pressionada
Não conseguia por seus braços para subir como mandava sua vontade. Fazia força e forçava, mas não conseguia abrir caminho... Percebeu que para os lados tinha mais mobilidade e por ali foi... torcendo-se entre as pedras e espremento-se, fincou raizes e lançou seus galhos para os lados na terra menos dura.

Então, exausta sentiu um frescor novo nas suas raizes exploradoras, era uma toca arejada. Algum animal deixou um túnel para o inverno onde estocou sementes, talvez ela mesma tenha sido levada para lá por este animal prodigiozo. Logo parou de filosofar e torceu sua atenção na direção da liberdade e seus ramos brotaram na parede de uma ravina alta... Como sua história chegou em uma parede??? Lá de cima ela via suas parentas, irmãs e tias, sua mãe, toda uma floresta metros e metros no fundo de uma formação rochosa... que diabos ela faz lá sozinha... uma única moita em uma parede... que seria dela?

Pensou que de lá seus frutos cairiam muitos metros pesados no chão, seriam esmagados por seu próprio peso e não fecundariam a terra... Talvez nem houvessem frutos pois estaria muito alto para ser polinizada...

Deus, que destino horrível. Presa ente o nada e coisa alguma. Inutilizada por uma existência inteira... Platéia e testemunha da vida do vale a qual não participaria presa a sua parede...

Na chuva não tinha a proteção das árvores maiores... agredida pelas torrentes e interpéres...

No verão pensava em como seria fácil morrer sob o calor solar...

Suas raízes se tornaram vergonhosamente grossas e desengonçadas, sua folhas pequenas e tímidas. Um dia suas flores, pequenas e tímidas transformara-se em pequenos morangos... mas nem os pardais vinham visita-la... quem levaria suas sementes para outras parágens se não fosse o intestino providencial dos pardais??? Seria destino de suas sementes um fim infertil???

Para piorar as coisas um dia foi visitada pelos antigos donos da toca que lhe serviu de abrigo as raízes... duas ratazanas silvestres procuravam sua velha morada para a ninha da que viria... pareciam incomodados com a ocupação desavizada das raízes grossas do arbustinho... mas durante a noite toda só resmungaram, guicharam e reviraram sementes e galhos soltos na sua velha toca.

Estava dormido uma tarde de sol,quando ouviu uma algazarra, dois tigres perseguiram e cercaram um homem tolo que desavisadamente entrou em seus territórios...
Percebeu horas antes que a armadilha teria um fim trágico para o homen, e chegou a ter pena dele quando viu ele seguindo exatamente a trilha organizada pelos dois felinos... cercado no penhasco só poderia fugir subindo as paredes. Mas o homem não conhecia a inteligência dos tigres e não sabia que o segundo estava no alto da ravina o aguardando...

Perderia mais atenção nisto se não fosse a discussão entre as ratazanas. Acordaram de mauhumor e resolveram que a raízes estavam ocupando área demais na sua toca. Roendo-lhe as partes que eles achavam estar demais. DOR. Dor lascinante... lhe separavam de suas nodosas âncoras... que seria dela nas próximas tempestades... não conseguiria produzir frutos em tempo de gerar sementes aptas a germinar... seria o fim. Fim da sua história... morrer seca, sedenta, com frutos murchos em seus galhos...

Que vergonha...

Foi aí que olhou para baixo e viu o homem seguindo cego o plano dos tigres, escalando o penhasco ,acima prendeu-se a suas raízes grossa, agora fragilizadas.

Compadecida viu a tragicidade de sua finitude espelhada na face sofredora do homem lutando pela sua vida... ironia...

Com a clareza de quem vê seu fim próximo a pequena moita dedica sua última energia e mostra ao homem suas duas pequenas frutas...

Sente desfalecer ao sentir seus frutos soltando-se dos galhos e pensa...

Será doce sua boca???
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