terça-feira, 12 de outubro de 2010

Por que palavras?

Tam Hyuen Van – Cláudio Miklos - 25 de Outubro, 2005 – Ano Budista 2549 - Comentários dele em 2010:


Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:


"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"


O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não te preocupes com o dedo que a aponta."


O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"


"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."


"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"


"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."


O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.
Conto Zen




Escrevi este conto zen há muitos anos atrás. Na época, embora o tenha criado como um tributo ao caminho Zen-budista e por amor aos seus koans e contos tradicionais, fiquei um tanto constrangido de admitir sua autoria achando que poderia ser considerado petulante e desrespeitoso; não sabia se um koan zen, um conto, poderia ser obra de um simples praticante. Contudo, no decorrer dos anos me surpreendia, todas as vezes que o lia, com o fato de que aquelas palavras pudessem me passar tanta clareza de sentimentos e ensinamento. De onde resgatei esta sabedoria? Com certeza ela não me era inerente. Faltava-me então muito mais discernimento para realizar em mim conceitos esclarecidos e iluminados. Entretanto, em um momento há poucos anos atrás, descobri a resposta: eu consegui escrever um texto tão agradável porque o fiz sem intenções. Soube resgatar palavras corretas porque as fui buscar no generoso campo das ações simples e amorosas.

A linguagem humana é uma dádiva. Graças à nossa capacidade de elaborar conceitos e desenvolver idéias através da palavra, realizamos grandes coisas. A palavra também nos deixa mais perto da compreensão. Age como um catalisador de opiniões, criando um campo aberto para que a barreira da ignorância seja superada. Mas ela também pode ser mal empregada, e tornar-se a maior fonte de toda a cruel indiferença entre os homens. Porque não são muitos os que logram reconhecer o significado essencial do Verbum, a linguagem de sabedoria eterna que se oculta por trás das simples palavras. Todos nós somos presas fáceis da sedução dos termos, e sempre os interpretamos à luz de nossas próprias concepções. Assim, a palavra deixa de ser o meio de união e torna-se – ela mesma – sua própria antítese: será sempre através da palavra que deixaremos de compreender, e sucumbiremos ao simples "interpretar". Em algum momento na longa história humana perdemos a capacidade de apreender a linguagem sob a marca da sensibilidade perceptiva e sucumbimos ao uso das palavras como subproduto de um racionalismo egoísta, e assim criamos nossa Torre de Babel. Aprendemos muito a pensar e conceituar, mas deixamos de concordar.

Mas a linguagem não se restringe a signos vocais ou escritos. A palavra não se limita ao que é dito. Apesar de seu grande afastamento dos aspectos naturais e vívidos do ritmo universal e de seu mergulho no artificialismo, a humanidade ainda abriga em si a dádiva da percepção não-verbal, da sensibilidade para o que é anímico e essencial. Os signos extrapolam os sons articulados e sinais escritos. Há a linguagem do mundo. Mas quem sabe ouvi-la? Quem sabe ouvir o silêncio, reconhecer as palavras que nunca são ditas?

Pessoalmente sou um budista "silencioso". Embora tenha muito a dizer, o faço com muito pouca freqüência. Ou talvez, faço de uma forma particular, e num ritmo que a minha prática determina. Esta é a maneira através da qual procuro exercitar o espírito do zen, a habilidade de dizer sem falar – outras pessoas o fazem de outras formas, cada uma em seu próprio modo de discernimento. Por que as palavras são objeto de cuidado por parte do caminho zen? Ao contrário do que se pode imaginar, isso ocorre justamente porque o zen-budismo – e o próprio Buddha – valorizam ao extremo sua importância. O que dizemos e ouvimos, escrevemos e lemos, pode nos conduzir à felicidade ou ao intenso sofrimento. As palavras aglutinam e organizam nossas idéias, podem ser as guias e orientadoras das ações meritórias e engrandecedoras do espírito humano. Mas nem sempre o verbo proferido nos coloca no caminho da compreensão; muitas vezes ele conduz ao desastre. Portanto, deveríamos estar atentos ao que fazemos com nossas palavras, ao uso e abuso que podemos dar a estes sinais ou vocalizações abstratas, criados para nomear e definir, mas muitas vezes usados para confundir e enganar.

Compreensão e entendimento, linguagem e significados, opiniões e conceitos. São tantas as facetas interpretativas que as palavras apresentam, e todas elas dependem de apenas um único fator mental: nosso grau de discernimento. Uma simples palavra pode ser apreendida de forma distinta, apesar de todas as definições pré-estabelecidas, apesar da própria realidade dos fatos. Ao proferir a palavra "amor" para dez pessoas, posso estar sendo compreendido de dez formas diferentes. E por que o entendimento é tão difícil às vezes? Porque quando entramos em contato com a palavra, nós nos prendemos à sua abstração disfarçada de realidade concreta (a sua mera representação), e não observamos o sentido essencial que ela aponta – e às vezes nem mesmo sabemos que tal essência existe. Entendemos a palavra do modo como nossas expectativas ansiosamente a definem, e não apreendemos o significado fundamental a que ela simplesmente alude. Olhamos o dedo, e não a lua que ele aponta. Eis porque muitas vezes agimos, falamos e pensamos coisas que podem fazer mal a nossos corações, e aos corações alheios. O grande mal da Torre de Babel é fazer aflorar nos lábios e nas letras toda a doença da incompreensão que caracteriza as mentes de muitos homens e mulheres.

Mas como praticar o dom da palavra? O primeiro passo para aprender esta arte é calar-se, e escutar atentamente. Curando nossa tendência a nos expressar inexoravelmente, sem jamais praticar a paciência de escutar ou entender, aprendemos a reconhecer melhor o sentido de nossos pensamentos e opiniões. Ao fazer isso, atingiremos o entendimento crucial daquilo que estamos imaginando expressar, e assim saberemos se o que estamos dizendo é correto. O mesmo processo se dá para as palavras alheias. A base da discordância entre os homens está no fato de que nos apegamos ao nossos argumentos, continuamos falando ou nos expressando sem prestar atenção a mais nada, e nos prendemos ao sentido frio dos termos, ficando surdos ao que é dito pelos outros. E então, esquecemos de que o ato de compreender deveria ser o objetivo de todo diálogo. Sem compreensão atenta, a palavra se limita a exprimir os ecos de nossas próprias ilusões, fantasias, racionalismos, ódios ou preconceitos.

Ouvir atentamente não é fácil, eu sei. Corremos o risco de ouvir coisas duras e cruéis. Podemos ter que nos defrontar com idéias e opiniões constrangedoras, assustadoras e desprezíveis. Mas sem o esforço da escuta atenciosa, jamais saberemos usar a palavra com sabedoria. É preciso mergulhar fundo nas palavras alheias para que possamos expressar nossas próprias palavras com cuidado e correção. Entretanto este enfrentamento não significa nem justifica agir com arrogância ou combatividade; podemos ouvir e falar sem cair na dor da disputa, da ofensa ou da agressão. Eis a Palavra Correta, o melhor meio para se atingir os méritos da linguagem verbal e escrita.

Mas o caminho das palavras vai além, muito além. Apreendendo o sentido dos termos, precisamos também apreender sua insubstancialidade, seu Vazio, seu significado oculto. O mistério da Palavra é profundo e poderoso, mas completamente passível de ser atingido por qualquer um. Por trás de tudo o que eu digo – seja verdadeiro ou falso, consciente ou auto-iludido – minha verdadeira face se apresenta. Toda a nossa condição humana depende de como sabemos expor nossas idéias, e o quanto estas idéias representam as verdades mais saudáveis da sabedoria humana. Não há como disfarçar o engano e a falsidade nas palavras; mesmo aqueles que são capazes de suprema dissimulação, jamais lograram manter sua falsa palavra por muito tempo. Da mesma forma – e pelos mesmos motivos – as mentes violentas, cruéis e fanáticas são incapazes de sustentar seus erros por muito tempo sem cair no esquecimento, descrédito ou vergonha. E também as palavras brutas, frias, insensíveis ou imaturas não se sustentam mais do que bolhas de sabão.

Diante da necessidade de diálogo e aprendizagem, o praticante deve saber que o exercício da consciência depende do grau de sensibilidade em reconhecer a verdadeira meta. O objetivo final não pode ser expresso pelos signos e palavras, mas somente através deles poderemos reconhecer a existência de um sentido para a vida. Assim, qual é o pleno exercício de compreensão? Abrir-se para o mundo com liberdade de espírito e desprendimento dos conceitos. Quando afastadas do egoísmo, as palavras são o meio mais eficaz de superação dos atos de sofrimento, miséria, dor e iniqüidade que o Homem promove contra si mesmo.

O caminho da eloqüência e sabedoria passa por grandes descobertas humanas, e engrandecimento pessoal. Será através dele que poderemos atingir a outra margem do rio da existência. Naquela margem habita o segredo mais belo e valioso do Dharma budista: coerência nas ações e economia de palavras.


Cláudio Miklos / Tam Hyuen Van Publicou aqui!


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