sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Ciclismo urbano bom negócio!


Redação de Celso Filho especial para o ESTADÃO
Seja para o lazer nos fins de semana ou como meio de transporte diário, as bicicletas têm voltado à cena nos grandes centros urbanos brasileiros. E o que para muitos é uma solução sustentável ao trânsito caótico das cidades, para outros é uma oportunidade de negócios. De oficinas a estabelecimentos com serviços especializados para os ciclistas, empresários estão investindo com criatividade para atrair esse público em crescimento.
Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), estima-se que a frota de magrelas no Brasil seja de 70 milhões. Somente em 2013, foram fabricadas no País 4,5 milhões de bicicletas e este ritmo deve se manter este ano.
Para o diretor executivo da Abraciclo, José Eduardo Gonçalves, o consumidor atual pede um novo perfil de produção. “Vivemos um momento de evidência, da redescoberta da bicicleta como alternativa ao transporte viário. A demanda está cada vez mais exigente, com bicicletas mais sofisticadas.”
Rafael e Talita criaram uma oficina com bar. FOTO: Sérgio Castro/Estadão
Os novos ciclistas urbanos também exigem uma série de serviços e produtos específicos. Segundo Gonçalves, a discussão de temas relacionados à mobilidade urbana tem ajudado a convocar adeptos do ciclismo em todo o País. “O empreendedor precisa analisar a fundo este mercado e entender as necessidades dos usuários em cada cidade.” Em São Paulo, onde a sociedade tem demandado investimentos em infraestrutura de ciclovias, o público é de pessoas mais conscientes que querem mudar sua convivência com o espaço urbano.
Análise. Para o consultor do Sebrae-SP Marcelo Sinelli, é importante que o empresário estude as exigências e características do mercado. “Uma opção é descobrir novos serviços em torno do ciclismo. Ele pode comprar outras coisas além de simplesmente alugar uma bicicleta. Mas é algo de nicho, vai ser um negócio mais localizado em lugares em que se usam muito a bicicleta, como a Vila Madalena e o Parque Ibirapuera”, explica.
A localização foi um ponto importante para a empresária Camila Nakatsui começar seu negócio. Em 2012, depois de passar uma temporada no exterior, ela decidiu criar o Bike Café integrado à bicicletaria de duas amigas, no bairro de Pinheiros. O espaço, que funciona como um café, possui dois bicicletários e recebe tanto ciclistas que são clientes da loja quanto adeptos do Mountain Bike que participam de eventos criados nos fins de semana pelo estabelecimento. “É um serviço combinado, a pessoa vem à loja para deixar a bicicleta (para um reparo) e toma um café enquanto espera.”
Ideia parecida tiveram os amigos Talita Noguchi e Rafael Rodo ao criarem o Las Magrelas, no ano passado. A oficina, na Vila Madalena, funciona também como um bar e virou um ponto de encontro para ciclistas urbanos. Além disso, o local atende até as 22 horas.
“Queríamos resolver dois problemas: horário e ter serviços especializados. Isso tudo com um espaço de convivência. A pessoa traz a bicicleta para consertar e pode subir para tomar uma cerveja e conversar com os amigos”, diz Rafael.
O local ainda possui um andar para o projeto oGangorra, em um espaço de coworking para empresas e grupos discutirem iniciativas ligadas à mobilidade urbana. O bar também recebe eventos de coletivos culturais, como oficinas de arte e exposições. “As pessoas querem pensar a cidade de uma maneira diferente. Querem mudar seu estilo de vida. É preciso ter um ambiente que não seja impessoal. Onde o cliente chega e se sente à vontade, sem correria”, afirma Rafael.

Especialização.  Apesar da vantagem de se ter diferentes serviços no mesmo local, o consumidor demanda conhecimento do universo que envolve o ciclismo urbano. É o que aponta o empresário Cléber Anderson, sócio-proprietário da Anderson Bicicletas. A loja, que tem mais de 20 anos de mercado, oferece serviços mecânicos e atendimento especializado para auxiliar os clientes, principalmente do público infantil, na compra de acessórios e bicicletas. Para conquistar a clientela, eles também organizam passeios noturnos semanais pela cidade de São Paulo.
Segundo Anderson, o mercado no País vive um novo boom com a retomada do ciclismo urbano nas grandes cidades. Assim, o empreendedor precisa estar atento às novidades e entender sobre o que está vendendo. “Uma loja tem sucesso pela oferta de produtos. É preciso oferecer o produto certo que o cliente precisa. Isto tudo com respaldo técnico”, explica.
Segundo Sinelli, para embarcar neste novo mercado, é preciso entender o que o público carece e oferecer o que ele precisa. “Em todo negócio, vende-se uma solução. É necessário pensar: que tipo de solução eu posso vender para este ciclista?”, aconselha o consultor.
Estar na internet é exigência do público desse mercado
Se esse ciclista urbano pode ser definido como uma pessoa consciente dos problemas da cidade, ele também está conectado para discutir suas causas.
Segundo Angelo Leite, presidente da Serttel, empresa responsável pelo desenvolvimento do projeto Bike Sampa, os usuários de sistemas de compartilhamento de bicicletas são normalmente jovens que buscam uma nova maneira de se integrar ao espaço urbano.
“É um público voltado para a nova cidade, que está nas mídias sociais e que discute qualidade de vida”, afirma.
Foi nesse ambiente conectado que o diretor da Mob Content, Marcos Ferreira, decidiu apostar. Em 2013, financiada por uma campanha de crowdfunding, a empresa de tecnologia midiática desenvolveu o aplicativo Itinere, que funciona como uma mapa colaborativo para ciclistas. Com a informações dos usuários, o sistema aponta para locais com bicicletários, trechos perigosos para bicicletas, buracos e trajetos mais populares, similar ao Waze.

Anderson. Website e vendas pela rede a partir deste ano. FOTO: Robson Fernandjes/Estadão
Ainda em fase de desenvolvimento, uma nova versão do aplicativo deve ser lançada neste primeiro semestre. A expectativa é que no futuro a tecnologia atraia marcas que queiram estar associadas ao aplicativo e à causa do ciclismo urbano. E este pode ser um dos caminhos para se investir neste mercado. “A bicicleta é como uma causa. Tudo que é lançado com esta causa é adotado como uma marca”, alega Marcos.
Mesmo não sendo uma empresa como a Mob Content, estar na internet é um fator importante para qualquer empreendedor da área. Tanto ter uma loja virtual para oferecer seus produtos quanto investir na divulgação de seus serviços nas redes sociais.
Nesta área, a Anderson Bicicletas pretende avançar. Segundo o dono, Cléber Anderson, o desenvolvimento do e-commerce ainda é um desafio. “É uma das nossas principais deficiência”, assume. Para resolvê-la, o empresário tem investido em uma reforma do website da loja e, neste ano, irá começar a efetuar vendas pela internet.
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