sexta-feira, 11 de setembro de 2015

É importante compreender, acender a luz e mostrar que o não existe...


Postado por "Buda Virtual"

Resultado de imagem para Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche
'' O exemplo budista clássico usado para ilustrar a vacuidade é o da cobra e da corda. Digamos que há um homem medroso chamado João, que tem fobia de cobra. Ele entra num quarto mal iluminado, vê uma cobra enrolada num canto e entra em pânico. Na verdade, ele está olhando para uma gravata listrada Giorgio Armani, mas, em seu terror, interpreta mal o que vê, a ponto de quase morrer de medo - morte causada por uma cobra que não existe de verdade. Enquanto ele estiver sob a impressão de que se trata de uma cobra, a dor e ansiedade que ele vivencia correspondem ao que os budistas chamam de “samsara”, que é uma espécie de armadilha mental. Para sorte de João, sua amiga Maria entra no quarto. Maria é calma e equilibrada, e sabe que João imagina estar vendo uma cobra. Ela pode acender a luz e explicar que não há cobra nenhuma, que se trata, na realidade, de uma gravata. Quando João se convence de que não corre risco, seu alívio é justamente o que os budistas chamam de “nirvana” - libertação. Todavia, o alívio de João tem por base a falácia de que o mal está sendo afastado, embora a cobra não existisse nem nunca tenha existido nada que pudesse ter feito João sofrer.

É importante compreender que ao acender a luz e mostrar que a cobra não existe, Maria está também dizendo que não existe ausência de cobra. Ou seja, ela não pode dizer: “Agora a cobra foi embora”, porque nunca houve uma cobra. Ela não fez a cobra desaparecer, do mesmo modo que Sidarta não criou a vacuidade. É por isso que Sidarta insistiu que não poderia varrer o sofrimento das pessoas com um abano de mão. Tampouco poderia sua própria liberação ser compartilhada ou concedida a esse ou àquele, como algum tipo de prêmio. Tudo o que Sidarta poderia fazer era explicar, a partir de sua experiência, que desde o início jamais houve sofrimento, o que para nós é semelhante a acender a luz.

Quando Maria encontra João paralisado pelo medo, ela tem algumas opções do que fazer. Ela pode mostrar diretamente que a cobra não existe, ou pode fazer uso de um meio hábil, como ir conduzindo a “cobra” para fora do quarto. No entanto, se João estiver aterrorizado a ponto de não conseguir distinguir a gravata da cobra, mesmo com a luz acesa, e se Maria não for hábil, ela pode piorar a situação. Se ela balançar a gravata diante do rosto de João, pode ser que ele morra do coração. Mas, se Maria for hábil e perceber que João está vendo coisas, ela poderá dizer: “É mesmo, eu também estou vendo a cobra”, e cuidadosamente retirar a gravata da sala para que João passe a se sentir seguro. Talvez depois, quando ele estiver calmo, seja possível conduzi-lo com jeito até o ponto em que ele possa ver que desde o início a cobra jamais existiu.

Se João nunca tivesse entrado no quarto, se não houvesse o mal entendido, toda a situação de ver ou deixar de ver a cobra perderia o sentido. Mas, porque ele viu uma cobra e ficou preso naquela situação, e porque está paralisado pelo medo, ele quer encontrar um meio de escapar. Os ensinamentos de Sidarta constituem um método para essa liberação. O darma é, por vezes, denominado um caminho “sagrado”, embora, estritamente falando, não exista uma divindade no budismo.

Um caminho é um método ou ferramenta que nos conduz de um lugar para outro; neste caso, o caminho nos conduz da ignorância até a ausência de ignorância. Usamos a palavra sagrado, ou venerável, porque a sabedoria do darma pode nos libertar do medo e do sofrimento, o que é, de modo geral, a função do divino.

O nosso cotidiano é cheio de incertezas, alegrias ocasionais, ansiedades e emoções que se enroscam em nós como uma serpente. Nossas esperanças, medos, ambições e histeria, de modo geral, criam a escuridão e as sombras que permitem que a ilusão da cobra se torne ainda mais vívida. Tal como o assustadiço João, caçamos soluções em todos os cantos do quarto escuro. A única finalidade dos ensinamentos de Sidarta é ajudar gente medrosa como nós a entender que o sofrimento e a paranóia são fruto de ilusões.

Embora Sidarta não pudesse eliminar o sofrimento com uma vara de condão ou por meio de algum poder divino, ele foi muito hábil quando se tratou de acender a luz. Ele ofereceu muitos caminhos e métodos para a descoberta da verdade. De fato, no budismo há dezenas de milhares de caminhos que podemos seguir. Por que não simplificar tudo num só método? Porque, assim como existem vários remédios para tratar diferentes doenças, vários métodos são necessários para os diferentes tipos de hábitos, culturas e atitudes. O método a ser seguido depende do estado mental do aluno e da habilidade do professor. Em vez de chocar a todos com a vacuidade logo de início, Sidarta ensinou as multidões de discípulos por meio de métodos populares como a meditação e os códigos de conduta - “Faça a coisa certa, não roube, não minta”. Ele prescreveu diferentes níveis de renúncia e austeridades, desde raspar a cabeça até abster-se de comer carne, dependendo da natureza do aluno. Esses caminhos rigorosos e aparentemente religiosos funcionam bem para aqueles que não conseguem de início ouvir ou compreender a vacuidade, bem como para aqueles cuja natureza se presta ao asceticismo.''
se Rinpoche
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