O Trauma e a Construção da Identidade: Na Visão de Gabor Maté

O Trauma e a Construção da Identidade: Na Visão de Gabor Maté

Você já parou para se perguntar por que você é como é? Por que repete certos padrões nos relacionamentos, sente medos aparentemente sem explicação ou se sabota quando está prestes a alcançar algo importante? E se eu te dissesse que parte da sua personalidade pode não ser realmente sua? Pode soar estranho, mas essa é uma das ideias centrais do trabalho do médico húngaro-canadense Gabor Maté. Ele nos convida a encarar uma hipótese profunda: aquilo que chamamos de "nosso jeito de ser" pode, na verdade, ser uma adaptação inconsciente a experiências traumáticas da infância.

De acordo com Maté, o trauma não é apenas o que nos acontece, mas o que ocorre dentro de nós como resultado desses eventos. Não se trata apenas de situações extremas como abuso ou violência; muitas vezes, o trauma é sutil. Ele se instala nos silêncios, nas ausências e nas emoções reprimidas — na forma como fomos ensinados a esconder quem realmente somos para sermos aceitos, amados ou simplesmente tolerados. Desde cedo, aprendemos a nos moldar para sobreviver emocionalmente. Essa moldagem, embora essencial em dado momento, transforma-se em uma prisão com o passar do tempo.

Passamos a viver como se essas máscaras fossem nossa identidade verdadeira. É por isso que tantos adultos se sentem perdidos, desconectados de si mesmos e vivendo no piloto automático. A verdade é que a personalidade pode ser, em grande parte, o resultado de mecanismos de defesa criados para lidar com dores não resolvidas. Para iniciar um processo de cura e reconectar com nossa essência, precisamos redefinir o trauma: ele é uma ferida emocional que pode surgir de eventos comuns, como a sensação de não ser visto ou ouvido por pais emocionalmente indisponíveis.

Quando somos crianças, somos vulneráveis e dependentes de segurança e afeto. Na ausência desses elementos, desenvolvemos estratégias como o perfeccionismo, o distanciamento emocional ou a necessidade de controle. Com o tempo, essas respostas se consolidam como traços de personalidade. Assim, a criança que aprendeu a não incomodar torna-se o adulto com dificuldade de se impor. Esses padrões não são aleatórios; são adaptações que fizeram sentido no passado, mas que agora nos aprisionam em um ambiente que já não existe mais.


Gabor Maté propõe uma mudança de perspectiva poderosa: em vez de perguntar "o que há de errado com você?", devemos perguntar "o que aconteceu com você?". Essa visão substitui a culpa pela compreensão.
A cura não acontece apenas pelo entendimento intelectual, mas através do corpo e da presença. O trauma está inscrito no sistema nervoso e nos músculos, por isso práticas somáticas e espaços de vulnerabilidade são fundamentais. A cura é um processo de integração, não de "conserto".


O caminho de volta para si exige coragem para enfrentar o vazio e a dor que tentamos anestesiar com distrações ou produtividade. No entanto, o que resistimos, persiste. A liberdade começa quando olhamos para nossas feridas com compaixão. Ao resgatar nossa essência — aquilo que somos antes das máscaras e das adaptações — descobrimos que não estamos sozinhos. Essa jornada de despertar individual contribui para uma cura coletiva, permitindo que criemos relações mais conscientes e um mundo mais humano.

 

*ESTE TEXTO NÃO FOI ESCRITO POR GABOR MATÉ, mas inspirado no seu processo e teoria.

 

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