CONVERSAS ANÔNIMAS: Sir Erik e O cavaleiro preso na armadura!

Sir Erik e O cavaleiro preso na armadura

Alguém escreveu um texto e achou por bem apagá-lo... mas sua escrita me comoveu!

Me vi estimulado a escrever sobre seu testemunho...

Lhe dizer que muitas vezes, o que SENTIMOS como "VERDADE" é apenas o nosso cérebro celebrando a AUSÊNCIA DE CONFLITO INTERNO.

A congruência ou consonância cognitiva é um estado de “equilíbrio” que acontece quando “seus pensamentos”, “suas crenças” e “seus comportamentos” estão alinhados!

E isso passa uma sensação gostosa de:  "Esta tudo bem!!!"

Digamos que SE EU ACREDITO que "pessoas ricas são gananciosas", e eu encontrar um rico mesquinho pelo caminho ou na mídia... isso gera essa sensação de “congruência”. E eu me sinto bem e em equilíbrio… mesmo que minha generalização esteja tecnicamente errada, afinal EXISTE a possibilidade de que alguns ricos não sejam gananciosos! Mas, dane-se. O que vale é essa sensação de que "Isso faz sentido"!

Então, Pense em Sir Erik,

Toda vez que encontra pessoas que ele define como sendo "rasas", no seu caminho isso confirma o seu “esquema” de crenças... E, apesar de qualquer desconforto que isso seja, ainda assim estes encontros endossam suas crenças e faz você se sentir seguro e com algum "conforto" de “estar certo” sobre o mundo ser um lugar ruim, mesmo que isso o condene à solidão.


É uma congruência que mantém uma rotina emocional viva.

Sua postagem não era sobre uma verdade social, mas a apresentação da sua Verdade Subjetiva.

Para ele, hoje esta é a única realidade possível porque seu ego organizou a narrativa de sua vida de forma a não deixar frestas para a dúvida.

SINAL DE QUE: a dúvida lhe gera angústia!

E a sua "certeza" (mesmo que amarga, mesmo que artificial) gera estabilidade psíquica!

ISTO É seu SINTOMA!

Quando alguém descreve um mundo dividido entre sua própria perspectiva e a suposta superficialidade alheia, esta construindo para si uma narrativa onde ocupa o lugar de quem vê com clareza aquilo que os outros não conseguem perceber.

Há nesse enredo uma coerência interna que parece inabalável!

Mas ela é uma NECESSIDADE e não uma verdade.

A recusa de se expor aquilo que ele classifica como trocas vazias é ANTES DE TUDO a NEGAÇÃO DA ALTERIDADE.

A alteridade é o reconhecimento de que o "Outro" é um ser distinto, com desejos, subjetividades e vontades que fogem ao nosso controle E COM DIREITO DE SER ASSIM! No seu texto Sir Erik substitui o "Outro real" por uma caricatura projetiva.

Então, o que se apresenta como sendo sua “escolha deliberada”, na verdade, é uma armadura, uma proteção cuidadosamente elaborada contra aquilo que mais se teme: investir em algo que não se pode controlar.

Não dá pra negar que, psicologicamente, essa arquitetura de isolamento revela uma forma sofisticada de lidar com a vulnerabilidade.

Ao longo de sua história, a crença de que não será compreendido ou acolhido em suas necessidades mais genuínas foi ganhando força baseado nas experiências mais antigas, provavelmente na infância ainda.

Essa convicção foi transformada em uma espécie de escudo ético: não é que ele não possa encontrar quem corresponda à sua profundidade, é que os outros é que não estão à altura.

O que antes poderia ter sido experiência de frustração converteu-se em critério TÃO EXIGENTE QUE PRATICAMENTE GARANTE A SOLIDÃO, agora vivida não como perda, mas como integridade mantida.

A imersão em jornadas exaustivas de trabalho, por exemplo, oferece uma justificativa socialmente inquestionável para a indisponibilidade afetiva.

Não se trata de fingimento, mas de um arranjo psíquico onde a produtividade contínua substitui a necessidade de se expor à imprevisibilidade do outro.

Da mesma forma, a análise meticulosa das intenções alheias opera como um sistema de vigilância que antecipa qualquer possibilidade de decepção: se é possível identificar precocemente o interesse interesseiro ou a abordagem superficial, torna-se desnecessário arriscar-se verdadeiramente.

Na clínica tropeçamos em narrativas onde a sustentação da autonomia é levada à condição de autossuficiência total que costuma esconder o temor de precisar de alguém e não ter correspondência.

Quando alguém afirma que não procura ninguém, é possível escutar também O CANSAÇO DE TER PROCURADO muito E NÃO ENCONTRADO, ou mesmo a antecipação defensiva de uma nova frustração.

A valorização daqueles que seriam seus valores nobres — lealdade, presença, fidelidade — é genuína, mas a forma como são rigidamente posicionados como condição inegociável para qualquer aproximação sugere menos uma exigência legítima do que um teste no qual o outro já está fadado a falhar.

Eu realmente sinto muito por toda essa tristeza e isolamento que não é nomeada...

Ser obrigado a transformar a “ausência de conexões significativas” em uma espécie de “paz conquistada”, quando claramente parece se tratar de uma resignação disfarçada de escolha... deve ser exaustivo!

Não há demérito algum em desejar relações que fujam ao superficial, nem em estabelecer padrões elevados de convivência. O sofrimento silencioso reside em ter criado um sistema tão eficaz para evitar a decepção que também impede a chegada daquilo que se deseja.

A questão que fica, e que talvez valha a pena ser acolhida, não é se você deve abandonar seus valores ou sua busca por profundidade, mas se a maneira como tem se protegido ainda permite que algo de fato chegue até você??

Aceitar a alteridade significa aceitar que o outro pode nos decepcionar, nos ferir ou nos pedir algo que não queremos dar. Ao encerrar conversas abruptamente e se isolar, ele nega a "falta" no outro e em si mesmo.

A maturidade psíquica acontece quando nos permitimos sustentar a alegria, reconhecendo nossas próprias faltas e abraçando as imperfeições nossas e a dos outros, como o único lugar onde o amor real pode florescer!


O que me leva a jornada do protagonista de O Cavaleiro Preso na Armadura, de Robert Fisher.

Assim como o cavaleiro que, convencido de sua bondade e nobreza, permanece aprisionado em uma armadura que um dia deveria apenas protegê-lo, mas que com o tempo o isola completamente do mundo e de si mesmo, o sujeito descrito no texto ergue uma sofisticada fortificação de certezas e julgamentos que, sob o disfarce de integridade e autossuficiência, o condena à solidão.

A "congruência cognitiva" que celebra a ausência de conflito, ecoa a recusa do cavaleiro em retirar a armadura: ambos os personagens transformam o medo da vulnerabilidade em uma suposta virtude, confundindo proteção com identidade.

É somente quando o cavaleiro aceita percorrer o caminho do autoconhecimento, reconhecendo suas próprias faltas e a necessidade do outro, que ele começa, literalmente, a despir a sua couraça. Da mesma forma, a maturidade psíquica apontada no texto exige exatamente isso: abandonar a segurança fria da armadura conceitual para se arriscar no território incerto, porém vivo, da alteridade, onde o amor e a conexão real só podem florescer a partir da imperfeição compartilhada.



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