quarta-feira, 13 de março de 2013

O Calango Abstrato: Raio-X de uma escolha: por que Budismo?

 Raio-X de uma escolha: por que Budismo?

Do "O Calango Abstrato"




A minha vida inteira eu fui de testar ideologias, formas de pensamento e religiões. Apesar de ser muito ingênuo entre meus dez e catorze anos, e de ser profundamente cético entre meus catorze e dezoito anos, e de ser um evangélico por uns oito anos de minha vida, o fato é que em cada uma dessas fases eu adotei uma postura de teste. Nunca entrava numa ideologia de forma definitiva, era sempre um contato de modo a verificar como ela se comportava, os efeitos que causava em mim e nos outros.

Isso significa que meu abandono do Catolicismo foi seguido de uma mudança de visão de mundo tão profunda que me fez observar com cuidado as ideologias com as quais eu me envolveria em seguida. Sempre que eu entrava, era como observador, deixando um pé dentro e outro pé fora. Em todas vi potencial para a felicidade, e potencial para causar o sofrimento (até mesmo no Humanismo Secular). Até fui convidado para a Ordem DeMoley por um tio, mas desisti no segundo dia. Não tinha cabeça para aquilo. Quem sabe hoje? Mas... não, deixa, continuo não querendo. Quando enveredei pelo Ateísmo após a minha desconversão do Catolicismo, não entrei de cabeça. Adentrei desconfiado, como quem envereda em casa mal-assombrada, olhando para os lados, observando cada frestra à espera do monstro da vez. Estudei muito, de Ocultismo a Candomblé, de Bíblia a Alcorão, de Budismo a Estoicismo. Entendi o Protestantismo como uma hipótese testável. Assim que entrei, comecei a observar desconfiado como funcionava. Baseado na fé, sem espaço para a dúvida (segundo os pastores, é claro) e com uma já consolidada teoria sobre a salvação, foi meu primeiro ponto de entrada para uma vivência religiosa desde que tinha abandonado o Catolicismo. Vendo alguns pontos negativos, vi que não seria possível eu conviver com eles. Em uma fase conturbada, fim de casamento, abandonei a fé cristã. Depois de uma esbórnia caótica, me envolvi com o Budismo, mais especificamente com o Zen-Budismo, e entendi vários aspectos de seu sistema. Hoje, pratico o Budismo, estou ajudando a fundar uma sanga e pratico meditação todos os dias.

Em todas as religiões ou ideologias nas quais entrei, usei um sistema de avaliação quíntuplo. Se em qualquer momento desse sistema avaliativo a ideologia ou a religião se mostrasse ineficaz ou falsa, eu simplesmente abandonava. É um sistema que estabeleci na minha adolescência, depois de ter lido uma entrevista na Playboy que nem sei mais qual era (sim! eu LIA a Playboy!). Esses critérios não eram fáceis de observar, exigem que se envolva de modo superficial até o nível profundo. São critérios pessoais, mas isso não significa que servirão para todos que tentarem fazer uso deles, seja por não terem uma mente treinada para isso, seja por não estarem dispostos a colocar sua própria fé à prova.

Pois bem, os critérios eram precisamente cinco, dois em relação à doutrina, e três de ordem prática.

O primeiro critério é se a doutrina tem possibilidade de ser falseada ou não. A partir dos métodos que eu tenho em mãos, eu parto do princípio em que toda afirmação de uma religião sobre a realidade deve ser posta à prova, testada e verificada dentro dos critérios da própria doutrina. Se não funcionar, não é verdadeira. Se não é verdadeira, não serve para mim. Quando pus o Catolicismo à prova, suas doutrinas e seus dogmas, vi que a maioria não se sustentava. Na época, não tinha muitas ferramentas, quer lógicas, quer metodológicas, para realizar tais testes. O que assumi foi que, se o Catolicismo tinha tantos dogmas, fazia sentido que teria como provar esses dogmas. Sendo falsa essa assertiva, abandonei o Catolicismo. Sempre que me envolvi com alguma ideologia, meu primeiro trabalho foi sempre contrapor suas assertivas principais com a realidade. Não falo daquelas categorias míticas, como "Jesus andou sobre as águas" ou "uma cobra protegeu Buda da chuva", mas da possibilidade de a ideologia em questão conseguir sobreviver sem essas categorias. Se a própria doutrina afirmar que Jesus nunca andou sobre as águas, a religião se sustenta? Se sim, dá para seguir, se não, abandono-a. Muitas vezes, visto a quantidade de relatos e afirmações dentro de um sistema, é bem provável que ele se esgote não antes de dois anos dentro de uma ideologia.

O segundo critério é se a doutrina de fato demonstra transformar profundamente as pessoas que dizem ser adeptos dela. Dessa forma, não é um critério doutrinário, mas prático. Aqui, eu meço a hipocrisia dos adeptos. Se eu vejo as pessoas felizes, aceitando suas vidas como são, sem forçar nada a ninguém, e profundamente transformadas na ética e no trabalho, então enxergo pessoas para as quais a doutrina teve contribuição. Nesse sentido, meu segundo critério para saber se uma ideologia serve para mim é se as pessoas que a apregoam a mim de fato demonstram em suas vidas aquilo que apregoam. Como exemplo, se eu tivesse entrado no Catolicismo, e se em suas pregações e em sua doutrina o fiel deve se mostrar piedoso e solidário, mas não vejo em nenhum fiel nem piedade nem solidariedade, então abandono a religião aqui mesmo, sem pestanejar. Mas se uma parte dela demonstra ser aquilo que prega, mesmo com dificuldade, é um convite para eu ficar. Essa fase varia e ideologia para ideologia, mas costumo ficar algo em torno de um a dois anos analisando isso, em simultaneidade com o primeiro critério.

O terceiro critério é se a doutrina consegue lidar bem com a contradição. Se uma dessas possibilidades ditas acima não se sustenta, eu procuro a explicação da religião sobre ela. Muitas vezes, a explicação é fajuta (Jesus andou em uma região com muito sal), e outras vezes, consigo fechar de forma filosoficamente aceitável (as categorias impossíveis de serem verificadas aceitam-se pela fé). Apesar de parecer perigoso, do ponto de vista racional, esse critério é o melhor de que disponho para afirmar se devo ou não permanecer. Geralmente isso se verifica até um ano depois das primeiras fases, pois é justamente onde as contradições começam a aparecer. Daí que vem, por exemplo, meu gosto por línguas clássicas. Estudando o Hebraico, percebi que, embora o tratássemos como Deus (masculino singular), muitas vezes, no original, ele era tratado no plural (recentemente descobri resquícios de uma feminilidade em Deus). Se essa contradição fosse suficiente para minar a crença desde sua base, então seria outro passo para abandoná-la.

O quarto critério é de ordem prática. Basicamente, que tipo de transformação a religião era capaz de promover a mim, pessoalmente? O que uma ideologia me promete, para aplicação em minha vida prática, ela de fato cumpre? Óbvio que cada forma de pensamento passa por um longo processo de decantação na sociedade, permitindo com que a mesma seja testada e adaptada, e de fato ela termina por cumprir o que se propõe a cumprir. O problema não é essa transformação óbvia, mas a transformação profunda, a menos óbvia possível. Depois de entrar em uma linha religiosa (ou a-religiosa) eu observo que transformações em seu âmbito profundo são promovidas na minha personalidade, e de que natureza essas transformações são (negativas, positivas, neutras). Dessa forma, depois de abraçar o Ateísmo, a doutrina prometia uma libertação do medo que as religiões deixavam. Observei bem, e o medo não abandonou. O medo da morte, da vergonha, da ignorância, da dor e das demais coisas permaneciam ali. O Cristianismo prometia uma mudança profunda no modo de ser do adepto, mas a transformação de fato não ocorria, por mais que eu cumprisse todo o protocolo (crer sem duvidar, fé incondicional, etc.). Quando eu levava o caso ao pastor, a culpa era do Espírito Santo, que ainda não tinha decidido descer sobre mim. Como é algo que leva um tempo, pode-se passar vários anos até verificar se funcionou a transformação ou não.

O quinto critério é um resultado do quarto. Se eu abandonar a religião ou a ideologia, como os adeptos dessa ideologia agirão em relação a mim? Se a doutrina disser que devem me ignorar completamente, e me ignorarem, tudo bem, não é ideologia para mim. Mas, e aquelas que promovem a dignidade humana? Os adeptos vão me abandonar, deixar de me acompanhar, me forçar a voltar e me ameaçar com n possibilidades de sofrimento no pós-vida? Ou eles entenderão com amor, discordarão sem perder o respeito, acompanharão meu trajeto fora da ideologia e se proporão a ajudar em tudo o que eu precisar, mesmo eu estando fora do círculo deles? Isso é importante, apesar de muitos acharem que não é. Se você abandona uma igreja evangélica, a primeira coisa que acontece é a frase "ele nunca foi crente, era um filho do Diabo, um filho deste mundo". Até hoje, em todos os grupos pelos quais já passei, mesmo entre os ateus, nunca vi uma preocupação em querer saber se você estava bem, ou pelo menos em respeitar sua decisão. Sua decisão é uma afronta ao grupo, e não um fruto natural de suas dúvidas e de sua humanidade. São todos super-heróis, e os que fraquejam, mesmo que isso seja perfeitamente humano, devem ser eliminados. "Você saiu do grupo, não é mais um dos nossos, é anátema", me disse uma vez um membro da igreja que frequentei por anos. Por isso passo até um ou dois anos sem me envolver em nada depois que abandono uma ideologia. Abandonei a fé no Cristianismo em 2006, mas só oficializei isso depois do meu divórcio em 2008. Quando oficializei que não eram mais Católico, eu já era ateu há dois anos. Não saí por aí gritando que eu era protestante, tanto que ainda me mantinha oficialmente ateu por um tempo.

E como esses critérios se aplicam no Zen Budismo?

Pratico o Zen-Budismo há quatro anos. Medito há três, e participo de uma sanga há um ano. A princípio, ainda é muito cedo para afirmar qualquer coisa, se permanecerei no Budismo ou não. Porém, encontrei nele, no Taoísmo e no Confucionismo um sistema que é mais empírico, mais racional e mais voltado para a ação. Isso não tornou o sistema imune aos meus cinco critérios, e por isso mesmo, ainda os aplico hoje.

Primeiro, qual a doutrina do Budismo? Quatro verdades, oito caminhos, três jóias e cinco agregados. Tanto as quatro verdades como os cinco agregados são elementos bastante óbvios. São afirmações feitas pelo Budismo que, dentro do próprio discurso Budista, fazem sentido. Os oito caminhos e as três jóias são práticas, sem embasamento metafísico muito profundo, todos não passando de modos de ação individual. No Budismo há também a presença de alguns mitos, como "a árvore Bodhi", "a expansão da aura de Buda na iluminação", "os devas e os bodisátvas". Dentro dos critérios apontados pelo próprio Budismo, essas categorias são falsas? Não! O Budismo é indiferente às categorias míticas, elas sendo fatos ou símbolos não altera em nada o sistema.

Segundo, aquilo que o Budismo propõe mudar nas pessoas que o praticam, ele de fato muda. Desconsidero aqui algumas seitas e linhagens do próprio Budismo, que promete e não demonstra cumprir nos praticantes. Os adeptos de todas as sangas budistas que conheço apresentam uma transformação profunda no seu modo de ser. A grande maioria não age com hipocrisia (apesar de uma minoria bem expressiva). Elas são felizes, aceitam suas vidas, não julgam umas às outras, e são pessoas profundamente transformadas na ética e no trabalho. Como o teste demonstrou ser a doutrina e a prática que fizeram isso com elas, então são doutrina e prática eficazes. Vejo com frequência os Budistas passarem por cima das diferenças, simplesmente não distinguindo a cor, a sexualidade, o sexo, a origem social, a origem geográfica, a língua, o sotaque ou qualquer outra característica do praticante. Ele é inclusive livre para acreditar em Deus ou não acreditar em nada.

Terceiro, o Budismo tem contradições. Uma delas, por exemplo, é o conceito de Causalidade que entra em conflito com a ideia de Nirvana, afinal, se o Nirvana é a ausência de Causalidade, como chegar até ele sem, com isso, causar o próprio Nirvana? Sabem como o Budismo lida com isso? Da forma mais humilde possível: se isso não serve para você, e é impossível a você conviver com esse ensinamento, não tem problema. Abandone-o. Se serve, siga-o. Ou seja, ninguém é julgado pior por abandonar, nem melhor por aderir.

Quarto, o Budismo promoveu uma transformação profunda em mim. Primeiro, pelo mergulho de cabeça dentro de mim mesmo, me fazendo confrontar meus próprios monstros sem nenhum pudor. Segundo, por apresentar um modelo ético facilmente aplicável no dia-a-dia. Terceiro, por culpar a mim, e não a uma força superior, pelos problemas que eu causo a mim mesmo ou por eu não apresentar a transformação que tanto quero.

Finalmente, e se eu abandonar o Budismo? Como ficarei diante dos demais? Bom, como o Budismo promove um caminho individualizado, muito provavelmente tudo o que você passar fora do Budismo fará parte de seu aprendizado, e tudo o que você precisa para a Iluminação de fato já está acontecendo. Logo, não há julgamentos se você sai de uma sanga zen e envereda por um Ateísmo mais militante ou por uma igreja neopentecostal. Se alguém julgar, é porque não entendeu o Budismo de fato. Se uma pessoa abandona e depois manifesta o desejo de rever os antigos "amigos de sanga", ninguém vai rechaçá-la, essa pessoa será recebida de braços abertos. O que ela sofreu fora da sanga, sofreu fora da sanga, o que sofreu dentro, sofreu dentro. Porém, pessoalmente, como não tive ainda a vontade de sair, não sei ainda como seria, na pele, o voltar. Falo pelo que observo, e o que observo é um ponto positivo a favor do Budismo.
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