sábado, 16 de março de 2013

O privilégio de não ser negão (Racismo e normalidade – Parte 1)

O privilégio de não ser negão (Racismo e normalidade – Parte 1)

 


É impossível falar de racismo sem falar de normalidade. O racismo nada mais é do que uma implementação radical da normalidade. Só existe um “outro” que pode ser excluído porque existe uma normalidade intolerante que o define fora dela. Só existe racismo contra o negro porque ser branco é “normal”.

Vamos ver como isso funciona na prática.

De uma gota, extrapolamos o mar

De repente, aparece o Simonal e ela diz, empolgada:
– Meus deus, que negão lindo.
Daqui a pouco, de novo:
– Olha o charme desse negão, ele é o dono da plateia!
Eu não digo nada, mas abro os ouvidos. Ela também é fã do Roberto:
– Caramba, Alex, olha como esse homem era lindo. O que o tempo faz com as pessoas, meu deus?

Era batata. Quase todas suas referências (sempre elogiosas) ao Simonal destacavam sua raça – não chamando-o de “negro” (claro que não, aí pega mal) mas de “negão”, uma palavra que, dependendo do tom, virou apelido carinhoso.

Já em suas referências elogiosas ao Roberto, ele nunca foi chamado de “branco“, “brancão” ou mesmo “capixaba” ou “perneta“. Não: Roberto era sempre “ele”, “esse homem”, “esse cara”, “o rei”.

Assim como podemos extrapolar a existência do mar a partir de uma gota d’água, também podemos deduzir toda a desigualdade racial do Brasil só de ouvir atentamente uma típica brasileira falando sozinha durante um documentário.

Link YouTube | Trailer do documentário sobre o Simonal. Era ou não era um negão pintoso?

“Sou racista por me referir ao Simonal como negão?”

Se fosse interpelada, minha amiga ficaria imediatamente na defensiva:
– Pô, Alex. Sou fã do Simonal. Fomos ver o documentário da vida dele. Eu disse que o cara é lindo, fodão, dono da plateia, etc. E você vem me chamar de racista?

E eu responderia:
– Claro que não. Não chamo ninguém de racista. Isso não faz nenhuma diferença. Eu também falo assim. Quase todo mundo fala assim. A questão é que tipo de sociedade faz com que seus membros falem assim.
– Mas qual é o problema? Não posso chamar o Simonal de negão? Gente!, ele não era negão?

Então, vamos lá. Eu explico.

Pelo privilégio de não ser um “negão bonito”

Claro que ela pode chamar o Simonal do que você quiser. Ele não só morreu como já chamaram de coisa pior.

Mas é simples: enquanto nós, os brasileiros de todas as cores, na nossa fala cotidiana, sentirmos a necessidade de marcar, enfatizar, mencionar a raça do indivíduo negro, ao mesmo tempo em que NÃO sentimos a necessidade de marcar, enfatizar, mencionar a raça do indivíduo branco, então o branco continuará a ser sempre a norma, o normativo, o normal, a ideia paradigmática do brasileiro, enquanto o negro continuará a ser sempre um excluído, uma exceção, um outro.

Enquanto existir “o brasileiro” (que você fecha os olhos e visualiza branco) e “o brasileiro negro”, que é outra coisa, que é um qualificador possível de brasileiro, que é um tipo de brasileiro entre tantos outros brasileiros, continuaremos a ser sempre sempre uma nação racista.

Por que ela não disse “meu deus, que homem lindo!” ou “olha o charme desse cara” ou mil outras combinações? Por que, quando ela pensa no Simonal, “negro” ou “negão” já se impõem imediatamente como categoria?

Não, eu não estou culpando ela de nada. Não, eu não estou patrulhando minha amiga. Não, eu não estou proibindo-a de chamar o Simonal de “negão”. Não, eu não acho que ela seja racista, escrota, má pessoa.

Eu acho, isso sim, que ela, e eu, e você, crescemos em uma sociedade profundamente racista e desigual; que essa sociedade nos infectou desde cedo com seus valores e prioridades; e que essa sociedade existe através de nós e fala através de nós, uma sociedade que usa nossos corpos e mentes para se perpetuar através do tempo, e que somos seus cúmplices e possibilitadores mesmo quando discordamos dela.
Pequena história das relações raciais nos EUA, e no Brasil também.

Pequena história das relações raciais nos EUA, e no Brasil também.

(Eu sou ateu e falo “cruz credo” e “virgem maria” porque sou cidadão de um país profundamente cristão cujo único idioma é uma das línguas mais chovinisticamente cristãs do mundo. Quando a Igreja tentou impedir que os fiéis usassem os nomes de dias da semana baseados nos deuses pagãos e inventou do zero a sua própria nomenclatura, a língua portuguesa foi a única onde ela pegou. Todos os outros idiomas cristãos europeus ainda usam o sistema antigo, onde segunda é o dia da lua, logo Monday, Lunedi, Lunes, Lundi, etc. Ou seja, nossa língua é uma das mais carolas do mundo e até os seus falantes mais ateus não conseguem evitar completamente ser cúmplices disso.)

Então, o assunto aqui não é linchar minha amiga por ela “ser racista” ou impedi-la de falar do jeito como bem entende, mas simplesmente entender: por que ela, e eu e você, falamos assim? De onde veio isso? 

O que isso significa?

O que podemos aprender sobre o Brasil a partir do fato de que grande parte de seus cidadãos fala assim sem nem se dar conta?

Nada é mais difícil do que percebermos nossos próprios privilégios. É natural nos sentirmos a regra, a norma, o normativo: o outro é que tem menos, é que É menos.

(Uma das grandes diferenças entre homem e mulher: se você pergunta a um homem quando foi a última vez que sentiu medo de morrer, vai ouvir alguma história sobre uma aventura ou um quase crime acontecida meses ou anos antes; se pergunta para uma mulher, ela vai contar algo que aconteceu hoje de manhã ou ontem à noite. Para os homens, andar pela vida sem medo de morrer ou de ser estuprado é uma coisa tão normal que nem nos damos conta. Mas, do ponto de vista de uma mulher, esse é justamente um dos maiores privilégios masculinos.)

Link YouTube | Qual é a boneca feia??

Então, está na hora de nos darmos conta que um dos grandes, talvez o maior privilégio do brasileiro branco é justamente não ter sua raça mencionada, marcada, enfatizada o tempo todo.

O “outro” é sempre definido a partir do grupo ao qual pertence: “o negão lindo, “o japa esperto”. Só o normativo pode se dar ao luxo de não pertencer a nenhum grupo, de ser impermeável a rótulos. Ele é o único que pode dizer, na cara dura:
“eu sou só eu, um ser humano.”
E muitas vezes acrescentar, sem nem se dar conta da hipocrisia:
“como todo mundo.”
Esse é o enorme privilégio de poder ser “bonito” e não “um negão bonito”.



* * *
Alex CastroContinuamos a conversa em duas semanas, abordando de frente esse problemático conceito da “normalidade”. E fica uma pergunta, pra quem nunca pensou nisso: por que quase todos os personagens de anime são ocidentais e não asiáticos? Aliás, de que cor são os Simpsons? Por falar nisso, de que cor é a Turma da Mônica? Enquanto isso, você pode conferir outros textos que escrevi sobre racismo.



  é. por enquanto. em breve, nem isso. se gostou do texto, me adicione no facebook, compre meus livros ou faça uma doação.


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