quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A ciência da felicidade - 2 O que é capaz de fazer alguém feliz?

RETIRADO DA REVISTA


A ciência da felicidade Amor, dinheiro, saúde, amigos... O que é capaz de fazer alguém feliz? No mundo inteiro, cientistas estão debruçados sobre o tema. Reunimos pesquisas e listamos aqui os passos mais importantes para garantir essa conquista
Publicação: 17/12/2010 14:38 Atualização: 17/12/2010 20:07

Carolina Samorano // Especial para o Correio

"É melhor ser alegre que ser triste." Não há dúvidas de que Vinícius de Moraes estava coberto de razão quando escreveu o primeiro verso de Samba da bênção. Mas o poeta, esteja lá onde estiver, há de entender que ser feliz não é tão simples assim. Tão abstrata quanto perseguida, a felicidade, para muitos, parece uma luz miúda no fim de um túnel que, por mais que se caminhe, nunca chega ao fim. Num dia, a certeza de que ela está lá. No outro, a luz se apagou — ou será que foi o túnel que cresceu?
há quem diga que tanta angústia assim não há razão de ser. A última pesquisa internacional World Values Survey é uma dessas vozes com discursos superotimistas. Durante 25 anos, alguns pesquisadores dedicaram-se a reunir os resultados de pesquisas nacionais representativas em 97 países, que perguntavam às pessoas se elas se consideravam "muito", "razoavelmente", "não muito" ou "nem um pouco" felizes. Todo esse interrogatório resultou numa coisa chamada índice de bem-estar subjetivo, uma expressão complicada demais que, no fundo, quer dizer apenas "o quão feliz você é", na língua dos cientistas. O índice acabou virando uma tabela cheia de números que, no fim das contas, pode ser traduzido em "até que somos bem felizes". A Dinamarca aparece em primeiro lugar no ranking; O Brasil, em trigésimo. Entre1991 e 2007, o número de brasileiros que dizem ser felizes aumentou em 15%. Só perdemos para o México, que chegou a 25%.
 O problema é que, se de um lado juramos a pesquisadores que estamos vendendo felicidade, do outro somos obrigados a enfrentar uma realidade contraditória. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aposta que em 2020 a depressão será a segunda causa de morte no mundo, perdendo apenas para doenças do coração. E tão surpreendente quanto essa sentença é saber que só a menor parte dos casos ocorrerá devido a tendências genéticas. Outra pesquisa recente, da Faculdade de Medicina de Harvard, mostra que atualmente 80% das consultas médicas são devido ao estresse.
Talvez por isso, a felicidade — vista no passado como um assunto fútil no meio acadêmico — tenha ganhado outro status. Hoje, é tema de centros de pesquisa especializados na Europa, preocupa governos e autoridades, é protagonista de linhas de pensamento da psicologia e virou assunto batido de palestras motivacionais nas empresas. Inglaterra e França chegaram a encomendar a economistas e psicólogos pesquisas para estimar o grau de felicidade das suas populações. No Brasil, buscar a felicidade está em vias de virar oficialmente direito do cidadão, carimbado na Constituição pela PEC da Felicidade.
"A sociedade contemporânea prometeu muito. Consumo, progresso, modernidade. Veja os Estados Unidos hoje. Um país riquíssimo, mas onde a população é mais infeliz do que há alguns anos. E aí as pessoas se perguntam: ‘Poxa, cadê o pote de ouro?’ É hora de repensar", reflete a psicóloga Lilian Graziano, autora da tese Felicidade revisitada.
Pois é. Nunca antes se falou tanto nela. Nunca se buscou tanto também. E, em tempos de renovação de propósitos, como são as festas de fim de ano, essa procura tende a ser acentuada. O caminho é longo, um tanto tortuoso e, às vezes, aponta para muitas direções, assim como as pesquisas. A Revista ouviu especialistas, estudiosos, psicólogos e gente comum, na rua, para tentar saber qual, afinal de contas, é o melhor atalho até a vida feliz. Com vocês, o resultado.

O que é, o que é?
 (Arte: Kleber Sales CB/D.A.Press)
Pensar a própria felicidade é, provavelmente, uma das atividades mais antigas da espécie humana. Lá atrás, na filosofia clássica, Aristóteles e Platão já pregavam que o sentido da vida era mesmo alcançar a tal da "eudaimonia" — o que eles chamavam de felicidade. Só que, em vez da terna sensação de ouvir o coração querer cantar, felicidade, para eles, tinha mais a ver com o sentimento de ter vivido uma vida de virtudes, baseada na moral e no bom comportamento, ainda que isso custasse alguns bons baldes de lágrimas derramadas. Passaram-se os anos, Aristóteles e Platão partiram dessa para outra, sabe-se lá tendo ou não alcançado a eudaimonia. Por mais subjetivo que seja o conceito, ele já não parece ter mais tanto em comum com a velha ideia de moral que eles pregavam. "Hoje, em seu significado mais moderno, é mais sobre sentir-se bem. Maximizar o prazer e minimizar a dor", simplifica o historiador Darrin McMahon, professor da Universidade da Flórida (EUA) e autor do livro Felicidade: uma história.

Mas, por mais simples que possa parecer, decifrar a felicidade tem deixado malucos psicólogos e pesquisadores. Por um motivo muito simples: ela é diferente para cada um e, ainda que os cientistas estabeleçam métodos de medição do nível de felicidade individual, esse índice será sempre relativo. "Existe uma escala de respostas que te pergunta, de um a sete, quão feliz você se sente. Porém, um seis para mim pode ser diferente de um seis para você. Nunca saberemos", diz a psicóloga Lilian Graziano, diretora do Instituto de Psicologia Positiva e autora da tese Felicidade revisitada.

Para facilitar as coisas, a ciência decidiu criar uma definição que guia todas as pesquisas e serve, na verdade, como uma espécie de autodiagnóstico. "Seria um balanço que se faz da própria vida e que inclui relações afetivas, sentimentos agradáveis e baixos níveis de humores negativos", explica Lilian. E isso, é bom lembrar, não quer dizer estar contente o tempo inteiro. "Não podemos estar supernergéticos o tempo todo, nem deveríamos querer", reflete o também adepto da psicologia positiva Jonathan Haidt, professor da Universidade da Virgínia (EUA). "Mas podemos ter como constante companheira a sensação de que temos uma vida plena, a qual batalhamos. Ser feliz depende do que você considera felicidade."


Aprendendo a ser feliz
Há cerca de três anos a disciplina mais disputada na toda-poderosa Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, berço de uma quantidade incontável de gênios e profissionais bem-sucedidos nas mais diversas áreas, atendia pelo nome de introdução à economia. Hoje, uma revolução desse cenário serve para, no mínimo, se fazer uma reflexão sobre para onde caminham as preocupações humanas. No lugar da economia, cerca de 1,4 mil alunos disputam todos os semestres uma vaga nas aulas de psicologia positiva. Em outras palavras, brigam por uma chance de aprender a serem mais felizes, simples assim como quem aprende cálculo ou regras gramaticais na escola.
A psicologia positiva é uma linha recente de pensamento que tem conquistado adeptos nas universidades e clínicas. Simplificando, funciona mais ou menos como aquele ditado do prevenir ou remediar: entre curar doenças mentais ou cuidar do bem-estar das pessoas e prevenir para que elas não apareçam, melhor a segunda opção. Assim, as disputadíssimas aulas de Harvard são espécies de treinos para uma vida mais feliz. "É muito mais do que só 'vamos pensar positivo'", sublinha Lilian Graziano, uma das pioneiras no estudo da psicologia positiva no Brasil. "É educar para a felicidade. Uma aula prática de exercícios para que emoções positivas, como alegria, gratidão e perdão se sobreponham às negativas", explica.
A busca dos universitários faz certo sentido, segundo o empresário Anderson Cavalcante, autor de As coisas boas da vida. Para ele, felicidade leva mais ao sucesso do que o contrário. E, para provar, existem inclusive pesquisas, como a que constatou que, de um grupo de 1,5 mil universitários, 102 haviam se tornado milionários 20 anos após pegarem os diplomas. Deles, 101 tinham em mente, ao deixar a faculdade, mais ser feliz do que ter uma carreira bem-sucedida. "O importante é saber que nunca é tarde para se aprender", incentiva Cavalcante. "Um dos caminhos é olhar para o administrador da sua vida, que é você, com os olhos de um chefe. Veja se concorda com as suas decisões, se elas estão no rumo das metas da 'empresa' e analise, com muita frieza, se você demitiria ou promoveria essa pessoa. Então, comece a agir no sentido de arrumar a casa", ensina.

Conhece o Smiley?
 (Michael Dwyer)
Todo mundo já viu ele por aí, redondo, amarelo e sempre muito simpático. O Smiley, que já virou símbolo máximo da felicidade, nasceu em 1963 pelas mãos do designer Harvey Ball, por encomenda de uma empresa de seguros que queria levantar o astral dos funcionários depois de uma redução no quadro. Dizem que Ball recebeu apenas US$ 240 pela criação. Em 1970, foram vendidos mais de 50 milhões de broches do Smiley.


Dinheiro traz felicidade?
Sim, segundo alguns dos números gerados no centro de pesquisa World Database of Happiness, especializado em estudos para a felicidade e comandado pelo sociólogo holandês Ruut Veenhoven. "As pesquisas mostram que populações de países ricos são mais felizes e, mesmo internamente, pessoas ricas são mais felizes que as mais pobres", diz o estudioso. No entanto, uma pesquisa recente comandada por dois economistas da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, não só concluiu que dinheiro pode, sim, interferir na felicidade, como a felicidade tem um valor: R$ 11,3 mil por mês. No entanto, eles acreditam que apesar do resultado — conseguido a partir de uma análise de um banco de dados gigantesco no país — o segredo da felicidade, na verdade, não é ser rico. Tem mais a ver com não ser pobre.
"Ter mais dinheiro não significa ser mais feliz desde que você tenha dinheiro o suficiente para fazer as coisas que gosta", argumenta o economista Angus Deaton, coordenador do estudo. Segundo os resultados, quem ganha até R$ 11,3 mil tem a felicidade incrementada conforme a quantidade de dinheiro que entra na conta todo mês. Mas segure o instinto ganancioso: ganhar mais do que isso não faz nada pela felicidade individual.
Solidão, saúde, ser casado, ter filhos e ser religioso também interferem no nível de bem-estar, diz a conclusão da pesquisa. Mas, se fazer dinheiro demais não significa felicidade em dobro (ou triplo, quádruplo...), ter um contracheque mais generoso que o das pessoas com a mesma faixa etária do que você, significa. Desde que você se preocupe em guardar uma parte para a sua aposentaria ou para dias de vacas mais mirradas — se um dia eles chegarem. Isso porque ter essa segurança gera emoções positivas, como expectativas, sentimento de recompensa e segurança, que podem acender uma luz no caminho rumo à felicidade. A conclusão é de um estudo da Universidade do Estado da Pensilvânia, de 2005.

As coisas simples da vida
Cena do filme A suprema felicidade: um outro olhar sobre ser feliz (Paramount Pictures/Divulgação)
Cena do filme A suprema felicidade: um outro olhar sobre ser feliz
 Esqueça carros luxuosos, cartões de créditos ilimitados, extensos currículos acadêmicos, projetos de vida mirabolantes ou cultos religiosos. Para alguns, a felicidade é simples como uma caminhada no fim da tarde ou uma lembrança boa da juventude. Acreditando nisso, o professor de inglês Willard Sipegelman, da Southern Methodist University, nos Estados Unidos, escreveu o livro Sete prazeres. O livro é uma reunião de ensaios sobre como ele encontrou a felicidade em sete coisas aparentemente bobas, mas, segundo garante, eficientes: ler, caminhar, olhar, ouvir, nadar, dançar e escrever.
Além de um cutucão nos que esgotam energias buscando a felicidade em patamares altíssimos — às vezes inalcançáveis —, a ideia de Spiegelman é mostrar que a indústria da felicidade, que ele identifica como a soma de pílulas antidepressivas e religião, não é a única nem a mais válida forma de ser feliz. "Há muitos prazeres na vida que são fáceis e baratos", conta. "Eu só preciso de um cartão de biblioteca e um bom par de tênis para ser feliz. Outras podem precisar de uma boa comida caseira, por exemplo", simplifica o autor.
Spiegelman, que sempre que está triste sai para dar uma volta a pé nas redondezas, conta no livro que só na volta de uma viagem rápida à Inglaterra percebeu o porquê de ter ido até lá: caminhar, conhecer as ruas, ver pessoas diferentes, se exercitar — coisa rara entre as pessoas que moram nas grandes cidades. "Relaxe, simplifique, não seja ganancioso. Essas são fórmulas, ou clichês, mas também são verdades", aconselha o professor.
Há pouco tempo estava em cartaz nos cinemas brasileiros um outro olhar sobre como não é preciso muitos limões para se fazer uma boa limonada. O filme era A suprema felicidade, do cineasta e jornalista Arnaldo Jabor. Quando começou a escrever o roteiro, a história da adolescência e das muitas descobertas do personagem Paulo, Jabor tinha em mente lembranças da própria infância, "um tempo de delicadeza, mais esperança e mais certezas", como descreve. "Não sei se a felicidade era mais fácil, mas era certamente mais simples", constata. Dos 8 aos 18 anos, o protagonista, Paulo, apaixona-se, decepciona-se, apaixona-se de novo, conhece a noite carioca, aproxima-se do pai, de quem sempre fora distante. No fim das contas, percebe que a felicidade pode estar nas menores coisas, nas pessoas, nos lugares e pode mesmo durar alguns minutos, o que não a diminui.

Coisa séria
Mauro Motoryn, do Movimento   Feliz: felicidade é um sentimento individual, mas o Estado pode ajudar na sua busca
 (Carlos Silva Esp.CB/D.A.Press)
Mauro Motoryn, do Movimento Feliz: felicidade é um sentimento individual, mas o Estado pode ajudar na sua busca

Muitíssimo séria, por sinal. Pelo menos é para isso que têm despertado alguns governos mundo afora. Segundo a nova e repentina prioridade sobre a busca da felicidade, não basta investir em obras megalomaníacas, prometer os céus e apostar numa política econômica forte se isso não refletir na sensação de bem-estar da população. "A felicidade do cidadão é obrigação do Estado. É ele quem precisa dar ao seu povo condições para que a busca dele um dia gere resultados", defende o filósofo Ubirajara Carvalho, professor da Universidade de Brasília (UnB).
Há algumas semanas o Reino Unido lançou uma consulta pública para definir como fazer uma pesquisa capaz de mostrar o grau de felicidade dos britânicos. Até se chegar a um consenso sobre essa metodologia, a população será interrogada sobre o que a faz feliz. Dinheiro? Amigos? Família? Segurança? Eles é que vão dizer. Futuramente, a ideia é chegar a um índice trimestral, que será divulgado junto com o resultado do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país. A iniciativa tem o aval do primeiro-ministro David Cameron, que diz que as informações serão úteis para nortear investimentos futuros — ou cortes, se preciso for. Na mesma linha, há pouco tempo o presidente francês, Nicolas Sarkozy, encomendou aos Nobel de Economia Joseph Stiglitz e Amartya Sen uma pesquisa com o mesmo intuito da iniciativa dos ingleses.
No Brasil, essa preocupação está em vias de tomar corpo pela Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 10/2010, de autoria do senador Cristovam Buarque, que ficou conhecida como PEC da Felicidade e tramita no Congresso. A intenção é incluir o direito à busca da felicidade na Constituição Federal. A proposta é uma espécie de resgate dos direitos sociais, que andavam meio esquecidos, além de reforçar que eles são essenciais à felicidade, embora não suficientes. Assim, se for aprovada e passar a valer, a PEC vai alterar o artigo 6º da Constituição, que passará a ser: "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância".
"A ideia é apenas lembrar ao cidadão que esses direitos sociais são fundamentais para a felicidade. É fazer as pessoas entenderem que sem saúde fica difícil ser feliz, sem trabalho também, e por aí vai", explica o senador. "É chamar a atenção para o fato de que uma escola é mais importante para a felicidade que um viaduto, por exemplo. Incentivar as pessoas para que elas busquem para si esses direitos, porque buscar ‘para todos’, não funciona."
Um dos apoiadores da proposta é o Movimento + Feliz, idealizado pelo publicitário Mauro Motoryn. Assim como Ubirajara Carvalho, ele também acredita que felicidade é um sentimento individual, mas que, se o Estado tiver condições de facilitar essa busca, então está mais que na hora de ajudar. "Não é ajudar a encontrar um namorado", diz Motoryn. "É usar a felicidade como norteadora de políticas públicas. Por exemplo, se o governo tem que escolher entre investir uma verba no trem-bala ou na educação, é pensar: 'O que vai trazer mais felicidade para a população?’ E aí ele chega numa resposta que é óbvia", defende o publicitário. "É um resgate dos direitos básicos: alimentação, saúde, educação, e por aí vai."
O desafio, a partir do momento que as novas palavrinhas virarem realidade na nossa lei, será fazer valer a ideia. "Do contrário, será só literatice jurídica", afirma Ubirajara. "O processo leva muito em conta a mobilização social", completa Mauro Motoryn. "As políticas públicas são muito importantes. O Brasil é um país alegre. Mas felicidade é diferente", provoca.

Eternos infelizes?
Se a busca pela felicidade algumas vezes parece um enigma difícil de ser decifrado mesmo por especialistas gabaritados, significa, então, que o homem está condenado à eterna amargura de viver? Bom, de acordo com a psicóloga Lilian Graziano, tanto chororô tem explicações que esbarram em vícios culturais e tendências cerebrais, além, claro, das frustrações que a evolução mesmo nos impôs. A primeira teoria é que, por questões de sobrevivência, acabamos condicionando nosso cérebro a prestar mais atenção às coisas negativas do que às positivas. "Imagine o homem das cavernas. Ele tinha que olhar mais para os predadores do que para as florzinhas do campo, ou ele seria devorado", ilustra a especialista.
A segunda questão é a mania quase incurável que temos de olhar sempre para o que falta. Na escola, por exemplo, se o aluno tira 9, deveria ter tirado 10. Se tira 10, não fez mais que a obrigação. "Somos educados assim e, de certa forma, vamos passando isso adiante, para os nossos filhos, empresas, escolas e por aí vai", emenda a psicóloga. Fora essas duas tendências, há também a hipótese genética. "Acredita-se que até 50% da nossa tendência à felicidade seja determinada pelos genes", aponta a psicóloga Sonja Lyubomirsky, autora de A ciência da felicidade e uma das referências em estudos no assunto. Assim, fica fácil apontar um culpado para nossas lamúrias. "Algumas pessoas conseguem ser infelizes em qualquer situação. Elas são seus maiores inimigos, mas não podemos culpá-las. Ninguém escolhe seus genes", completa o psicólogo norte-americano Jonathan Haidt. Mas nada justifica, para Sonja, que, ainda que essa teoria esteja correta, nos esqueçamos que os outros 50% são por nossa conta.
A última e talvez mais inusitada das teorias é a de que talvez tanto pensar sobre essa felicidade desde os tempos da eudaimonia tenha só levado a mais e mais frustrações. É como dizia o filósofo John Locke: "Pergunte a si mesmo se você é feliz, e deixará de ser". "Perseguimos a felicidade no pior sentido da palavra perseguir: com hostilidade, como quem persegue um fugitivo ou um animal selvagem", compara o historiador Darrin McMahon. "E o que acontece quando capturamos a presa? Precisamos matá-la ou então aprisioná-la", conclui.
Além disso, segundo McMahon, existe na sociedade a ideia de que a felicidade é o estado natural do homem. Assim, se não estamos felizes, cultivamos a terrível sensação de que fracassamos em algo que deveria ser inato. "Parece que se não estamos felizes, há algo errado conosco ou então com o mundo em que vivemos. Isso cria em nós uma sensação de culpa que gera o que eu chamo de 'infelicidade de ser infeliz'. É quase como um ciclo", atesta.


Entrevista// Ruut Veenhoven
 (Hans Van Ommeren/Divulgação)

Se existe alguém no mundo capaz de falar sobre felicidade mais com a imparcialidade de um cientista do que com a paixão dos que a perseguem, esse alguém provavelmente é o sociólogo holandês Ruut Veenhoven, professor de felicidade humana da Universidade Erasmus de Roterdã. Veenhoven é referência absoluta nos tais índices e cálculos nos quais se apoiam tantas teorias sobre felicidade. Nem sempre foi assim. Ainda estudante, quando anunciou aos colegas acadêmicos o tema sobre o qual se aprofundaria, recebeu críticas, risos e lidou com professores que diziam que isso "não era coisa de gente séria". Passados os anos, é ele o nome por trás do World Database of Happiness, uma espécie de centro de pesquisa dedicado inteiramente a decifrar os porquês da felicidade no mundo. Tantos anos dedicados ao assunto, no entanto, não o fizeram mais feliz. Nem infeliz. Felicidade, afinal, "é uma coisa complexa", ele reconhece. Está aí uma verdade tão escancarada que não exige constatação por pesquisa. Confira a entrevista que ele concedeu à Revista, por e-mail.

O que é, afinal, a felicidade? A verdadeira felicidade existe?
Eu uso a palavra "felicidade" para descrever a alegria em viver a "vida como um todo". Ou seja, o quanto uma pessoa gosta e se sente bem com a vida que leva. Por esse ponto de vista não existe felicidade que não a verdadeira. Se você se sente feliz, é porque está. A noção de "felicidade verdadeira" está ligada a conceitos já formados do que seria uma boa vida, a noções comuns. Por essa visão, você não está realmente feliz se está conformado em viver uma vida que não é boa do ponto de vista da maioria. Para dar um exemplo, é esse o caso do criminoso que é feliz fazendo o que faz, mas para as quais as pessoas apontam e dizem que ele "não é realmente feliz". É muito subjetivo.

É possível sermos felizes o tempo inteiro ou a felicidade também inclui momentos de tristeza?
Na verdade, a maioria das pessoas são até bem satisfeitas com a vida delas na maior parte do tempo. Isso é o que observamos em pesquisas e estudos sobre felicidade. Mesmo essas pessoas estão suscetíveis a terem dias ruins. Essa questão é uma confusão comum que se faz com o humor felicidade e com o sentimento de felicidade para satisfação geral com a vida. Não podemos estar alegres o tempo inteiro, mas podemos, sim, ser felizes o tempo todo, apesar dos momentos ruins.

Dinheiro e felicidade têm alguma relação?
O dinheiro afeta a felicidade, sim. Em geral, pessoas que vivem em países ricos são mais felizes que as que moram em países pobres, e mesmo dentro dos países, as pessoas mais ricas parecem mais felizes que as pobres, mas essa diferença é mais saliente em nações pobres. Relações sociais, tendência genética, personalidade e posição social também têm papéis relevantes. É uma mistura de fatores, como na saúde. A saúde também depende de uma combinação de genes com o ambiente e o comportamento do indivíduo.

Podemos aprender a ser mais felizes ou felicidade é algo que simplesmente se tem?
Podemos, claro! Como falei, a felicidade também depende de habilidades para lidar com a vida e o comportamento de cada um. Quando, por exemplo, uma pessoa sofre um acidente e precisar amputar um membro ou fica paralítica, inicialmente ela vai ficar muito infeliz. Mas, a partir do momento que passa a dominar novas habilidades, ela geralmente acaba restaurando a felicidade a um nível excelente.
Ser feliz e coçar...
Meia dúzia de bons amigos, uma dose de gargalhadas sinceras, uma xícara cheia de união familiar e uma de satisfação com a carreira. Amor a gosto. Imagine só se existisse uma receita para a felicidade tão simples quanto essa. Tantos números, tabelas e estudos, no entanto, ainda não fizeram com que os cientistas e psicólogos chegassem a uma satisfatória. E talvez nunca cheguem. Mesmo assim, existem algumas jogadas que, ao que indicam pesquisas aqui e ali, podem nos deixar algumas casas mais próximos de uma vida melhor nesse jogo infinito que, às vezes, parece a busca pela felicidade. Ganha quem começar mais cedo. Vamos tentar?

1- Tenha amigos. Ao longo dos anos as pesquisas têm mostrado que pessoas que têm laços sociais fortalecidos são mais felizes. Uma delas, conduzida pelo pai da psicologia positiva, Martin Seligman, concluiu que os 10% de pessoas mais felizes têm um bom relacionamento com os amigos e comprometimento em dedicar tempo a eles.

2- Pratique uma religião. Não se sabe se por causa da fé, pelos amigos que se conquista na igreja ou se pelos dois fatores, as pessoas apegadas a uma religião tendem a ter níveis maiores de felicidade. "Pessoas religiosas têm um significado para a vida, hábitos saudáveis e uma esperança de que as coisas vão melhorar", justifica o economista Angus Deaton, da Universidade de Princeton (EUA).

3- Não se compare aos outros. Segundo a psicóloga Lilian Graziano, a comparação com quem está ao lado é uma eterna fonte de frustrações. "Sempre vamos encontrar alguém que tem mais. É preciso olhar para o que temos e não para o que falta", diz.

4- Conte as coisas boas da vida a alguém ou faça um diário. O conselho é da psicóloga Sonja Lyubomirsky, autora de A ciência da felicidade, que durante uma pesquisa descobriu que as pessoas que uma vez na semana — e não mais que isso — escrevem pelo menos cinco coisas pelas quais são gratas na vida são mais felizes.

5- Escute música. Ela ativa partes do cérebro que liberam endorfina e incrementam a sensação de bem-estar tanto quanto exercícios físicos, sexo e comida. Além disso, ela pode servir como relaxante e ajudar o cérebro a liberar melatonina — hormônio responsável por regular o sono.

6- Mexa-se. Não é novidade para ninguém que exercitar o esqueleto estimula o cérebro a liberar endorfina, hormônio responsável por uma sensação de bem-estar e relaxamento.

7- Tenha um plano. Não vale acordar, trabalhar, voltar para casa e dormir. Segundo Anderson Cavalcante, o grande erro das pessoas é viver sem um projeto. "Acordar todos os dias e fazer algo que vai colaborar para alcançar a sua meta de vida é importante", aconselha.

8- Seja gentil. É o que incentivam Sonja Lyubomirsky e o historiador Darrin McMahon. A sensação de bem-estar depois é garantida, eles defendem. "Pensar demais na própria felicidade só leva a angústia. Para evitar isso, melhor focar na felicidade daqueles que nos rodeiam", afirma McMahon.

9- Trabalhe com o que gosta. "Felicidade e sucesso profissional estão ligados", defende Anderson Cavalcante. Uma pesquisa norte-americana acompanhou por 20 anos 1,5 mil ex-alunos de uma universidade. Ao final da pesquisa, 102 haviam ficado milionários e, desse seleto grupo, 101 chegaram ao sucesso fazendo aquilo que os deixavam felizes.

10- Perdoe. "Para começar, comece escrevendo um diário no qual pode treinar deixar no passado ressentimentos, raivas e mal-entendidos com pessoas que podem ter magoado você algum dia", diz Sonja Lyubomirsky no seu livro A ciência da felicidade.

11- Faça uma faxina na sua mente. Entre esperar o mundo mudar para se alinhar aos seus desejos, melhor começar a mudança por você, é o que aconselha o psicólogo Jonathan Haidt. Encontre formas de ser mais otimista e não se torturar por coisas ditas ou feitas no passado. Meditação e terapia cognitiva são opções possíveis.

12- Procure ajuda. Segundo a psicóloga Lilian Graziano, a psicoterapia pode ajudar a clarear um pouco o caminho. "Alguns profissionais adeptos da psicologia positiva vão ajudar você a se conhecer melhor, mas dando mais ênfase às suas qualidades do que aos seus demônios", diz.
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