quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Meditação ganha seguidores interessados em saúde e alívio para estresse


Prática nos faz entender fatores do sofrimento, em vez tentar supri-lo ou evitá-lo

O ímpeto de buscar a felicidade, atrelando-a a prazeres, cria expectativas desproporcionais. Se eu comprar um carro novo, serei feliz, ou se eu passar no vestibular, minha felicidade estará garantida, pensamos.


O auditor federal Junnius Arifa encontrou na meditação a 
tranquilidade que tanto buscava (Carlos Slva/Esp. CB/D.A Press)


— Isso gera um constante estado de perturbação mental. Sempre estamos jogando para o futuro situações que não dependem só de nós. Dependem de eventos, de outras pessoas, gerando uma condição de estresse, já que não temos controle sobre esse tipo de acontecimento — afirma o engenheiro Régis Guimarães.

Aos 71 anos, ele é um dos criadores da Sociedade Vipassana de Meditação, grupo não religioso e sem fins lucrativos que se dedica à prática e aos ensinamentos dessa técnica de meditação de matriz budista. Segundo ele, todos podem, por meio do conhecimento de si mesmos, mitigar a dor e a frustração.

— A meditação nos faz entender os fatores do sofrimento, em vez tentar supri-lo ou evitá-lo. Um resumo seria: "Não tente ser feliz. Pare de sofrer". A felicidade é decorrente, surge quando você elimina o sofrimento — explica Régis, praticante da vipassana desde 1985.

Apesar dos seus milhares de anos de história, a meditação ainda padece, em grande parte do Ocidente, de uma aura de misticismo que impede muitos de a conhecerem mais profundamente. Entretanto, os benefícios visíveis já despertam a atenção da comunidade científica brasileira. Mais ainda, membros dela, que já colocam a meditação como prática constante, se valem dos seus conhecimentos acadêmicos para "legitimar" a prática fora do âmbito religioso.

— A razão de eu ter me interessado pela meditação é que, como médico, procuro o melhor para os meus pacientes. Nesses 43 anos de profissão, garanto: nada é mais poderoso no sentido de recuperar e de manter a saúde do que a meditação — diz o médico Carlos Eduardo Tosta da Silva, professor da Universidade de Brasília (UnB).


Prática sob análise científica


Ele foi orientador da primeira dissertação de mestrado que pôs a meditação prânica sob análise científica no mundo, apresentada mês passado na universidade pelo biólogo César Augustus Fernandes da Silva.

— Como vimos que ela trazia benefícios para os praticantes, resolvemos submeter a meditação prânica à metodologia científica para entender esses efeitos e os mecanismos envolvidos — lembra César.

A análise, que durou 10 semanas, envolveu voluntários saudáveis em um curso de meditação prânica, com aulas semanais de três horas de duração e prática diária em casa. Orientador e aluno avaliaram o nível das células do sistema imunológico que participam da regulação e da manutenção da saúde, assim como o comportamento de hormônios envolvidos em situações de estresse.

— Os resultados mostraram que a meditação prânica foi capaz de aumentar a atividade dos fagócitos, células que captam agentes infecciosos, ingerem-nos e os digerem, produzindo radicais microbicidas. Além disso, os hormônios estudados, abundantes no estresse, tiveram seus níveis reduzidos — completa o médico.


Fortalecendo o cérebro


Régis Guimarães, da Sociedade Vipassana, relaciona a decisão de se iniciar uma experiência meditativa com a entrada em uma academia. Quando alguém percebe que o físico necessita melhorar, se vale de exercícios para fortalecê-lo. A meditação faz isso com o cérebro, fazendo com que ele possa se antecipar aos impulsos ao garantir uma melhor observação da realidade.

— A meditação tem a função básica de trazer o indivíduo para um estado de tranquilidade. Você tem que baixar o nível de seu sistema hormonal. A partir desse estado, abre uma janelinha do seu interior.
Antever os acontecimentos não tem nada a ver com previsão de futuro. Régis explica que o cérebro é dividido em três partes: o córtex, que controla o lado mais racional do ser humano; o límbico, mais voltado para o emocional; e o reptiliano, que tem controle sobre as ações involuntárias. Essas últimas, tais como o batimento cardíaco ou o piscar dos olhos, são as mais primitivas e também podem ser relacionadas ao estado de vigília constante contra os perigos.

— Todo nosso processo de sobrevivência é comandado pelo reptiliano, que tem que ser rápido. E, por sermos seres reativos, mesmo as decisões conscientes serão reações aos nossos valores, quando defendemos nosso próprio eu.

O engenheiro afirma que a meditação exerce poder sobre o consciente para que ele possa perceber essas reações antes de serem postas em prática — dessa forma, ninguém toma decisões impensadas.

— Essa é a beleza da meditação: criar as condições para que você perceba, cada vez mais cedo, a origem do sinal.




“Sou uma pessoa muito ansiosa. Acredito que, se não fosse a meditação, não teria conseguido engravidar, porque não me imaginava focando apenas nos cuidados com um filho”, afirma a advogada Tatiana Malta Vieira, 34 anos. Ela, que sempre buscou formas de desenvolver a espiritualidade, se vale da meditação para direcionar toda sua atenção apenas a Rafael, seu filho de três meses. “Com mais autoconhecimento, nos tornamos mais tolerantes e observadores e tenho certeza que isso vai me ajudar a perceber todas as características do meu filho.”


A contemplação medidativa ajuda Tatiana enquanto mãe 
(Marcelo 
Ferreira/CB/D.A Press)


Fonte:   Clic RBS;



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