sexta-feira, 27 de julho de 2012

A FORMA e o ZEN

Tangenciando os "Rótulos de Félix Maranganha" apareceu a questão de método/postura: Religioso X Secularismo. Seriam incompatíveis e separados? Poderíamos praticar o Zen sem a roupagem religiosa.



Pretendo desenvolver parte da questão aqui.

A resposta é paradoxal: SIM E NÃO.


Podemos fazer boa parte da prática Zen (inicialmente em geral) sem auxílio?

Sim.

Só precisa de MUITA força de vontade. Mas Não é recomendado.

A Tenzo Denkô (chefe da cozinha) observa a refeição. Retiro na reserva Passarin, fev 2007. - Fotolog
O Monge Zen Genshô falando sobre os rigores da prática formal explica (na gravação, digitada, editada e revisada por Jane Denkô em Palestra ministrada por Monge Genshô para a Comunidade Zen Budista de Florianópolis, em 27 de outubro de 2006) desta forma:



Aqui Jane Denkô como chefe da cozinha
 (Tenzo) a observa a refeição em retiro
 na reserva Passarin, fev 2007. 

""O Zen diz que o apego à forma e aos rituaís é uma dificuldade. Do outro lado quando nós entramos num mosteiro Zen, ou num centro de prática do Zen, nós vamos ver que há muita exigência quanto à forma. Mais do que em qualquer outro lugar. Pedimos que os sapatos sejam colocados lado a lado e retos, não sejam jogados de qualquer forma. O que isso significa? Significa: quem tem uma mente desarrumada a expressa de forma desarrumada. Então se alguém chega num lugar e joga os seus sapatos de qualquer jeito isso expressa uma mente não respeitosa, não disciplinada, não reverente. Então a forma expressa essa mente.


Então no método do Zen nós começamos com uma expressão formal correta esperando que através da expressão formal nós venhamos a modificar a nossa mente.""


(...)


""Sentamos em zazen para tentar criar uma mente pacificada. Mas como sentamos em zazen? Com uma forma e esta forma é altamente disciplinada, simétrica, apoiada, sólida, pacificada. Nossa mente pode ser uma tempestade, mas nós sentamos como budas, como estátuas de buda. E o professor diz: respire como um buda profunda e calmamente e deixe uma respiração natural se instalar. Fazemos um mudra como o de Buda, apoiamos três pontos no chão: os joelhos e as nádegas de maneira a ficar solidamente estáveis. Estabilizamos o corpo. Tornamos a coluna reta. Ao fazer isso nós influenciamos a nossa mente. É por isso que a forma é assim. Algumas pessoas não entendendo a forma olham para a escola Zen e dizem que isso é ritual e que é apego à forma. Não é apego à forma. Apego à forma seria se apenas sentássemos e brigássemos com as pessoas: você não está sentado certo. Você está sentado curvado. Você está sentado torto. Não pode sentar numa cadeira. Você tem que sentar em posição de lótus. Se nós fizéssemos isso seria apego à forma. Não é isso. Os mestres sabem que existe um sentido na forma e a forma é praticada para mudar a mente. É por isso que trabalhamos assim.


Nós fazemos, por exemplo, o rakussu. Os praticantes antigos vão fazer votos, tomar os preceitos e para isso fazem os seus rakussus. Na nossa escola nós pedimos: faça o rakussu você mesmo, costure com agulha e linha. É difícil, detalhado, complicado, lento, impossível de fazer bem feito, mas você faz, ponto a ponto, semanas trabalhando para fazer um rakussu. Esse trabalho é forma? É forma sim. Esse trabalho é um trabalho espiritual? É um trabalho espiritual se você colocar o seu espírito nele. Significa dedicação para fazer o rakussu, lavar bem as mãos, acender incenso ,ir costurar com espírito atento ao que está fazendô, tomar isso como se faz uma meditação. E ao fazer isso esse pedaço de pano fica impregnado do nosso espírito ele ganha um significado, ele ganha um poder, porque nós, através da forma, criamos um poder no kesa e ele começa a nos influenciar.
O trabalho espiritual tem o sentido de, pela forma, procurar atingir o espírito. Então é um profundo engano entender a prática do Zen como: isso é orientalismo.""
(...)

Grato em Gasshô ao Sensei Genshô.
Grato em Gasshô a Jane Denkô. Muito grato.


Que todos possam se beneficiar.
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