sábado, 14 de julho de 2012

Ta, mas Budistas SÃO ATEUS? ? ? ?



Ta, mas é preciso ser "ateu" para ser Budista? NÃO. O Budismo é uma religião que se pratica APARTE da relação da crença ou não em um Deus ou divindades...

Chuto que a maioria dos praticantes (ao menos brasileiros) acreditam em uma forma de Deus. Mas um significativo número de praticantes ocidentais são ateus.

Acho que duas questões são presentes:

1º O Budismo não te oferece (nem obriga a ter) uma crença divinatória como solução para nada;

2º A prática Budista é uma válida estrutura religiosa para ateus.

Mas porquê um ateu precisaria de uma religião?

Dois cara de tempos diferentes tem em suas teorias gerais apontamentos para elucidar a questão da "religião para ateus": um é o antropólogo Joseph John Campbell. O outro é o filósofo e escritor suíço Alain de Botton.


Campbell foi um pesquisador de mitologia e religião comparada que teorizou, entre outras coisas, que as pessoas (mesmo as atéias) vivem a realidade "segundo" estruturas que se manifestam, refletem em "mitos" e "ritos". Portanto estes mitos e ritos são manifestaçõe de uma elaboração de realidade que PRECISA do social para se manifestar. Ateus, por tanto também tem estes mitos e ritos intrínsecos a si e podem manifestá-los na FICÇÃO, por exemplo.

Já Alain de Botton, mais atualmente, tenta apresentar uma nova forma de ateísmo, que seria um contraponto ao ateísmo proposto pelos pensadores Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Nas palavras dele:  Enquanto buscávamos nos libertar de ideias impraticáveis (como a existência de deuses), também renunciamos "erroneamente" a alguns dos aspectos mais úteis e fascinantes da religião.

"Evitamos a ideia de que a arte pode nos elevar ou ter uma missão ética. Não vamos em peregrinação. Não sabemos mais construir templos. Não temos instrumentos para expressar gratidão. A ideia de ler um manual de autoajuda nos parece estar em contraste com os nossos nobres princípios.


Rejeitamos o exercício mental. Raramente vemos desconhecidos cantando juntos. Infelizmente, estamos diante de uma escolha: abraçar a estranha ideia de que existem divindades imateriais, ou abandonar em bloco uma série de rituais reconfortantes, refinados ou simplesmente fascinantes dos quais custamos para encontrar um equivalente na sociedade secular. 

Talvez, chegou o momento de liberar as nossas necessidades espirituais do verniz religioso que os recobre, embora, paradoxalmente, muitas vezes, é o estudo das religiões que nos fornece a chave para redescobrir e reformular essas necessidades.

A minha tentativa é a de ler as fés, principalmente a cristã, e, em menor medida, a judaica e a budista, em busca de intuições que possam ser úteis na vida secular, sobretudo com relação aos problemas levantados pela convivência dentro de uma comunidade e dos sofrimentos mentais e físicos. 
Longe de negar os valores do secularismo, a minha tese é de que, muitas vezes, secularizamos mal, muito mal mesmo... 
Enquanto buscávamos nos libertar de ideias impraticáveis, também renunciamos erroneamente a alguns dos aspectos mais úteis e fascinantes da religião."



Da minha maneira percebi em mim a necessidade de manifestar a busca pelo autoconhecimento e reconheci um bom instrumento nos rituais Budistas. 

Budha parece que antecipou Alain em muitos séculos quando percebeu que a não necessidade de "teorizar" sobre o inefável não eliminava a necessidade natural de "compartilhar" e socializar nossos processos espirituais mais profundos. Ainda percebeu que a prática de uma experiência individual, mesmo que produtiva e sábia, é pouco significativa quando ela não se propaga nas outras pessoas. Somos seres "sociais". Gregários. Não é uma questão de afirmação social. Mas de manifestar esta caminhada em um parâmetro não egoico.



Opinião da praticante Zen Jeane Dal Bo no seu "Bossa Zen"
Essa é uma pergunta que volta e meia e sempre ouvimos em palestras.

O Budismo veio de uma tradição onde a figura de Deus não está presente, embora tenha entidades auxiliares. São as chamados acessórios que todas as religiões tem. A Escola Zen é uma das que tentou limpar mais o cenário desses acessórios, mas de certa forma é inevitável. As pessoas sentem falta de algo para se apoiar. Uma estátua não muda nada para mim, mas para alguém pode ser importante. Entre ter e não ter não há nenhuma diferença. O ponto é: não se agarrar a estátua como uma tábua de salvação. Ela está ali, é matéria, mas também pode me inspirar a me conectar ou me sentir mais forte.

Se Deus não existe na cultura asiática, não significa que os Budistas estejam afirmando que ele não existe. Apenas não faz parte da cultura deles, portanto não se pode dizer que budistas são ateus. Mas nós não somos asiáticos...


Entendo o receio de muitos que se interessam pelo budismo, pois nós viemos de tradições judaica-cristãs e simplesmente jogar no lixo essa ideia de "Deus" pode trazer algum desconforto moral ou emocional. Digo por experiência própria, eu simplesmente não penso mais no assunto. Nem em Buda nem em Deus, apenas não penso.


Isso não significa que os budistas não acreditam em nada. A crença, de certa forma, é também apego e mais atrapalha que ajuda. Não precisa acreditar em alguém para ser budista. Precisa como o próprio Buda sugeriu, duvidar. Assim, crença no budismo, está muito mais para dúvida que para certeza.


A bem da verdade, e por força do hábito, quando as coisas apertam, ainda apelo para o popular:

"Ai, meu Deus!"

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