quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Um espaço de enfrentamento/busca



Em um espaço ocioso de minha sala, depois de todos meus familiares dormirem e terminar minhas obrigações domésticas de pai, marido e cuidador, monto um pequeno espaço de experimentamento e enfrentamento psicológico e sento-me para executar ritos antigos na calada da noite.

Joseph Campbell dizia que um mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre. Seres mitológicos, a despeito de em alguns casos se basearem em personagens históricos reais, são em verdade conjuntos de símbolos. Alguns os usam como lembrete de feriados, outros para sintonia de bons pensamentos. Apenas alguns poucos os incorporam, e tentam ser como heróis, fazendo de sua vida uma aventura épica.(*)



Segue um texto (que em parte já tinha postado aqui em 2010) de  Marcelo Gleiser**.
Começo hoje com a definição de mito dada por Joseph Campbell, uma das grandes autoridades mundiais em mitologia: "Mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre". Sabemos que mitos são narrativas criadas para explicar algo, para justificar alguma coisa. Na prática, não importa se o mito é verdadeiro ou falso; o que importa é sua eficiência. 
Por exemplo, o mito da supremacia ariana propagado por Hitler teve consequências trágicas para milhões de judeus, ciganos e outros. O mito que funciona tem alto poder de sedução, apelando para medos e fraquezas, oferecendo soluções, prometendo desenlaces alternativos aos dramas que nos afligem diariamente. 
A fé num determinado mito reflete a paixão com que a pessoa se apega a ele. No Rio, quem acredita em Nossa Senhora de Fátima sobe ajoelhado centenas de degraus em direção à igreja da santa e chega ao topo com os joelhos sangrando, mas com um sorriso estampado no rosto. As peregrinações religiosas movimentam bilhões de pessoas por todo o mundo. É tolo desprezar essa força com o sarcasmo do cético. Querendo trazer a ciência para um número maior de pessoas, eu me questiono muito sobre isso. 
Como escrevi antes neste espaço, os que creem veem o avanço científico com uma ambiguidade surpreendente: de um lado, condenam a ciência como sendo materialista, cética e destruidora da fé das pessoas. "Ah, esses cientistas são uns chatos, não acreditam em Deus, duendes, ETs, nada!" 
De outro, tomam antibióticos, voam em aviões, usam seus celulares e GPSs e assistem às suas TVs digitais. Existe uma descontinuidade gritante entre os usos da ciência e de suas aplicações tecnológicas e a percepção de suas implicações culturais e mesmo religiosas. Como resolver esse dilema? 
A solução não é simples. Decretar guerra à fé, como andam fazendo alguns ateus mais radicais, como Richard Dawkin, não me parece uma estratégia viável. Pelo contrário, vejo essa polarização como um péssimo instrumento diplomático. Como Dawkins corretamente afirmou, os extremistas religiosos nunca mudarão de opinião, enquanto um cientista, diante de evidência convincente, é forçado eticamente a fazê-lo. Talvez essa seja a distinção mais essencial entre ciência e religião: o ver para crer da ciência versus o crer para ver da religião. 
Aplicando esse critério à existência de entidades sobrenaturais, fica claro que o ateísmo é radical demais; melhor optar pelo agnosticismo, que duvida, mas não nega categoricamente o que não sabe. Carl Sagan famosamente disse que a ausência de evidência não é evidência de ausência. Mesmo que estivesse se referindo à existência de ETs inteligentes, podemos usar o mesmo raciocínio para a existência de divindades: não vejo evidência delas, mas não posso descartar sua existência por completo, por mais que duvide dela. Essa coexistência do existir e do não-existir é incômoda tanto para os céticos quanto para os crentes. Mas talvez seja inevitável. 
A ciência caminha por meio do acúmulo de observações e provas concretas, replicáveis por grupos diferentes. A experiência religiosa é individual e subjetiva, mesmo que, às vezes, seja induzida em rituais públicos. Como escreveu o psicólogo americano William James, a verdadeira experiência religiosa é espiritual e não depende de dogmas. Apesar de o natural e o sobrenatural serem irreconciliáveis, é possível ser uma pessoa espiritualizada e cética. 
Einstein dizia que a busca pelo conhecimento científico é, em essência, religiosa. Essa religião é bem diferente da dos ortodoxos, mas nos remete ao mesmo lugar, o cosmo de onde viemos, seja lá qual o nome que lhe damos.

...........................................................................

Então segue minha sugestão:


  • Prepare em seu dia um espaço para por-se em enfrentamento e em busca de um descobrimento espiritual e psíquico autêntico se sua forma de viver a vida esta lhe apontando esta necessidade;
  • Ponha-se em teste com a mente honestamente aberta;
  • Teste a si e ao método de espiritualidade que escolher conhecer, com afinco;
  • Descarte o que lhe parecer imoral, incorreto ou prejudicial a mente ou ao corpo ou a sua cultura de maneira irreconciliável.



Em meu cotidiano percebi que preciso de uma prática que me ajude a elaborar o limítrofe de vida e morte que observo em meu trabalho e não parece conseguir alívio no discurso ou na racionalização de maneira satisfatória com os instrumento que o secularismo me traz... nem com as respostas que as  (várias) religiões me trouxeram em minha vida.

Criei um espaço de enfrentamento/experimento.

Inspirado no Zen Budismo Soto aprendi a observar a matéria prima de minhas experiência: minha mente.



Separo um horário em meu dia para realizar esta prática. E isto de uma forma RELIGIOSA. Seja na forma do rigor da ROTINA (pratico todos os dias 30 minutos o mesmo ritual), seja na forma da atenção dada AO RITO (os itens e as práticas são elaborados e metódicos, mesmo nunca tendo ninguém olhando para julgar). Durante meus dias ainda dedico tempo para leituras indicadas por professores OU não e elaboro comparações e vivencio as questões que nascem desta relação. É a parte do método para leigos. Um dia este método vai exigir mudanças e novas soluções. Talvez sair do método leigo. Mas até lá mantenho a sugestão para mim mesmo: Busque e vivencie.


Gasshô a todos.




*. Grato Rafael Arrais;

** MARCELO GLEISER
 é professor de física teórica, Filosofia Natural e Astronomia no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "Criação Imperfeita" e colunista da Folha.
Postar um comentário