quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Recortes da matéria da Revista Mente & Cérebro: Em busca da cura

 A ciência ainda não explica o que os religiosos chamam de "milagre", mas estudo têm mostrado que, em alguns casos, a fé pode estimular habilidades mentais e ajudar a melhorar a saúde.

Revista Scientific American - por Pierangelo Garzia

"Seria preciso um milagre."






Ouvi essas palavras quando os recursos científicos já nõ são suficientes para combater uma doença costuma trazer enorme desalento. nessas horas, independentemente da crença, muitos de nós gostaríamos de contar com uma intervenção providencial e inexplicável. no campo da medicina, a palavra "milagre" refere-se à remissão espontânea e surpreendente de uma patologia grave, degenerativa ou terminal.

Algo extremamente raro e improvável, porém possível, como demonstram alguns casos. o registro mais recente da cura sem explicação científica é o da dona de casa italiana Antonia Raco, de 51 anos. Diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença neurodegenerativa, a paciente afirma que deixou de manifestar os sintomas - o que foi atestado pelos médicos - após ter feito uma peregrinação ao santuário de Lourdes, na França.

Episódios como esse, em geral associados à tradição crsitã, costumam causar alvoroço ao serem diuculgados pela mídia. Mas também há testemunhos de curas e materializações entre seguidores do guru indiano Sathya Sai Baba e entre os adeptos de práticas espirituais que requrem a ação de curandeiros.




A maioria das hipótese científicas para explicar esses processo gira em torno do poder da sugestão, da reação emocional que pode desencadear respostas físicas ou de relações entre mente, cérbro e corpo ainda desconhecidas. Afinal, seguindo a leitura "científica" e laica, se a emoção pode nos deixar doentes, ela também poderia nos curar.


Durante a maior parte do século 20, inúmeros profissionais da área de saúde mental afirmaram categoricamente que seguir alguma religião - e ter fé - tinha efeitos irrelevantes sobre o bom funcionamento do organismo. Práticas religio­sas muitas vezes foram vistas como sintoma ou fator de deflagração de surtos psicóticos.


Embora em certas circunstâncias de fato essa relação exista e ao longo da história santos, líderes espirituais e místicos fundadores de religiões tenham exibido comportamentos que hoje poderiam ser classificados como psicopa­tológicos, tal relação não pode ser generaliza­da.


A despeito das polêmicas - ou talvez até motivados por elas -, a partir dos anos 1970 surgiram cada vez mais estudos que vinculam espiritualidade e saúde.

Grande parte deles tem revelado que a fé e o exercício da espiritualidade podem estimular habilidades mentais capazes de melhorar a saúde. O psiquiatra Harold Koening, diretor do Centro de Religião, Espiritualidade e Saúde da Universidade Duke, nos Estados Unidos, chegou a mapear 700 pesquisas sobre o tema. Cerca de 500 trabalhos apontavam ligações entre crença religiosa e bem-estar físico.






Entrevistados que afirmaram acreditar em "uma força maior" apresentaram (em média e em comparação aos que se declararam céticos):

  •  melhor função irnu­nológica;

  • níveis mais baixos de colesterol;

  • boa qualidade do sono

  • e menor pressão arterial.


Koening destaca os resultados de dois estudos prospectivos sobre longevidade (que envolveram acompanhamento 23 anos e 31 anos, respectiva­mente, após o início da pesquisa): pessoas que exercem uma prática religiosa regular vivem em média sete anos mais - efeito semelhante ao de não fumar sobre a expectativa de vida.


A religiosidade também tem grande influência sobre as decisões dos pacientes que enfrentam tratamentos de saúde complicados. O Journal of Clinical Oncology publicou em julho do ano passado um estudo realizado com 100 pacientes com câncer de pulmão em estado avançado, seus parentes próximos e 257 oncologistas. Os pesquisadores pediram aos participantes para classificar, em ordem de importância, sete fatores que poderiam influenciar sua decisão de enfrentar a quimioterapia, considerando todas as incertezas e desconfortos do tratamento: recomendação do oncologista, fé em Deus, eficiência do procedimento para curar a doença, efeitos colaterais, recomendação do médico da família, pedido do cônjuge, pedido dos filhos. Os três grupos (pacientes, família e médicos) classificaram a recomendação do oncologista como mais importante. No entanto, enquanto os dois primeiros colocaram a fé em Deus em segundo lugar, os oncologistas consideraram esse quesito o menos importante. Esse estudo sugere que os profissionais de saúde muitas vezes subestimam o papel que a religiosidade tem sobre a postura dos pacientes.


O curioso, porém, é que a própria medicina e os processos terapêuticos têm raízes na magia e na religião. Os xamãs, os reis taumaturgos e os santos - como Cosme e Damião, os chamados "gêmeos curadores" - são os "antepassados" dos clínicos atuais. Os hospitais da Idade Média, inicialmente concebidos como refúgios para idosos, peregrinos e enfermos, eram construídos e administrados por religiosos. A prática de cultivar, conservar e estudar as propriedades medicinais das ervas (que deu origem à atual farmacologia) teve início nos mosteiros. Mulheres que desenvol­viam essa sabedoria, fugindo ao controle da Igreja Católica, eram consideradas bruxas perigosas ­ seu saber era ameaçador. Afinal, a habilidade de aliviar sofrimentos conferia poder. O ato de cuidar e, em especial, de curar sempre foi considerado divino, sobrenatural, mágico - haja vista o pres­tígio que os médicos ainda detêm.


Não raro, mesmo nos dias de hoje, ao ter de passar por intervenções clínicas é comum que pacientes e seus familiares - mesmo aqueles que não seguem uma religião específica - recorram a orações. Não por acaso a prece tem sido foco de muitas pesquisas sobre saúde e espiritual idade. Embora até o momento não tenha sido constatada uma relação comprovadamente inequívoca entre "orações por intercessão" (feitas por um grupo religioso para uma pessoa em especial) e recuperação da saúde, a possibilidade de que haja efeito psicológico benéfico na prece parece bastante provável. As pesquisas de Koening in­dicam que a prática costuma trazer sensação de bem-estar, confiança e relaxamento. Ele acredita que o ato de rezar estimula mecanismos sutis do psiquismo que, se forem compreendidos mais a fundo, poderiam adquirir grande importância no tratamento das enfermidades. Em um estudo com 337 pacientes que estavam internados nos setores de clínica geral, cardiologia e neurologia do centro médico da Universidade Duke, quase 90% contaram que rezavam. Mais de 40% consi­deravam a fé como a principal fonte de conforto, esperança e significado, o que Ihes oferecia me­lhores condições para enfrentar a doença. Esse ponto de vista foi ainda mais expressivo entre pacientes com doenças crônicas ou em estado considerado terminal.


Entretanto, na contramão dos indícios dos be­nefícios da crença espiritual, um estudo publicado no The American Heart Journal em 2006 sugere até que as preces podem, em alguns casos, afetar pacientes de maneira negativa. Conduzido pelo cardiologista Herbert Benson, do Mind Body Ins­titute da Universidade Harvard, o trabalho durou dez anos, durante os quais foram avaliados 1.800 pacientes que passaram por cirurgias cardíacas em hospitais americanos. Eles foram divididos em três grupos: os integrantes do primeiro sa­biam que pessoas rezavam por eles; outro grupo recebia as preces sem saber; e os participantes do último grupo, de controle, não tinham pessoas orando por sua saúde. Voluntários de congrega­ções cristãs direcionavam (usando os prenomes dos pacientes e as iniciais dos seus sobrenomes) a prece "por uma cirurgia bem-sucedida com uma recuperação rápida, saudável e sem complica­ções". Ao fim do experimento, os pesquisadores compararam os resultados dos três grupos e não detectaram diferenças na recuperação dos pacientes. Observaram, porém, que os que sabiam que receberiam orações tiveram mais complicações pós-operatórias, como arritmias cardíacas. Segundo os pesquisadores, essa reação pode ter sido causada não pelos efeitos da prece em si, mas pela ansiedade e expectativa de uma melhora rápida favorecida pelas orações.


Ao longo da história, cientistas, teólogos e pessoas comuns se perguntaram o que pode ser definido como "milagroso". Segundo o geneticista Massimo Pigliucci, da Universidade Stony Brook, nos Estados Unidos, podemos chamar de milagre, por exemplo, casos de pacientes terminais de cân­cer que, apesar do prognóstico de poucos meses de vida, conseguem viver em boas condições por vários anos. Tais registros, no entanto, são bastan­te raros. "Essas estatísticas são feitas com base em grandes populações de pacientes; sobreviver além da média simplesmente significa que, por uma série de motivos complexos, como idade, estado geral de saúde, genética, pura sorte ou qualquer fator que nossa ciência ainda não consegue supor, a posição na curva que descreve a mortalidade causada por uma doença simplesmente se desvia da média", afirma Pigliucci.


O milagre, por sua própria natureza, seria algo único e imprevisível. Porém, segundo o psicanalista italiano Emilio Servadio, que há anos estuda o tema, essa definição é duvidosa, pois está vinculada a um contexto histórico particular. O senso comum considera "milagre" qualquer fato que cause surpresa por ultrapassar o limite da previsão esperada dos acontecimentos ou por aparentar ir além das possibilidades da ação humana. Servadio contradiz esse conceito: para ele, a surpresa pode ser provocada por um truque ilusionista, como o aparecimento totalmente in­compreensível de objetos nas mãos do mágico. Ele lembra que há pouco mais de um século, voar com veículos mais pesados que o arteria sido con­siderado um empreendimento impossível, talvez milagroso, assim como hoje pode parecer, por exemplo, a cura espontânea de uma doença grave. Logo, o milagre é um fenômeno que não pode ser explicado segundo as leis naturais conhecidas, de forma que ele só pode ser constatado em outro momento histórico, após complexa investigação. Não podemos deixar de pensar, portanto, que no caso de uma cura aparentemente milagrosa tenham interferido fatores próprios do organismo que apenas uma profunda investigação clínica ­ talvez, mas não necessariamente esclareceria.

Afinal, o avanço da medicina se baseia atualmente no estudo das doenças, mas também no processo de melhora, e ainda na manutenção do estado de saúde por meio da prevenção.


Embora as crenças (ou descrenças) sejam aspectos importantes da vida de uma pessoa - e em grande parte determinem sua relação consigo e com os outros, influindo em hábitos que afetam sua saúde e até no grau de adesão ao tratamento -, anamneses (relatórios detalhados de sintomas e histórico do paciente) e fichas clínicas invariavel­mente trazem informações limitadas sobre essa área. Raros são os serviços de saúde que levam em conta a relação do doente com sua fé. De acordo com alguns cientistas, esses dados deve­riam ser observados.

E a intervenção milagrosa, considerada como algo pouco provável - mas plausível. Para o físico nuclear Furio Gramatica, responsável pelo polo tecnológico do hospital católico Instituto de Internação e Tratamento de Caráter Científico Santa Maria Nascente (lRCCS, do italiano Istituto Di Ricovero e Cura a Carattere Scientifico). Formado pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, de Genebra, o Cern (a sigla vem do antigo nome da organização Conseil Europeenne pour Ia Recherche Nucléaire), ele cita um de seus livros preferidos, Planoiândia, um romance de muitas dimensões, escrito em 1822 e publicado no Brasil pela Conrad, em 2002. O autor, o reverendo Edwin Abbott, apresenta em sua obra um mundo plano, onde os habitantes são figuras geométricas para as quais a realidade tem duas dimensões. Um dia, um quadrado inteligente e sensível sente uma batida de alguma coisa que não vê, um fenômeno aparen­temente inexplicável para a concepção de realidade daquele mundo; trata-se de uma bola. Dessa forma, o protagonista descobre que sua concepção de rea­lidade é míope. Ele passa então a difundir esta notícia excepcional entre seus se­melhantes, mas ao mesmo tempo é tomado por louco e é preso. E mesmo restrito a quatro paredes, está livre para acreditar na existência de uma realidade mais ampla que transcende a experiência quotidiana.


Gramatica observa que assim como na física, a religião se baseia no raciocínio de que o universo é constituído por matéria e energia e essas categorias estão intimamente relacionadas. "Mas a reali­dade não é constituída somente pelo mundo das moléculas; na religião consideramos também a dimensão espiritual, que confere sentido às outras duas", afirma. Para o físico, o milagre é uma intro­missão - incomum - do futuro no presente, um intercâmbio tangível, lícito e inteligível. Ele não vê contradição entre ciência e fé, entre leis da natureza e milagres. O que falta, provavelmente, é entender melhor o universo - dentro e fora de nós.



• Critérios do Vaticano


Mesmo aceitando e prevendo que os milagres possam ocorrer, nos últimos anos a Igreja Católica tornou-se bastante criteriosa e severa em relação à confirmação desses fenômenos. Os procedimen­tos são cada vez mais passíveis de submissão ao método de investigação histórica e científica: coleta de testemunhos pessoais e clínicos e inúmeros exames médicos. Além disso, o caso é confiado a comissões de profissionais, formadas por especia­listas não necessariamente católicos.


Já no século 18, o papa Bento 14 redigiu di­versos critérios - que depois foram modificados para se tornar mais austeros - de forma que os casos considerados "milagrosos" se limitavam, em média, a um a cada dois anos. Segundo as indicações de Bento 14, antes de tudo deveria ser considerada a existência de uma doença grave e ser descartada a suspeita de que a cura tivesse ocorrido por outros motivos (como um tratamen­to anterior que começasse a surtir efeito); o pa­ciente deveria se recuperar de repente e de forma completa, não deveria haver recaídas. Além disso, cada caso que, na opinião dos doutores da Igreja, pudesse atender a esses requisitos, posterior­ mente deveria ser submetido ao exame de uma comissão de especialistas.


É impossível não perceber que, quanto mais rigorosas as investigações, menos são os mila­gres provados. Alguns casos, porém, permane­cem inexplicáveis - pelo menos para o conheci­mento médico atual. "Embora o número de curas apresentadas para análise pelo comitê seja baixo, é indis­cutível que, todos os anos, muitas pessoas voltam de pere­grinações convenci­das de terem obtido grandes beneficios; seus sintomas desa­pareceram ou fica­ram 'adormecidos' por algum tempo", afirma o historiador Brian Inglis.



• Dor de alma


No início do século passado, Sigmund Freud, criador da psicanálise, já falava de forma bastante convincente de uma misteriosa ligação entre a mente e o corpo. Atualmente, cada vez mais especialistas - mesmo os que não são adeptos de teorias psicanalíticas - reconhe­cem que nosso cérebro tem recursos ainda inex­plorados e relações desconhecidas entre psique, sistema imunológico e sistema nervoso capazes de nos oferecerem pistas para esclarecer curas aparentemente milagrosas - que, na verdade, seriam expressões de potencial idades autorrege­neradoras do próprio organismo. Sabe-se que o bem-estar físico tem efeitos sobre os sentimentos, e que estes, por sua vez, têm certa repercussão no corpo. A constatação, porém, é limitada. Não há informações exatas sobre como e quando as emo­ções atuam no processo de cura, particularmente de doenças neurológicas graves e câncer.


Na opinião do neurologista e neurocientis­ta Massimo Corbo, diretor do Centro Clínico Nemo para a Pesquisa e Cura das Doenças Neurodegenerativas do Hospital Niguarda, de Milão, o estado emocional pode influenciar sig­nificativamente o estado geral de um paciente. "Na prática médica observamos que pessoas com vida ativa, que mantêm relações sociais e projetos, em geral, conseguem enfrentar melhor as patologias." Não se pode deixar de lado, po­rém, o fato de que muitas doenças do sistema nervoso central causam alterações emocionais. E ainda que não haja degeneração de circuitos neurais, como ser "positivo", esperançoso e confiante quando temos dor? A própria relação entre desconforto físico e mental costuma ser muito tênue. Afinal, o que dói mais, o corpo ou a alma?

O neurofisiologista brasileiro Shigueo Yonekura, especialista em distúrbios do sono pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), por exemplo, observa que cefaleia, dor facial e muscular podem ser sinto­mas de depressão.

Estimativas apontam que 75% dos pacientes com o problema apresentam dores físicas.

A insônia também é um sintoma importante do transtorno depressivo. Geralmente é uma insônia matinal com despertar precoce, por volta das 4h, com grandes dificuldades para voltar a dormir. Adormecer durante a noite também passa a ser complicado.

Esse quadro costuma ser acompanhado de sintomas como desânimo, falta de energia, tristeza, perda do interesse sexual, muitas vezes associados a alte­rações do apetite e forte sentimento de fracasso, bem como dificuldades de tomar decisões, inquietação, boca seca e constipação.


O professor do Departamento de Neuro­ciências da Universidade de Turim Alessandro Mauro, diretor da Divisão de Neurologia e Rea­bilitação Neurológica do Hospital San Giuseppe de Piancavallo, em Verbania, considera a impor­tância da emoção na formação das respostas endógenas - particularmente as imunitárias aos agentes patogênicos, mas reconhece que dificilmente representa o elemento decisivo para determinar o prognóstico em longo prazo.

Em sua opinião, a evolução das doenças e, particu­larmente, das degenerativas, é determinada por um conjunto complexo de elementos, entre os quais o estado emocional, que interagem de forma dinâmica, com uma intensidade que varia de acordo com o momento. "Na realidade, ainda sabemos pouco sobre as bases biológicas dos processos mentais, portanto a descrição das relações entre as interações fisiológicas, patoló­gicas ou não, é vaga. Penso que este estudo só terá sucesso se a mentalidade dualista de corpo e mente separados for abandonada, pois oferece respostas simplistas e dificulta o estudo científico de fenômenos mais complexos."


• A psicanálise e a busca de sentidos


Nos últimos anos, muitos especialistas têm discu­tido as nuances do conceito de religião. "Podemos defini-Ia como um sistema de significados cen­trado no sagrado que se torna a lente através da qual percebemos a realidade", propõe a psicóloga Israela Silberman, professora da Universidade Columbia, em artigo publicado no Journal of Social lssues. Esse sistema, formado por crenças e expectativas, influencia a vida dos indivíduos, nas relações consigo mesmos e com os outros. E, para muitos, confere sentido à própria história do nas­cimento à morte e além.


No ensaio O furturo de uma ilusão, de 1927, Freud diz que a religião surge da fragilidade huma­na e do reconhecimento, por parte do homem, de que é indefeso frente às forças da natureza e aos próprios anseios, que tantas vezes não compre­ende. William James aborda em As várias formas de experiência religiosa, de 1902, os aspectos da vivência psicológica, notando como isso pode ser fonte de serenidade para alguns e de tormento para outros.

E Abraham Maslow descreve a tendência do homem a viver experiências transcendentais, consi­deradas de caráter religioso.


Em 1909, durante o VI Congresso Internacional de Psicologia, o pesquisador Theodore Flournoy propôs dois princípios metodológicos para esse campo da psicologia: o da exclusão da transcendên­cia (que prevê a abstenção dos juízos de valor me­tafísico do conteúdo da crença) e o da interpretação biológica da religiosidade (segundo a qual a relação humana com sua crença deve ser estudada como um processo psicofisico, que se expressa por meio de comportamentos observáveis e interpretáveis).


"Freud sustentou que a origem do pensamento religioso estava vinculada, para cada indivíduo, às relações com o próprio pai", diz o psicanalista Mario Aletti, professor e presidente da Sociedade Italiana de Psicologia da Religião. "Posteriormente, a psicanálise passou a valorizar ambas as figuras parentais e a trabalhar com a ideia da existência de outras relações simbólicas de filiação, nas quais o pai representa a ordem e o limite, mas também a promessa e a possibilidade de desenvolvimento."





• Saúde na plama da mão
 

A imposição de mãos, praticada em algumas religiões e em terapias comple­mentares, tem efeitos positivos sobre o sistema imunológico. Pelo menos é o que revela um estudo conduzido pelo biólogo Ricardo Monezzi, da Universi­dade Federal de São Paulo (Unifesp). A técnica consiste em colocar as mãos sobre uma área, sem encostá-Ias, com o objetivo de restabelecer a saúde e o equilíbrio do organismo. A pessoa que aplica o tratamento deve estar cons­ciente da ação e mentalizar o restabelecimento do bem-estar do "paciente".
 

Monezzi estudou os resultados da prática de mãos em 60 camundongos machos e sadios. Um terço do grupo recebeu o tratamento durante 15 minu­tos, por quatro dias consecutivos. Outros 20 tiveram luvas colocadas sobre as gaiolas pela mesma quantidade de tempo (para simular a imposição) e o restante dos animais, que integravam o grupo de controle, não foram subme­tidos a nenhum procedimento específico.


Ao final do experimento, foram reti­radas amostras do baço (que armazena células de defesa) dos animais para análise. Os fragmentos foram colocados em tubos de ensaio para confronto com células túmorais.

O pesquisador observou que os roedores que passa­ram pela imposição de mãos apresentaram aumento do número de células de defesa, como linfócitos e monócitos. Além disso, essas células revelaram o dobro de potencial para destruir as tumorais.


As alterações não foram verificadas nos camundon­gos que receberam a simulação de tratamento nem no grupo de controle. O estudo não foi realiza­do em humanos para descartar a possibilidade de efeito placebo, ou seja, uma resposta condicionada do organismo. Faltam, porém, mais estudos que esclareçam esses resultados.



Para saber mais


Crer faz bem? Paola Emilia Cicerone. Grandes Temas Mente e Cérebro - Fé: o lu­gar da divindade no cérebro, págs.18-21.


O poder da oração. Daniela Ovadia. Grandes Temas Mente e Cérebro - Fé: o lu­gar da divindade no cérebro, págs. 22-29.


No limite da vida. Detlef B. Linke. Grandes temas Men­te e Cérebro - Fé: o lugar da divindade no cérebro, págs.64-73.


Travessias do sofrimento. J.-D. Nasio. Mente e Cérebro nº 188, págs. 52-55, setem­bro de 2008.





O processo psicológico individual que nos leva a definir a ideia de Deus é inevitavelmente antropo­morfizado, traduzido em uma linguagem metafóri­ca e simbólica. "É comum que o crente identifique o ser divino com a ideia que tem de si mesmo; nesse sentido, a fé é uma busca contínua por um objeto que é por definição latente, presente - mas não atingível", salienta o psicanalista.
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