quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Giro da Roda do Dharma



Em uma palestra do Monge Genshô no Rio de Janeiro, um dos presentes lhe fez uma pergunta mais ou menos assim:

"Não é contraditório que existam essas regras e hierarquia no Zen?"

Ele provavelmente fez essa pergunta em função da abordagem não-conceitual no Zen (como sugerido no título do livro de D.T. Suzuki, "A doutrina zen da não-mente"), e talvez influenciado por alguma escola não-buddhista que pregue a ausência de regras e hierarquia.

Monge Genshô lhe respondeu que não, pelo contrário, e que o treinamento Zen era principalmente um treinamento de "forma", ou de regras bem definidas. Ele inclusive contou que um de seus professores no templo de Yokoji baseava o treinamento principalmente nisso: forma, forma, forma até a exaustão. Também que a necessidade e o sentido dessas regras, muitas vezes incompreendidas a princípio, acabavam por revelarem-se pouco a pouco com a prática.

Não me lembro exatamente toda a explicação, mas provavelmente apontou até que, se não houvesse um método de treinamento (que por definição precisa de regras), provavelmente não sobraria muita coisa que pudesse ser chamada de Zen. O que remete ao dito "com esforço não se consegue nada, mas sem esforço aí mesmo é que não se vai a lugar algum", o que poderia ser adaptado para algo como "com treinamento não se consegue nada, mas sem treinamento não se vai a lugar algum".

Isso talvez cause confusão em algumas pessoas, é um tanto paradoxal, e confesso, provavelmente me falte clareza o suficiente para explicar a compatibilidade entre "a doutrina zen da não-mente" e as inúmeras regras de treinamento no Zen.

Mas um interessante "causo" do mundo da informática talvez ponha um pouco de luz à essa questão. Os personagens são Marvin Minsky, um dos pioneiros na área de inteligência artificial e redes neurais, pesquisador e professor do MIT, e seu então aluno, Gerald Sussman, atualmente também pesquisador e professor na mesma área.

"Então Sussman começou a trabalhar em um programa. Não muito tempo depois, um cara meio esquisito e careca apareceu. Sussman imaginou que o cara iria expulsá-lo da sala, mas ao invés disso o homem sentou-se, perguntando - Ei, o que você está fazendo? Sussman conversou sobre o programa com o homem, Marvin Minsky. Em certo ponto da discussão, Sussman disse a Minsky que ele estava usando uma certa técnica de randomização em seu programa porque ele não queria que a máquina tivesse noções pré-concebidas. Minsky lhe disse: - Bem, ela as tem [noções pré-concebidas], a diferença é que você não sabe quais elas são. Foi a coisa mais profunda que Gerry Sussman jamais havia ouvido. E Minsky continuou, dizendo a ele que o mundo é feito de certa forma, e que a coisa mais importante que podemos fazer com o mundo é evitar a aleatoriedade, e imaginar maneiras pelas quais as coisas possam ser planejadas. Sabedoria como aquela teve forte efeito no calouro de dezessete anos, e dali então Sussman estava capturado."

Marvin Minsky talvez seja um dos seres humanos vivos mais inteligentes, e fica claro na história acima que ele não estava falando somente de programas de computador, mas de mentes humanas também. O ponto que ele levanta é muitíssimo interessante.

Sabe-se que no Budismo, não somente o fim do sofrimento pessoal é importante - infinitamente mais importante é o fim do sofrimento de todos os seres. Ainda que uma pessoa tenha a imensurável boa sorte (ou melhor, as inúmeras condições apropriadas) de conseguir eliminar todo o sofrimento na primeira vez que sente em meditação, é necessário um esforço imensamente maior e mais elaborado para eliminar o sofrimento de todos os seres nas dez direções, de seus respectivos pontos de vista relativos. E é claro, para aqueles que como eu que não conseguiram tal façanha, é preciso um esforço e método continuados de prática, que por sua vez é proporcionado por um grande número de amigos que nos ajudam nessa empreitada.

Quem já participou de sesshins já pode ter percebido que trata-se de uma estratégia cuidadosamente planejada para criar o máximo de condições propícias para levar os participantes a uma experiência de esclarecimento, ou em outras palavras, ao início do fim do sofrimento. Essa estratégia é composta por um grande número de regras, cada uma com sua importância, que aos poucos vamos compreendendo. E é claro, a estratégia é executada por atores, que somos nós, os praticantes.

E quem foi o grande estrategista que ensinou o Caminho e criou as inúmeras regras monásticas e leigas iniciais que resultaram nas diversas escolas e métodos budistas que temos hoje? Ninguém menos que Shakyamuni Buddha. A esse grande e maravilhoso impulso chamamos de "O Giro da Roda do Dharma".


(Nesse texto, "Zen" refere-se às escolas Zen Budistas tradicionais, e provavelmente à maioria das escolas Budistas.)
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