quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Aproveitar bem o tempo é mais importante do que simplesmente obter tempo

 
 
Fabiana Fidelis pergunta: Observo as pessoas torcendo para que logo chegue a bendita sexta-feira. A jornada de trabalho é vivida como um período a ser suportado, então chega o final de semana e passa muito rápido. Aprender a focar a atenção está relacionado com ter uma maior nitidez da duração do tempo? Se conseguíssemos prestar atenção no presente, teríamos a sensação de uma vida mais longa?

Por um lado, sim. Ao refinarmos e tomarmos as rédeas da atenção, isso cria uma sensação de espaço, de abertura. Contudo, o mais comum é levarmos a atitude da eficiência para o campo do treinamento da atenção, e nesse caso ela não funciona. Se tentamos aumentar a eficiência no próprio treinamento da atenção, forçamos a barra. Queimar pestanas no treinamento da atenção não é produtivo. Então precisamos evitar isso.

O que ocorre conosco na maior parte do tempo é que, se não há estímulo “interessante”, caímos em torpor – então buscamos um estímulo atrás do outro, e algumas pessoas constroem carreiras nesse “estilo”. É aquela imagem comum da pessoa no leito de morte se arrependendo por não ter passado tempo com a família ou aproveitado o tempo melhor. Aproveitar bem o tempo é mais importante do que simplesmente obter tempo – quando vejo adolescentes no twitter reclamando de tédio, o que é a coisa mais comum, fico de cabelo em pé! Quem dera eu tivesse tempo para parar e ficar só sentindo que tenho tempo demais nas mãos! Essa falta de contentamento com o tempo livre vem de uma cultura que está com os valores enlouquecidos.

A questão da eficiência como ideologia produz esses efeitos ruins sobre nós. Existe algo de inerentemente totalitário no controle do tempo – a cidade que passa a ter um relógio na praça central não só pode marcar o uso de transporte coletivo e permitir que as pessoas se encontrem “na hora certa”, mas passa a realmente vender e comprar o tempo.

O tempo como commodity acaba produzindo uma tensão na direção da eficiência e do “progresso” geral de uma sociedade. Isso literalmente produz tensão sobre as pessoas. As propagandas de Stalin diziam algo como “vamos nos matar trabalhando agora por uns 10 anos, que o futuro será bem mais fácil”, e a direção que a sociedade tomou acabou sendo a fome, o desperdício (produziam uma quantidade muito maior de sapatos de baixa qualidade do que era necessário, por exemplo) etc. Mas, por outro lado, a promessa da ideologia da eficiência é talvez até pior: trabalha muito agora que depois você vai ter que trabalhar mais – e quando você finalmente se aposentar – muita calma nessa hora! – você será apenas um peso morto para a sociedade e para sua família. Os idosos, como os adolescentes, parece que não encontram participação na sociedade – porque é como estar fora de um jogo. É bem como um jogo, e a cultura nos leva a não dar valor para quem não joga.

E, mais do que isso, a eficiência vai consumindo os recursos até que se esgotem, sem parar para refletir a um prazo maior. São uma grande ironia econômica os prazos com que se lida no mercado: eles refletem a maior eficiência (isto é, como você faz mais dinheiro no trade off entre dinheiro e tempo) – isto é, basicamente vendemos o futuro. Nossa sociedade é desenhada para vender o futuro, e isso não está certo. Existem limites claros para o crescimento, mas a cultura da eficiência trata os recursos como infinitos – até que eles acabam, e daí guerra por recursos.

A alternativa é descobrir o deleite da mera cognição, sem fugir dos estímulos, mas sem depender deles. Isso começa com o treinamento em atenção, que normalmente se chama meditação. Uma pessoa contentada, consome menos. Consumir menos e diminuir o crescimento da economia é ter um futuro: é não ter vendido o futuro. Mas imagine a cara de um empresário ou governo ao ouvir “consuma menos”! A cultura não permite que digamos isso. Essa é uma propaganda que ninguém quer patrocinar.

O treinamento da atenção produz mais qualidade de qualquer forma, mas há também essa questão da doença da sociedade em geral. Por exemplo, a sociedade está construída para cada vez produzir mais estímulo, vivemos em meio ao equivalente mental da fast food. A dificuldade de encontrar um sentido no que se está fazendo causa depressão, e a quantidade de estímulos fortes e de baixa qualidade (afetiva, significativa, etc.) causa distúrbios de atenção. Por isso essas coisas são epidemias. Então meditar e dar o exemplo da meditação é a forma mais profunda de engajamento político e sustentável que há, além de ser diretamente compassivo e corajoso diante as epidemias da cultura da eficiência.

Armando da Silva Barros pergunta: Você percebe algum esforço das novas empresas – cito Google, Facebook e Twitter como exemplo – de humanizar o funcionário ao proporcionar afazeres diferenciados e recreação dentro do ambiente de trabalho? Como empresas menores podem adotar práticas mais saudáveis para seus funcionários?

A nova forma de engajamento no trabalho, principalmente na área de informática, é a total imersão, 24/7/365. O trabalho está junto com você o tempo todo, e é claro que, no trabalho também acontece sua vida. O que ouvi é que o Google já diminuiu um pouco seu perfil inovador, e que está bem mais tradicional hoje do que dois ou cinco anos atrás. Não tenho ideia de que como é o trabalho no Twitter, mas o Facebook é uma empresa relativamente tradicional, apenas com um pouco menos de hierarquização (sem escritórios fechados), e aquelas “festas de hack”, na qual passam a noite toda competindo com programação.

No caso das empresas da área de informática acho essencial que proporcionem recreação, uma vez que hoje em dia ninguém se desconecta totalmente. Normalmente programadores de alto nível fazem muito mais horas de trabalho do que o trabalhador normal – mesmo na década de 80 pessoas na Microsoft e na Apple passavam dias trabalhando e dormindo na empresa, e então é claro que se você trabalha mais de 80 horas por semana, você vai acabar fazendo recreação na empresa. Empresas como a Google querem encorajar o funcionário a não sair dali, a estar disponível para lidar com pepinos na hora que aparecem.

Isso não é saudável, é claro, mas é compreensível nesse ramo competitivo. O programador em particular trabalha com atenção continuada – toda vez que há uma quebra para dormir, comer ou tomar banho, ele tem que retornar ao que estava fazendo do ponto que parou. E, acredite, sei como é difícil retomar o fio da meada. O melhor é não parar. Isso não é saudável, é claro.

As empresas de forma geral devem abdicar de alguma eficiência em troca de longevidade da empresa e dos funcionários. Empresas começando agem um pouco stalinisticamente: vamos se matar trabalhando agora, caso contrário o barco afunda e leva todo mundo. Isso por duas razões, primeiro porque o investidor pressiona: claro, ele não quer perder seu dinheiro, e quer ganhar o máximo possível, senão ele investia em outra coisa. A segunda porque existe uma tendência a pensar que se começamos devagar, ganhar momento depois é muito mais difícil. Essa segunda razão, na verdade, é uma boa razão. Mesmo em retiros de meditação o conselho é muito esforço no início, aliviar no meio, e botar intensidade no final novamente.

O problema é que são raras as empresas que duram 10, 50 anos... Se não me engano, não há nenhuma empresa com mais de 200 anos de idade. Essa falta de longevidade das empresas, e uma economia “vibrante” onde empresas pipocam, essas coisas não são tão boas para os seres humanos, isso causa ansiedades e tensões.

Então, para manter a competitividade nessa cultura atual, é evidente que isso vai penalizar as pessoas que trabalham na empresa. Mas isso pode ser amenizado com uma perspectiva de cada vez mais longo prazo. Ou seja, sustentabilidade. Sustentabilidade significa abrir mão do grande lucro a curto prazo por lucros menores “sustentáveis” a longo prazo. Em outras palavras, confiança e coragem na economia. O melhor conselho é, portanto, abandonar a tendência apocalíptica de fazer o máximo em menor tempo, e abrir um espaço para o tempo respirar.
 


Eduardo Pinheiro é formado filosofia pela UFRGS, é escritor, tradutor, debatedor, guitarrista, programador e praticante budista. Sabe conversar como poucos sobre música, cinema, estética, filosofia da mente, religião, ciências cognitivas, física, computação, psicologia, filosofia da ciência, linguagem...
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