sábado, 13 de outubro de 2012

Dando nomes para os inúmeros Buddhas


Dando nomes para os inúmeros  Buddhas
Textos postados no "Folhas no Caminho"

Ainda que no cânone antigo haja a menção a seis Buddhas (Vipaśyin, Śikhin, Viśvabhu, Krakucchanda, Kanakamuni e Kāśyapa) anteriores a Sakyamuni, tais Buddhas são mencionados apenas como precedentes, vindos desde um passado distante e exemplificando que, de tempos em tempos, nascia no mundo um ser desperto que trazia ao mundo o ensinamento libertador. Ainda assim, tanto para os que viveram na mesma época em que o Buddha estava vivo, quanto para as gerações de discípulos que o sucederam, Siddharttha Gautama que havia abandonado sua vida de príncipe para descobrir a verdade e finalmente se tornar o Buddha, sempre foi o alvo único de admiração e orientação. Seus eram os ensinamentos a serem aprendidos, compreendidos e seguidos.

Muitos Buddhas
Num dos livros canônicos da escola Theravāda, considerado tardio e um dos últimos a ser incluído no cânone, esse número é alargado, mencionando 24 Buddhas anteriores a Sakyamuni. No cânone antigo também é mencionado um Buddha que surgirá no futuro, quando o ensinamento de Sakyamuni tiver sido completamente esquecido: o Buddha Maitreya surgirá então para novamente pregar o Dharma.

Por volta de cento e cinquenta anos após a morte de Sakyamuni, porém, começa a surgir uma crença de que haveria, não no passado, mas neste exato momento, diversos Buddhas espalhados por diferentes mundos e direções, cada qual atuando na propagação de ensinamentos libertadores. Não se sabe bem como, onde e porque essa visão particular surgiu. Uma hipótese é de que poderia ter sido uma reação à solidão de se encontrar vivendo numa época que, embora ainda sobre a influência do ensinamento de Sakyamuni, já as lembranças vívidas do grande mestre começavam a desaparecer. Um motivo associado a esse pode ter sido o aparecimento nessa mesma época da literatura devocional hindu, como o Bhagavat Gīta, e com um potencial de atrair muitos aderentes, forçando o meio buddhista a oferecer formas mais acessíveis de conexão com seus ideais religiosos a fim de competir com os movimentos não buddhistas. O surgimento de vários Buddhas que poderiam atender aos pedidos e cuidar das necessidades de quem necessitava teria sido, assim, uma resposta ao crescimento dos caminhos devocionais teístas da época e uma forma de prover um consolo diante do distanciamento do Mestre.

Outra razão possível tem relação com a crescente popularização dos Jātakas, estórias que foram coletadas e compostas nessa época para exemplificar os imensos esforços que Sakyamuni fez em vidas anteriores a fim de atingir o estado supremo de Buddha. Se algumas pessoas começassem a pensar que outros seres poderiam estar também cultivando um caminho para se tornarem Buddhas, ficaria a pergunta de para onde iriam ao se tornarem Buddhas. O problema existe porque, segundo o cânone antigo, somente um único Buddha pode existir no mundo de cada vez: 

Então, certos devas exclamaram: ‘Ó, se apenas quatro Buddhas completamente despertos surgissem no mundo e ensinassem o Dhamma assim como o Bem-Aventurado! Isso seria para o benefício e felicidade de devas e homens!’ E alguns disseram: ‘Não importa que sejam quatro – três seriam suficientes!’, e outros disseram: ‘Não importa que sejam três – dois seriam suficientes!’. Diante disso, Sakka disse: ‘É impossível, senhores, não pode acontecer de dois Buddhas completamente despertos surgirem simultaneamente num único sistema-mundial’”.

Se apenas um Buddha pode existir no mundo de cada vez, então possíveis seres que se tornassem Buddhas teriam que fazê-lo em outros mundos. Essa seria uma possível razão para o surgimento da ideia de vários Buddhas se manifestando em várias ‘terras de Buddha’, tendo sido proposta por Asanga (390-470 d.C.), ainda que seja bastante questionável que uma doutrina de Bodhisattvas estivesse desenvolvida nessa época tão distante.

A noção de vários Buddhas pode ainda ter surgido como uma forma simbólica de indicar que as portas do Dharma continuavam abertas, personificando, assim, a possibilidade da iluminação na forma de múltiplos Buddhas, anônimos e vivendo por todas as direções, em inumeráveis sistemas-mundiais, mas, ainda assim, vivendo nessa mesma época. 

Numa obra canônica preservada pela escola Theravāda produzida em meados do segundo século a.C., a crença de que existe um Buddha situado em cada direção é criticada com os seguintes argumentos: Se é verdade que há um Buddha em cada direção, qual o seu nome, qual sua família, clã, os nomes de seus pais, seus principais discípulos, como é seu manto e tigela, e por quais vilas, vilarejos, cidades e reinos ele anda? Séculos mais tarde, no comentário a essa obra, o grupo que desposava essa visão é identificado como sendo os Mahāsanghikas, porém essa não é uma crença que precisava estar restrita a um grupo buddhista específico, podendo ter sido adotada por algumas pessoas de forma independente. A maior importância dessa menção é indicar que por volta de meados do segundo século a.C. essa crença existia suficientemente forte para ser um objeto de crítica de uma das escolas majoritárias.

A crença gradualmente crescente de que Sakyamuni não foi o único Buddha existente no momento presente, mas que Buddhas existiam por todos os cantos, milhares e milhões deles em inumeráveis reinos, foi determinante para alguns desenvolvimentos da história do Buddhismo.



A crença gradualmente crescente de que Sakyamuni não foi o único Buddha existente no momento presente, mas que Buddhas existiam por todos os cantos, milhares e milhões deles em inumeráveis reinos, foi determinante para alguns desenvolvimentos da história do Buddhismo.

Com o tempo, quem sabe como uma forma de trazer para ainda mais perto essa conexão inefável, alguns dessa miríade de Buddhas, inicialmente anônimos, receberam nomes próprios, e passaram gradualmente a ser cultuados pelo povo. Por volta do primeiro século d.C. ou um pouco antes, nomes como Akṣobhya, Bhaiṣajyaguru e Amitābha começam a aparecer no cenário espiritual da Índia.


Tais Buddhas especiais tinham também ‘terras puras’ em que o devoto poderia renascer dependendo da realização de práticas associadas a esses Buddhas, que incluíam principalmente visualizações (daquele Buddha em particular e sua ‘terra abençoada’) e recitações de mantras associados a eles. Alguns os chamam de Buddhas celestiais, devido ao fato de não serem como Sakyamuni, dotados de uma história de nascimento, vida e morte. 

Ainda que não se tenha conhecimento certo de cultos específicos a esses Buddhas no solo indiano, a ponto de constituírem práticas e escolas exclusivas, com a expansão do Buddhismo na China a partir do 2º. Século d.C., esses Buddhas e suas ‘terras abençoadas’ tiveram uma crescente aceitação por parte do povo chinês, congregando adeptos exclusivos a ponto de fazer surgir, pela primeira vez, escolas ou linhagens independentes de transmissão de ensinamentos sobre esses Buddhas. 

A nomeação dos Buddhas, a existência de ‘terras búddhicas’ produzidas por seus méritos e os caminhos de prática para chegar a elas constitui o tripé da nova prática, a qual imita de certa forma o caminho do próprio Buddha Sakyamuni. Assim como Sakyamuni, por seus méritos, chegou ao Nirvāṇa e revelou o caminho para ele por meio de técnicas e ensinamentos, os outros Buddhas também propunham agora caminhos para o aspirante espiritual. Tais ‘terras búddhicas’, porém, não substituem totalmente o Nirvāṇa. Elas são propostas como “lugares” temporários de parada, onde as melhores condições estão presentes para que o aspirante a partir de lá possa efetivamente chegar ao objetivo final do Nirvāṇa. Isso permite que os novos Buddhas e suas “terras” possam se encaixar no esquema antigo divulgado pelo cânone original. 

Também o caminho para se chegar às ‘terras búddhicas’ não ignora o caminho antigo proposto por Sakyamuni. Seu ensinamento fundamental com as Quatro Nobres Verdades, o Caminho Óctuplo e a importância de conduta moral permanecem inalterados, mas são acrescidos elementos de devoção e culto aos Buddhas que estão por toda a parte ou àquele Buddha específico que o aspirante escolheu. As técnicas de meditação vipassanā são diminuídas (talvez por serem mais difíceis e demandarem mais tempo e dedicação) e as de samatha são incentivadas visando especificamente a concentração necessária para as visualizações e recitações ligadas àquele Buddha. A conexão afetiva com o Buddha é estimulada, da qual depende o sucesso do engajamento do aspirante naquele caminho.

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