quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Há mais bondade que maldade no mundo



Há mais bondade que maldade no mundo

Florianópolis, retiro em out/2012 liderado pelo Superior da América do Sul, Mestre Saikawa Roshi
(continuação)
Aluno: – Vejo o mal nos noticiários.






Postado por Monge Genshô


 – Notícias são uma visão distorcida do mundo.

Por que não aparece no Jornal Nacional: “Pai carinhoso janta hoje com a família e faz carinho no rosto de seu filho”?

Só aparecem as notícias que chocam porque são essas as notícias que as pessoas querem ver. Você não vê nenhuma notícia da Suíça hoje, só vê notícias a respeito da Síria, porque lá estão havendo bombardeios e mortes. Você pode estar certo, o mundo não funcionaria se um por cento das pessoas fossem más. Se um por cento das pessoas que almoçassem no restaurante saíssem sem pagar, isso seria um problema. Mas isso não acontece, pois quando alguém chega ao restaurante e se dá conta de que esqueceu cartão, não tem problema. Dizemos a ela que volte outro dia e pague. E ela volta. 

Porque a maioria das pessoas é boa e quer que o mundo seja bom. A maioria dos pais é amoroso. Há pessoas más e cruéis no mundo? Há. Mas, felizmente, são minoria. O problema é que fazem muito barulho e aparecem demais. Nós funcionamos na base da confiança. Se alguém pensa: “mas não dá para confiar nas pessoas”, eu digo: “claro que dá”. Na realidade, você entra em qualquer lugar, come e paga depois. Se as pessoas fossem inconfiáveis, pagar-se-ia antes. Você vai ao banco, entrega o dinheiro, o caixa conta e a operação é feita. E se ele colocasse o dinheiro na gaveta e dissesse, “O que o senhor deseja?” Você lhe diria: “como assim, acabei de lhe dar dinheiro”, ao que ele poderia responder: “o senhor não me deu nada”.


Você confia o tempo todo nos outros, o mundo funciona na base da confiança. As pessoas fazem coisas boas o tempo todo. Há pessoas que vêm aqui e começam a limpar alguma coisa, fazem uma faxina, mas nunca perguntam “O que eu ganho?”. Tem pessoas que colocam uma doação na caixa, a gente não sabe quem foi, mas ela sabe que o aluguel tem que ser pago, a luz tem que ser paga, a água tem que ser paga. Tem pessoas que fazem com que esse lugar exista. Seria impossível de existir se não houvesse pessoas que doam algo para os outros.

Então, o mundo não é mau, a maldade é exceção. Ainda bem. Você só precisa olhar. Já foi muito pior. Cem anos atrás, no inicio do século vinte, nós tivemos no Brasil a revolta da chibata na marinha, porque os marinheiros eram tratados a chicotadas. Tínhamos escravatura até 1888, as pessoas faziam festa quando uma guerra era declarada. Na primeira guerra mundial o povo saía às ruas eufórico. Aconteceu na Argentina, na guerra das Malvinas, o povo nas ruas festejando porque haviam declarado guerra contra a Inglaterra. Já mudamos e continuamos a mudar aos poucos. Mas se você olhar para o passado, verá coisas que as pessoas faziam porque eram consideradas normais - em alguns lugares do mundo ainda são, não é? No Irã, por exemplo, tenho um conhecido que esteve lá recentemente e disse que é comum passar por uma praça e encontrar alguém enforcado. Eles enforcam os homossexuais, enforcam alguém que tenha dito uma blasfêmia, etc. Fico feliz em saber que o Brasil mudou de posição a respeito do Irã, pois para mim era vergonhoso. Escrevemos um texto a esse respeito, li um discurso criticando o Itamarati escrito por participantes do Colegiado Buddhista Brasileiro em São Paulo. Penso que estejamos mudando de posição, e isso é melhor, pois não podemos pôr interesses comerciais ou quaisquer outros na frente de tudo, e fechar os olhos para a maldade. Se olharmos bem, veremos que há bondade no mundo.

Postado por Monge Genshô 


Pensando nisto lembrei da palestra do Linguista Steven Pinker sobre o "Mito" da violência moderna.


Steven Pinker mapeia o declínio da violência desde os tempos bíblicos até os nossos dias, e argumenta que, apesar de parecer ilógico e até obsceno (dado o que acontece no Iraq e em Darfur), estamos vivendo a época mais pacífica da existência de nossa espécie.



Isto me levou a outra palestra do Ted, a de Julia Bacha: "Prestem atenção na não violência"


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Em 2003, a aldeia palestina de Budrus empreendeu um protesto não violento de dez meses para impedir a construção de uma barreira através dos seus olivais. Apesar da grandeza do feito, poucas pessoas ouviram falar na ação. Nesta palestra do TED Global 2011, a realizadora brasileira Julia Bacha pergunta por que razão as pessoas só prestam atenção à violência - e não aos líderes não violentos que podem um dia trazer a paz.

Segundo Julia, apesar de serem pouco vistos nos veículos de comunicação internacionais, existem dezenas de palestinos que estão usando a não violência para defender as suas terras e recursos hídricos dos soldados israelitas e colonos. Segundo a palestrante, esta divisão entre o que está a acontecer no terreno e a percepção no exterior é uma das principais razões para que ainda não exista um movimento pacífico de resistência palestina que tenha sido bem sucedido.


“Acredito que o que está faltando em grande parte para que a não violência aumente não é que os palestinos comecem a adotá-la, mas sim que nós comecemos a prestar atenção àqueles que já o fazem.” 

- Julia Bacha


Ela conta a história da aldeia de Budrus que, desde 2003, é cenário de um “extraordinário conjunto de acontecimentos” gerados pela mobilização pacífica de seus moradores. “No entanto, as mídias mantêm-se majoritariamente em silêncio em relação a estas histórias. Este silêncio acarreta profundas consequências para a probabilidade do crescimento da não violência, ou até da sua sobrevivência”, defende a brasileira.

Para ela, as resistências violenta e a não violenta têm uma coisa muito importante em comum - ambas são uma forma de teatro a procura de audiência para a sua causa. “Assim, se os atores violentos forem os únicos a conseguir visibilidade nas primeiras páginas e a atrair a atenção internacional para a questão da Palestina, torna-se muito difícil aos líderes não violentos convencer as suas comunidades de que a desobediência civil é uma opção viável para a abordagem do seu empenho”.

Esse “comportamento funcional”, comumente visto na infância, quando as crianças aprendem que a atenção dos pais está relacionada ao choro, pode ser incentivado ou desincentivado também nas grandes causas sociais, diz Julia. “O comportamento de comunidades e países inteiros pode ser influenciado, dependendo de onde a comunidade internacional escolha focar a sua atenção”, diz.

Por isso, a palestrante defende ser fundamental para acabar com o conflito no Médio Oriente que a não violência seja transformada em um comportamento funcional, dando muito mais atenção aos líderes não violentos que estão hoje em ação.

“Eu acredito que a coisa mais importante é compreender que se não prestarmos atenção a estes esforços, eles são invisíveis e é como se nunca tivessem acontecido. Mas eu vi que se lhes prestarmos atenção eles vão se multiplicar”, conclui.

- Assista à palestra na íntegra (para ver com legenda em português, selecione a opção ao lado do play):


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