quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Zen e Kensho de Michael Jordan

Este artigo podia se chamar O Zen e o Jordan. Me lembrou minhas próprias experiências (tanto nas artes marciais quanto no montanhismo, quando garoto...) com o que eu reconheci como Satori (悟り?) ( chinês ; coreano ).

Satori é um termo budista japonês para iluminação, mas a palavra significa literalmente "compreensão".

É algumas vezes livremente tratada como sinônimo de Kensho, mas Kensho refere-se à primeira percepção da Natureza Búdica ou Verdadeira Natureza, algumas vezes conhecida como "acordar", visto como uma "etapa" que ajuda a perceber que a iluminação é possível. Algo como uma "amostra" de um estado de consciência especial, mas não durável, o kensho, que não é um estado permanente de iluminação mas uma visão clara da natureza última da existência, o satori refere-se a um estado de iluminação mais profundo e duradouro. 

É costume portanto utilizar-se a palavra satori quando referindo-se aos estados de iluminação do Buda e dos Patriarcas, mas de Kensho quando se fala de pessoas comuns e atlétas...





Do http://textosparareflexao.blogspot.com/

Era o primeiro jogo das finais da NBA de 1992, onde era decidido o maior time de basquete do mundo, visto que, especialmente naquela época, não se jogava basquete naquele nível em nenhum outro lugar que não nos Estados Unidos, e em nenhuma outra cidade que não em Chicago, onde os Bulls decidiam o título contra os Blazers de Portland. Michael Jordan até então havia ganho apenas um título na NBA, e a partir daquele jogo ficou claro para todos que ele não só ainda ganharia aquele campeonato e muitos outros, como se firmaria como o maior da história do esporte, como de fato ocorreu.
Mas este artigo não é uma adulação de Jordan, e sim da mente humana, mente esta que ele soube utilizar como ninguém, precisamente no início daquele jogo. Na primeira metade do jogo, Jordan estabeleceu o recorde histórico de maior número de pontos (35) e arremessos de longe (6) para uma final da NBA, que é onde todos dão a vida por cada palmo de campo e cada jogada... Jordan, no entanto, parecia jogar sozinho: apenas quando acertou o sexto arremesso de três pontos, é que percebeu seu amigo Magic Johnson (outro craque do jogo, que havia se aposentado recentemente) sentado na bancada de narradores, sorrindo largamente. Foi então que Jorden se deu conta, conscientemente, do que estava a ocorrer. Ele deu de ombros, quase como se pedisse desculpas.
“Estava além de mim, era como se eu jogasse por instinto, como se não existisse mais ninguém na quadra, no ginásio inteiro – apenas eu, a bola, e a cesta do outro lado” – Admitiu Jordan tempos depois. Na segunda metade do jogo, ele fez poucos arremessos e anotou apenas mais 4 pontos: não era mais necessário, a vantagem estabelecida fez com que os Bulls pudessem apenas administrar o placar contra os Blazers. Porém, assim que se apercebeu do que estava a ocorrer, Jordan também sabia, em seu íntimo, que não adiantaria mais perseguir aquele “estado” no restante do jogo. Tudo que podia fazer era agradecer por tem chegado lá uma vez mais. Michael Jordan estava in the zone (“na zona”), como só os maiores esportistas nalgum dia puderam estar... Dentro de suas mentes.
a pressão de ganhar se esvai, junto com o medo de perder
Estar in the zone é um conceito conhecido entre os grandes atletas do basquete que equivale a um certo estado mental onde a pressão de ganhar se esvai, junto com o medo de perder. Quando não importa se o ginásio está lotado ou vazio, de torcedores do seu time ou do time adversário, quando nem a altura nem a cara feia dos adversários faz alguma diferença. Quando a bola chega nas mãos e é arremessada, e não há nem mesmo o desejo de que ela entre na cesta – e, ainda assim, ela quase sempre entra.
Mas tal estado não é, obviamente, exclusivo do basquete, nem do esporte em geral. É uma capacidade, uma potencialidade humana. Muitos anos antes de Jordan ter entrado no Bulls, um professor de psicologia da Universidade de Chicago já havia iniciado sua extensa pesquisa sobre o que ele chamou de “o fluxo” (the flow). Mihalyi Csikszentmihalyi publicou os resultados de sua pesquisa em Flow: The Psychology of Optimal Experience, onde deu atenção detalhada exatamente aos grandes esportistas, embora tal estado, como foi dito, abarque todas as capacidades humanas. De certa forma, alcançar o fluxo em uma atividade física é o mesmo que alcançar um estado de consciência alterada, de grande paz interior, em atividades contemplativas e espirituais, como a oração fervorosa ou a meditação profunda.
Eu poderia estender os exemplos para outros grandes esportistas, como Pete Sampras ou Ayrton Senna. Poderia também falar dos grandes músicos a improvisar em seus instrumentos, de pintores e poetas, budistas e dervixes, mas por enquanto me bastará permanecer no jogo de basquete...
Muitos talvez não saibam, mas eu amo basquete. Jogo desde mais ou menos quando aquela final de 1992 passou na TV (embora não seja torcedor do Bulls, e sim de um de seus grandes rivais, o New York Knicks), e mesmo hoje em dia jogo com amigos todo sábado à tarde, num parque perto de casa... Uma das características que sempre me atraiu no basquete é o fato de poder praticá-lo só: apenas eu, a bola e a cesta. Claro, o jogo em si é coletivo, assim como a vida. Mas, assim como na vida, muitas das coisas que fazemos em meio a multidão são o reflexo daquilo que pensamos conosco mesmo, nos momentos de solidão... Eu, a bola e a cesta: jogar basquete também pode ser uma experiência profundamente espiritual.
A maioria dos craques de basquete ainda erra mais do que acerta
Aquilo que Jordan e outros craques conseguiram experienciar em meio a ginásios lotados talvez possa também ser alcançado na solidão de um treinamento de arremessos. Não para que seja filmado ou aplaudido, mas apenas para ser experienciado mesmo... Que bela metáfora para a vida, o ato de se arremessar a bola a cesta: treinamos incontáveis vezes para que o mecanismo do arremesso seja o mais correto possível, para que cada arremesso tenha a maior chance de acerto possível – no entanto, mesmo entre os maiores jogadores da NBA, um índice de acerto de 50% nos arremessos de quadra já é considerado excepcional. grande maioria dos craques de basquete do mundo ainda erra mais do que acerta, a despeito de treinarem o arremesso por décadas a fio.
Tudo bem, no jogo não estamos mais sós, e o papel do adversário é exatamente impedir nosso arremesso, dificultando que tenhamos uma boa visão para a cesta, e alguns centésimos de segundo para arremessar... Mas assim é também com a vida: não existe almoço grátis, e estamos aqui, desde tempos imemoriais, lutando a guerra da fome e da morte, competindo pela sobrevivência. Viver não é fácil, e ninguém disse que seria: tudo que podemos fazer é continuar arremessando a bola da melhor forma que pudermos arremessar. Se muitas vezes erramos o alvo, há que se comemorar as tantas outras em que o acertamos...
Mas, não importa se somos um Michael Jordan ou um adolescente magrelo e baixo sonhando com enterrar a bola na cesta: a maioria dos arremessos da vida se faz a uma certa distância, e para todos há essa angustiante chance de errar... Mesmo Jordan, após ter acertado 6 em 8 arremessos da linha de 3 pontos no início da final de 1992, no restante do jogo errou todos os 3 outros arremessos que tentou. Há sempre a chance de errarmos, e de continuarmos errando. Porém, assim como Jordan no início do jogo, todos temos alguma chance de entrarmos no fluxo, de estarmos in the zone, e de arremessarmos a bola sem medo, sem angústia, sem sequer o desejo de acertar. Quando estamos nesse estado, estamos apenas aqui, vivos, e na verdade não importa muito se a bola irá ou não entrar na cesta: a vida é o que ocorre enquanto a bola está no ar.
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A performance de Jordan no jogo citado no artigo (1992)

Crédito da imagem: Neal Preston/Corbis

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