quarta-feira, 11 de abril de 2012

Não há desculpas


Não há desculpas Postado em Entrevistas por União Budista Portuguesa


Ven. Jetsunma Tenzin Palmo no 1o. Concílio Drukpa Anual
Jetsunma Tenzin Palmo, de nascimento Diane Perry, veio ao mundo durante o Blitz, em 1943, filha de uma mulher de limpezas e de um vendedor de peixe de East End. Em 1961 decidiu que era budista e, com dezoito anos, viajou por mar até à Índia à procura de um mestre. Ao fazer vinte e um encontrou o seu guru de raiz, o oitavo Khamtrul Rinpoche. Três semanas depois tornou-se a segunda mulher ocidental a ser ordenada monja no budismo tibetano. Aos trinta e três, Tenzin Palmo retirou-se para uma gruta no vale Lahaul, nos Himalaias, e aí viveu durante doze anos. Desde então, tem dado ensinamentos em todo o mundo, num esforço de consciencialização e de angariação de fundos para o Mosteiro feminino de Dongyu Gatsal Ling, em Himachel Pradesh, India, que fundou em 2000.

Lucy Powell entrevistou esta monja de sessenta e seis anos na sua passagem por Londres, na sua última viagem de ensinamentos, antes de se retirar para a Índia.


- O seu exemplo é ao mesmo tempo inspirador — uma ocidental, e uma mulher, a fazer um retiro solitário durante tantos anos — e desanimador: a não ser que nos possamos sentar numa gruta nos Himalaias, não faremos um progresso real no caminho.


É certo que temos de praticar. Isso é verdade. É até impressionante o número de desculpas que podemos inventar para não nos sentarmos. Esta ideia que temos que quando as coisas forem perfeitas, aí começaremos a praticar — as coisas nunca serão perfeitas. Isto é o samsara!

Lembro-me de uma vez em que estava na gruta toda deprimida porque a neve ia derreter na primavera e a água ia infiltrar-se pela parede de trás, tornando tudo molhado. Até que finalmente pensei: “Mas, não foi o que o Buda disse? que era assim? o que é a primeira nobre verdade, afinal? De que é que estamos à espera? Por que tanto estrilho quando sofremos?” Depois disso, não tive mais complicações. Chama a uma coisa um obstáculo, é um obstáculo, chama-lhe oportunidade, é uma oportunidade. Nada é estranho à vida espiritual. Compreender isto é muito importante.


- Então, porquê o retiro?

Um retiro, é, de uma certa forma, uma reparação rápida. Lembro-me muitas vezes das freiras da ordem da Mãe Teresa: não estão a pegar nos mortos e a morrer o dia inteiro —metade do dia é passado a rezar. Se damos sem parar, sem respirar, ficamos stressados e queimamo-nos.


- Doze anos é uma reparação muito longa.

Cada um de nós tem algo a fazer nesta vida; temos de descobrir o que é e fazê-lo. Nasci para o retiro. Era extremamente feliz na gruta e estava muito grata por ali estar. Era uma oportunidade rara.


- Teve períodos de dúvida ou medo?

Falar sobre o tempo que passei na gruta é muito aborrecido; foi há séculos atrás. Mas não, nada me amedrontava ou preocupava. Centenas de milhares de eremitas ao longo dos séculos fizeram exatamente a mesma coisa , e noventa e nove porcento deles estavam ótimos. Estamos muito ocupados com as práticas — não passamos o dia a brincar com os polegares — e fica-se num estado mental em que se aceita que o que está a acontecer, está a acontecer. Mesmo que surjam as piores coisas, se estiveres centrado, ficas bem. Se não, a coisa mais trivial pode abalar-te. Não tem nada a ver com a experiência ou a circustância: a atitude é que é importante. Temos de parar de nos agarrarmos ao caminho condicionado e aprender a abrir-nos ao caminho não-condicionado.


- Como se desenvolve essa atitude de abertura?

Essa é que é a questão. Os nossos problemas fundamentais são a ignorância e o agarrar do ego. Agarramo-nos à nossa identidade, enquanto uma personalidade, memórias, opiniões, julgamentos, esperanças, medos, conversa fiada —tudo gira à volta deste eu, eu, eu eu. E acreditamos que esse eu é realmente uma entidade sólida e imutável que nos separa de todas as outras entidades lá fora. Isto cria a ideia de um eu permanente e imutável no centro do nosso ser, que temos de satisfazer e proteger. Isto é uma ilusão. “Quem sou eu?” esta é a questão central do Budismo. Está a ver?

Geralmente o que fazemos é tentar proteger este falso eu, o meu, o mim. Pensamos que o ego é o nosso melhor amigo. Não é. Não se interessa se estamos felizes ou infelizes. Na verdade, o ego fica muito feliz por estar infeliz. E temos de estar conscientes para não usar o caminho espiritual como outro canal para o ego — um maior, melhor, mais espiritual eu.

Há práticas que podemos usar contra esta adulação do ego. Na companhia de pessoas muito doentes que estão a sofrer, podemos visualizar-nos a tomar a sua dor e sofrimento, sob a forma de uma luz ou fumo escuros, retirando a doença e karma negativos, e dirigindo-os para a pequena pérola negra do nosso egocentrismo. E começará a desaparecer, porque, realmente, a última coisa que o ego quer, são os problemas dos outros.

Se nós próprios sentimos dor e sofrimento, podemos usá-lo. Estamos condicionados a resistir à dor. Pensamos nela como um bloco sólido que temos de empurrar, mas não é. É como uma melodia, e por detrás da cacofonia há um espaço imenso.


- O que fazer quando os pensamentos surgem na meditação?

Os pensamentos não são o problema. Os pensamentos são a natureza da mente. O problema é identificarmo-nos com eles.


- Como aprender a des-identificarmo-nos deles?

Prática.


- E quanto a emoções como a cólera?

O Buda disse que é a cobiça e não a cólera, que nos mantém na roda. Ninguém nos acorrenta: agarramo-nos com as nossas próprias mãos. Muitas pessoas vêm ter comigo dizendo que querem erradicar a cólera; é fácil de ver que a cólera nos faz sofrer. Mas muito raramente as pessoas me perguntam como se livrarem do desejo.

Precisamos de cultivar contentamento com o que temos. Nós não precisamos de muito. Quando sabemos isso, a mente aquieta-se. Cultivemos a generosidade. Tiremos prazer de dar. Aprendamos a viver de uma maneira mais leve. Desta forma podemos começar a transformar o que é negativo em positivo. É assim que começamos a crescer.


- Pode explicar a diferença entre amor e apego?

O apego é exatamente o oposto do amor. O amor diz: quero que sejas feliz. O apego diz: quero que me faças feliz.


- Deteta uma consciência espiritual emergente, no Ocidente?

O que eu vejo é que a sociedade atual se baseia no que o Buda chamou os três venenos —cobiça e aversão, resultando de um forte sentido de eu. É o que a nossa sociedade encoraja, acreditando que quando mais ambiciosos e assertivos somos, mais felizes seremos. Portanto o caminho para o sofrimento é-nos ensinado como o caminho para a felicidade. Naturalmente, as pessoas andam muito confusas.

Contudo, acho que as pessoas no Ocidente têm uma vantagem. Ao ter prosperidade material, já experimentaram tudo o que a nossa sociedade nos diz que nos trará a felicidade. Se tiverem alguma compreensão, verão que não é verdade. No máximo, pode trazer prazer, de curta duração. A felicidade genuina reside noutro lado. Se nunca tiveste essas coisas, podes imaginar que te podem dar a satisfação que os seus promotores afirmam. Mas como o Buda disse, o desejo é como água salgada, quando mais bebes, mais sede tens.


- Então por que é que continuamos a beber?

A cruz da matéria é a preguiça. Mesmo quando sabemos o que deveríamos fazer, escolhemos o que parece o caminho mais fácil. Somos deuses a agir como macacos. Erguemos-nos na nossa própria luz: não vemos quem realmente somos.


- Mas como sair da nossa luz, dar um passo em direção ao caminho não-condicionado e realizar o nosso potencial ilimitado?

A nossa mente é um tesouro. Mas é muito aborvente, portanto temos de usar de descriminação em relação ao que ouvimos, lemos e vemos. E na vida espiritual, a nossa defesa é a ética. Se soubermos que vivemos eticamente, dando o nosso melhor, a nossa mente torna-se mais tranquila. Atraíremos o mesmo tipo de pessoas. Se a nossa mente está perturbada, atraíremos perturbação para as nossas vidas. Portanto, temos de purificar o nosso estado mental, pois tudo o que está no interior se projeta no exterior. Atraimos pessoas pela nossa prática e pelo nosso karma. Temos de estar preparados, quando alguém de um grau mais elevado está diante de nós, para nos encontrarmos. Fazêmo-lo ao ligarmo-nos à nossa fonte.

Mas se o Buda aqui estivesse, tudo o que faria, era encorajar-nos a praticar. Ninguém pode fazer o trabalho por nós —cabe a nós fazê-lo ou não. Nadar contra a corrente em direção à fonte exige esforço e determinação. Lamento, não há uma reparação rápida. Mas no final é a única coisa que vale a pena. A chave é a prática. Mas não a ponhas no altar: pega na chave, abre a porta, e sai da prisão. Não há obstáculos.


Foto © Sarah Lee



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