segunda-feira, 14 de maio de 2012

13 de Maio

Quando as pessoas passam por aqui e veem a fotinho de um careca, branco, de olhinho puxado, vestido de japonês e com nome de muçulmano não imaginam que lá nas charqueadas de Cruz Alta, no chão da senzala dormia minha tataravó antes de ser alforriada.

Vivemos um Brasil de contrastes. Sou o único branco de minha família (graças aos genes de minha avó alemã... sou 25% branco... só que os 25% se manifestaram do lado de fora. Um negrão meio descolorido) os demais são negros e mulatos bem tintos.

Culturalmente somos negros. Minha mãe e sua irmã (minha dinda) nasceram, em ponto histórico de Porto Alegre: a rua Baronesa do Gravataí, reduto da comunidade negra, ja que ali já se havia instalado a bisavó Amélia Pilar.

Falo tudo isto pois quero introduzir um assunto daqui: Cangoma a chamar, Mas também lembrar que aqui em Porto Alegre, pelo menos entre os da minha família, não se festeja o 13 de maio. É uma data  "branca". Imposta.
Para nós o 20 de novembro é que é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira.
A data (presumida) da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, o Dia da Consciência Negra.

Uma data para se lembrar a resistência do negro à escravidão, e de forma geral, a resistência contra toda forma de escravidão.

Algumas entidades como o Movimento Negro organizam palestras e eventos educativos, visando principalmente crianças negras. Procura-se evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade.

Outros temas debatidos pela comunidade negra e que ganham evidência neste dia são: inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, se há discriminação por parte da polícia, identificação de etnias, moda ,beleza e auto-estima negra, etc.

O dia é celebrado desde a década de 1960, embora só tenha ampliado seus eventos nos últimos anos.

Segue o post:
(atenção: este é um artigo musical, tenha ouvidos atentos) 
Shhh... Escute, você ouve este som etéreo, distante? Perecem, parecem tambores... Tambores, e um lamento estranhamente alegre... 
O último dia 13 de maio de 2012 foi um dia muito especial. Não pelo dia em si, mas pelo que simbolizou: a união da comemoração do fim legal da escravidão no Brasil, e a celebração do dia das mães. Além de terem caído num mesmo dia, este dia foi um domingo, pois no Brasil se comemora o dia das mães sempre no segundo domingo de maio. Ora, em muitas casas de umbanda, ou casas espíritas e espiritualistas que são simpáticas a umbanda, se realiza uma festa no domingo mais próximo do dia que simboliza a libertação dos escravos no país – ou seja, além de neste ano a festa poder ter sido realizada no próprio domingo em si, ainda foi dia das mães. 
Para compreender a importância disso, é preciso retornar alguns séculos no tempo e visualizar a barbárie que os povos europeus, ditos civilizados, realizaram na África. A escravidão não significava apenas o roubo dos adultos mais saudáveis e promissores de um reino ou grupo étnico africano, mas a separação de mães e filhos, e filhos e mães: a pura devastação daquilo que nos é tão sagrado, a família. Deste modo, podemos supor que não era tanto por saudades de sua terra que os escravos choravam, nem tanto por serem açoitados e tratados como animais selvagens, mas antes por terem deixado pais, mães, esposas e até mesmo filhos, em sua terra natal – para jamais os verem novamente, nem sequer receber cartas. 
Pensemos nisso quando reclamamos de nossa dor de dente, do time de futebol que perdeu a final do campeonato, ou daquele concurso público em que não passamos, e deixamos de ganhar alguns milhares de reais a menos do que já ganhamos... Os que vieram da África, esses sim tiveram razão do que reclamar. 
Mas, como foi... Como foi então que os negros puderam enxugar suas lágrimas, e amenizar sua dor? Como poderia ter sido, que não através do espírito? Pois eles não poderiam sequer escrever cartas que pudessem atravessar o oceano, mas sabiam que enquanto remavam ao Brasil, tinham a Senhora do Mar abaixo, e oSenhor dos Ventos acima – os orixás ainda estavam com eles, e a espiritualidade foi sua ponte entre o Brasil e a África, ponte esta que jaz firme até hoje.
com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores...
Foi isto mesmo: nós os retiramos de sua terra, os açoitamos e dissemos que nos pertenciam, pois sequer tinham alma... E o com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores... 
A festa que se realiza no 13 de maio é a festa dos pretos velhos. Pense nisso: hoje a ciência sabe que toda a humanidade migrou da África para o restante do globo, a África é a mãe dos homo sapiens, a nossa mãe. Se um genuíno preto velho é um desses espíritos antigos, é bem capaz de fazer parte do grupo espiritual mais antigo da Terra – a despeito dos outros que migraram de outras casas. Kardec nos alertou que “os espíritos falam apenas do que sabem”, e ele tinha razão; Porém, alguns dos pretos velhos que aparecem para papear em tais festas podem saber muito, muito mesmo, pois são tão antigos quanto os primeiros xamãs, e tão sábios quanto os primeiros filósofos. 
E há ainda aqueles espíritos que, cansados de toda a formalidade e prepotência que se encontra em outras doutrinas ditas civilizadas, resolvem aparecer como pretos velhos, de barba branca e encaracolada, olhos profundos como o mar, voz adocicada como a primavera, e arqueados pelos séculos em suas bengalas imaginárias. Sabe-se que o grande Bezerra de Meneses volta e meia aparece como um destes pretos velhos, quem sabe quantos sábios de outrora não preferem se utilizar deste mesmo símbolo, e permanecerem anônimos nas danças de tambor? 
Lai ê, lai ê, lai á, disse levanta povo... Ouvem alguma coisa agora? Acho que está vindo lá do fundo... 
Vissungos são os cantos dos escravos utilizados nas lavras de diamante e ouro, ao redor da região de Diamantina, em Minas Gerais. Alguns de seus cantos atestam como o fim da escravidão no Brasil foi muito mais legal do que real, e como foi ser liberto em uma terra que não era a sua, que não era a Mãe África. Embora alguns dos legisladores brasileiros, e alguns dos artistas e pensadores da época, fossem genuinamente simpáticos aos ex-escravos, a maioria não era, e todos sabemos quantas gerações foram necessárias para que eles fossem aceitos como cidadãos, como seres que têm alma e, portanto, direitos.
como demônios poderiam compor canções tão belas?
Mas a alma de alguns deles era imensa, tão imensa que jamais foi embora, e sorrateiramente infiltrou-se em nossa cultura, nossa religião, nosso pensamento... Já disseram que os orixás eram demônios, mas como demônios poderiam compor canções tão belas quanto os cantos dos escravos de Minas, da Bahia, do Rio, do Maranhão? 
Clementina de Jesus foi uma grande cantora tardia que, do alto de seus 60 e poucos anos, ainda assim teve o tempo e a vitalidade para nos deixar alguns clássicos da música popular brasileira. Clementina, como neta de uma escrava, cantava com propriedade. 
Foi sua voz quem nos resgatou um dos mais belos vissungos de Minas, e que, por ser tão belo e profundo, nos serve como um verdadeiro mantra para a libertação... A libertação dos preconceitos, a libertação da ignorância, a libertação do ego, para que um dia, como os pretos velhos, possamos apenas dançar ao som do tambor, da cangoma [1], e nos esquecer, por um breve momento, de toda a dor do mundo... 
Tava durumindo
Cangoma me chamou
Disse: levanta povo,
Cativeiro já acabou!
Agora sim, todos estamos a ouvir... Vamos então cantar, e fazer desse canto um hino de liberdade... Até que todo cativeiro fique para trás, e a nossa frente, apenas a Mãe África, e milhares de pretos velhos a nos saudar. 
Áudio de Cangoma me chamou – Mawaca (em 2:00 ouve-se a voz de Clementina, uma gravação inserida na música). 
» Veja também Mawaca cantando ao vivo este mantra (o áudio não está lá muito bom).
» Ouça Clementina de Jesus no original (esta versão é obviamente muito mais próxima do que se ouvia em Minas). 
*** 
Sentido e escrito por raph, branco de pele, africano de dna, iluminado na alma por alguma luz que não sabe dizer a cor... 
[1] Há um tambor grande chamado de cangoma ou angoma. Esse tambor avisa, no registro da canção, o fim da escravidão, como os sinos das igrejas que tocavam avisando e marcando os momentos importantes da vida da comunidade. 
Crédito das imagens: Google Image Search




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