terça-feira, 7 de junho de 2011

Madrugada gelada para quem espera na fila do Sus


ROBERTA SCHULER | roberta.schuler@diariogaucho.com.br

Madrugar na fila diante de uma unidade de saúde para garantir uma ficha para atendimento é uma experiência quase corriqueira aos pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde. Ter de enfrentar o medo da violência e arriscar-se em ruas escuras também faz parte da dolorosa batalha por uma consulta médica.

Mas, trocar as cobertas quentes quando ainda é noite por uma espera ao relento, beira a crueldade, especialmente se o usuário já está debilitado pela doença ou pela morosidade na prestação do serviço.

Ontem, os termômetros marcavam 8ºC quando a reportagem do Diário Gaúcho foi às ruas, por volta das 4h, para conversar com usuários dos postos que têm de submeter-se ao frio para conseguir uma consulta. Para suportar o rigor do clima, só com muita roupa, chimarrão, cadeiras de armar e muita perseverança.

"Não dá para desistir"

O relógio marcava 4h quando o porteiro João Alvoir Martins, 48 anos, chegou em frente à UBS Panorama, na Lomba do Pinheiro.

– Não dá para desistir (por causa do frio). Tomo remédios para dormir e preciso renovar a receita. Se não vier para cá nessa hora, não consigo ficha – disse.

Ao lado dele, numa cadeira de armar, vestido com uma jaqueta, dois blusões de lã, uma camiseta de mangas compridas, gorro, luvas, duas meias e touca, o autônomo Adolfo Tuchtenhagem, 45 anos, esperava pela abertura do posto:

– Tenho pressão alta e preciso mostrar os exames para o médico. Já estão quase vencendo. Só na coragem para ficar aqui. Se tivesse um abrigo, já era alguma coisa – comentou.

Chimarrão para esquentar

– Ainda bem que não está chovendo. Se chovesse, seria bem pior.

A frase de uma usuária da UBS Chácara da Fumaça resume a opinião de muita gente que teve de acostumar-se com a espera durante madrugadas congelantes.

– A gente é obrigado a vir cedo, não tem opção. O bom seria se tivéssemos um posto 24 horas aqui – disse o padeiro Rudimar da Silva Nascimento, 52 anos.

Contando com chimarrão, a telefonista Renata Toledo, 25 anos, amenizou um pouco o clima de freezer com as portas abertas que fez na madrugada de ontem. Por estar com problemas no esôfago, Rudimar não pôde aquecer-se com a bebida.

– Mas estou bem agasalhado – revelou.

Ventinho castigando

Na UBS Rubem Berta, a mesma cena se repetia: gente encarangada, esperando na calçada, e portão da unidade fechado. O aposentado Daniel Oliveira, 45 anos, foi o primeiro a chegar. Acordou ontem às 3h30min.

– Se a gente ficasse ali embaixo (da fachada do posto), era melhor – comentou.

A babá Janda Costa, 51 anos, também chegou cedo à unidade. Bem agasalhada, ela encontrou espaço para acomodar-se num degrau de escada. Para não se sentar direto na pedra, plástico e papel foram a saída. 

Localizado numa parte alta do bairro, o ventinho que soprava ontem estava de castigar.

– Estou trazendo exames. Tu quer ter certeza de que vai conseguir a ficha (disse, sobre a necessidade de amanhecer na fila) – afirmou Janda.

Já com o dia amanhecendo, a reportagem do DG ainda passou pelas UBS Glória e São José, no Bairro Partenon. Novamente, havia gente esperando no frio, na parte externa das unidades.

Solidão e insegurança

A atendente de confeitaria Joseane Gonçalves,
21 anos, chegou às 4h de ontem à UBS 1º de Maio. Como o pátio estava deserto, ela decidiu voltar para casa por conta da insegurança:

– É perigoso ficar aqui sozinha. Fui para casa e resolvi voltar depois.

Com o portão aberto, quem esperava o início do atendimento conseguiu acomodar-se na área externa do posto, que tem cobertura.

– O meu companheiro é o chimarrão. Já tomei toda a térmica para me esquentar – afirmou o servente de pedreiro Rodrigo Nunes, 35 anos.

Esperança é a marcação pela internet

Para o secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Saúde, Marcelo Bósio, o problema das filas só será resolvido com a informatização do sistema.

– É um problema que nos incomoda. Já tentamos todas as alternativas para solucionar o problema, mas as pessoas continuam chegando de madrugada para conseguir a senha. Com a informatização de agendas e cadastros, acaba a necessidade de senhas, a pessoa marca pela internet.

Ele afirma que o processo de informatização deve chegar aos postos de saúde até o final do ano.

Horário foi ampliado

Para reforçar o atendimento, nesta época de dias gelados, a Secretaria reforçou o número de profissionais em três pontos de pronto atendimento: os PAs Cruzeiro do Sul, Bom Jesus e Lomba do Pinheiro.

Em postos de saúde onde o atendimento ocorria até 17h, o período será estendido até as 22h. O terceiro turno será implantado nas UBSs Restinga, Farrapos, Bananeiras, Tristeza e Glória. As UBSs Belém Novo, Rubem Berta, Panorama e Ipanema já funcionam até 22h. No Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, o número de leitos foi ampliado e as equipes, reforçadas.

DIÁRIO GAÚCHO
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