terça-feira, 15 de novembro de 2011

Basta sentir empatia?




Dharma/Arte é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) cujo objetivo é estimular a reflexão sobre os processos criativos e promover o diálogo com criadores, lideranças e educadores brasileiros, e também com tradições para as quais a criatividade é uma faculdade e um direito de todo ser humano, independentemente de sua condição social.

Baseando-se nas diversas formas da arte contemporânea e nos ensinamentos milenares da educação contemplativa, Dharma/Arte propõe o diálogo entre a cultura contemporânea e brasileira e as vanguardas clássicas, explorando também as relações do processo criativo nas artes com outras esferas de ação social.

Dharma/Arte inspira-se nos ensinamentos de dharma/arte como apresentados pelo mestre budista Chögyam Trungpa Rinpoche, mas esses ensinamentos são ponto de partida para investigações que incluem diversas abordagens e ideias. 
Boa leitura:


Basta sentir empatia?


Andrea Solario, Salomé com a cabeça de são João Batista, provavelmente c. 1506-7. Óleo sobre madeira, 57,2 × 47 cm. The Friedsam Collection, doação de Michael Friedsam, 1931. Foto: The Metropolitan Museum of Art

Carlos A. Inada / São Paulo

Recentemente publicamos uma nota (incluindo uma palestra em vídeo) sobre o “mito da violência”, tema de um novo livro de Steven Pinker, The better angels of our nature: why violence has declined [Os melhores anjos de nossa natureza: por que a violência diminuiu]. O livro questiona uma percepção atual, de que vivemos na época mais violenta da história da humanidade, e de que o fracasso da civilização ocidental e de seus códigos morais deve ser responsabilizado por isso. Quantas vezes já ouvimos algum líder de seita comentar o fim da civilização como a conhecemos? De acordo com Pinker, no entanto, muito provavelmente esta é a época mais pacífica da existência de nossa espécie.
David Brooks acrescenta outros ingredientes a essa discussão, em artigo que escreveu para o jornal The New York Times:
Como escreve Steven Pinker em seu novo livro revelador, The better angels of our nature, estamos no meio de uma “mania pela empatia”. Há uma abundância de livros sobre ela [...]. Existe até uma teoria segundo a qual nosso cérebro possui neurônios-espelho que permitem que sintamos o que se passa na cabeça dos outros, e esses neurônios levariam a uma atenção e simpatia pelos outros, e à ação moral.
Há muita verdade nisso. Nosso cérebro possui neurônios-espelho. As pessoas empáticas são mais sensíveis às perspectivas e ao sofrimento dos outros. Estão mais propensas a fazer julgamentos morais compassivos.
O problema surge quando tentamos transformar esse sentimento em ação. A empatia torna-nos mais conscientes do sofrimento das pessoas, mas não é claro o que de fato nos motiva a empreender uma ação moral, e o que evita que nos engajemos em ações imorais.
[...]
Ninguém é contra a empatia. No entanto, ela é insuficiente. Nos dias de hoje, a empatia tornou-se um atalho. Tornou-se uma maneira de experimentar deliciosas emoções morais sem confrontar as fraquezas de nossa natureza que nos impede de agir sobre elas. Tornou-se uma maneira de experimentar a ilusão de progresso moral sem o desagradável trabalho de fazer juízos morais. Em uma cultura desarticulada em suas categorias morais e suscetível a ofensas, ensinar a empatia é uma maneira segura para que escolas e outras instituições pareçam virtuosas sem assumir o risco da controvérsia ou ferir os sentimentos de alguém.
Aqueles que de fato empreendem ações pró-sociais não apenas sentem por aqueles que sofrem, eles se sentem compelidos a agir por um sentido de dever. Sua vida é estruturada por códigos sagrados.
Esta é uma interessante discussão: estaríamos exagerando o papel da empatia? ela é suficiente para motivar a ação? ou está sendo usada para permitir que nos regozijemos em nossas zonas de conforto? estaríamos ignorando alguns dos melhores legados da civilização ocidental?
O que você pensa? Termino com uma citação de Jesse Prinz, pesquisador na City University of New York, mencionado por David Brooks em seu artigo:
Não estou sugerindo que deveríamos ativamente suprimir a empatia. Talvez ela enriqueça a vida daqueles que a experimentam, e talvez ela ajude a promover a proximidade nas relações diádicas da vida pessoal. No domínio moral, no entanto, deveríamos ser cuidadosos com a empatia, devido à sua tendenciosidade, e reconhecer que ela não pode servir ao papel motivacional central de conduzir o comportamento pró-social. Talvez a empatia tenha um lugar na moralidade, mas outras emoções podem ser muito mais importantes: emoções como a culpa e a raiva. Quando confrontados por ofensas morais, não é suficiente sentir comiseração pelas vítimas. Deveríamos nos sentir assoberbados.

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