sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mas afinal: O Budha é um "Deus"?



Republicando um esclarecedor conceito Budista:

Observadores superficiais tentam apontar o paradoxo de que o Buda, que quis libertar a humanidade da dependência de deuses e da crença em um Deus criador arbitrário, acabou ele mesmo endeusado nas formas posteriores de budismo.


Eles não compreendem que o Buda que é cultuado não é a personalidade histórica do homem Sidarta Gautama, mas a corporificação das qualidades divinas, que são latentes em todo ser humano e que se tornaram aparentes em Gautama e em inúmeros Budas antes dele.


Não vamos confundir o termo “divino” — mesmo o Buda dos textos Pāli não evitou classificar a prática das mais altas qualidades espirituais na meditação (como amor, compaixão, alegria empática e equanimidade) como “permanecer em Deus” (brahmavihāra) ou “estado divino”.


Então, não foi o homem Gautama que foi elevado ao status de um deus, mas sim o “divino” que foi reconhecido como uma possibilidade de realização humana. Assim, o divino não perdeu valor, mas ganhou; porque à partir de uma mera abstração, se tornou uma realidade viva; de algo que era apenas acreditado, passou a ser algo que podia ser vivenciado. Então não foi uma queda para um nível inferior, mas uma elevação, uma ascensão de um plano de realidade inferior para outro superior.


Assim, os Budas e Bodisatvas não são meramente personificações de princípios abstratos — como aqueles deuses que são forças da natureza personificadas ou qualidades psíquicas que o homem primitivo só podia entender através de formas semelhantes à humana —, são protótipos daqueles estados mais elevados de conhecimento, sabedoria e harmonia que foram atingidos pela humanidade e sempre serão realizados de novo e de novo.


Independente se esses Budas são concebidos como surgindo sucessivamente de tempos em tempos (como seres históricos, por exemplo, na tradição Pāli) ou como imagens além do tempo, arquétipos da mente humana (que são visualizados em meditação e, portanto, chamados de Dhyāni-Budas) eles não são alegorias de perfeições transcendentais ou de ideais inalcançáveis. São símbolos e experiências visíveis da realização espiritual em forma humana.


Porque para nós a sabedoria só pode se tornar uma realidade se ela for realizada em vida, se ela se tornar parte da existência humana.


Lama Anagarika Govinda (Alemanha, 1898 ~ EUA, 1985) “Foundations of Tibetan Mysticism”, parte 3 | 1
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