segunda-feira, 5 de março de 2012

Aflições inimigas


Shantideva

Raiva, luxúria, essas inimigas,

Não têm membros nem qualidades,

Não têm bravura, nem inteligência.

Como então foram me reduzir

 a tal escravidão?


Elas residem em minha mente

E me machucam à vontade.

Tudo isso eu sofro submisso;

Assim, minha paciência é desprezível,

estando num lugar completamente errado.


(“O Caminho do Bodisatva” 4 | 28-29  ~ Shantideva – Índia, séc. 8)




Podemos nos perguntar: o que nos faz tão estúpidos? A aversão e o desejo são de fato os pais da existência samsárica. Junto com a ignorância e as outras aflições, elas são nossos próprios inimigos internos. Mas esses inimigos não são como soldados com corpos físicos, cabeças e membros, equipados com armaduras e todo tipo de armas, capacetes e insígnias. Eles não são de modo algum corajosos heróis. Pelo contrário, são preguiçosos. Além de tudo, não são nem inteligentes ou habilidosos em nos enganar. Na verdade, são bem estúpidos.

Como é então, pergunta Shantideva, que essas aflições reduziram a nós e todos os demais — professores e patronos, elevados e baixos, fortes e fracos — a esta condição abjeta de escravidão e sofrimento, destituídos de qualquer liberdade? Como é que — ao buscar fama e honra, bem-estar e prazer — nem relaxamos de dia nem dormimos à noite? Somos escravos do nosso desejo, escravos de nossa aversão, a ponto de quem nem evitamos as ações que vão custar nossas vidas. Impotentes, estamos a mercê de nossas emoções, que nos atormentam com todos os sofrimentos da escravidão.

E essas emoções não têm outra morada se não o templo de nossas mentes. É bem aqui que realmente servimos nossas emoções de apego e ódio como se elas fossem nossas convidadas. Nós somos seus escravos e criados. O que quer que elas queiram, nós entusiasticamente realizamos, mesmo se — como retribuição — elas nos prejudiquem ilimitadamente a seu bel prazer nesta e em vidas futuras.

E, ainda assim, suportamos tudo. Nós toleramos essas aflições, nossas inimigas, sem o menor ressentimento. Esse é o tipo de paciência que temos, totalmente abjeta e fora de lugar, um objeto de desprezo dos budas e seus filhos bodisatvas.



Kunzang Pelden * (Tibete, 1872-1943):  “The Nectar of Manjushri’s Speech”, parte 2 | 4

* Khenpo Kunzang Palden, grande estudioso da tradição Nyingma, e um discípulo íntimo e biógrafo de Patrul Rinpoche.

Grato blog Samsara
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