quinta-feira, 15 de março de 2012

Ateus e Materialistas são muito diferentes entre si.


Ateus e Materialistas são muito diferentes - tão diferentes quanto religiões as diferentes religiões entre si.







Numa discussão em aula universitária que eu dava sobre religiosidade e filosofia, uma aluna me indagou, com a mordacidade, sarcasmo, sentimento de superioridade e altivez que costumam acompanhar os fanáticos:

−“Engraçado, tem muito ateu que, na hora de um aperto, chama por Deus.”

Eu respondi:

−“Engraçado, e tem muito crente que, na hora de um infarto, chama o médico”.

Depois do pasmo inicial, resolvi esclarecer, à turma (que, afinal, possuía gente esclarecida) a falácia dessa minha aluna, e a consequente falácia presente, até, na minha resposta.

“Agora vamos ao discernimento?”, perguntei eu. Ao que a turma prontamente se comprometeu a ouvir. (“Discernir é sinônimo de inteligência para Sócrates”, lembrei eu aos alunos, trazendo à discussão o primeiro pensador do Ocidente que se preocupou com a questão que abaixo se esboçará, centenas de anos antes do nascimento de Jesus.).

É fundamental esclarecer a certas almas que “ateus” são totalmente diferentes de “agnósticos”, “céticos”, “materialistas”, que, por sua vez, são diferentes de “gnósticos”, de “espiritualistas”, de “teístas”, de “fideístas”, de “crentes”, de "transcendentalistas", de "imanentistas" etc. Não se pode (ou não se deve, para quem quer a luz e não a penumbra) colocar “tudo num saco só”.

Por isso mesmo, pode haver, sim, combinações dessas posturas filosóficas, que, muitas vezes (não todas), não são sequer excludentes. Einstein, para mim, por exemplo, era um homem espiritualista, gnóstico, porém cético, porque a Razão vinha em primeiro lugar, e imanentista, porque, para ele, a imanência da inteligência superior acompanhava a razão no âmago do homem; não era preciso olhar para fora para achá-la. Já Kardec, outro exemplo, seguiu uma religião (cristã), porém era igualmente cético, porque só aceitava o cristianismo na medida em que ele se esclarecia pela razão, e transcendentalista, pois achava que as verdades cristãs estavam presentes num mundo espiritual fora e além do homem. E os exemplos se proliferariam infinitamente.

Até “religião”, aliás, é muito diferente de “religiosidade”. Há, inclusive, uma religião, oBudismo, que é a religião que tem maior número de seguidores no mundo, que não acredita em Deus nem em Deuses. Mas para os, digamos, simples de inteligência, parcimoniosos das capacidades cognitivas, de interpretação maniqueista-subjetivista, é tudo “uma coisa só”: de preferência o “demo”.

Só uma distinção, porque não quero transformar um blog numa aula profunda de filosofia, apenas superficial (rs), e quero deixar claro que só escrevi este artiguete a pedido de alguns alunos, instigados que foram pelo senso crítico (graças a Deus! rsrs):

1) o “ateu” é aquele que não acredita, prioritariamente, em Deus, ou Deuses, em Deidades, ou Divindades, seja Jeová, Alá, Santa Rita, Xangô, Brahma, Hare Krishna, Zeus, Vênus. Daí que seu “oposto” é o “teísta”, o “fideísta” ou o “crente”, e não necessariamente o “religioso”, o “gnóstico”, o “espiritualista”. Etc. Etc. Etc.

2) O “agnóstico”, por seu turno, é seguidor da filosofia de Kant, e, com ele, afirma que“NÃO se pode comprovar, PELO MERO USO DA RAZÃO (ESTE é o ponto dos agnósticos), que Deus exista, NEM TAMPOUCO que NÃO exista”, donde se conclui que o agnóstico simplesmente não admite, pela racionalidade, a existência de Deus, porquanto não comprovável com aquela faculdade racional, mas tampouco ainexistência de Deus, porquanto tampouco comprovável pela mesma faculdade.

Então, voltando ao caso que deu ensejo a essa busca fundamental de discernimento, quando aquela pessoa fala de “muitos ateus que chamam por Deus” (e, detalhe: "muitos" não são todos; ademais, pergunto onde ela fez essa pesquisa, e o que exatamente ela chama de "muitos" no espaço amostral alpha da questão...?), enfim, "muitos ateus" que chamam por Deus numa situação difícil (e pode, sim, havê-los, sem contradição nenhuma, desde que I) estabeleçamos o que é "muitos"; II) percebamos que o "chamar por Deus" pode constituir um "chamado" instintivo, inconsciente, e o ateísmo é uma postura mental, consciente; e sabemos que pode haver, em certos momentos, sobreposição das estruturas psíquicas do ser humano; III) ateísmo não exclui completamente a presença de Deus, mas sim a sua existência transcendental e IV) o que será que significa "Deus" nesse "chamado"?), essa pessoa que critica "muitos ateus que chamam por Deus" (rimou à moda inversa de Mario Quintana hoho), pessoa porventura bem-intencionada (oh essa minha mania de ser utópico!), não deve saber que ela está colocando “num mesmo saco” uma miríade de posições espirituais/materiais diferentes para cacete!

Esse ateu que chama por Deus no aperto não poderia ser, isso sim, um materialista, um transcendentalista, porque, em tese, seria como imaginar um cristão que, na hora do aperto, clamasse por Hare Krishna ou por Oxalá, ou um Hindu que, na hora do sufoco, orasse à alta clemência de Jeová.

Agora eu pergunto: até isso (a situação desses chamados "sincréticos" descritos acima) é IM-possível?

Não!

Porque julgar um grupo (mesmo “religioso”) pela ação de “muitos” (palavra usada pela nossa amiguinha) é burrice no sentido socrático, porque não discerne. Ela teria que ser, no mínimo, ontológica, e ter julgado todos os indivíduos daquele grupo para afirmarque é uma característica subjacente a eles todos. (Mas, muito antes, como premissa maior, saber o que é um ateu, algo que sequer sabia.)

Parte precisamente desse tipo de falácia a mesma burrice de dizer que os negros (todos) são assim ou assado, os homossexuais (todos) são assim ou assado, as mulheres (todas) são assim ou assado, os teístas (todos) são assim, os (ateus) todos são assado... Etc.

Aqui me parece necessária uma intervenção metalinguística.
É importante que fique claro que as ideologias, sejam quais forem, devem ser respeitadas. Eu não posso desrespeitar a alguém que, no seu íntimo, por razões subjetivas ou de recalque ou seja lá o que for, não goste, por exemplo, das mulheres, dos negros, dos homossexuais, dos estadunidenses, dos judeus, dos nazistas, dos brasileiros... Indo mais profundamente, creio que, no futuro, aprenderemos, até!!! a nos expressar com ideologias distintas sem que isso interfira em nossa capacidade de conviver pacificamente numa sociedade.


Outra utopia? Sim, mas utopia não é o que não se pode alcançar (ao contrário do que muita gente pensa - "pensa"?), e sim o que deve idealmente se procurar para que se atinja a harmonia geral.

Liberdade de expressão sempre! O que é inadmissível é o desrespeito, e a falácia, num pseudo-argumento dentro dessa liberdade de expressão que eu tanto defendo, é, dentre outros, um enorme desrespeito.

Então, esse parêntese dialético: precisamos expor, sem falácias (please!) nossas ideologias, contrastá-las, mas sem que isso signifique, necessariamente, que queremos impô-las a quem há por bem outras ideologias alheias à nossa.

Momento chegará em que a legalidade e a liberdade se encontrarão, reproduzindo palavras de uma entrevista que Élisabeth Roudinesco me deu em Paris. Nesse momento, eu poderei me expressar livremente sem ser punido pela lei, porque, antes de saber que tenho liberdade de expressão, saberei que tenho que respeitar as outras liberdades de expressão. E, pois, a lei não precisará intermediar minha relação com outrem, nesse quesito. Será a união da legalidade e da liberdade.

Há distinção entre meu mundo de ideias, que pode até ser imutável, por "n" fatorial razões, e a tentativa fascista de imposição do meu mundo de ideias. Hoje, infelizmente, ainda se crê que a mera discussão de ideias antitéticas e dialéticas gera, necessariamente, conflito pessoal-social. Digo eu: só o gera em pessoas muito pouco esclarecidas e que não fazem a menor ideia da diferença entre espírito científico-crítico e senso comum-subjetivista.

Chomsky e Piaget nunca se digladiaram em congressos porque o primeiro acredita no inatismo e o segundo no construtivismo. Após discussões figadais, saíam para almoçar juntos... Chomsky me disse, numa entrevista que me deu, que Piaget foi um dos maiores pensadores da atualidade.

Nietzsche mesmo, em seu antieclesialismo, grita: "Bendita a Igreja! O que seria dos livre-pensadores se não fosse a Igreja?"

O ser humano é subjetivo, isso é até tautológico. É como dizer: o sujeito é subjetivo (rs). Mas o subjetiv-ISMO é praticamente uma doutrina teológica que crê que a liberdade de expressão ("express yourself", nas palavras de Nietzche-Madonna) gera inequivocamente conflito, balbúrdia e choque de "interesses" (! ui).

Publiquei um artigo na coluna "Papo sério" da revista G-Magazine, edição de aniversário, chamado "Luz no gueto", que procurava, por aí, responder à ontogênese do preconceito homofóbico. Era um pouco diferente, porque, lá, eu partia de uma distinção (como dito, "onto"-gênese) materialista, empirista, mais do que filosófica, o que faço aqui. Em breve publicarei neste blog o artigo "Luz no gueto", porque ainda acredito na sua eficácia (rs) e sou crente (rs) de que, hoje, ele terá uma repercussão até mais profunda nas consciências e almas (oh!) brasileiras, que, bem ou mal, abriram-se às discussões mais racionais, objetivistas e menos subjetivistas, religiosas; passaram mais do foro íntimo da religião para o status quo coletivo e racional do Estado e do bem-estar necessário à civilização.

Entenderam, agora, de onde nascem, basicamente, os preconceitos? Láááááá da falta de discernimento entre, basicamente, materialismo e espiritualismo. Lááááááá da noite dos tempos. Láááááááá da busca pelo poder de poder dizer o que é o certo e o errado (esta a tese que defendo na G-Magazine aludida.). Lááááááááá na inefável vontade de pertencer ao "grupo vencedor" e tripudiar sobre os grupos cuja posição de gueto evidencia e − mais! - comprova o establishment do "grupo vencedor".

Não discernir é o que cria preconceitos.

E NÃO CONHECER é o que cria NÃO DISCERNIR...


E etc. e tal...

Sobre o autor




Marcelo Moraes Caetano é escritor, professor titular da Laureate International Universities, da Universidade de Freiburg e professor pesquisador do CNPq-UERJ. Membro da APPERJ, da União Brasileira de Escritores (SP), do PEN Club (RJ-Londres), da Académie des Arts-Sciences et Lettres (Paris), editor da revista de cultura ALIÁS, colunista da Revista da Cultura (SP, RS, Brasília,PE, Campinas). Pianista clássico (com primeiros lugares no Brasil e no exterior), membro da Orquestra Sinfônica de Viena, tradutor de inglês, francês, alemão, latim e grego, professor de português, grego e literatura brasileira, portuguesa e africana (bacharel pela UERJ e licenciado pela UNESA, especialista pela UFF, Mestre pela PUC-rio e Doutor por Coimbra). Possui 18 livros publicados: gramático ("Gramática para o vestibular", Editora Elite, "Gramática Reflexiva da Língua Portuguesa" (Editora Ferreira), lexicógrafo ("Instâncias do sentido o dicionário e a gramática - múltiplas interconexões semiológicas" -Editora Academia Brasileira de Filologia), crítico literário ("Literatura Brasileira", Editora Elite, "Caminhos do texto", Editora Ferreira), com diversas premiações nacionais e internacionais. Blogue:http://demarcelomoraescaetano.blogspot.com
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