domingo, 25 de março de 2012

Nada Falta - Experiências Zen-budistas num mosteiro na França


  por Giovanni Dienstmann
          Em julho de 2003, tive a oportunidade de viver cinco semanas em um mosteiro budista da linhagem Soto Zen, na França. O mosteiro chama-se “A Morada Sem Limites” (“La Demeure Sans Limites”) e está sob a direção de Joshin Sensei, herdeira do Darma do mestre Moriyama Roshi. Gostaria de lhes falar um pouco sobre o que vi e aprendi por lá, especialmente sobre o sentimento de que, no fundo,.....
 
 
Nada Falta ~ 
Experiências Zen-budistas num mosteiro na França
                                                                
A vida em um mosteiro é algo muito simples, despojado e, ao mesmo tempo, profundo e pacificador. É uma vida que não só possibilita como também favorece a inteira dedicação à prática formal, sem grandes empecilhos, obstáculos ou distrações – pelo menos não tão gritantes, massacrantes ou extensivos quanto os que encontramos enquanto mergulhados na “roda viva”, no “veloz turbilhão” das grandes cidades. Vivemos a prática desde o momento em que acordamos até a hora de dormir, através de todas as atividades: zazen (meditação silenciosa), trabalho, refeições formais, estudo do Darma, entrevistas pessoas com o mestre – tudo numa atmosfera de profundo silêncio e serenidade.


Durante o tempo em que permaneci lá, senti que tudo era uma oportunidade de estudar a mim mesmo e, simultaneamente, de abandonar a mim mesmo...


Se estamos com a mente atenta, totalmente voltada ao momento presente, podemos aprender muito sobre nós mesmos enquanto varremos o chão da cozinha, por exemplo. Podemos verificar se estamos varrendo com dedicação e consciência ou se estamos apenas repetindo gestos mecanicamente, fazendo de qualquer maneira, só para acabar logo, e com a mente distraída com outras coisas.


 Também podemos ver se estamos sendo compassivos no nosso trabalho ou não, se estamos varrendo harmoniosamente ou se produzimos ruído excessivo (o que significa que nossa mente também anda meio barulhenta!). O efeito era imediato: ao varrer o chão carinhosa e cuidadosamente, estava harmonizando a minha mente; entretanto, quando eu varria de forma negligente, apressada, automática, percebia um efeito negativo sobre a minha mente, tornando-a inconstante, inquieta e grosseira. Assim, varrer não era só varrer, era compreender a si mesmo.


Nas várias pequenas coisas, nos pequenos detalhes repetidamente executados e observados atentamente, eu sentia que, de um modo sutil e tranqüilo, ia me transformando. Essa transformação não era forçada, mas natural e espontânea. Acontecia ainda mais intensamente quando eu me desarmava, quando parava de resistir, quando desistia e simplesmente me entregava ao que estava fazendo. Então, num certo momento, percebi muito bem que a compaixão era muito menos uma motivação de morrer por uma determinada causa, do que uma profunda atenção aplicada, de momento a momento, no sentido de viver essa mesma causa. Foi uma bela sensação de entendimento e alívio interior. Mas, não se engane, a prática que se apresentava a cada momento não era nada fácil. Quando estávamos na mesa, por exemplo, eu podia acabar de me servir e pensar: “Porque eles estão demorando tanto para se servir? Eu quero começar a comer logo, estou morrendo de fome! Vamos logo com isso seus palermas!”. Então, flagrando-me nesta atitude contraproducente, eu podia abrir os olhos para a realidade e alcançar a certa de pão bem a minha frente para a pessoa ao lado, que ainda não havia se servido. E assim era com tudo. Se eu não estivesse presente, aberto e vivo, certamente algo ficava incompleto, perdia o sentido, era esquecido ou mal feito.


No Zen, as verdades mais elevadas do Darma são encontradas dentro da nossa própria vida cotidiana. Não é algo intelectual. Não se trata de alcançar uma profunda compreensão conceitual a respeito do não-eu, mas sim de viver o não-eu. E para isso existe o mosteiro, que nos dá a estrutura para podermos acordar e viver essas verdades mais profundas. O próprio horário que seguimos é uma oportunidade de praticar o não-eu, visto que nem sempre queremos fazer o que temos que fazer...Precisamos aprender a abrir mão das nossas preferências, idéias, e apenas seguir a vida, seguir o fluxo.


Vivendo em comunidade sempre se aprende muito sobre a solidariedade e o altruísmo, pois fazemos tudo em conjunto: acordamos juntos, meditamos juntos, comemos juntos, trabalhamos juntos. O espaço do ego diminui e abre-se para acolher os outros, para acolher a vida. No mosteiro, até o quarto é compartilhado. Não há espaço pessoal: o “meu” território resumia-se a uma cama e uma cadeira, sendo que eu não podia deixar estes objetos com quisesse, pelo contrário, devia seguir as regras da casa e manter tudo arrumado nos locais determinados.


Portanto, não havia espaço privilegiado para o “indivíduo”, mas para o grupo como um todo. Por isso, senti fortemente o significado de Sanga, um grupo harmônico vivendo o Darma. Isso era muito bem ilustrado no momento da recitação dos Sutras, quando as vozes individuais de cada um se dissolvia em uma só voz, a voz da Sanga, a voz o Buda. Para isso, cada um devia “recitar com os ouvidos”, a fim de se harmonizar com as vozes dos outros.


Durante as refeições, ainda que cada um coma um quantidade de comida diferente, numa velocidade diferente, todos devem começar e acabar juntos cada etapa do ritual da refeição. Não basta prestar atenção apenas na nossa comida, é preciso voltar-se para fora de si, em direção aos outros, para haver coordenação, como se fossemos todos uma única pessoa comendo.


Assim, o que fazíamos ali era um constante exercício de atenção, de abertura e compaixão. Um exercício de ser um com todos os seres, pois assim é a realidade.


Na vida de mosteiro, ou durante um longo retiro, não há como escapar das nossas emoções e problemas, não há como escapar de nós mesmos. Se não gosto de uma pessoa, não há como fugir, pois ela estará ali do meu lado, vivendo comigo, vinte e quatro horas por dia (dormindo no mesmo quarto!). Momento após momento serei obrigado a encontrar a pessoa de quem desgosto e, evidentemente, a minha aversão por ela.... Até aprender que a dificuldade reside na minha aversão, não na pessoa em si, ficarei preso, sofrendo. E como é difícil abrir mão dos nossos sentimentos e julgamentos! Como é difícil perceber que eles  são apenas projeções da nossa mente, e não a realidade!


Isso me lembra de um episódio que aconteceu no início da minha estadia.


 Na primeira manhã, no café, havia sopa de arroz (chamada guenmay), chá, pão e geléia. Geléia?!? “Putz!!...”, pensei: “Odeio geléia!!!”. Mas ela estava bem na minha frente. O Buda ensinava que deveríamos sempre aceitar toda a comida ofertada, gostando ou não,  com um espírito de equanimidade. Ou seja, eu não podia recusar, apesar de detestar absolutamente... “Vamos lá rapaz! Coragem! Poderia ser muito pior...”, pensei tentando me encorajar. Mas, bem no meu íntimo, sabia que, para mim, nada era pior que geléia. Servir-me de apenas duas pequenas colheradinhas (afinal, também não sou nenhum masoquista, ou asceta fanático! Tudo tem limite! Aquele era o meu...). Era horrível, mas, fechei bem os olhos e pus a geléia na boca, de uma vez só. “Eca! Aarrgueee!!”. Horrível. Mas, fiz o que devia fazer. Engoli tudo em seco.


Contudo, para a minha sorte e felicidade extrema, aquilo se repetiu dia após dia. A cada manhã eu dizia a mim mesmo: “Hoje não haverá geléia, eles não vão repetir isto sempre...” Podia faltar pão, chá, ou qualquer coisa, mas geléia jamais faltou. Devia haver um estoque impressionante de geléia naquele mosteiro. Uma noite acordei assustado, tive um pesadelo. Sonhei que jorrava geléia do chão feito petróleo e eu me afogava nela... Passei por poucas e boas, mas não havia remédio, era sempre a mesma coisa. Como marinheiro de primeira viagem, tive de aceitar o enjôo, não havia saída. Percebi como pequenas coisas são capazes de se enraizar na gente, e o quanto precisamos estar atentos para não nos deixarmos levar por elas. Então, um milagre aconteceu. Um certa manhã, quando menos esperava, eu coloquei novamente a geléia na boca e vi: “Opa! Não é possível.... É gostoso!”. A geléia era exatamente a mesma, mas, de repente, a minha aversão havia desaparecido. Para onde ela foi? De onde ela vinha?
Tudo era bem assim. O zazen tinha sempre o sentido de “sentar-se frente a si mesmo”. Tudo o que estava escondido, aparecia. Eu via a parte de mim que menos queria ver: os desejos, a arrogância, o orgulho, os apegos, as aversões, etc. Tudo isso surgia no zazen.


O zazen é um espelho, um reflexo da nossa vida. As ilusões do dia-a-dia também surgem no zazen (tenho a impressão que surgem ainda mais freqüentemente). A diferença é que, quando eu estava sentado de frente para a parede e ilusões invadiam a minha mente, eu não era tão facilmente levado, absorvido por elas. Paulatinamente, eu ganhava uma certa liberdade, um certo grau de distanciamento que me permitia percebê-las mais claramente. Eu podia vê-las e entendê-las melhor, assim como às condições que lhes deram causa. Entendia porque eu havia feito tal e tal coisa, ou porque havia dito aquilo de tal e tal maneira.


Eventualmente, quando a mente ficava mais calma e aberta, eu conseguia ver como as emoções e pensamentos são vazios e sem origem. A geléia e o zazen haviam me dado um grande ensinamento!
Só que o zazen não se limitava à sala de meditação: nós tínhamos que levá-lo para fora da sala de meditação (ou zendô), ou seja, para dentro das nossas atividades diárias. E isso se traduzia no esforço de manter-se vivo, presente e aberto a cada momento. Era o esforço de praticar o “samadhi”, de concentrar-se e absorver-se profundamente no que se está fazendo, abandonando todas as outras coisas. O resultado disso era um contato maior com a realidade da unidade de todas as coisas.


Após estar praticando por algumas semanas, eu comecei a ter um sentimento estranho: o sentimento de existir com o mosteiro, com o zazen, com o samu, com tudo. Não há palavras para explicar tal sensação... Era realmente um sentimento de “não-separação”. Quando eu trabalhava na cozinha, a cozinha era o meu corpo; quando tirava pó, tirar o pó era a minha vida. Lavando a louça concentradamente, a louça e eu éramos um.


Não existia algo que fosse mais (ou menos) importante do que o resto. Tudo era para ser encarado da mesma forma: fazer zazen não é mais importante do que escovar os dentes. Como se diz no Zen: “A iluminação é o conhecimento da igualdade de todas as coisas.” Saber isso intelectualmente é uma coisa, mas praticar isso profundamente, é bem diferente... Muitas vezes eu estava fazendo uma coisa e pensando noutra, como se esta fosse mais importante que aquela. A verdade é que a prática consiste em se concentrar de todo o coração naquilo que estamos fazendo, quer seja regar as plantas, meditar ou comer. Mente e corpo agindo juntos.


Olhando para trás, vi como fiquei longe desse ideal. Era algo que eu vivia me relembrando constantemente (como ainda faço hoje!). Mesmo assim, momento após momento, eu não conseguia. 

Aliás, posso dizer que as minhas cinco semanas vivendo em um mosteiro foram feitas de erros sucessivos. Mas o caminho é assim mesmo, não é? Mestre Dogen nos dá um grande alívio quando diz: “Acertar o alvo é o resultado de tê-lo errado mil vezes.”


Minha experiência no mosteiro requeria toda a energia que eu tivesse para dar. Os dias se desenrolavam ao compasso de uma marcada disciplina. Ela parecia nos privar de algo supostamente precioso, mas gerava paz e clareza. A lembrança que eu tenho do mosteiro é o estar sempre em atividade. Fazíamos uma coisa após a outra, só isso. O ponto chave era apenas fazer. Abandonar e fazer. Seguir a disciplina, seguir o horário, seguir a vida. Seguir tão inteiramente que não sobrava espaço para o “eu” ou “si mesmo”. E simplesmente “seguir” não é nada fácil, pois sempre temos as nossas próprias idéias sobre o que, como e quando tudo deve ser feito.


Jokei, a monja discípula da mestra Joshin Sensei, sempre me dizia: “Como você gosta de discutir! Se eu lhe digo para fazer uma coisa, você sempre discute. É preciso apenas seguir.” Eu ficava surpreso. 

Retruquei-lhe (de novo, sempre discutindo): “Mas às vezes eu estou certo, tenho razão!” E ela me respondia: “Não importa se você está certo ou não. Não se trata de saber se você está certo ou não, se tem ou não razão. Trata-se de libertar-se do seu ego, deste monte de idéias que aprisionam você, e tornar-se livre para apenas seguir...”Realmente, refleti sobre como discutir fortalece o egoísmo (pois ao discutir estamos alimentando e defendendo as nossas idéias e pontos de vista), enquanto que, quando aprendemos a abrir mão das nossas idéias para apenas seguir, ganhamos uma grande leveza e fluidez. “Seu coração deve ser como a água corrente”, dizia a mestra. Só que, por algum motivo, gostamos tanto de guardar uma série de inutilidades em nossa mente...


Um outro aspecto que me marcou muito foi a cozinha Zen. Cozinhar é muito importante, pois é uma prática na qual o tenzo (cozinheiro) deve se entregar totalmente para preparar uma boa comida aos demais praticantes. É a prática da compaixão nua e crua. Um trabalho de horas que irá se extinguir-se em apenas alguns minutos.... a impermanência!


O tenzo prepara a comida que permitirá aos outros prosseguirem no caminho do Buda. No final das contas, o tenzo cozinha para o Buda, o Darma e a Sanga. Isso é maravilhoso! Logo na primeira vez em que eu estava cozinhando, a Jokei disse: “Pense que você cozinha para o Buda”. Praticando essa compreensão, vim a experimentar uma alegria que nunca tinha sentido antes. Descobri que a compaixão é realmente a verdadeira base da felicidade humana. Seguir nossos vãos desejos só nos traz sofrimento.
Para finalizar, gostaria de relatar uma última experiência. Geralmente, à noite nós começávamos a meditar às 19h e acabávamos um pouco antes das 21h. Entretanto, na última noite que passei no mosteiro, resolvi fazer uma meditação mais longa, permanecendo até a meia-noite. Avisei aos outros praticantes que ficaria mais tempo e que, quem quisesse, poderia ficar também.


Foi uma experiência extraordinária, indescritível.


Meu corpo e minha mente estavam cansados, e eu estava com fome e com vontade de ir ao banheiro... mas estava determinado a continuar até o fim, não importando o que acontecesse. Sendo assim, eu tinha uma escolha: ou me apegava à minha sensação de desconforto, assim ampliando meu sofrimento; ou eu abandonava as minhas sensações, idéias e o meu desejo por conforto, e apenas permanecia sentado em zazen. E foi este o caminho que tomei. Então, o insight que permaneceu forte em mim após essa experiência foi que, a melhor coisa que podemos fazer, como seres humanos, é abrir mão das nossas idéias e emoções. É difícil, pois nós nos identificamos com elas e pensamos que perdemos algo ao abandoná-las. Mas, na verdade, ganhamos uma grande e profunda liberdade. É viver com a atitude de que: “tudo vem, tudo fica, tudo vai”.


Como é impossível descrever o que senti, prefiro transcrever o poema que veio me visitar naquela noite de meditação:

“Zazen, kinhin, zazen, kinhin, zazen...
interminável, sem começo ou fim
nem fácil, nem difícil
nada a ver com bom ou mal,
agradável ou desagradável,
Apenas sentar, só sentar...
No meio da noite,
água corre na fonte,
luz e sombra de lamparina
Tudo apenas continuando,
como sempre, só isso”


O tempo passou assim, vivendo o dia-a-dia sob a luz do Darma, permitindo que eleacontecesse através de nós. Apenas a experiência da vida como ela é, paradoxal, inexplicável. Nada de enfeites, fugas, brinquedos. Só permanece o essencial, aquilo que não podemos tirar. Nesse estilo de vida, o apego ao ego só atrapalha. A experiência num retiro intenso nos faz ver isso.


Estar lá foi como um piscar de olhos que durou séculos. Na verdade, nem sei se posso dizer se lá houve algo como “tempo”.... Entretanto, aprendi que vale o esforço para viver o zazen de momento a momento, e que temos que receber com abertura de coração tudo o que a vida nos traz – independente dos nossos julgamentos e preferências – para podermos viver a vida em sua totalidade. De fato, tudo é a nossa vida, tudo é a nossa prática. Não podemos ficar “dormindo no ponto”. A verdade já está aqui, e não em algum outro lugar especial e sagrado.Nada nos falta. Já somos a realidade última, a unidade de todas as coisas. Então, não se trata de alcançá-la, mas sim de praticá-la, de vivê-la.


Tive um pequeno vislumbre de tudo isso enquanto permaneci na “Morada sem Limites”. Por isso, cresce a minha gratidão e reconhecimento a todos os Budas e Patricarcas pois, não fossem os seus esforços em transmitir o Darma até os nossos tempos, eu jamais poderia praticá-lo hoje.


Por último, gostaria de repassar algumas pérolas que encontrei lá:


“Perdi esta pequena coisa chamada ‘eu’ e me tornei o universo imenso.” 
– Muso Soseki


“Zazen: o pensamento não pode concebê-lo, a vontado não pode fazê-lo, as palavras não podem explicá-lo.” 
– Joshin Sensei

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