segunda-feira, 19 de março de 2012

O Comprometimento no Zen


COMO AS ESCRITURAS COMPLETAS FORAM PRIMEIRAMENTE PUBLICADAS E OS  VOTOS DOS BODHISATVAS

Fonte da primeira parte: http://global.sotozen-net.or.jp/por/library/stories/index.html


Há muito tempo, a viagem entre Kyoto e Osaka era de barco pelo rio Yodo. Num dia três jovens monges embarcaram juntos por acaso. Eles eram Kokei do templo Todaiji em Nara, Manzan da Escola Soto, e Tetsugen da Escola Obaku. 
A afinidade cármica que os levou a viajar no mesmo barco não era superficial; e eles relataram um ao outro os votos que haviam feito. 
 Kokei do templo Todaiji:
- Durante as guerras o Salão do Grande Buda foi queimado, eu não posso suportar ver o Grance Buda de Nara exposto à chuva. De alguma forma, durante a minha vida, eu quero reconstruir o Grande Salão. 
Manzan da Escola Soto: 
- A Escola Soto Zen reverencia a transmissão da lâmpada, e todos põem ênfase na linhagem do Dharma, mas hoje as linhas de transmissão estão tão desorganizadas que ninguém sabe quantas gerações distantes estão de Dogen Zenji, e ninguém sabe nem pé nem cabeça desta importante genealogia. Eu quero retificar isto e fazer compreensível para todos de que linhagem eles derivam e quantas gerações distantes de Dogen Zenji eles estão.

Tetsugen da Escola Obaku: 
- Mais de mil anos se passaram desde que o budismo foi introduzido no Japão, mas uma coleção completa dos Tripitakas ainda tem que ser publicada aqui no Japão. Agora nós dependemos de livros de sutra impressos em Sung China, Ming China e na Coréia. Se nós não usarmos estes livros, nós estamos na posição de termos de copiá-los um por um, e por isso, eu quero imprimir a coleção inteira.

Estes foram os tipos de gente que deixaram sua marca na história, e cada um deles viveu desde sua juventude debaixo de um extraordinário grande voto. Ademais, o fato de viverem todos na mesma época, e embarcarem no mesmo barco é sem precedentes.
Após aquele encontro do acaso, vinte anos se passaram. Kokei viajou pelo país arrecadando doações, e finalmente em 1709 o Grande Buda de Nara, agora conhecido como a maior estrutura de madeira no mundo, foi solenemente construída.


Manzan também havia estado ocupado, e finalmente em 1699 conseguiu favorável atitude do xogunato e cumpriu suas palavras corrigindo a confusão na linha de sucessão da Escola Soto. 

Tetsugen esplendidamente levou a cabo sua promessa de publicar as escrituras completas em 1678.

Visto que a impressão das escrituras prometidas por Tetsugen requeria esculpir dezenas de milhares de placas de bloco de madeira, um grande gasto de dinheiro ocorreria, e Tetsugen respondeu a este desafio com uma devoção sobrehumana.

Quando ele havia coletado fundos suficientes para a publicação, uma grande fome ocorreu e as vítimas da fome estavam perambulando pelas estradas, algumas até morrendo de fome. Vendo isto, Tetsugen deu todos os fundos que havia coletado com dificuldade para honrar seu voto como ajuda; ele recomeçou de novo do zero. 

Quando seu segundo levantamento de fundos alcançou o ponto onde a publicação era possível, novamente fome acompanhada por enchentes atingiu o país, e conforme havia feito na vez anterior, Tetsugen doou o dinheiro para ajuda às pessoas. 

Contudo, numa terceira vez ele se comprometeu juntar os fundos para poder alcançar seu objetivo: sua promessa de transcrever e publicar as escrituras completas dTripitaka chinês do período Ming para blocos de madeira no Japão.
No primeiro dia de seu terceiro esforço, Tetsugen ficou parado na movimentada ponte Sanjo e pediu doações de transeuntes. O primeiro homem a passar era um samurai, e apesar das súplicas sinceras de Tetsugen, ele passou fingindo não perceber.

Tetsugen prosseguiu:
"Por favor contribua, mesmo que seja apenas uma pequena quantidade..."
"Não, eu não vou." respondeu o Samurai.
"Por favor?" insistiu o monge.
"Não!" manteve o samurai.

Este diálogo continuou por quatro milhas. Finalmente, o samurai de coração duro estava exausto e disse:  
- Que peste este monge é! E jogou um centavo para Tetsugen.

- Muito, muito obrigado. Obrigado senhor - disse Tetsugen.

Vendo quão educadamente Tetsugen recebeu o dinheiro e o agradeceu, o samurai perguntou:
- Prezado monge, você precisa me dizer por que está tão feliz depois de me seguir são longe para receber somente um centavo.

- Hoje é o primeiro dia que eu implorei por doações após fazer um grande voto, e você é o primeiro cavalheiro a me dar. Se eu não tivesse conseguido este primeiro centavo, talvez uma dúvida teria ingressado em minha mente. Mas agora que eu recebi essa doação, eu firmemente creio que eu conseguirei alcançar o meu voto. É por isso que eu estou feliz - respondeu Tetsugen, evidentemente satisfeito consigo. 

Então ele retornou ao local onde estava originalmente parado na ponte Sanjo em seu posto original.


Os sutras traduzidos para o Japonês e entalhados em madeira que chegaram até nós hoje em dia como a "Edição Obaku dos Sutras Coletados" correspondem a 6771 volumes. E este trabalho foi completado graças ao espírito generosamente puro em cumprir o voto.

 

Os Quatro Votos dos Bodhisattvas:


Seres são inúmeros; eu prometo libertá-los.

Ilusões são inesgotáveis; eu prometo acabar com elas.

Portões de Darma são sem limites; prometo entrar neles.

Os caminhos de Buda são insuperáveis; prometo realizá-lo. 

Nota para os Quatro votos do bodhisattva postado por SEIGAKU 



眾生無邊誓願度

煩惱無盡誓願斷
法門無量誓願學
佛道無上誓願成


Seres são sem limites, prometo levar a todos à outra margem;

Aflições são intermináveis, prometo extinguir todas;

Portais-do-dharma são imensuráveis, prometo conhecer a todos;

O Caminho do Buddha é inigualável, prometo realiza-lo.



度 - "levar à outra margem", da margem do samsara para a margem do nirvana. Traduz-se também como paramita.

煩惱 - muitos significados. Ver aqui (inglês, login guest, sem senha).

學 - "estudar" envolve algo além do sentido acadêmico; trata-se de aprender e apreender, com corpo e mente, assim como aprendemos a andar.

法門 - termo clássico usado para os vários ensinamentos buddhistas.

Uma tradução livre dos "quatro votos". Atentem que todos os votos são "paradoxais" em sua formulação: como é possível extinguir o que nunca termina? Aqui, eles são como Aquiles e a tartaruga: uma corrida ao limite, nunca alcançado. Isto é desanimador para você? Mas porque seria? Se você, ao nascer, pensasse antecipadamente na quantidade de ar-dentro-ar-fora que tem de fazer (aprox. 250 milhões em 80 anos), não ficaria um tanto desgastado e desesperado? Mas nós não ficamos: inspiramos e expiramos a todo momento, sem pensar a respeito. Ficamos desgastados e desesperados com outras expectativas. Quando o ar nos falta, porém, onde elas estão?

Os quatro votos são assim: uma promessa e uma aposta, aposta de que mesmo que seja impossível e infinito, eu vou até o fim. Mesmo que não tenha potinho de ouro atrás do arco-íris, mesmo que não sejamos recompensados pela nossa virtude. Um bodhisattva desce aos "infernos" para "ajudar" os seres, mas esta descida não deve ser vista como um ponto a mais no currículo bodhisátvico. "O que isto me trará de bom?" é a pergunta que automaticamente invalida o bodhisattva, onde quer que ele esteja.

É esta mesma mente que vê o zazen como um meio e o Despertar como um fim, e que se irrita ou não compreende os quatro votos. Os dois, zazen e Despertar, estão muito entrelaçados, evidente; resta, porém, uma pergunta na multidão: depois do Despertar, então, não é necessário mais zazen (já que conseguimos o que queríamos)? A resposta não pode partir de mim, ela parte de Dogen: a prática éinfindável, a (com)provação sempre se aprofunda mais e mais. Isto te deixa tonto?
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