sábado, 21 de janeiro de 2012

Cálculo matemático indica que "Comida cara vai provocar revolta em 2013"


Comida cara vai provocar revolta em 2013


Quando os alimentos ficam muito caros, o povo sai às ruas. Se o mercado continuar como está, podemos esperar muitas rebeliões em dois anos

por Marco Lagi*

Editora Globo
Em 1992, o consultor político James Carville escreveu em um mural da campanha do candidato democrata à presidência dos EUA, Bill Clinton: “É a economia, estúpido”. A frase ficou popular porque explica o quanto o voto é decidido pelo dinheiro no bolso dos eleitores. Participei de um estudo, publicado em agosto, que comprova que o impacto da economia é ainda maior: o aumento do preço da comida causa tumultos e rebeliões.

Os historiadores da Revolução Francesa sabem disso. A inflação galopante dos alimentos foi o estopim da rebelião popular contra a monarquia — a rainha Maria Antonieta nunca disse a famosa frase, mas a lenda a respeito do “se o povo não tem pão, que coma brioches” causou uma profunda comoção popular na época. O processo se repetiu nos protestos que tomaram a Europa em 1848. Em nossa pesquisa, projetamos em um gráfico o índice de preço da cesta básica em vários países, de acordo com a ONU. Não tem erro: sempre que sobe, a população sai às ruas.

O estudo analisou a situação da África e do Oriente Médio, mas as recentes revoltas populares na Inglaterra também estão ligadas ao mesmo problema — sinal de que este não é um fenômeno relacionado apenas a países pobres ou pouco afeitos à democracia. Mas como um fenômeno social tão complexo como uma rebelião tem uma causa tão simples? Resposta igualmente simples: a falta de comida causa desespero e força as pessoas a deixar de lado quaisquer diferenças para se unir por uma causa mais urgente. Nenhum outro problema econômico tem a mesma força de criar um cenário de insatisfação.
Editora Globo
Ainda assim, em geral o povo não sai às ruas carregando cartazes pedindo comida. É que este problema está na base das manifestações, mas elas costumam ser desencadeadas por algum outro pretexto. Com base nesta constatação, é possível prever rebeliões a partir das projeções futuras do preço dos alimentos. Analisando os dados para os próximos meses, chegamos a uma data: agosto de 2013, quando o preço médio dos alimentos vai atravessar a faixa de segurança social.

A comida está encarecendo no mundo inteiro por dois motivos. A desregulamentação do mercado de commodities nos últimos anos provocou uma onda de especulação. E os subsídios para a conversão de milho em etanol, principalmente nos EUA, influenciaram os valores de um alimento usado em uma vasta gama de produtos industrializados.

A vantagem é que medidas que diminuam os preços também têm uma consequência social. Comida mais barata significa um planeta mais pacífico. O desafio é econômico: no curto prazo, nada indica que os valores vão cair. Os governos que se cuidem, se nada fizerem contra isso. Podemos esperar um 2013 bem pior do que 2008, quando o preço dos alimentos também estava muito alto e 60 rebeliões explodiram em 30 países diferentes.

* Marco Lagi é estatístico do Instituto de Sistemas Complexos da Universidade de Cambridge, Inglaterra. 

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