quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Neuroteologia, parte 2


Neuroteologia, parte 2

A "neuroteologia", também conhecida como “bioteologia” ou neurociência espiritual, estuda os processos cognitivos que produzem experiências subjetivas tradicionalmente categorizadas como místicas (ou religiosas) e as relaciona com padrões de atividade no cérebro, tentando desvendar como e porque elas evoluíram nos humanos, bem como seus benefícios.
Ceticismo unidirecional
Em 1991 Susan Blackmore recebeu o CSICOP Distinguished Skeptic Award, uma espécie de “oscar do ceticismo”, mas nem sua fama de cética lhe fez pensar com mais cuidado nas declarações que fez após experimentar o capacete de deus. Afinal, seria muito bom que ele realmente funcionasse... Pelo menos para ela, do “time dos materialistas científicos”.
Mas, afinal, porque o ceticismo, a genuína dúvida científica, parece ocorrer em apenas um sentido? Porque o ceticismo da Academia é unidirecional? Como Susan e tantos outros “céticos distintos” caíram como patinhos no “conto do capacete” sem sequer parar para pensar nas inúmeras falhas do experimento? Diga-se de passagem, as mesmas falhas que o ceticismo genuíno aponta em pesquisas espiritualistas:
Subjetividade vs. objetividade
A descrição de uma experiência genuinamente mística ou religiosa não poderá nunca ser completa somente pelo uso da linguagem, das palavras, que nada mais são do que cascas de sentimentos. Sensações subjetivas, como reconhecer a “vermelhidão” da cor vermelha, o “adocicado” de um morango silvestre, a “dor na alma” de uma separação traumática, ou ainda o contato com uma realidade que transcende nossa compreensão, por sua própria natureza pertencem ao reino subjetivo, psicológico, que não parece ser compatível com a objetividade exigida pela experimentação científica moderna... Porém, ainda mesmo queignoremos este primeiro item, passamos então para as falhas do experimento em si...

Não houve duplo-cego
Para evitarmos problemas com o sugestionabilidade da mente dos pacientes desse tipo de experimento, em que relatos subjetivos são a única “materialidade” dos resultados, é padrão que o experimento seja feito em duplo-cego, ou seja: (1) os pacientes da experiência em si e o grupo de controle [1] não podem saber nada ou quase nada acerca do que se trata o estudo; (2) os pacientes não podem saber se fazem parte do grupo experimental ou do grupo de controle; e (3) os condutores da experiência se separam em pares: o primeiro condutor, não informado acerca do objetivo do estudo, interage com os pacientes; o segundo condutor liga e desliga os campos magnéticos do capacete de deus sem informar ninguém – nem o primeiro condutor, nem quaisquer pacientes.
No caso dos experimentos do Dr. Parsinger através de décadas, ele mesmo ou colaboradores próximos conduziam o experimento, não havia duplo-cego algum.

tais questionários sugestionavam a mente dos pacientes
Havia acesso a informações prévias dos pacientes
A grande maioria dos pacientes do experimento de Parsinger precisava preencher “fichas cadastrais” onde informavam acerca de experiências paranormais pregressas, o que fazia parte do seu “método” para avaliar se os seus lobos temporais eram “sensíveis” o suficiente para poderem ser afetados pelos campos do capacete de deus. Além destes, muitas personalidades reconhecidamente céticas passaram pelo experimento (como Dawkins e Blackmore), talvez numa tentativa do Dr. Parsinger de demonstrar que o efeito dos campos persistia independente da crença do paciente...
Ocorre que esses tais questionários prévios obviamente já sugestionavam a mente dos pacientes. Com ênfase no obviamente.

Havia uma “midiatização” dos experimentos
Desde meados da década de 80, quando Parsinger iniciou seus experimentos, a mídia “especializada” foi aos poucos se entusiasmando cada vez mais com o tal capacete de deus... Afinal, não se chamava “capacete de deus” a toa. Esse tipo de coisa interessa a mídia porque vende mais revistas e livros, interessa aos leigos por se tratar de um assunto que naturalmente desperta a curiosidade humana desde os primórdios da civilização; e, sobretudo, interessava ao Dr. Parsinger porque alavancava a sua fama no ramo científico, e provavelmente lhe rendia mais verbas para continuar a pesquisa.
Mas a “midiatização” não interessa a ciência genuína, que deve tentar permanecer o mais imparcial possível às expectativas alheias, até mesmo porque expectativas são subjetivas, e a ciência é objetiva. 
Além disso, mesmo que os questionários prévios feitos aos pacientes fossem cada vez mais cuidadosos em não revelar a natureza exata dos experimentos, bastava pesquisar na internet, ou ler artigos na mídia científica, para saber exatamente o que Parsinger pesquisava.

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Em Dezembro de 2004, uma nota discreta da revista Nature News relatou que uma equipe de pesquisadores da Uppsala University, na Suécia, chefiada por Pehr Granqvist, reproduziu a experiência de Parsinger testando 89 universitários, alguns dos quais foram expostos efetivamente aos campos magnéticos, enquanto outros faziam parte apenas do grupo de controle. Além disso, a experiência foi feita em duplo-cego, sem questionários prévios aos pacientes e, certamente, sem nenhuma mídia “especializada” acompanhando cada passo dos experimentos.
Dentre os universitários haviam estudantes de teologia e psicologia, distribuídos indistintamente entre o grupo a ser experimentado e o grupo de controle. Durante a avaliação dos resultados, a equipe de Granqvist não conseguiu detectar que o magnetismo teve qualquer efeito perceptível. Não foram encontradas evidências de um efeito de “presença sentida” de campos magnéticos fracos. A característica que determinou significativamente os resultados foi a personalidade. Dos três indivíduos (de 89!) que relataram intensas experiências místicas, dois eram membros do grupo de controle (não receberam campo magnético algum). Os que foram classificados como altamente suscetíveis, com base em um questionário preenchidoapós o estudo ter sido concluído [2], relataram a ocorrência de experiências “estranhas” enquanto usavam o capacete, independente de o campo magnético estar ligado ou não.
Susan pareceu bastante decepcionada
A despeito da baixíssima divulgação desta pesquisa sueca, no meio científico o capacete de deus continuou sendo tratado como uma “hipótese com diversas falhas”, e então lentamente a mídia abandonou o Dr. Parsinger e seu capacete. Susan Blackmore pareceu bastante decepcionada:

“Quando fui ao laboratório de Parsinger e me submeti a seus procedimentos, vivi as mais extraordinárias experiências pelas quais já passei. Ficarei surpresa se acabarem se revelando um efeito placebo.”
No que tange a decepção de Susan, ao menos temos uma boa notícia para ela: a Academia tampouco faz vaga ideia do que vem a ser exatamente o efeito placebo [3].
No que tange a via única de seu ceticismo, que parece funcionar apenas contra os experimentos espiritualistas, podemos somente lamentar... Assim como lamentamos que toda a disciplina da “neuroteologia” seja muito mais uma pseudociência fincada no sonho da comprovação do materialismo científico, do que uma ciência genuína, que ao menos tente ser imparcial [4].
Pois o que não faltam são pesquisas científicas que recorrem a certas explicações espiritualistas – muitas delas “estranhas” a Academia –, mas que são muito bem conduzidas, muito mais do que as do Dr. Parsinger com seu capacete “miraculoso”. Não quer dizer que tenham provado nada, o problema é a falta de atenção que recebem da mídia científica, enquanto qualquer doutor afirmando que descobriu a Deus em um gene, em algum “módulo mental”, ou nos campos magnéticos de um capacete, ganhe todos os holofotes para si.
» Na continuação, alguns experimentos “estranhos”, incluindo a nova empreitada do próprio Dr. Parsinger.
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Leitura recomendada: O cérebro espiritual, por Mario Beauregard (Ph. D.) e Denyse O’Leary. Editora Bestseller. Particularmente o Cap.4.
[1] Em experimentos científicos do tipo é comum a divisão do grupo a ser estudado em dois: um grupo passará efetivamente pela experiência em si, o outro é apenas um grupo de controle, onde o capacete de deus não terá campo magnético algum ligado. Assim é possível verificar o efeito placebo, ou o efeito que se deve teoricamente apenas a imaginação sugestionável dos pacientes, e não ao fato de estarem ou não usando um capacete que emite campos magnéticos.
[2] Ao contrário do Dr. Parsinger, que usava um método próprio para avaliar seus pacientes, a equipe de pesquisadores suecos usou métodos largamente utilizados por outros pesquisadores em todo mundo, tais como a escala de misticismo Hood e a escala de absorção de Tellegen.
[3] Ver meu artigo, “Placebo-nocebo”.
[4] Embora a imparcialidade científica total seja bem mais uma lenda do que uma realidade. Ver o que Miguel Nicolelis, um grande neurocientista brasileiro, tem a dizer sobre o assunto.
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