domingo, 22 de janeiro de 2012

Budismo: A meditação



Monge praticando o zazen
As pessoas que ouvem falar das tradições meditativas imediatamente inserem, sem antes procurar conhecer, pressupostos de suas próprias culturas. É assim que muitos povos, ao se deparar com o Budismo, por exemplo, consideram-no esotérico, mítico, sobrenaturalista, reencarnacionista, teísta, moralizante ou ritualista. Quem entra no universo budista, às vezes, acaba levando por vários anos, ou por uma vida inteira, esses mal-entendidos e, assim, acabam enchendo sua prática com detalhes sem importância.

O problema é que o Budismo não é esotérico (não se vale de simbologias ocultistas ou de interpretação fechada), não é mítico (não é necessário a vida de Buda ser verdade para que seus princípios sejam compreendidos), não é sobrenaturalista (tudo o que existe, existe na natureza, e não fora dela), não é reencarnacionista (não há sementes permanentes que sobrevivam, quanto mais uma semente que retorne), não é teísta (não há deuses no Budismo), não é moralizante (há preceitos, e não mandamentos) e não é ritualista (o ritual é um preceito, não uma obrigação).

A meditação budista

Como quase tudo no Budismo, a meditação acaba também sendo mal interpretada, preenchida por elementos ritualísticos das culturas em que o mesmo acaba entrando. É o que ocorre, por exemplo, quando o Budismo chega no Ocidente e no Japão. O Ocidente habituou-se ao ritual ligado à religião: orar antes de comer, participar da Ceia do Senhor, ajoelhar-se e fazer o sinal da cruz, etc. No Japão, vemos situação semelhante, mas de uma cultura que ritualiza o próprio cotidiano, e isso termina por influir na construção do Budismo Japonês, que é ritualizado.

O problema é que, para o Budismo, o único "ritual" que se pede é a meditação, ou seja, não há rituais obrigatórios, mas aconselha-se (daí ser preceito, e não mandamento) que se medite para que o escopo ético seja melhor compreendido e executado. No Budismo, a meditação refere-se a todo e qualquer método de autoanálise que ajude a desnudar a Natureza de Buda (ou, como prefiro chamar, As Coisas como Elas São de Fato). Ou seja, não é o que os outros analisam de você que importa, mas o que você entende de si mesmo. É uma característica fundamental do Budismo: o foco na Iluminação faz com que qualquer método meditativo que não contrarie a ética budista pode ser experimentado. A meditação não é propriedade exclusiva do Budismo, uma vez que budistas podem se valer de outros tipos de meditação, e não-budistas podem se beneficiar com técnicas budistas. 

Originalmente, o termo mais empregado era "bhavana", traduzido como "evolução/desenvolvimento mental". Como todas as coisas que existem há alguns milênios, algumas tradições se formaram em torno da meditação, chegando a estabelecer 5 métodos fundamentais de realizá-lo, distribuídos em duas categorias: Samatha (meditação de tranquilidade) e Vipassana (meditação de insaite).


O Samatha pode ser dividido em anapana (atenção à respiração, para eliminar a distração) e mettā bhāvanā (meditação sobre o amor fraterno, para eliminar o ódio). O Vipassana se divide em "contemplação da impermanência" (para eliminar o apego), "prática dos seis elementos" (para eliminar a ilusão), e "contemplação da condicionalidade" (para eliminar a ignorância). Geralmente, usam-se as meditações do Samatha como introdutórias para o Vipassana.

Há, porém, outras fórmulas meditativas usadas por diversas escolas budistas e, por vezes, por outras tradições também, que escapam ou complementam esse escopo Samatha-Vipassana. No Budismo Ch'án (Zen, Son, Seon, Thien, Dhyana) a técnica utilizada é o Zuò Ch'án (Zazen). O Zuò Ch'án consiste em um Shikantaza (= "apenas sentar") e ficar atento ao presente, ao que ocorre naquele momento, e não controlar os pensamentos, deixando-os fluírem, assim como a realidade flui ao nosso redor. Esse é, pessoalmente, meu método favorito: pernas cruzadas, coluna ereta, mente sem controle sobre os pensamentos. No Budismo Ch'án há também o Kinhin (Zuò Ch'án andando).

A prática do Tai Chi Chuan
Outros métodos tradicionalmente conhecidos no Budismo (não necessariamente surgidos nele) são a Yoga, o Pranayama, os Koan, Qigong, Tai Chi Chuan, Zhan Zhuang, a Cerimônia do Chá,  o Gongyo e outros. Há até exemplos mais recentes, como a Meditação Transcendental, usando sons, e as Terapias Alternativas (estão mais para autoanálise que propriamente para medicina). Todos esses são métodos de autoanálise que tem como objetivo alcançar a Natureza Última das coisas, mas que o ocidente comumente liga à religião e ao ritualismo.

Meditação Laica

Leigos, céticos, ateus e agnósticos talvez não entendam, mas a meditação, enquanto "método de autoanálise para compreender o mundo tal como ele é" não depende de nenhuma religião, pois seria como se a autoanálise dependesse somente da análise externa. Obviamente, alguma religiões ocidentais já criaram métodos próprios, como o Rosário, o Terço, o Ajoelhar-se e Rezar, a Incorporação Mediúnica, mas não há, em lugar nenhum do planeta, a obrigação de se seguir uma religião para isso. Nesse caso, então, a meditação pode ser também uma sessão de Psicoterapia, o Santo Daime, a leitura e a reflexão de um filósofo, um devocional cristão diário etc. Há pessoas que empreendem uma intensa busca pela autoanálise no simples realizar de um cálculo complexo. Logo, a autoanálise pode estar em qualquer momento da vida: do lavar os pratos ao arrumar os livros na estante. O meditar está no dia-a-dia.

Necessidade do Ético

Porém, o que poucos entendem é que a meditação, por ser um processo de autoanálise, depende de um parâmetro para que seja bem realizado. O melhor parâmetro de autoanálise que existe é o ético (existem outros, mas esse é o melhor que já foi encontrado). Ao analisar a si mesmo, um indivíduo está sempre se colocando à disposição de um julgamento, revistando seus atos, suas ações, seus movimentos, as energias humanas que colocam a roda da sua vida em movimento, ou seja, o foco é a Ética. No Budismo, a meditação é um meio de compreender a própria natureza como ela é, e para isso empreende-se uma rígida disciplina mental (iniciativa do indivíduo, e não imposição externa) nos seus preceitos éticos basilares.

Daí eu sustentar que uma ontologia sem um mecanismo de autoanálise do indivíduo sobre a ética que deriva dessa ontologia não serve de muita coisa, pois torna-se apenas um palavreado e um amontoado de promessas, e nunca uma ação de fato. De que adianta uma pessoa sustentar convicções profundas de Humanismo, Consequencialismo ou Virtuosismo se, no final das contas, ele não pratica suas convicções? O que teremos é uma pessoa em constante crise pessoal e profunda tristeza por nunca conseguir realizar aquilo que se propõe a fazer. A teoria sem a prática é apenas saber enumerar todas as cores do arco-íris e não pintar nenhuma delas.

E como meditar dentro daquilo que eu faço?

A sinuca é uma boa maneira
de esvaziar a mente e repensar
seus atos diários.
Praticando. Quem sustenta uma ética e não a pratica é um hipócrita. Por sinal, Jesus Cristo condenou a hipocrisia como um pecado gravíssimo. Sustentar uma ação como pecado ou virtude, e praticar o pecado e fingir que é virtude é mais grave que simplesmente sentar-se, olhar para dentro de si e ver se aquilo que você fez é pecado ou virtude.

Praticar a autoanálise é simples: pare tudo o que estiver fazendo por pelo menos meia hora por dia e, dentro do "ritual" que você escolher,use os preceitos ou mandamentos éticos ou morais para verificar se, na vida diária, você está realmente se adequando ao que é exigido por suas crenças, e tenha humildade suficiente para reconhecer quando erra, e amor próprio o suficiente para perceber quando acerta. Se errou, não se arrependa, apenas conserte. Se acertou, não se vanglorie, apenas mantenha o curso.

Claro que, para ateus, neoateus, agnósticos e céticos, achar um "ritual" que melhor se adeque a si é mais difícil, visto os pressupostos e preconceitos inerentes à vida religiosa que o Ocidente imprimiu neles, mas não é impossível. Um ateu pode praticar o zazen, por exemplo, ou pode ler um filósofo ético ao mesmo tempo em que analisa se aquilo que ele fez ou está fazendo adequa-se ao que se lê. Um neoateu pode, por exemplo, usar métodos psicanalíticos ou psicológicos para compreender sua própria natureza e, assim, compreender seu próprio comportamento.

E a meditação pode, finalmente, revelar ao próprio indivíduo aquilo que ele é: alguns "Humanistas" são simples virtuosistas, mas não se apercebem disso. Há neoateus com atitudes praticamente religiosas e fundamentalistas, mas a falta de autoanálise enevoa essa realidade para eles. Conheço até mesmo Hedonistas que são Humanistas, mas como nunca realizaram a autoanálise, não sabem disso, e preferem viver como Hedonistas apenas porque é o que eles próprios sabem a respeito de si a partir do que os outros disseram.

Considerações finais

Se seu objetivo é melhorar enquanto ser humano, deve-se pensar em um parâmetro: melhorar em relação a quê? O parâmetro em que você vai melhorar te faz feliz e se adequa à sua visão de mundo? Se se adequa, ótimo, que seus atos sejam sua propaganda. Se não se adequam, corrija o rumo do barco antes que ele afunde.
Postar um comentário