Satori Cotidiano (crônica)


Satori Cotidiano (crônica)


Do PECILOTÉRMICO Félix Maranganha 

É O Despertar, ato respeitoso, tronal, solene. Quem desperta entra em sua própria alma, desnuda seus diversos corpos, ascende dimensões. Imerso em si mesmo, o Despertador produz algo que adentra em um mundo límpido, translúcido, sem forma. Esguio, seu darma mergulha enquanto o Despertador adentra em seu subconsciente parassimpático. Enquanto seu darma sobe à superfície, os arquétipos alçam à consciência.

É quando ocorre, lá no fundo, fria, até esquecida: a respingada. Uma gota apenas, não importa o tamanho. É um insaite físico. O despertar de um Muladhara viciado. Uma contraída do corpo. O Despertador alcança o iluminar e meio que sorri repuxando o ventre. Do quente se fez o não quente!

E logo o darma que parte anuncia sua presença nos sentidos. Outro darma vem, e o Despertador respira fundo. Sabe agora o grande segredo do universo: Despertar é maravilhoso! O darma maior já passou, restam os menores, os mais quentes, os mais ácidos.

O Despertador geme. Uma gota desce da cisterna do olhar. Os espasmos internos atingem a alma. Assumiu sua cavernidade pré-histórica, mas ainda é homem, pois o Despertador não é um Deus, mas um sábio, pois apenas produz o darma. Deuses são os cães, que bebem do darma dos sábios em seus altares de porcelana.

O Despertador entronizado prostra meio corpo, como que venerando a natureza intestina do homem. O darma resume a ópera: cada pensamento humano, cada obra-prima da literatura, cada dogma milenar, cada dedução aristotélica, cada ensinamento dos sábios pôde, enfim, ser sublimamente compreendido no expelir do darma. Todo o conhecimento se explica no pós-ventre.

O Despertador ergueu a coluna, e não só entendeu seu papel na existência como separou um pouco para purificar-se. Expulsar o darma é uma purificação, mas é necessário purificar-se de sua purificação. A purificação lembra que nem tudo são flores: feridas de guerra, iluminadas, são preservadas no muladhara do sábio, ardem ao toque.

O darma foi seu ensinamento, mas ele não pode estar ali, não pode constar nos autos, deve ser eliminado também. Cada Despertador que enfrente a sabedoria de seu próprio darma! O Despertador não desperta por mais ninguém, desfaz-se de todo carma, puxa a descarga e ausenta-se do templo de porcelana.

Eis a grande lição da existência, então, alcançada pelo Grande Despertador: não adianta explicar o darma, os aspirantes ao despertar duvidarão de você! Deixe que cada qual produza seu próprio darma em seus próprios templos de porcelana.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Downshifting!

Processos Psicológicos Básicos

PSICOFISIOLOGIA DOR