quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Satori Cotidiano (crônica)


Satori Cotidiano (crônica)


Do PECILOTÉRMICO Félix Maranganha 

É O Despertar, ato respeitoso, tronal, solene. Quem desperta entra em sua própria alma, desnuda seus diversos corpos, ascende dimensões. Imerso em si mesmo, o Despertador produz algo que adentra em um mundo límpido, translúcido, sem forma. Esguio, seu darma mergulha enquanto o Despertador adentra em seu subconsciente parassimpático. Enquanto seu darma sobe à superfície, os arquétipos alçam à consciência.

É quando ocorre, lá no fundo, fria, até esquecida: a respingada. Uma gota apenas, não importa o tamanho. É um insaite físico. O despertar de um Muladhara viciado. Uma contraída do corpo. O Despertador alcança o iluminar e meio que sorri repuxando o ventre. Do quente se fez o não quente!

E logo o darma que parte anuncia sua presença nos sentidos. Outro darma vem, e o Despertador respira fundo. Sabe agora o grande segredo do universo: Despertar é maravilhoso! O darma maior já passou, restam os menores, os mais quentes, os mais ácidos.

O Despertador geme. Uma gota desce da cisterna do olhar. Os espasmos internos atingem a alma. Assumiu sua cavernidade pré-histórica, mas ainda é homem, pois o Despertador não é um Deus, mas um sábio, pois apenas produz o darma. Deuses são os cães, que bebem do darma dos sábios em seus altares de porcelana.

O Despertador entronizado prostra meio corpo, como que venerando a natureza intestina do homem. O darma resume a ópera: cada pensamento humano, cada obra-prima da literatura, cada dogma milenar, cada dedução aristotélica, cada ensinamento dos sábios pôde, enfim, ser sublimamente compreendido no expelir do darma. Todo o conhecimento se explica no pós-ventre.

O Despertador ergueu a coluna, e não só entendeu seu papel na existência como separou um pouco para purificar-se. Expulsar o darma é uma purificação, mas é necessário purificar-se de sua purificação. A purificação lembra que nem tudo são flores: feridas de guerra, iluminadas, são preservadas no muladhara do sábio, ardem ao toque.

O darma foi seu ensinamento, mas ele não pode estar ali, não pode constar nos autos, deve ser eliminado também. Cada Despertador que enfrente a sabedoria de seu próprio darma! O Despertador não desperta por mais ninguém, desfaz-se de todo carma, puxa a descarga e ausenta-se do templo de porcelana.

Eis a grande lição da existência, então, alcançada pelo Grande Despertador: não adianta explicar o darma, os aspirantes ao despertar duvidarão de você! Deixe que cada qual produza seu próprio darma em seus próprios templos de porcelana.
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