quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A Neuroplasticidade. Em tempo de mudar.



A Revista Veja ed. 2248 trouxe a reportagem A vida sem metade do cérebro, mas o que me intrigou mesmo foi o parágrafo final e a entrevista, que reproduzo abaixo:
A eficácia da psicoterapia no tratamento de distúrbios da mente foi confirmada de forma impressionante pelos estudos com imagens. Alguns dos efeitos conhecidos da depressão no cérebro são a redução do ritmo de criação de novos neurônios e a interrupção da reposição celular no hipocampo, região responsável pela memória e pela formação de células nervosas. Dois estudos recentes mostram que pacientes tratados apenas com terapia convencional, sem o uso de medicamentos, conseguiram estabelecer novas conexões neurais e regenerar a área afetada. Sessões de terapia cognitiva resultaram no aumento de áreas do cérebro que aliviam os sintomas do transtorno obsessivo-compulsivo em 50% dos pacientes. Ao que tudo indica, a compreensão da plasticidade cerebral pode ser a chave para desvendar a complexidade da mente.

O psiquiatra canadense Norman Doidge é o autor de "O Cérebro que Se Transforma". Um relato das pesquisas sobre a possibilidade de os estímulos externos mudarem a estrutura e a fisiologia do cérebro, teoria conhecida como neuroplasticidadc. Publicado em mais de 100 países, o livro chega às livrarias brasileiras em janeiro.


A neuroplasticidade desacredita ou confirma as teorias do neurologista Sigmund Freud?


Freud não foi só o pai da psicanálise. Ele foi um dos primeiros estudiosos a perceber o eixo central da plasticidade cerebral. Em 1886, quando raros cientistas entendiam o cérebro como uma grande rede, ele propôs a Lei da Associação por Simultaneidade. Segundo essa lei, toda vez que alguém percebe duas coisas ao mesmo tempo, como um menino com cabelos vermelhos, os dois conceitos são processados por neurônios de diferentes regiões, que se ligam simultaneamente e fortalecem a conexão entre si. A tecnologia de neuroimagem não apenas lhe deu razão, mas também confirmou a eficácia da psicanálise. A maior partee das psicoterapias altera as estruturas cerebrais da mesma forma que os remédios para distúrbios da mente. Não dá mais para alegar que terapia é só conversa jogada fora.



O senhor diz que somos o que pensamos ser. O que isso significa?


Diversos estudos revelaram que pessoas que praticam um instrumento musical apresentam mudanças no mapeamento cerebral idênticas às das pessoas que apenas imaginam estar tocando tal instrumento. A maioria dos indivíduos, inclusive os cientistas, despreza o poder da imaginação. Há um teatro virtual acontecendo a todo momento dentro da cabeça de cada um de nós. Por parecer real. tudo o que uma pessoa imagina se torna um gatilho para as emoções e ações. Os pensamentos positivos são capazes de ligar os centros de prazer do cérebro da mesma maneira que a presença de uma pessoa querida ou uma taça de vinho. Isso é uma forma de sair. mesmo que momentaneamente, dos estados negativos. Quem imagina eventos ruins aumenta as conexões neurais nos centros da emoção negativa, o que pode levar alguém medroso a se tornar um fóbico patológico.



A interatividade do computador altera o cérebro para o bem ou para o mal?


Desconfio que mais para o mal do que para o bem. Os equipamentos eletrônicos são tão compatíveis com o nosso cérebro, que também é movido a eletricidade, que alteram a nossa atenção, tornando-nos viciados em tecnologia. O vício é um fenômeno plástico e não se aplica só às drogas. Pessoas se tornam viciadas em corrida, em jogo, em compras, em paixões. O homem supõe que controla os dispositivos incríveis que criou. Meu temor é que esteja acontecendo o contrário: todo esse aparato tecnológico é que está nos reprogramando.



Como a plasticidade cerebral pode ser usada pela medicina?


As possibilidades são incontáveis. A plasticidade não afeta só a nossa saúde ou o nosso cotidiano. É o modus operandi do cérebro. Ela nos faz humanos. Somos "Homo neuro-plastica". As descobertas que estão por vir podem levar à abertura da caixa-preta que revela quem somos e de onde viemos.


Meditem crianças... Meditem... O cérebro se modifica.


Ele é um órgão plástico, vivo e pode de fato transformar as suas próprias estruturas e funções, mesmo em idades avançadas. A neuroplasticidade — uma das descobertas mais revolucionárias desde que os cientistas desvendaram os primeiros esboços da anatomia básica do cérebro — promete derrubar a noção ultrapassada de que o cérebro adulto é rígido e imutável. A neuroplasticidade não apenas dá esperança àqueles com limitações mentais, ou com lesões neurológicas consideradas incuráveis, mas também expande nosso entendimento da saúde do cérebro. 
Norman Doidge, psiquiatra e pesquisador, estabelece uma investigação da neuroplasticidade e apresenta tanto os cientistas que estão dominando essa área quanto as pessoas cujas vidas foram melhoradas por esses estudos.

"O cérebro que se transforma" apresenta casos que detalham o progresso surpreendente de pacientes, como uma mulher que nasceu com apenas metade do cérebro, mas que conseguiu se adaptar e levar uma vida normal; uma mulher rotulada como doente mental, que curou suas deficiências e agora ajuda outros a fazerem o mesmo; pessoas cegas que voltaram a enxergar; dificuldades de aprendizagem curadas; recuperação de pacientes que sofreram derrames; depressão e ansiedade crônicas que desapareceram, entre outros casos.

Doidge nos leva a um território que parece fantástico. Aprendemos como nossos pensamentos podem ativar ou desativar nossos genes, alterando a anatomia do cérebro. Vemos como os cientistas desenvolveram máquinas que podem acompanhar essas mudanças físicas para ler os pensamentos, permitindo que uma pessoa com paralisia controle computadores e aparelhos eletrônicos. E verificamos como uma pessoa com uma inteligência mediana pode, com exercícios, aumentar seu poder de cognição e percepção.

A descoberta de que um mero pensamento pode alterar a própria matéria do cérebro é outro ponto natural de conexão entre a ciência da neuroplasticidade e o budismo.

O budismo ensina há 2.500 anos que a mente é uma força independente que pode ser utilizada pela vontade e pela atenção para produzir mudança física.


 “A descoberta de que pensar em alguma coisa produz efeitos, exatamente assim como fazer alguma coisa produz, é uma consonância fascinante com o budismo”, 
“O budismo desafia a crença tradicional numa realidade externa e objetiva. Em vez disso, ensina que nossa realidade(1) é criada por nossas próprias projeções. É o pensamento que cria o mundo externo além de nós. As descobertas da neurociência se harmonizam com esses ensinamentos budistas.”
diz Francisca Cho.

As narrativas budistas têm outra consonância com as descobertas da neuroplasticidade.

Elas ensinam que ao nos desconectarmos de nossos pensamentos, observando nossos pensamentos sem envolvimento emocional e com clareza, temos a capacidade de ter pensamentos que nos permitem superar afl ições tais como estar cronicamente zangado. “Você pode passar por uma reeducação emocional”, diz Cho. “Com o empenho na meditação e em outros exercícios mentais, você pode mudar ativamente seus sentimentos, suas atitudes, sua mentalidade.”

~ Sharon Begley, Treine a Mente, Mude o Cérebro, leia o primeiro capítulo deste livro aqui

(1) Eu diria que “nossa percepção da realidade é criada por nossas projeções” e não “nossa realidade é criada por nossas percepções”. Acho que é uma diferenciação útil para não cairmos na visão New Age de “eu crio minha própria realidade” no sentido convencional do termo.

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